segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Conto: "A quase morte de Zé Malandro"

Zé Malandro era boa pessoa, mas malandro que nem ele só. Em vez de trabalhar como todo mundo, preferia passar a vida zanzando e jogando baralho. Ou então ficava deitado na rede, folgado, tocando viola de papo para o ar. Por causa disso era pobre, pobre, pobre.
Certo dia, estava em casa preparando o jantar, um pouquinho de feijão e um pedaço de pão seco, quando bateram na porta. Era um viajante. O homem, muito velho, pedia um pouco de comida.
— Entre aí — disse Zé Malandro. — Onde um quase não come, dois quase não vão comer também.
Os dois riram.
Após o jantar, o viajante agradeceu muito e contou que tinha poderes mágicos.
— Você foi muito generoso repartindo a comida comigo — disse o velho viajante. — Em retribuição pode me fazer quatro pedidos. Por exemplo — sugeriu ele —, se quiser, pode pedir para ser protegido pelo resto da vida.
Zé Malandro pensou e disse:
— Prefiro ter o dom de ser invencível no baralho.
— Concedido — disse o velho. — Por exemplo, se quiser, pode pedir perdão para todos os seus pecados.
Zé Malandro pensou e disse:
— Prefiro ter uma figueira que quem subir nela só desce com minha ordem.
— Concedido — disse o velho. — Por exemplo, se quiser, pode pedir sua salvação.
Zé Malandro pensou e disse:
— Prefiro ter um banco que quem sentar nele só sai com minha ordem.
— Concedido — disse o velho. — Por exemplo, se quiser, pode pedir, quando morrer, para ir para o céu.
Zé Malandro pensou e disse:
— Prefiro ter um saco de pano que quem entrar dentro só sai se eu mandar.
O velho coçou a cabeça, concedeu, despediu-se e seguiu viagem.
A partir daquele dia, Zé Malandro plantou um pé de figo ao lado de sua casa e nunca mais se preocupou com nada vezes nada. Passava o dia inteiro ou deitado na rede de papo para o ar ou jogando baralho. Como ganhava todas, sempre tinha dinheiro para comprar comida, roupa e as coisas de casa. Era tudo de que o Zé precisava.
Mas o tempo é invisível. Passa dia e noite e ninguém vê.
A figueira virou uma árvore frondosa e Zé Malandro acabou ficando velho. Muito velho.
Certa noite, bateram na porta de sua casa. Era a Morte vestida com uma capa preta.
— Zé, pode se preparar. Sua hora chegou — disse ela segurando uma foice.
— Mas como! — exclamou ele espantado. — Já? Deve haver algum engano! Ainda me sinto tão bem!
A Morte não era de muita conversa.
— Se está pronto, vamos.
Zé Malandro baixou a cabeça.
— Posso fazer um último pedido? — perguntou ele com lágrimas nos olhos. — Quero comer um figo antes de morrer.
— Pode ser — disse a Morte. — Mas ande logo com isso.
— O problema — explicou Zé Malandro retorcendo o corpo de lado — é que estou meio velho e já não consigo trepar na árvore para pegar uma fruta.
E implorou:
— Por favor, dona Morte, faça isso por mim! É o último desejo de um pobre velho miserável raquítico esclerosado caindo aos pedaços!
A Morte resmungou mas aceitou. Subiu na árvore, arrancou um figo e lá ficou. Não conseguiu mais descer de jeito nenhum.
Zé Malandro deu risada, despediu-se e foi jogar baralho.
Deixou a Morte presa lá em cima, furiosa.
Com a Morte aprisionada no alto da figueira, a confusão na cidade onde Zé Malandro vivia foi geral. Como ninguém mais morria, os coveiros e fabricantes de caixões ficaram sem trabalho. Os médicos e hospitais perderam a clientela.
E, além disso, houve desemprego, pois as pessoas não se aposentavam mais nem cediam lugar para as outras mais jovens. E o pior: a população começou a aumentar muito.
— Isso é contra a natureza! — gritava a Morte revoltada, agarrada nos galhos da figueira. — Você tem que me deixar sair daqui!
E a Morte insistiu tanto, explicou tanto, argumentou tanto que Zé Malandro acabou cedendo.
— Mas só deixo você descer se me der mais sete anos de vida — disse ele.
A Morte não tinha outro jeito. Acabou concordando.
E assim, Zé Malandro continuou sua vidinha folgada de sempre, feliz da vida, jogando baralho, cada vez mais velho, cada vez mais invencível.
