domingo, 24 de maio de 2009

Apostila: "Conte uma estória" - Aaron Shepard



Conte uma estória!

um guia para a contação de estórias
por Aaron Shepard


Traduzido e revisado por Gabriela Kopinits, a Cigana Contadora de Estórias


Reproduzido do livreto publicado primeiro por Simple Productions, Arcata, California, 1990


Copyright © 1990, 1996 by Aaron Shepard. Pode ser livremente copiado e partilhado para qualquer fim não comercial , desde que nenhum texto seja alterado ou omitido.


Você pode contar uma estória! E quanto mais você contar, melhor você será! Então, não seja tímido, arrisque-se, dê o mergulho, mostre no que você é bom, engrene a marcha, arme o palco, enfrente a tempestade, eleve suas visões – mas, o que quer que você faça – CONTE UMA ESTÓRIA!

Conteúdo


1. Encontrando sua estória
2. Preparando sua estória
3. Contando sua estória
4. Dicas finais

Encontrando sua estória


Seu primeiro passo é encontrar uma estória. Não uma estória qualquer. Encontre uma estória que você ame! Você a contará frequentemente, e você quer apreciá-la toda vez que o fizer.
Uma estória para contar poderia ser:
· Um conto folclórico, ou seja, uma estória da tradição oral. Poderia ser um conto de fadas, um feito heróico, um conto de humor, uma facécia, um conto de sabedoria, uma fábula, uma estória de amor, de fantasma, um mito ou uma lenda.
· Um conto literário, de um único escritor, originalmente destinado a leitura.
· Uma história da vida real, da História ou de uma experiência pessoal.
Para muitos iniciantes, contos folclóricos são os mais fáceis, porque eles são feitos para contar. Eles são simples, diretos e vívidos, com o auxílio automático da memória. Então, de agora em diante, vamos focar nos contos folclóricos.

Você pode reunir contos folclóricos de livros, gravações de contação de estórias e até por ouvir dizer. Encontre livros e gravações tanto nas sessões para adultos e crianças na sua biblioteca ou livraria.
Comece com contos curtos – uma a três páginas de texto, ou uns poucos minutos de gravação. Procure estórias com ação clara, personagens fortes e estrutura simples. Claro, escolha uma estória que também seja adequada aos seus ouvintes, se você sabe quem serão eles. Recontações modernas são as mais fáceis para se trabalhar, porque elas já foram refinadas e adaptadas para ouvintes em nossa cultura. Mas você também pode alterar uma estória para se adequar a você mesmo ou à sua audiência.
Contadores de estórias profissionais devem ser cuidadosos quanto à proteção dos direitos editoriais das estórias que querem contar, mas isso é menos importante para um amador. Se você se baseou em apenas uma versão da estória, é cortês pelo menos mencionar sua fonte. Fique alerta, contudo, pois muitos contadores de estórias – incluindo muitos nativos americanos – sentem que você roubou as estórias deles se você as conta sem permissão.

