quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Hora do Conto - Histórias em Quadrinhos


Opa!
Foi muito legal a nossa Hora do Conto, ontem, na Biblioteca Álvaro Lins, do Sesc Caruaru, com as crianças do PHE (Projeto Habilidades de Estudo) e da Jornada Ampliada do Sesc. O tema foi "histórias em quadrinhos". Falei de que como as HQs se originaram (pretensamente uma evolução pictórica das pinturas rupestres e das imagens medievais da Via Sacra contando os momentos finais de Cristo), expliquei o que é "arte sequencial" e porque os quadrinhos não são considerados literatura, já que o foco é na imagem e não no texto, que pode até ser suprimido.
Falei das primeiras HQs do mundo, como The Yellow Kid, de 1896, do desenhista ‎Richard Felton Outcault, e apresentei-lhes o ítalo-brasileiro Angelo Agostini, considerado o pai dos quadrinhos no Brasil, com o lançamento de "As aventuras de Nhô Tim", em 30 de janeiro de 1869, na Revista A Vida Fluminense. Mostrei-lhes ainda a primeira revistinha lançada no Brasil, O Tico-Tico, os gibis mais caros do mundo, começando com a Action Comics vendida pelo site de leilões E-Bay em 2014 pela ninharia de US$ 3 milhões e 200 mil, algo em torno de R$ 10 milhões e 370 mil reais, e algumas HQs que viraram filme, como As aventuras de Tintim, de 2011, baseado em histórias do belga Hergé. O filme teve direção de Steven Spielberg e ganhou até um Globo de Ouro em 2012 como melhor animação. 
Também não esqueci de falar dos grandes quadrinistas brasileiros infantojuvenis, como Mauricio de Souza e Ziraldo, e de personagens fantásticos como Mafalda, do argentino Quino.
Por fim, uma oficina de criação de quadrinhos, que foi a parte mais divertida. A criançada deu asas à imaginação para criar suas próprias estórias e personagens.
Foi uma tarde muito feliz e o Sesc Caruaru está de parabéns por sempre promover esses eventos, que envolvem, divertem e instruem as crianças.
As fotos são de Victoria e Lucas Vargas.











segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Conto: Um presente mágico (estória com origami e kirigami)

Tela de Eduardo Lima
 Era uma vez um menino que tinha um pai que só vivia trabalhando, sem muito tempo para ele. Chegou o dia do seu aniversário e o presente que ele mais queria era uma camiseta nova, mas o pai – como sempre – havia esquecido da data e do presente e resolveu dar ao filho o dinheiro para ele mesmo comprar (Pega uma folha de papel, de preferência verde, da cor do dinheiro, e dobra, como se fosse uma cédula)
Então, o menino foi andando para a loja, no centro da cidade.
Estava muito quente e ele pensou que seria bom se tivesse um chapéu para proteger sua cabeça. Então o menino teve uma ideia: pegou a cédula que seu pai tinha lhe dado e dobrou, fazendo um chapeuzinho perfeito para o seu tamanho (Faz o origami do chapeuzinho de soldado, que todos aprendemos em criança).
Logo mais à frente, ele se deparou com um rio e achou que seria muito bom refrescar os pés ali. A água estava tão gostosa que o menino decidiu brincar um pouco e teve uma ideia: pegou o chapéu feito com a cédula e o transformou em um barquinho. (Do chapéu, faz as dobras para transformá-lo em barquinho).
Tela de Eduardo Lima
Depois de brincar bastante, o menino se lembrou do seu presente, então saiu do rio e se secou, carregando o barquinho de papel na mão. Chegando na cidade, ele foi direto à loja comprar sua camiseta nova. Escolheu a que mais gostou e foi pagar com o dinheiro que seu pai tinha lhe dado – agora transformado em barquinho.
A vendedora não quis aceitar. Disse que o dinheiro estava todo molhado e amassado. O menino ficou triste, ainda insistiu, o dinheiro ia secar, era só esperar um pouquinho, mas nada feito. A vendedora não aceitou mesmo.
Chorando muito, desapontado, ele saiu da loja e foi andando de volta para casa. No meio do caminho apareceu uma linda moça – uma fada, com certeza – que lhe perguntou porque estava tão triste. O menino contou que era seu aniversário e ele queria uma camiseta nova. Seu pai havia lhe dado o dinheiro e... bem, ele contou tudo que havia acontecido, do calor, do chapéu, do rio e do barquinho. Contou também da vendedora que não aceitou o dinheiro porque estava molhado e amassado.
- Eu queria tanto uma camiseta nova! – lamentou o pequeno.

A fada olhou para ele e sorriu.

- Posso dar um jeito nisso. Dê-me o seu barquinho – pediu ela.

O menino estendeu-lhe o barquinho de dinheiro e viu, espantado, quando ela lhe rasgou as pontas e a chaminé (entra aqui o kirigami, com o corte na vertical das duas pontas diagonais do barco e o corte em meia-lua da chaminé do barco). Agora era que o dinheiro não ia prestar para mais nada mesmo, rasgado como estava, pensou ele.

Mas a fada tinha uma surpresa para o pequeno. Fez uma mágica e... transformou o barquinho em uma linda camiseta! (desdobra o papel e, voilà! Magicamente aparece uma perfeita camisetinha). O menino ficou feliz da vida, agradeceu à fada pelo presente e voltou correndo para casa para mostrar sua camiseta nova ao pai.

As imagens são do artista plástico Eduardo Lima.


sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Origami na Hora do Conto da Biblioteca Álvaro Lins

Opa!
Foi mega massa ontem a Hora do Conto da Biblioteca Álvaro Lins, do Sesc Caruaru. O tema foi "origami" e a turma foi os alunos da 5ª série da escola do Sesc, da Profª Samantha.

