segunda-feira, 24 de abril de 2017

A pedra na porta - conto marroquino

A pedra na porta - ilustração de Meredith Johnson
Era uma vez um homem que havia ganhado tanto dinheiro que nem sequer conseguia contar. Ele só queria proteger a si mesmo e a seu filho amado. Mas, infelizmente, todo o seu dinheiro não poderia evitar a mortalidade. O homem ficou gravemente doente e, quando compreendeu que iria morrer, chamou seu filho ao seu lado.

"Deixo-te uma fortuna", disse ele ao rapaz, "e você deve se proteger contra aqueles que não são verdadeiros. Quando você decidir que é hora de se casar, vá para o meu amigo mais velho e peça que ele encontre uma noiva. Ele vai encontrar a noiva que Deus escolheu para você. "

O jovem prometeu que faria o que seu pai pediu. Logo depois disso, seu pai morreu.

O tempo passou e assim o jovem começou a desejar o amor. E quando decidiu que queria se casar, cumpriu sua promessa e visitou o amigo de seu pai para buscar seu conselho. O amigo lhe disse que encontraria a noiva perfeita.

Poucas semanas se passaram até que o velho amigo de seu pai finalmente encontrou uma mulher bonita, sábia e confiável. O jovem estava muito feliz em ouvir isso, e então eles começaram a fazer arranjos para um grande casamento.

No dia anterior ao casamento, o amigo do pai disse para o jovem: "Para descobrir se Deus realmente escolheu esta mulher para você, você deve ir a seu quarto esta noite. Você encontrará uma pedra fora de sua porta. Se você puder mover a pedra, você saberá que ela é a escolhida. Se você não conseguir mover a pedra, você deve enviá-la de volta para casa. "

Naquela noite, o jovem foi até a porta da moça e, de dentro, ouviu uma voz cantando uma linda canção. Imediatamente ele soube que esta deve ser a mulher para ele, pois a canção soava como uma que ele lembrou de sua infância. Seu coração disparou de excitação quando ele espiou através da porta entreaberta e viu uma linda mulher vestida com vestes de seda. Ela era elegante e lembrou-lhe de sua falecida mãe. Ao lembrar-se da ternura que sentira nos braços de sua mãe, ele se abaixou para mover a pedra.

A pedra não era muito grande, mas quando ele tentou movê-la da porta, ele não conseguiu, nem mesmo uma polegada.

Ele soube então que esta noiva teria que voltar para sua família. Ele estava triste porque tinha tanta certeza de que ela era a única para ele.

E assim o amigo do seu pai arranjou uma nova moça. Mais uma vez, uma data de casamento foi estabelecida, e a segunda noiva chegou à casa. Mais uma vez o velho amigo disse ao jovem o que ele tinha que fazer: "Haverá uma pedra fora de sua porta, se você puder movê-la, você saberá que esta é a esposa que Deus escolheu para você".

Quando o jovem se aproximou da porta, mais uma vez ouviu a canção familiar, mas desta vez foi uma harpa a tocá-la. Quando ele olhou para o quarto, viu uma mulher tão bonita quanto a que veio antes dela. Seus dedos dançaram através das cordas da harpa, e quando ela começou a dançar, ele teve certeza de que ela era a noiva certa para ele.

Ele então se abaixou para mover a pedra. Porém, mais uma vez, ele não conseguiu movê-la nem uma polegada. Seu coração ficou pesado de tristeza, e novamente a noiva voltou para sua família.

Pela terceira vez, o amigo do pai arranjou uma noiva, embora agora o jovem estivesse desanimado. Ele sabia que aquela mulher seria linda, naturalmente, e naturalmente ela seria sábia e gentil. Disso ele estava certo. Mas e se ele não pudesse mover a pedra novamente? Deveria então viver para sempre sozinho?

Com esses pensamentos tristes no coração, ele caminhou lentamente em direção ao quarto da noiva. E, pela terceira vez, ouviu aquela canção de sua infância, a canção que lembrava todos os amigos que já conhecera, os dias em campos ensolarados, as noites sonhando sob as estrelas, subindo em árvores, nadando nos rios e dançando entre amigos. O quanto ele tinha desfrutado daqueles dias de infância. O quanto ele amava seus amigos. O quanto havia sido feliz.

E desta vez, quando olhou para dentro da sala, viu uma mulher vestida de camponesa, com os cabelos longos, escuros e macios como a seda. Seus olhos estavam iluminados por uma alegria interior, e ela costurava uma linda colcha enquanto cantava.