Preparando sua estória

Contadores aprendem suas estórias de muitas maneiras diferentes. Alguns lêem ou escutem uma estória de novo e de novo. Alguns meditam sobre ela. Alguns digitam ou copiam manualmente a estória. Alguns desenham gráficos. Alguns começam contando a estória imediatamente.
Qualquer que seja o modo como você faz, você deve absorver a estória até que ela se torne sua segunda natureza. Encontre o melhor caminho para você.
Algumas partes da estória podem ser memorizadas, palavra por palavra – lindos começos e finais, diálogos importantes, expressões coloridas, rimas e frases que se repetem. Mas não tente memorizer toda uma estória desse modo. Recitação estrita cria uma distância dos seus ouvintes que é difícil de transport.
Ao invés, visualize a estória. Veja as cenas na sua mente, tão claramente quanto você puder. Mais tarde, essas imagens vão ajudar você a recriar sua estória quando você a contar – ainda que você não as evoque conscientemente.
É melhor praticar sua estória com um espelho. Pode ser um espelho de verdade, or uma gravação de áudio ou em vídeo, ou um amigo. Qualquer coisa que ajude você a ver como você está se saindo.
Primeiro pratique para pegar a linha da estória. Sua versão não vai transmitir tudo da estória que você encontrou, mas deve transmitir o suficiente para ter sentido. Então, uma vez que a estória esteja firme em sua mente, foque em como você a conta.
Use repetição. Em contos folclóricos, os acontecimentos frequentemente se repetem três vezes – um número mágico. Preste atenção especial às rimas e frases repetidas. Repetição ajuda seus ouvintes a se fixarem na estória pois fornece marcos familiares.
Junto com a repetição, use variação. Varie o tom, a cadência e o volume de sua voz, sua velocidade, seus ritmos, sua articulação (suave ou aguda). Use pausas. Lembre, variar prende a atenção.
Use gestos, mas apenas aqueles que ajudem a estória. Use-os para reproduzir a ação, ou somente para ênfase. Faça-os grandes! Gestos mantém os olhos em você.
Em sua estória, preste atenção especial em começos e finais. Você pode querer praticar uma introdução junto com a estória. Essa introdução pode dizer algo sobre a estória ou sobre você. Mas não entregue o enredo!
Finais devem ser claros, de modo que seus ouvintes saibam que sua estória terminou sem que você precise dizer a eles. Você pode fazer isso desacelerando e adicionando ênfase. Por exemplo, muitos finais de estória usam um “devagar três” – “felizes para sempre”, “e foi assim que terminou”, “e nunca mais ele foi visto”.
Preste atenção especial em como você descreve seus personagens. Bons personagens dão vida à estória – então, ponha vida neles, com rostos, vozes, gestos, postura corporal. Tente fazer cada um diferente o bastante para que eles possam ser facilmente identificados.
Quando descrever dois personagens conversando, tente um truque chamado “foco cruzado”: faça cada um encarar um ângulo de 45 graus diferente.
Você contará estórias no seus melhor se você preparar não somente a sia estória, mas você mesmo. Sua voz e corpo são seus instrumentos, e ajuda usá-los bem.
Para projetar e sustentar sua voz, você deve respirar profunda e corretamente. Para checar isso, coloque sua mão no seu estômago. Enquanto você inspira e seus pulmões se expandem, você deve sentir o seu estômago pressionando para fora. Muitas pessoas fazem o oposto, segurando seus estômagos e respirando apenas com a parte de cima do peito. Também se certifique de manter suas costas retas, para que seus pulmões possam se expander completamente.
Não force muito sua voz ou a use de forma artificial (exceto talvez quando falar como um personagem). Para evitar fadiga, relaxe sua garganta e músculos mandibulares, e o resto do seu corpo também. Um grande e alto suspiro ajudará nisso. Também tente o “bocejo do leão” – abra sua boca bem aberto e estique sua língua o máximo que conseguir.
Pronuncie cada som de cada palavra distintamente. Exercícios de língua são bons para deixá-la mais solta.