Comecei explicando o que é o origami, onde surgiu e algumas das principais formas - tartaruga, sapo, cegonha e tsuru (garça). Para falar mais do tsuru, contei a história de Sadako Sasaki, que transcrevo aqui do blog Tsuru Mágico
"Sadako nasceu em Hiroshima e tinha apenas dois anos de idade quando os americanos lançaram a bomba atômica sobre a cidade. Ela vivia distante do epicentro da bomba e juntamente com a mãe e o irmão, saiu ilesa do ataque. Mas consta que durante a fuga, eles foram encharcados pela chuva negra (radioativa) que caiu sobre Hiroshima ao longo daquele dia fatídico.
Retomando suas vidas após o término da guerra, Sadako e sua família viviam normalmente e ela era uma garota aparentemente saudável até completar doze anos de idade. Em janeiro de 1955, durante uma aula de educação física, Sadako, que adorava corridas, sentiu-se mal, com tonturas.
Os dias se passaram e novamente o mal estar fez com que ela caísse no chão, sem sentidos. Socorrida e levada a um hospital, depois de alguns dias surgiram marcas escuras em seu corpo e o diagnóstico foi de leucemia, doença que já estava matando outras crianças expostas à bomba. Na época a leucemia era até chamada de "doença da bomba atômica". Ela foi internada em fevereiro de 1955, recebendo a previsão de sobrevida de apenas 1 ano.
Em agosto desse mesmo ano, sua melhor amiga, Chizuko Hamamoto foi visitá-la no hospital. Chizuko fez uma dobradura de tsuru e presenteou Sadako, contando-lhe a lenda dos mil tsurus de origami.
Sadako decidiu fazer os mil tsurus, desejando a sua recuperação. Mas a doença avançava rapidamente e Sadako cada vez mais debilitada, prosseguia dobrando lentamente os pássaros, sem mostrar-se zangada e sem entregar-se.
Em dado momento Sadako compreendeu que sua doença era fruto da guerra e mais do que desejar apenas a sua própria cura, ela desejou a paz para toda a humanidade, para que nenhuma criança mais sofresse pelas guerras.
Ela disse sobre os tsurus: "Eu escreverei PAZ em suas asas e você voará o mundo inteiro".
Estátua de Sadako em Hiroshima
Por fim, na manhã de 25 de outubro de 1955, Sadako montou seu último tsuru e faleceu, amparada por sua família. Ela não conseguira completar os mil origamis, fizera 644. Mas seu exemplo tocou profundamente seus colegas de classe e estes dobraram os tsurus que faltavam para que fossem enterrados com ela.
Tristes e sensibilizados, os colegas decidiram fazer algo por Sadako e por tantas outras crianças. Formaram uma associação e iniciaram uma campanha para construir um monumento em memória à Sadako e à todas as crianças mortas e feridas pela guerra. Com doações de alunos de cerca de 3100 escolas japonesas e de mais nove países, em 1958, foi erguido em Hiroshima o MONUMENTO DAS CRIANÇAS À PAZ, também conhecido como Torre dos Tsurus, no Parque da Paz."
As crianças ficaram emocionadas com a história e perguntaram se era verdadeira mesma. Quando mostrei a foto da delicada Sadako, eles se encantaram. Depois contei outra estória (esta, de mentirinha), utilizando o kirigami (arte em papel com recorte), que depois partilho com vocês e que me foi contada por uma amiga jornalista, a Catiane Damas. Eles adoraram e quiseram saber se esta também tinha acontecido. Foi muito bom ver crianças se encantando com estórias mágicas e acreditarem que elas possam ter mesmo acontecido. Agradeço a Papai do Céu por isso!
Depois da pequena aula sobre origami e as estórias, foi a vez da nossa oficina. Ensinei-os a fazer um beija-flor. Muitos se perderam, outros se enrolaram e perderam a paciência, mas não deixei ninguém desistir. Ao final, vejam só a carinha de orgulho deles por terem conseguido!
Deus é bom! Obrigada aos apoiadores da biblioteca, Mario Fernandes Moacir Silva!




Fotos por Victoria e Lucas Vargas

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

O misterioso caso dos rabos trocados

Há muito tempo atrás, havia uma rainha que gostava de banana. Mas o legal dessa rainha não era nem isso. Até eu gosto de banana - e muito. O interessante dessa rainha é que ela tinha uma onça de estimação!
Eu nunca havia visto uma coisa dessa. Já vi gente criando tudo quanto é tipo de bicho - cachorro, gato, passarinho e até galinha. 
Mas onça, nunca. E sabe do que mais? A onça dela tinha pintinhas cor-de-rosa! Bem, e um rabo de macaco... Sério! 

E nesse mesmo reino, lá na mata havia um macaco que.... acertou! Tinha rabo de onça!

Epa! Que mistério é esse? O que foi que aconteceu para os dois bichinhos terem rabos trocados? E como eles fizeram para resolver essa bagunça?
Para saber de tudo, não perca "O misterioso caso dos rabos trocados", da escritora Gabriela Kopinits, no livro "Era uma vez... estórias de uma contadora de estórias". Ilustrado por Rivaldo Barboza e publicado pela Cepe Editora, o livro tem dez estorinhas e está à venda nas melhores livrarias e na loja virtual da editora -https://www.cepe.com.br/lojace…/index.php/…/era-uma-vez.html.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Politica Nacional de Leitura e Escrita


Sabia que há um projeto de lei tramitando no Senado Federal para a instituição da Política Nacional de Leitura e Escrita? A autora é a senadora Fátima Bezerra, do PT/RN, pedagoga por formação. 
O projeto, de nº 212/2016, tem o objetivo de criar "estratégia permanente para promover o livro, a leitura, a escrita, a literatura e as bibliotecas de acesso público no Brasil, a ser implementada pela União, em cooperação com os Estados, o Distrito Federal e os Municípios e com a participação da sociedade civil e de instituições privadas".
Ele está tramitando na Comissão de Educação, Cultura e Esporte, com relatoria do senador Paulo Paim, e admite opiniões.
Tire um tempinho da sua rotina e leia o texto do PL, é curtinho - são apenas 8 páginas. Ajude-nos a criar uma política que efetivamente promova a leitura e a escrita em nosso país!
Se gostar do projeto, dê seu voto clicando aqui.
Segue o texto da propositura:


SENADO FEDERAL

PROJETO DE LEI DO SENADO
Nº 212, DE 2016

Institui a Política Nacional de Leitura e Escrita.

