sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Conto: "Pequerrucha"

Minha sobrinha Camila adora essa estória. E é em homenagem ao seu aniversário de 7 anos, no próximo dia 21/02, que a publico como primeiro a li, há quase 30 anos, em um livrão maravilhoso - e pesado para uma criança - chamado O Grande Livro das Fábulas. Essa versão também foi publicada num lindo site, feito pela professora Vera Rossi, o Contando História. Recomendo a visita!
Pequerrucha
Era uma vez uma moça que gostava muito de flores. Chamava-se Vicentina. Passava todo o tempo livre cuidando do seu jardim, podando, adubando, regando as plantas. Mas vivia sozinha e triste, pois não tinha com quem conversar. Um dia, as flores, que ela tratava com tanto carinho, reuniram-se e decidiram ajudá-la. Então deixaram cair uma semente especial. Vicentina encontrou a sementinha e . . .
- Que semente estranha! Talvez dê uma linda flor . . . Vou plantá-la neste vaso.
A sementinha germinou. Devagarinho foram surgindo as folhas, primeiro uma depois outra e mais outra . . . Até que apareceu uma linda flor vermelha. Era uma tulipa, tão grande e bela que Vicentina ia admirá-la todos os dias. Quando a flor se abriu, no meio das pétalas apareceu uma menina loura e bem pequenina.
- Bom dia, ó Vicentina! Não fique tão espantada, por ser eu tão pequenina, Pequerrucha sou chamada. Se comigo for boazinha, sua filha eu serei. Junto de minha mãezinha para sempre ficarei.
- Oh! Como estou contente! - exclamou Vicentina. - Este é o mais belo presente que minhas flores poderiam me dar!
Vicentina levou Pequerrucha para casa. Com uma casca de noz fez um bercinho para ela e cobriu-a com uma pétala de rosa. O tempo foi passando, mas Pequerrucha não crescia nem um milímetro. Vicentina sentia-se feliz por ter em casa uma filha, embora pequenina. Pequerrucha tinha uma bela voz e sempre cantava para alegrar Vicentina.
Uma tarde, Pequerrucha estava cantando e um velho sapo a ouviu. Nessa mesma noite, o velho sapo entrou na casa de Vicentina. O vidro da janela estava quebrado e ele passou pelo buraco.
Parou um momento para olhar a menina, que dormia serenamente. Como era linda! O velho sapo não resistiu, raptou-a com berço e tudo. Quando o filho do sapo viu a menina, achou- a tão bonita que quis acordá-la imediatamente.
- Quero ver a cor dos olhos dela! - disse ele.
- Espere, meu filho. Não tenha pressa. Se você acordar já, ela pode se assustar e fugir correndo. Devemos fazer outra coisa:
Enquanto ela está dormindo, vamos colocar o berço, sobre uma folha bem grande, no meio do lago. Assim, ela não poderá escapar.
Quando Pequerrucha acordou, levou um susto enorme ao ver que estava no meio do lago, em cima de uma folha tão grande. O filho do sapo foi logo dizendo:
- Bom dia, menina. Amanhã você estará comigo.
- O que? Casar com um sapo? Nunca! - exclamou Pequerrucha aterrorizada. Depois, olhando ao redor, perguntou: - Onde estou? Onde está minha mãezinha?
- Não adianta gritar nem chorar! - disse o filho do sapo. - Está tudo decidido: você vai casar comigo.
Pequerrucha começou a chorar e os peixes do lago ficaram com pena dela. Resolveram salvá-la. Mas como? O único jeito era empurrar aquela folha para longe dos sapos. Assim, Pequerrucha afastou-se deles, mas também da casa de Vicentina.
A folha foi boiando sobre a água. Depois de muito tempo chegou à margem. Pequerrucha desceu e começou uma nova vida. Ela caminhava entre as plantas e flores. Era primavera, havia passarinhos cantando por perto. A menina sentia-se feliz.
Veio o verão, depois chegou o outono. As primeiras chuvas começaram a cair. Pequerrucha não tinha uma casa onde se abrigar. Procurava esconder-se embaixo das folhas maiores, mas acabava sempre ficando molhada. Choveu muito até que veio o inverno. Bastava um floco de neve para cobri-la inteirinha!
- Oh, como é duro ser tão pequenina e não ter onde morar! - pensava Pequerrucha, tremendo de frio.
Por isso resolveu deixar a floresta. Caminhou durante muito tempo. . .
Chegou a um campo onde havia umas hastes de capim e lá no meio uma estranha casinha. Pequerrucha bateu à porta.
- Entre! - disse o velho rato, dono da casa. - Oh, como você está gelada! Pode ficar morando comigo durante todo o inverno. Quero que me conte belas histórias!
- Não sei contar histórias, mas sei cantar - respondeu Pequerrucha. E começou:
Senhor rato hospitaleiro, desta casa cuidarei, sem descanso o dia inteiro. E cantigas cantarei.
Pequerrucha cantou várias canções para o velho rato. Sentado em sua cadeira, ele ouvia encantado. Pequerrucha ficou morando ali. O tempo passava depressa. Durante o dia tinha muito o que fazer: arrumava a casa, preparava o almoço, cuidava de tudo. De noite, alegrava o velho com suas canções. Ele estava tão contente com Pequerrucha, que não se cansava de elogiá-la:
- Você tem uma bela voz. Ficaria a vida ouvindo você cantar! Gosto tanto de música. . .
Uma noite, quando Pequerrucha parou de cantar, o rato falou:
- Tenho um vizinho que está procurando esposa. Ele é muito rico e de boa família. Seria um bom marido para você. Não quero forçá-la, mas é preciso pensar no futuro. Hoje ele virá me visitar.
Daí a pouco chegou o vizinho. Era uma toupeira elegante e distinto. Tinha o pelo negro e brilhante, mas detestava o sol. era tímido e não enxergava bem. Apesar disso, assim que viu Pequerrucha, achou-a linda e ficou apaixonado.
- Sou muito trabalhador - foi dizendo o toupeira - e tenho uma boa posição. Venha, vou mostrar-lhe minha casa, que é bem grande, cheia de galerias! Só é um pouco escura. . .
O toupeira prendeu na boca uma espécie de lanterna e entrou num buraco debaixo da terra. Foi mostrando a Pequerrucha os túneis que cavara, dizendo:
- Tudo isto é serviço meu, está vendo? Gosto de trabalhar. . .
- Não faço como esta andorinha - continuou o toupeira - que passou o verão voando e agora está aí, caída no chão, sem poder voar mais! Estragou o teto da minha galeria e não consegue sair daqui! Vai acabar morrendo de frio. Eu, ao contrário, sou previdente, estou sempre pensando no futuro.
Pequerrucha aproximou-se da andorinha e viu que ela ainda estava viva.
- Oh, pobrezinha! - exclamou. - Preciso fazer alguma coisa por você. Não posso deixá-la morrer de frio.
Pequerrucha acariciou a andorinha, pensando no que poderia fazer para salvá-la. Teve uma idéia e saiu depressa.
Logo Pequerrucha voltou, trazendo um grande punhado de algodão, o maior que pode carregar. Cobriu com ele o corpo da andorinha, dizendo:
- Assim, você não sentirá frio. Mais tarde voltarei para trazer comida.
- Muito obrigada! - disse a andorinha - Você está salvando a minha vida! Assim que eu recuperar as forças, vou levantar voo, em busca de lugares mais quentes, onde haja sol. . . Quando parti com minhas companheiras, para nossa longa viagem de outono, não sei o que aconteceu: caí ao solo e não pude mais voar! - Não consigo respirar, neste lugar sombrio - continuou a andorinha. - Falta-me o ar!
- Também não gosto daqui - disse Pequerrucha. - Mas o toupeira detesta a luz do sol. . .
- Assim que puder, sairei daqui - concluiu a andorinha, dormindo em seguida.
O inverno foi longo, mas quando chegou a primavera a andorinha estava pronta para partir.
- Venha comigo. Pequerrucha! Suba nas minhas costas, eu a levarei! - convidou a andorinha.
- Não fica bem - respondeu Pequerrucha. - O rato foi muito gentil comigo, abrigou-me durante todo o inverno. Agora, que é primavera, não posso abandoná-lo! Ele quer que eu me case com o toupeira. . .
- Tem razão, menina. . . Mas você não é como o toupeira. Não poderá viver sem tomar sol. Pense nisso!
E a andorinha levantou voo e partiu.
Pequerrucha pos-se a tecer seu vestido de noiva com os fios finíssimos que as aranhas faziam para ela. Passou o verão, veio o outono. Chegou o dia marcado para o casamento.
O toupeira, todo elegante, de botas e cartola, veio buscar a noiva.
- Bom dia, querida Pequerrucha. Hoje vamos nos casar. . . Este é um grande dia para mim! Se eu soubesse falar bem, faria um belo discurso!
- Oh, não é preciso! - respondeu Pequerrucha.
- Você está pronta? - perguntou o toupeira.
Pequerrucha ia responder, mas viu o sol, dourado e quente. . . Ficou parada, a admirá-lo.
- Você gosta do sol, não? - perguntou o toupeira. - Mas luz dele é forte demais, não a suporto! Prefiro viver no escuro, lá no fundo de minhas galerias. . . Vamos! Venha depressa. . .
Pequerrucha sentiu um aperto no coração. Não podia estar feliz, sabendo que ia morar a vida inteira debaixo da terra. . . Saiu correndo pelo campo para sentir o calor do sol pela última vez.
Mas, de repente, ouviu um bater de asas ali perto! Oh! Era a andorinha que ela salvara da morte no inverno! A andorinha pousou perto de pequerrucha e vendo que a menina estava chorando, perguntou o que era. Depois disse:
- Depressa, Pequerrucha, suba nas minhas costas. Ainda é tempo! Segure-se bem, eu a levarei para longe daqui!
Pequerrucha olhou ao redor. Disse adeus aos dois amigos, acenando com a mão. Depois, saltou para as costas da andorinha. . . e fez uma viagem maravilhosa para um país distante.
Era um lugar maravilhoso, onde cresciam muitas flores. Em cada uma delas morava um ser pequenino com asas. A andorinha colocou Pequerrucha na flor mais bela do jardim. Encantada com toda essa beleza que a rodeava, Pequerrucha começou a cantar:
"Mal acredito no que vejo e é tão grande a novidade, que outra vida não desejo, senão esta felicidade!"
Pouco depois, todos os habitantes dali rodearam Pequerrucha. O mais belo deles, o rei das flores, ofereceu-lhe uma coroa de ouro.
- Seja bem vinda! - disse ele. - Você será minha esposa. E como presente de casamento vou lhe dar duas asas transparentes, iguais às nossas. Eu tinha ouvido falar de você por uma fada, mas não sabia que cantava tão bem! Como é seu nome?
- Eu me chamo Pequerrucha, majestade.
- Vou lhe dar um novo nome. De hoje em diante você se chamará Maia e será a rainha das flores!
Pequerrucha, entre resplendores, como rainha foi coroada para reinar sobre as flores. Se numa noite enluarada ouvires canção que não sei, é ela que canta para o rei. . .