Contando sua estória

Não pense que você tem que ser perfeito na primeira vez que você contar uma estória. É pouco provável. Mas, se você ama sua estória e a preparou razoavelmente bem, certamente você vai dar prazer aos seus ouvintes e a você mesmo. E, a cada vez que você contra a estória, você e a estória vão ficar melhores.
Se possível, conte sua estória primeiro para amigos em um grupo pequeno. À medida que você ganha auto-confiança, apresente-se para grupos maiores, menos intimistas. Mais cedo do que você pensa, você não vai se importar em se apresentar numa sala cheia de estranhos.
Contadores de estórias têm seus próprios estilos, diferindo imensamente. Se uma sugestão aqui não se encaixa em sua ideia de como você quer contar estórias, ignore-a. Não tenha medo de tentar algo diferente, se lhe parece certo.
Um bom espaço para contação é confortável, intimista e livre de distrações. Cheque o espaço com antecedência para que você identifique problemas e providencie necessidades especiais – um banquinho, um copo de água. Você pode também querer um tempo a sós antes de se apresentar para se preparar, ou para aquecer sua voz e seu corpo.
Dê aos seus ouvintes sua força total. Dirija sua voz à última fileira. Faça suas palavras soarem. Evite lixo verbal como “hummm” ou “você sabe”. Sente-se ou fique de pé, mas encare sua audiência de frente e com a espinha ereta. Nada de ficar torcendo as mãos, colocando-as nos bolsos ou ficar mudando de apoio, de um pé para o outro.
Contar estórias é mágico em parte porque é pessoal – então, faça um contato pessoal com seus ouvintes. Fale com eles – não para eles – e não tenha medo de conversar com eles.
Olhe-os nos olhos. Se houver muitos deles, ou se você não conseguir vê-los todos, olhe mais para os da frente. Se alguns não estão prestando atenção, foque naqueles que estão.
Enquanto você conta sua estória, leve o tempo que precisar, e dê tempo aos seus ouvintes – tempo para “ver” a estória, tempo para rir, tempo para refletir, tempo para se segurarem na beirada de suas cadeiras para o que vem a seguir. É fácil ir depressa demais, difícil ir devagar demais. Se você estiver perdendo a atenção deles, você pode precisar de ir um pouco mais devagar! Depois da estória, certifique-se de dar tempo para a audiência apreciar você.
Contar estórias é interação. À medida que seus ouvintes respondem à sua estória, deixe a sua estória responder aos seus ouvintes. Faça sua voz e gestos “maiores” ou “menores”. Estique ou encurta partes da estória. Preste atenção ao que funciona e ao que não, de modo que, na próxima vez, você possa mudar, adicionar ou subtrair algo.
Acima de tudo, confie em você, em sua audiência e em sua estória. Lembre-se, qualquer um que se aproxime para ouvir um contador de estórias já está do seu lado. Apenas ser um contador de estórias é mágico – mesmo antes de que você diga uma palavra.

Dicas finais


Aqui vão alguns modos de ir além com a contação de estórias.
Veja e ouça tantos bons contadores quanto você possa. Você vai apreender técnicas de apresentação, estórias e a magia geral da contação. Festivais de contadores de estórias são eventos maravilhosos que acontecem por toda a América do Norte e Reino Unido.
Leia coleções de contos folclóricos. Você não apenas vai encontrar estórias para contar, mas vai desenvolver o senso do que faz um conto. Isso vai ajudar se você quiser alterar ou criar um conto.
Tome aulas. Muitas faculdades, universidades e outras organizações patrocinam cursos. É um método bastante seguro de começar a contar estórias, com apoio e comentários úteis.
Junte-se a um grupo local de contadores de estórias. Muitas comunidades têm grupos que se encontram para experimentar estórias ou organizar apresentações.
Acima de tudo, conte, conte, conte, tão frequentemente quanto você puder. É o melhor caminho para se aprender a contar estórias!

***

O norte-americano Aaron Shepard é contador de estórias e premiado autor de livros infantis.

4 comentários:

  1. Gabriela... Parabens pelo trabalho e por compartilhar suas idéias e links e tudo o mais... e essa frase no texto - adorei:
    E a cada vez que vc contar a história, vc e a história vao ficando melhores" ...adorei isso!! Bjs BEL
    isabelnascimento10@yahoo.com.br

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    1. Obrigada, Isabel, pela sua visita e pelos seus comentários! Desculpe pela demora em lhe responder... 4 anos... caramba... :)
      Um abraço!

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  2. Olá boa Noite amei o seu blog muito legal!

    gostaria de saber se vc faz oficina no interior do rio?!

    obrigado e Parabens

    alexandrepinajj@gmail.com

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    Respostas
    1. Desculpe, Pina, só vi seu comentário hoje - 3 anos mais tarde! Faço oficinas, sim, mas ainda por aqui, onde moro, interior de Pernambuco! Pretendo expandir o trabalho, mas por enquanto não tenho como. Um abraço e obrigada pela visita!

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Ouça a estória "O galo rouco e o rato esperto", da Cigana Contadora de Estórias!

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