Art. 1º Fica instituída a Política Nacional de Leitura e Escrita como estratégia permanente para promover o livro, a leitura, a escrita, a literatura e as bibliotecas de acesso público no Brasil.
Parágrafo único. A Política Nacional de Leitura e Escrita será implementada pela União, por intermédio do Ministério da Cultura e do Ministério da Educação, em cooperação com os Estados, o Distrito Federal e os Municípios e com a participação da sociedade civil e de instituições privadas.

Art. 2º São diretrizes da Política Nacional de Leitura e Escrita:
I – a universalização do direito ao acesso ao livro, à leitura, à escrita, à literatura e às bibliotecas;
II – o reconhecimento da leitura e da escrita como um direito, possibilitando a todos, inclusive por meio de políticas afirmativas, as condições de exercer plenamente a cidadania, viver uma vida digna e contribuir na construção de uma sociedade mais justa;
III – o fortalecimento do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas, no âmbito do Sistema Nacional de Cultura;
IV – a articulação com as demais políticas de estímulo à leitura, ao conhecimento, às tecnologias e ao desenvolvimento educacional, cultural e social do país, especialmente com a Política Nacional do Livro, instituída pela Lei nº 10.753, de 30 de outubro de 2003; e
V – o reconhecimento da cadeia criativa, produtiva, distributiva e mediadora do livro, da escrita, da leitura e das bibliotecas como integrantes fundamentais e dinamizadoras da economia criativa.

Parágrafo único. A Política Nacional de Leitura e Escrita observará, no que couber, princípios e diretrizes de planos nacionais estruturantes, especialmente do:
I – Plano Nacional da Educação;
II – Plano Nacional de Cultura; e
III – Plano Plurianual da União - PPA.

Art. 3º São objetivos da Política Nacional de Leitura e Escrita:
I – democratizar o acesso ao livro e aos diversos suportes da leitura por meio de bibliotecas de acesso público, dentre outros espaços de incentivo à leitura, de forma a ampliar os acervos físicos e digitais e as condições de acessibilidade;
II – fomentar a formação de mediadores de leitura e fortalecer ações de estímulo à leitura, por meio da formação continuada em práticas de leitura para professores, bibliotecários, agentes de leitura, dentre outros agentes educativos, culturais e sociais;
III – valorizar a leitura e o incremento de seu valor simbólico e institucional por meio de campanhas, premiações e eventos de difusão cultural do livro, da leitura, da literatura e bibliotecas;
IV – desenvolver a economia do livro como estímulo à produção intelectual e ao fortalecimento da economia nacional por meio de ações de incentivo para o mercado editorial, livreiro, feiras de livros e eventos literários, de aquisição de acervos físicos e digitais para bibliotecas de acesso público;
V – promover a literatura e as humanidades e o fomento aos processos de criação, formação, pesquisa, difusão e intercâmbio literário e acadêmico em território nacional e no exterior, para autores e escritores, por meio de prêmios, intercâmbios e bolsas, dentre outros mecanismos;
VI – fortalecer institucionalmente as bibliotecas de acesso público, com qualificação de espaços, acervos, mobiliários, equipamentos, programação cultural, atividades pedagógicas, extensão comunitária, incentivo à leitura, capacitação de pessoal, digitalização de acervos, empréstimos digitais, dentre outras ações;
VII – fomentar pesquisas, estudos e indicadores nas áreas do livro, leitura, escrita, literatura, bibliotecas com vistas a fomentar a produção de conhecimento e de estatísticas como instrumentos de avaliação e qualificação das políticas públicas do setor;
VIII – promover a formação profissional no âmbito das cadeias criativa e produtiva do livro e mediadora da leitura, por meio de ações de qualificação e capacitação sistemáticas e contínuas;
IX – incentivar a criação e implantação de planos estaduais e municipais do livro e da leitura, em fortalecimento ao Sistema Nacional de Cultura; e 
X – incentivar a expansão das capacidades de criação cultural e de compreensão leitora por meio do fortalecimento de ações educativas e culturais focadas no desenvolvimento das competências de produção e interpretação de textos.

Art. 4º Para consecução dos objetivos da Política Nacional de Leitura e Escrita será elaborado, a cada quadriênio, o Plano Nacional do Livro e Leitura – PNLL, que estabelecerá metas e ações, nos termos do regulamento.
§ 1º O PNLL será elaborado até o fim do primeiro ano de mandato do Chefe do Poder Executivo, com vigência para o quadriênio conseguinte.
§ 2º O PNLL será elaborado em conjunto pelo Ministério da Cultura e o Ministério da Educação de forma participativa, assegurada a manifestação do Conselho Nacional da Educação, do Conselho Nacional de Políticas Culturais, de representantes de secretarias estaduais e municipais de cultura e de educação, da sociedade civil e do setor privado.
§ 3º O PNLL deverá viabilizar a inclusão de pessoas com deficiência, observadas as condições de acessibilidade e o disposto nos acordos, convenções e tratados internacionais que visem a facilitar o acesso de pessoas com deficiência a obras literárias.

Art. 5º O Prêmio VIVALEITURA será concedido no âmbito da Política Nacional de Leitura com o objetivo de estimular, fomentar e reconhecer as melhores experiências que promovam o livro, a leitura, a escrita, a literatura e as bibliotecas, nos termos do regulamento.