Sete anos passam depressa.
Certa noite, bateram na sua porta. Era um homem estranho, de cara feia, chapéu e paletó escuro.
— Zé, se prepare — disse o homem. — Sua hora chegou.
— Quem é você? — quis saber Zé Malandro.
— Sou o Diabo — respondeu o outro, tirando o chapéu e mostrando dois tristes chifres. — A Morte não quis vir de jeito nenhum, mas me mandou no lugar dela para buscar você.
— Mas como! — disse o Zé espantado. — Já? Deve haver algum engano!
O Diabo caiu na gargalhada.
— Não venha com essa conversa mole. Já estou avisado sobre você. Vamos embora agorinha mesmo. Ou vai me pedir pra subir na figueira? Nessa eu não caio!
Zé Malandro baixou a cabeça.
— Posso fazer um último pedido? — perguntou ele com lágrimas nos olhos. — É muito importante. É o último desejo de um pobre velho miserável raquítico esclerosado
caindo aos pedaços. Queria tomar um traguinho de cachaça antes de abotoar o paletó. Você me acompanha?
O Diabo lambeu os beiços.
— Até que não é má ideia!
— Sente-se aí enquanto eu pego os copos e a pinga — disse Zé Malandro, puxando o banquinho.
Dito e feito. O Diabo sentou e de lá não saiu mais.
— Me tira daqui! — gritou ele, assustado.
Zé Malandro deu risada, despediu-se e foi jogar baralho.
Com o Diabo preso no banquinho, acabaram-se os crimes na cidade. As cadeias ficaram vazias e os guardas, delegados, advogados e juízes preocupados em perder seus empregos. Além disso, como as pessoas agora só falavam a verdade, começou a haver muita confusão porque as verdades são muitas. Mas o pior não foi isso. Acontece que o Diabo passava o dia inteiro sentado no banquinho gritando, guinchando e falando os piores palavrões.
— Cala a boca! — dizia Zé Malandro.
— Minha mulher me mata! — berrava o Diabo furioso. — Saí para buscar você já faz mais de um ano e ainda não voltei pra casa! Quando eu voltar ela me arrebenta!
— Diga a ela que você ficou preso num banquinho!
— Ela não vai acreditar! Me solta, Zé Malandro, por favor, que a Diaba me quebra a cara!
Cansado daquela figura resmungando dia e noite dentro de casa, Zé Malandro acabou cedendo.
— Mas só deixo você sair se me der mais sete anos de vida — disse ele.
O Diabo não tinha outro jeito. Acabou concordando.
E assim, Zé Malandro continuou sua vidinha folgada de sempre, feliz da vida, jogando baralho, cada vez mais velho, cada vez mais invencível.
O tempo passou. No dia em que se completaram sete anos, Zé Malandro fechou a casa inteira bem fechada só deixando uma janelinha destrancada. No quarto, debaixo da janela, colocou seu saco de pano bem aberto.
Naquela mesma noite, o Diabo apareceu, ele e sua mulher.
A Diaba não tinha acreditado nem um pouco na história do banco e dessa vez quis vir junto com o marido.
O Diabo bateu na porta. Nada. Bateu de novo. Nada.
Acabou descobrindo a janelinha aberta e entrou com a mulher por ela.
Os dois foram parar dentro do saco de pano e lá ficaram.
Zé Malandro apareceu com um pedaço de pau na mão e começou a bater no saco.
— Socorro! — berrava o Diabo.
— Me acuda! — berrava a Diaba.
O casal dos infernos passou o ano inteirinho dentro do saco tomando pancada todo santo dia.
No fim, Zé Malandro cansou. Estava velho demais e até um pouco gagá. Soltou o casal de diabos que fugiu mancando apavorado. Dias depois, o Zé fechou os olhos e entregou a rapadura.
Foi direto para as profundezas do inferno.
Ao chegar lá bateu na porta. Apareceu o Diabo que, ao vê-lo, recuou assustado e começou a gritar:
— Vai embora! Aqui você não entra! Cai fora, Zé Malandro! No inferno você não fica!
Sem saber direito o que fazer, Zé Malandro foi até o céu e bateu na porta. Apareceu São Pedro. O santo fez cara feia.
— Você não quis ser protegido, não quis perdão para seus pecados, não quis a salvação nem vir para o céu. Agora, não tem jeito. Vai embora! No céu você não fica.

E assim, sem ter para onde ir, Zé Malandro achou melhor voltar para a Terra. Dizem que até hoje anda por aí, invencível, jogando seu baralhinho.

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