***

Conto de Hans Christian Andersen

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Conto: "O mistério das três estatuetas de ouro"

Depois de dar à luz meu caçulinha, Lucas, na última sexta-feira, dia 29/01, estou voltando, pouco a pouco, às minhas tarefas diárias. A recuperação de uma cesariana é tranquila, desde que sejam seguidas as orientações médicas. Cinco dias depois da cirurgia, sinto-me muito bem, mas acredito, como disse antes, que ainda vou levar um tempo para voltar a me apresentar como contadora de estórias.


Nesse meio tempo, enquanto aguardava a chegada do meu filhinho, encontrei uma estória muito legal, que trago hoje. É um conto de origem persa e fala de um desafio real. Interessante para audiências mais maduras, que podem compreender as suas alusões, que lembra um pouco a estória dos "Três Macacos Sábios". A adaptação e tradução são minhas.


O mistério das três estatuetas de ouro
Um rei chamado Amar Singha queria testar a inteligência de um rei vizinho, Rana Roy, e o discernimento do povo dele. Amar Singha enviou ao rei três estatuetas de ouro com a mesma aparência e o mesmo peso. O rei deveria descobrir qual delas era a mais valiosa.

Junto com sua corte, Rana Roy olhou bem as estatuetas, mas foi incapaz de ver a mínima diferença entre elas. Mesmo o mais sábio do seu reino não conseguia distinguir diferença alguma. Era deprimente para o rei pensar na desgraça de ter um reino onde ninguém era inteligente o suficiente para perceber a diferença entre as estranhas imagens, iguais em tudo, na aparência, tamanho e peso. O reino inteiro tentou descobrir o mistério, mas ninguém conseguiu.

Justamente quando eles estavam prestes a desistir, um jovem chamado Brajesh mandou uma mensagem da prisão onde ele estava. Disse que ele poderia descobrir a diferença se ele pudesse ver as estatuetas. Rana Roy mandou que o trouxessem ao palácio e mostrou as imagens a ele. Brajesh olhou-as muito cuidadosamente;

Depois de um tempo, ele notou que todas as três estatuetas tinham um pequeno buraco na orelha. Ele inseriu uma linha de prata bem fininha e descobriu que, na primeira estatueta, a linha saía pela boca. Na segunda estatueta, a linha saía pela outra orelha e, na terceira, saía pelo umbigo. Brajesh ficou pensando, pensando. Olhava as estatuetas e os lugares por onde a linha saía. Da orelha para a boca, da orelha para a outra orelha, da orelha para o umbigo. Por fim, um sorriso iluminou seu rosto. Achara a solução do mistério.

- Majestade, disse ele, eu acho que a solução desse quebra-cabeças está diante de nós como um livro aberto. A nós apenas cabe ler esse livro. Vossa Majestade vê, como cada pessoa é diferente de todas as outras, assim também são cada uma dessas estatuetas. A primeira nos lembra das pessoas que ouvem algo e se apressam em ir contar o que acabaram de saber. A segunda estatueta é como a pessoa em que a notícia entra por uma orelha e sai pela outra. A terceira, no entanto, é muito semelhante à pessoa que guarda para si mesma o que ouviu. Baseado nisso, Vossa Majestade é capaz de julgar o valor das estatuetas. Qual a mais preciosa?

O rei ficou contente com a solução do enigma, que logo apresentou ao colega que o tinha desafiado. Como prêmio por sua inteligência, Brajesh foi libertado da prisão e as três estatuetas podem ser vistas em lugar de honra no palácio do rei Rana Roy. Só não me perguntem onde ele fica...

Ouça a estória "O galo rouco e o rato esperto", da Cigana Contadora de Estórias!

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