Art. 6º Ato conjunto do Ministério da Cultura e do Ministério da Educação regulamentará o disposto nesta Lei.

Art. 7º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

JUSTIFICAÇÃO

A leitura, a escrita e a literatura são elementos indissociáveis e fundamentais para o desenvolvimento humano. Por meio da leitura e da escrita, homens e mulheres são capazes de criar uma nação que compreende seus desafios e busca soluções para a construção de um país justo, sustentável e democrático. A leitura e a escrita é, em todos os sentidos, um dos vetores mais importantes para a inclusão social, econômica, educacional e cultural dos cidadãos de um país, entre outras razões, por ser requisito básico em incontáveis e indispensáveis operações cotidianas, das mais simples às mais complexas.
Nesses termos, a experiência da leitura é uma prática social e cultural de apropriação, interpretação e criação de sentidos/significados do mundo e da vida em sociedade que deve ser compreendida como um direito que permite o exercício pleno da democracia e da construção da cidadania.
Além disso, por serem absolutamente transversais, os impactos positivos e duradouros da leitura e da escrita são encontrados em praticamente todas as dimensões relevantes da vida individual e coletiva. Com leitura são formados cidadãos mais críticos, autônomos e mais bem qualificados; são construídas organizações e instituições – públicas ou privadas e do terceiro setor – mais eficientes, eficazes, inovadoras e responsáveis; enfim, consolidam-se comunidades, bairros, cidades e sociedades mais justas, solidárias e autônomas. Neste sentido, o letramento pleno, a leitura e a escrita, estão inescapavelmente no centro da agenda do desenvolvimento das nações, especialmente no Brasil em sua acertada luta contra as desigualdades. A leitura é a chave mestra para a mobilidade social e o desenvolvimento pleno. Um país sem miséria, uma Pátria Educadora, se afirma com uma política pública de leitura plena, mobilizadora, inclusiva, que possibilita a democratização das oportunidades de modo duradouro em nosso país. A leitura e a escrita, assim proclamam os militantes do livro, da leitura, da literatura e das bibliotecas, é a chave de todos os direitos humanos na sociedade contemporânea, reconhecida como a da informação e conhecimento.
Os últimos 13 anos foram marcados por sucessivos avanços na política pública do livro, leitura, literatura e bibliotecas em nosso país. Neste período, tivemos a primeira formalização da Política Nacional do Livro, consubstanciada na Lei do Livro, Lei no 10.753, de 30 de outubro de 2003, que estabelece diretrizes para esta política.
A partir dos movimentos deflagrados para a aprovação da Lei do Livro, o Brasil conquistou mais um importante avanço no processo de institucionalização de sua política de livro e leitura. Podemos afirmar que a partir de 2003 um novo e consistente processo de construção pública de conceitos, objetivos e metas estratégicas para transformar o Brasil em um país de leitores, floresceu. E o desenvolvimento deste período marcado por centenas de debates entre o poder público e a sociedade civil desembocou em 2006 no Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL). Este processo envolveu acúmulos em diversas frentes.
O PNLL traduz o aprendizado e o acúmulo conceitual e prático de experiências históricas no campo do desenvolvimento do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil, que nos remontam às primeiras iniciativas editoriais no país, bem como à criação e extinção do Instituto Nacional do Livro – INL. A participação ativa de lideranças tão expressivas como Monteiro Lobato, Mário de Andrade, Augusto Meyer, Paulo Freire e Affonso Romano Sant’Anna são referências para a construção de programas, ações e instituições vitais para a leitura em nosso país. Cumpre nomear algumas das diversas iniciativas que embasaram o Plano: o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), o Programa Nacional da Biblioteca Escolar (PNBE), o fórum da Câmara Setorial do Livro, Leitura e Literatura, o Projeto Fome de Livro (iniciativa do MEC/Biblioteca Nacional), o Programa Nacional do Livro no Ensino Médio (PNLEM), o Programa de Formação do Aluno e do Professor Leitor e o Vivaleitura – Ano Ibero-americano da Leitura (2005). Merece especial ênfase, também, a contribuição oferecida pelo Programa Nacional de Incentivo à Leitura (PROLER) que, ao agregar experiências de projetos de fomento à leitura de todo o país, e por sua ativa promoção de oficinas, cursos, palestras e eventos artístico-culturais que forneceu importantes subsídios para o debate em questão. Nesse mesmo contexto de iniciativas que embasaram o Plano, o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP) tem um papel fundamental no que tange à meta de implantação e modernização de bibliotecas públicas nos municípios brasileiros.
No front internacional, o PNLL se baseou nos objetivos acordados pelos chefes de Estado Ibero-americanos, que aprovaram em 2003, durante o XIII Cumbre Iberoamericano em Santa Cruz de La Sierra, a proposta apresentada pelo Centro Regional para o Fomento ao Livro e à Leitura (Cerlalc/UNESCO) e da Organização dos Estados Iberoamericanos (OEI) para que o ano de 2005 se constituísse no Ano Ibero-Americano da Leitura – VIVALEITURA. Os objetivos do VIVALEITURA tinham um eixo comum, que se impôs como meta permanente para todos os seus países: a democratização do acesso à leitura; a construção de uma resposta altiva por parte das nações ibero-americanas ao direito fundamental de ler e escrever. Hoje, o Plano Nacional do Livro e Leitura do Brasil compõe a Rede Regional de Responsáveis de Políticas e Planos Nacionais de Leitura – Redplanes, coordenada pelo Cerlalc/UNESCO.
O Plano Nacional do Livro e Leitura é um genuíno “pacto social” no Brasil, resultado de iniciativas de organizações da sociedade civil e de cidadãos envolvidos na cadeia criativa, produtiva, distributiva e mediadora da leitura, além de ter recebido contribuições oriundas de planos e iniciativas promovidas por governos estaduais e municipais. Assim, desde iniciativas individuais – que convertem automóveis, bicicletas, barcos ou jegues em meios de transporte para minibibliotecas itinerantes – passando por experiências da sociedade civil em espaços e contextos diversos – praças, parques, estações, hospitais, presídios, centros comunitários e culturais – e em áreas urbanas e rurais de vulnerabilidade social que são convertidas em ambientes favoráveis para o acesso ao livro e a formação de leitores. Nessa mesma lógica, gestores e dirigentes públicos no campo da cultura e da educação vêm desenvolvendo planos estaduais e municipais que tiveram ousadia de instalar a agenda como pauta prioritária em seus programas de desenvolvimento. O PNLL é o fruto dessa sabedoria e desta militância coletiva, enraizada nos mais diferentes territórios do país, em defesa dos benefícios civilizados, coletivos e individuais associados à leitura, à escrita, à literatura, ao livro e às bibliotecas.
Além de contar com este compromisso internacional e com o suporte de muitas experiências históricas da luta pela leitura no Brasil, o Plano Nacional do Livro e Leitura também é o resultado do firme compromisso do Governo brasileiro com a construção participativa de políticas públicas. Deste modo, sob a coordenação dos Ministérios da Cultura e da Educação, foram realizadas mais de 150 reuniões públicas em todo o País entre os anos de 2005 e 2006 com o intuito de construir o PNLL. Participaram ativamente deste debate educadores, bibliotecários, artistas, lideranças empresariais dos setores público e privado, representantes sindicais, representantes de toda a cadeia produtiva do livro – entre escritores, editores, livreiros, distribuidores, gráficas, fabricantes de papel, administradores e outros profissionais do livro -, parlamentares, dirigentes e gestores públicos federais, estaduais e municipais, representantes de universidades e de instituições de ensino, membros do Ministério Público, especialistas em livro e leitura, estudantes, representantes comunitários, representantes de portadores de deficiências, de movimentos sociais e de organizações da sociedade civil, regiões do país que aportaram suas contribuições e suas convicções para a construção desde Plano, e que o transformam numa base das mais belas experiências de construção democrática e participativa de uma política pública em nosso país.
O Plano Nacional do Livro e Leitura teve a sua primeira institucionalização oficializada pela Portaria Interministerial no 1.442, de 10 de agosto de 2006, editada conjuntamente pelos Ministérios da Cultura e da Educação. Posteriormente, o PNLL passou a ser regido pelo Decreto no 7.559, de 1o de setembro de 2011. As mencionadas regulamentações referendaram a organização do PNLL com base em quatro eixos: I. a democratização do acesso ao livro; II. a formação de mediadores para o incentivo à leitura; III. A valorização da leitura e comunicação (que foi redefinido como a “Valorização institucional da leitura e o incremento de seu valor simbólico” a partir da revisão do Plano, ocorrida em 2010); e IV. O desenvolvimento da economia do livro como estímulo à produção intelectual e ao desenvolvimento da economia nacional. Além de ter definido dezoito linhas de ação associadas aos mencionados eixos e uma série consistente de princípios norteadores que fundamentam o Plano. Entretanto, propomos a institucionalização de uma política vitoriosa, avançando no que se faz necessário, por meio do presente Projeto de Lei do Senado. Com a instituição da Política Nacional de Leitura e Escrita – PNLE, e o reconhecimento do PNLL como ação de governo integrante e necessária desta política de alcance nacional, dá-se mais um passo decisivo para a consolidação dos objetivos já praticados no PNLL como uma política pública do Estado brasileiro, fundado em critérios e procedimentos republicanos, construído e implementado de modo participativo, colaborativo e federativo, com vistas a garantir organicidade e sinergia entre as iniciativas das organizações da sociedade civil, dos governos federal, estaduais e municipais, das empresas públicas e privadas e de voluntários em geral.
Este Projeto de Lei tem como uma das suas principais orientações garantir as bases institucionais para aperfeiçoar a implementação das políticas, programas e iniciativas conduzidas por diferentes atores, sempre orientando-se pela necessária parceria, complementaridade e sinergia entre as iniciativas e seus responsáveis.
Deste modo, o arranjo federativo foi priorizado para consolidarmos as bases institucionais de formulação e implementação da Política Nacional de Leitura e Escrita baseada na experiência e operacionalidade apresentada pelo PNLL: exigência que um PNLL seja criado a cada período presidencial subordinado aos ditames da PNLE; estímulos para a geração de Planos Estaduais e Municipais do Livro e da Leitura articulados com o Plano Nacional, assim como para a configuração de equipes, a dotação de orçamentos e de unidades gestoras municipais e estaduais para o setor. No mesmo sentido, este PL também reforça as responsabilidades do governo federal por seus dois ministérios mais diretamente envolvidos com a agenda.
Para dar suporte ao Plano, este PL estimula que municípios, estados, governo federal, além de empresas públicas e privadas e instituições do terceiro setor explicitem orçamentos compatíveis com o financiamento continuado e sinérgico do conjunto de iniciativas previstas no PNLL.
A PNLE reconhece que a universalização da alfabetização plena e das práticas leitoras é uma tarefa comum para gestores públicos, privados e para a sociedade civil em todo o território nacional. Deste modo, o modelo de governança dos PNLL, a serem instituídos a cada quadriênio presidencial conforme determina a PNLE neste PL inova em relação aos modelos de governança previstos nos instrumentos normativos anteriores também por ampliar a participação dos diferentes atores e segmentos sociais envolvidos em sua formulação, implementação e avaliação. Os PNLL serão uma agenda de interesse coletivo e os seus modelos de governança e de gestão devem expressar esta multiplicidade de atores responsáveis por sua elaboração e execução.
Este PL configura, enfim, as bases institucionais para superarmos o caráter descontinuado e pulverizado com que as iniciativas de estímulo à leitura têm sido historicamente implementadas em nosso país. Assim sendo, a Política Nacional da Leitura e Escrita passa a ser a referência para que avancemos ainda mais, sendo o fundamento para a superação de outros importantes desafios, como a criação e operacionalização de recursos financeiros para fomentar os programas derivados e a configuração de instituições nos estados e municípios compatíveis com a agenda aberta por esta política de Estado. São desafios a serem superados no caminho para a universalização do acesso à leitura plena em nosso país.
Sala das Sessões, de maio de 2016.
FÁTIMA BEZERRA
Senadora da República (PT – RN)
Senadora FÁTIMA BEZERRA

LEGISLAÇÃO CITADA
Decreto nº 7.559, de 1º de Setembro de 2011 - 7559/11
Lei nº 10.753, de 30 de Outubro de 2003 - 10753/03
(À Comissão de Educação, Cultura e Esporte, em decisão terminativa)

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Estórias com origami

Opa! Esta semana terei um desafio a enfrentar: contar estórias usando origami. Pouco conheço desta arte, embora a admire muito. Pesquisando por aí achei um blog bem interessante, de uma jornalista chamada Eva Duarte. Nele, a Eva fala de uma experiência que teve com um texto do Mário Quintana, que tomo a liberdade de reproduzir aqui, com a mesma ilustração que ela usou.

"Velha história
Era uma vez um homem que estava pescando, Maria. 
Até que apanhou um peixinho. 
Mas o peixinho era tão pequenininho e inocente, 
e tinha um azulado tão indescritível nas escamas,
que o homem ficou com pena.
E retirou cuidadosamente o anzol 
e pincelou com iodo a garganta do coitadinho. 
Depois guardou-o no bolso traseiro das calças, 
para que o peixinho sarasse no quente. 
E desde então ficaram inseparáveis.

Aonde o homem ia, 
o peixinho acompanhava, 
a trote, 
que nem um cachorrinho. 
Pelas calçadas. 
Pelos elevadores. 
Pelos cafés.
Como era tocante vê-los no “17”! – o homem, grave, de preto, com uma das mãos segurando a xícara fumegante de moca, 
com a outra lendo jornal, 
com a outra fumando, 
com a outra cuidando do peixinho, 
enquanto este, silencioso e levemente melancólico, tomava uma laranjada por um canudinho especial ...

Ora, um dia o homem e o peixinho passeavam à margem do rio onde o segundo dos dois fora pescado. 
E eis que os olhos do primeiro se encheram de lágrimas. 
E disse o homem ao peixinho:
- Não, não me assiste o direito de te guardar comigo. Por que roubar-te mais tempo ao carinho do teu pai, da tua mãe, dos teus irmãozinhos, da tua tia solteira? Não, não e não! Volta para o seio da tua família. E viva eu cá na terra sempre triste ...

Dito isso, 
verteu copioso pranto e, 
desviando o rosto, 
atirou o peixinho na água. 
E a água fez um redemoinho, 
que depois foi serenando, serenando... 
até que o peixinho morreu afogado."

Imagino só a carinha das crianças fazendo as dobraduras :)

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Boas conquistas da educação

José Xavier Cortez - fundador da Cortez Editora - Foto: Divulgação
“O analfabetismo e a falta de cultura são piores que uma doença, uma peste. É preciso ler para os filhos. Mais tarde, é preciso ler para os pais”.
Essa frase é de seu José Xavier Cortez, nascido nas proximidades dum sítio próximo a Currais Novos, no Rio Grande do Norte, em 1936, em uma família de agricultores pobres, num lugar onde boa parte da população não sabe ler nem escrever. Todos os dias andava seis quilômetros para ir estudar. Saiu de casa aos 17 anos em busca de um mundo mais amplo, de maiores possibilidades. E conseguiu. Foi marinheiro, guardador de carros, manobrista e livreiro. E foi exatamente através deles - os livros – que se formou economista, escreveu teses e fundou há quase 40 anos a Cortez Editora.
Eu já conhecia a Cortez das feiras de livro onde sempre vou, mas não conhecia a história do seu fundador. Li na matéria da repórter Larissa Lins, com foto de Julio Jacobina, no Diário de Pernambuco de hoje. Que beleza de exemplo!

Também hoje li em extensa matéria no DP – inclusive com publicidade institucional do governo do Estado – sobre a conquista de Pernambuco na educação, que hoje tem o melhor ensino médio do país. A informação veio do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica – Ideb, divulgado a cada dois anos e considerado o principal indicador da educação no Brasil. Em 2013, Pernambuco estava na quarta posição.
Outro importante dado que a pesquisa apontou foi que Pernambuco também diminuiu a distorção idade-ano e a taxa de abandono escolar. O governador Paulo Câmara atribuiu os resultados – excelentes e animadores, sem dúvida – a “um trabalho consistente da Secretaria de Educação, dos estudantes e suas famílias”, além da rede de escolas em tempo integral, das 300 Escolas de Referência em Ensino Médio (Erem) e as 35 Escolas Técnicas em funcionamento.
Eu também creditaria isso aos professores e demais trabalhadores em Educação. Nenhuma conquista acontece sozinha. Portanto, faço questão de registrar aqui os meus calorosos parabéns a todos que trabalharam – e continuam trabalhando por uma educação de qualidade, principalmente na rede pública, a despeito de todas as dificuldades que têm que enfrentar todo santo dia em sala de aula e fora dela. O desafio agora é estender esse trabalho para os municípios. Mas, como diria o mestre Gilberto Gil, “andar com fé eu vou, que a fé não costuma faiá”...

Entrevista da Cigana Contadora de Estórias - Dia Mundial da Alfabetização

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

08 de setembro – Dia Mundial da Alfabetização

Ler é tudo de bom!
Criado em 1967 pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), o Dia Mundial da Alfabetização se propõe a debater como os países estão atuando no combate ao analfabetismo. Compreenda-se aqui que alfabetização não é somente o processo de aprender a ler e a escrever, a fazer operações simples de matemática. É também o aprender a decodificar o mundo ao nosso redor, a lidar de forma plena com o nosso cotidiano, a observar o que nos cerca e fazer a nossa leitura, passando também pela participação cidadã, pela preocupação com o meio ambiente, com o consumo consciente.
E nesse quesito a humanidade está em uma defasagem absurda. Segundo pesquisa divulgada pela ONU, por ocasião do Dia Mundial da Alfabetização em 2014, 781 milhões de adultos no mundo inteiro ainda não sabem ler, escrever ou contar. Desses 781 milhões, dois terços são mulheres. Ou seja, mais de 520 milhões de mulheres. Como se não já fosse ruim o bastante, a UNESCO também disse que mais de 250 milhões de crianças não conseguem ler “uma simples frase, ainda que metade delas tenha passado quatro anos na escola”. Essa fala é da militante búlgara Irina Bokova, diretora-geral da entidade, que acrescenta: “Que tipo de sociedades esperamos construir com uma juventude analfabeta? Esse não é o mundo em que desejamos viver. Queremos um mundo onde todos possam tomar parte nos destinos de suas sociedades, ter acesso ao conhecimento e, por sua vez, enriquecê-lo”. Como podemos mudar o mundo, torná-lo mais justo e inclusivo, se nem conseguimos entender o que se passa ao nosso redor? Como fazer escolhas conscientes se “o que entra por um ouvido sai pelo outro”, sem deixar nada no meio?
Aqui no Brasil, a despeito de esforços muito pontuais de políticas públicas incipientes, e as meritórias iniciativas de escolas e mestres que vão além do que se espera deles, pouco avançamos desde que os portugueses tocaram o terror em nossa Terra de Vera Cruz. A estrada que temos a percorrer para conseguir nos libertar dessa secular escravidão da ignorância ainda é longa.
Ainda que o acesso à educação – tanto pela construção de mais creches e escolas quanto por louváveis políticas de inclusão no sistema de ensino – tenha melhorado, isso não significa que a educação tenha avançado tanto quanto gostaríamos. A evasão escolar , principalmente na rede pública, ainda é absurda. Segundo o Relatório de Desenvolvimento 2012 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), “um em cada quatro alunos que inicia o ensino fundamental no Brasil abandona a escola antes de completar a última série”. Os motivos para isso são vários e não nos cabe discutí-los aqui. O que importa é que, de acordo com esse resultado, somos o terceiro país, entre os 100 com maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), em evasão escolar. Ficamos atrás apenas da Bósnia Herzegovina e das ilhas caribenhas de São Cristovam e Névis. Fala sério!
“Um país se faz com homens e livros", disse o mestre visionário Monteiro Lobato há quase cem anos. Desde a Imprensa Régia de D. João VI, livro é um artigo que não nos falta, apesar do altíssimo custo de produção – mas os sebos estão aí para facilitar a nossa vida. Mas e os leitores? O Instituto Pró-Livro saiu às ruas, em mais uma edição de sua pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil” e foi ouvir sobre os hábitos de leitura das pessoas. Metade dos entrevistados disse que não lê livros porque não consegue compreender bem o que está escrito. E olhe que essas pessoas são tecnicamente alfabetizadas.
Então, o que fazer? Aí entra a promoção da leitura, através principalmente da contação de estórias e do reconto em casa e em sala de aula. Disso eu entendo bem, afinal é o que venho fazendo há mais de 15 anos. Como professora de inglês de uma das mais conceituadas escolas do Brasil, percebi o ganho real em termos de aquisição de vocabulário, compreensão de texto, desenvoltura e relacionamento interpessoal que meus alunos – crianças de 9 a 11 anos - tiveram ao serem expostos com frequência à contação de estórias e a serem incentivados a fazerem o seu reconto, a buscarem livros na biblioteca e a trazê-los para apresentá-los em sala de aula. Dessa forma, o antes temido e alienígena objeto chamado ‘livro’ transformou-se em um amigo próximo, um Portal das Maravilhas, através do qual tudo é possível.
Que tal investirmos mais nisso?
Alfabetizar é necessário, mas melhor ainda é propiciar o letramento, a aquisição de saberes e habilidades essenciais ao pleno exercício da cidadania do nosso povo. Para isso, as escolas precisam se revolucionar, “ousar” em experimentar práticas mais amplas, além do que apregoa o método isso ou aquilo. Mas o trabalho não é só da escola. É dos pais, em casa, que precisam tirar um pouco do seu tempo e contar estórias para suas crianças. É da prefeitura, do governo do Estado, do governo federal, que têm por obrigação fomentar e oferecer bons eventos culturais gratuitos ao povo. Formar cidadãos plenos é um trabalho conjunto e responsabilidade de todos.
“A alfabetização não apenas muda vidas, ela também as salva”, defende Irina Bokova, a primeira mulher a dirigir a UNESCO, eleita em 2009 e reeleita em 2013. Militante ativa contra o racismo e o semitismo, Bokova também defende o combate ao analfabetismo como estratégia essencial para uma vida melhor para todos. “A alfabetização ajuda a reduzir a pobreza e permite que as pessoas consigam empregos e obtenham maiores salários. A alfabetização facilita o acesso ao conhecimento e desencadeia um processo de empoderamento e autoestima que beneficia a todos. Essa energia, multiplicada por milhões de pessoas, é essencial para o futuro das sociedades”, diz ela. Eu acredito nisso e faço a minha parte. E você, o que faz para ajudar nessa luta? Aceita uma sugestão? Leia um livro para uma criança. Já será um excelente começo.

*Gabriela Kopinits é jornalista, escritora e contadora de estórias.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Conto: "A biblioteca de Malasartes"


Diz que o Pedro Malasartes estava morando numa pequena cidade. Ele, que era um grande viajante, resolveu ficar naquele lugarejo por um tempo e... foi ficando. O povo todo do lugar já conhecia a sua fama. O Malasartes já estava se cansando daquilo e pensando em ir embora dali. Num dia de muita chuva, pois São Pedro resolveu fazer uma grande lavagem no céu, Malasartes estava numa birosca tomando sua garapa pensando em realmente tomar um rumo na estrada, quando entrou no estabelecimento um rico coronel. A birosca estava cheia de gente, mas o coronel deu de cara com o Malasartes. Foi até a mesa onde o Pedro estava sentado, bateu na mesa, encheu os peitos e falou:
- Então, você que é o Pedro Malasartes?
Malasartes levantou o olho e respondeu:
- Sou eu, sim senhor!
O coronel fez uma cara feia e perguntou:
- Você é que engana todo mundo? Que é o rei da mentira?
- Que é isso, coronel. Quem sou eu...
O povo todo fala isso. Diz que essa é sua fama!
- Esse povo fala demais, seu coronel! Não vá atrás disso não!
O coronel se enfezou. Bateu de novo na mesa com a força de um trovão como da chuva que caia lá fora. Bateu e disse:
- Se o povo fala deve ter alguma verdade. A voz do povo é a voz de Deus.
- Se o senhor está dizendo...
- Pois então eu quero ver você contar uma mentira agora! E quero ver se alguém daqui vai acreditar!
As pessoas que estavam na birosca foram se aproximando para ver onde isso ia dar. O Malasartes levantou devagar, olhou o coronel por baixo dos olhos e disse:
- Não vai ser possível, seu coronel.
- Como não! Você não é o rei da mentira? O rei da enganação?
- Seu coronel olhe bem para mim. O senhor acha que eu, um amarelo sem eira nem beira, sem instrução... Um camarada que não pode nem com ele mesmo... O senhor acha que alguém vai acreditar numa mentira contada por mim? O senhor acha que eu tenho capacidade de fazer isso sozinho?
- Eu concordo com você! Acho meio difícil mesmo. Mas o povo diz que essa é sua fama.
- É verdade, mas eu não faço isso sozinho.
- Como assim?
- Eu preciso de ajuda.
- Ajuda de quem?
- Não é de quem! É do quê!
O povo todo que estava em volta espichou o ouvido para não perder uma palavra. O coronel arregalou o olho e perguntou:
- Do quê? Que história é essa, cabra?
- Eu leio essas mentiras nos meus livros da Mentira!
- Livros da Mentira?
- Uma coleção em quatro volumes!
- Quatro volumes para contar mentira?
- Uma mentira bem contada é mais difícil que uma verdade mal contada, né?!
O coronel amansou, mas quis saber:
- Isso é verdade. Mas onde estão esses livros?
- Estão lá na minha palhoça. Na minha biblioteca.
- E você tem uma biblioteca, amarelo?
- Tenho. São poucos livros, mas sem esses livros não dá para contar mentira...
O coronel insistiu:
- Então, faça lá uma enganação para gente vê se enrola alguém aqui da birosca!
- Coronel, o senhor não entendeu. Eu sou um pobre coitado. Sem os livros não vai dar jeito...
- Tem livro da enrolação?
- Uma coleção em dois volumes!
- Em dois volumes?
- Enrolar é mais fácil. Esse povo é muito abestaiado, coronel. Qualquer coisinha eles já estão se enrolando. Mas sem os livros que chance eu tenho.
O coronel ficou curioso:
- E esses livros são bons?
- São uma beleza, coronel! Encadernados com capa dura. As ilustrações são uma formosura. Ensinam direitinho.
O coronel estava cada vez mais curioso. A chuva caia forte lá fora.
- E onde estão esses livros?
- Lá na minha palhoça. Sem eles eu não sirvo pra nada.
- Vá pegar esses livros.
- Nessa chuva, coronel. Magrinho do jeito que eu sou. Posso pegar uma doença. Uma constipação. Posso até morrer.
- Eu lhe empresto meu casaco de couro e meu chapéu. – disse o coronel já tirando um bonito casaco e seu chapéu de vaqueiro e entregando a Malasartes.
O Pedro pegou aquilo e ficou contente, mas disse:
- Que beleza de casaco. E o chapéu é uma formosura. Mas a minha palhoça é tão longe e eu estou a pé. Vai molhar suas coisas todas, vai demorar tanto para eu voltar.
- Vá no meu cavalo. É um alazão branco que está bem aí na porta.
- No seu cavalo! Mas vai ser uma honra.
- Ande logo, amarelo!
O Malasartes fez um gesto com a mão chamando o coronel para perto e falou baixinho:
- Coronel, eu não tenho como sair daqui.
- E por que?
- A minha conta aqui na birosca está alta e eu não tenho dinheiro aqui comigo para pagar. Se eu sair, com essa fama que esse povo diz que eu tenho, o dono da birosca vai achar que eu estou querendo enganar ele.
- E como é que você pretendia pagar isso?
- Com serviço. Ia lavar um chão, lavar a louça, limpar as coisas...
O coronel se apromou e disse bem alto para todo mundo ouvir apontando para o Malasartes:
- A conta desse camarada eu pago. – olhou para o Pedro e apontou a porta com a cabeça – Agora vá logo, amarelo! Eu estou doido para ver esses livros.
O Malasartes encolheu os ombros:
- Se o coronel assim quer, assim feito será!
O Pedro Malasartes foi embora com o chapéu, o casaco de couro e o alazão do coronel. E nunca mais voltou.
O coronel teve que pagar a conta e diz que ele está esperando até hoje. O povo quando passa por ele, não deixa de dar um risinho lembrando da biblioteca do Malasartes.

Do livro "Malasartes, histórias de um camarada chamado Pedro", de Augusto Pessôa (Ed. Rocco, 2007)

Ouça a estória "O galo rouco e o rato esperto", da Cigana Contadora de Estórias!

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