Enquanto ele ouvia, o jovem percebeu que as três noivas poderiam ter sido a mesma mulher - bonita, sábia, atraente e gentil, alguém para amar e alguém que seria sua companheira fiel.

Mas quando ele se abaixou para mover a pedra, mais uma vez ele não conseguiu movê-la nem uma só polegada.

Ele estava prestes a chorar quando de repente viu uma sombra passar pela porta, e ele ouviu uma voz gentil dizendo: "Deixe-me ajudá-lo." A mulher estendeu a mão em direção à pedra, junto com ele, e assim os dois conseguiram afastaram a pedra com facilidade.

O jovem soube então que finalmente havia encontrado a noiva que Deus havia escolhido para ele, e ela também soube que esse era o homem que Deus queria que ela amasse.

Mas eles também entenderam algo a mais: encontrar o ser amado, apenas, não era suficiente. Eles perceberam que deveriam sempre trabalhar juntos para mover as pedras que vez por outra bloqueiam as portas que levam a uma vida rica e feliz.

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Fonte: Tell me a story, by Amy Friedman and Meredith Johnson
Tradução e adaptação: Gabriela Kopinits

quinta-feira, 20 de abril de 2017

A lenda da Vitória-Régia

Conta a lenda que uma bela índia chamada Naiá apaixonou-se por Jaci (a Lua), que brilhava no céu a iluminar as noites. Nos contos dos pajés e caciques, Jaci de quando em quando descia à Terra para buscar alguma virgem e transformá-la em estrela do céu para lhe fazer companhia. Naiá, ouvindo aquilo, quis também virar estrela para brilhar ao lado de Jaci.

Durante o dia, bravos guerreiros tentavam cortejar Naiá, mas era tudo em vão, pois ela recusava todos os convites de casamento. E mal podia esperar a noite chegar, quando saía para admirar Jaci, que parecia ignorar a pobre Naiá. Mas ela esperava sua subida e sua descida no horizonte e, já quase de manhãzinha, saía correndo em sentido oposto ao Sol para tentar alcançar a Lua. Corria e corria até cair de cansaço no meio da mata. 

Vitória-Régia, de Eduardo Azevedo
Noite após noite, a tentativa de Naiá se repetia. Até que ela adoeceu. De tanto ser ignorada por Jaci, a moça começou a definhar. Mesmo doente, não havia uma noite que não fugisse para ir em busca da Lua. 

Numa dessas vezes, a índia caiu cansada à beira de um igarapé. Quando acordou, teve um susto e quase não acreditou: o reflexo da Lua nas águas claras do igarapé a fizeram exultar de felicidade! Finalmente ela estava ali, bem próxima de suas mãos. 

Naiá não teve dúvidas: mergulhou nas águas profundas e acabou se afogando. Jaci, vendo o sacrifício da índia, resolveu transformá-la numa estrela incomum. O destino de Naiá não estava no céu, mas nas águas, a refletir o clarão do luar. Naiá virou a Vitória Régia, a grande flor amazônica das águas calmas, a estrela das águas, tão linda quanto as estrelas do céu e com um perfume inconfundível. E que só abre suas pétalas ao luar. 

Fonte: UFMG
Ilustração: Eduardo Azevedo

terça-feira, 18 de abril de 2017

18 de abril – Dia Nacional do Livro Infantil


Gabriela Kopinits*

Viajar por outras terras, conhecer outras culturas e outros povos sem sair do lugar. Ir do Brasil à África em questão de segundos! Mergulhar bem lá no fundo do mar, dentro de um fantástico submarino com o Capitão Nemo e ver os peixes mais incríveis do oceano? E ainda bater um papo com um gigante e conhecer o magnífico país de Lilliput ou ainda dançar com a bela Titânia e suas fadas?
Quem não gostaria disso? Passear pelo mundo inteiro sem ter que gastar dinheiro, sem ter que pagar passagem?
Maluquice? Que nada! Magia e da boa. Basta pronunciar três palavrinhas: era uma vez...
A mais conhecida introdução de estórias, “Era uma vez...”, é a fórmula mágica para viagens fantásticas como essas e muitas outras narradas pelos nossos contadores de estórias, dentre os quais um dos maiores foi José (Renato) Bento Monteiro Lobato, o criador do Sítio do Picapau Amarelo.
A maior parte das crianças brasileiras certamente conhece personagens como a Emília, Narizinho, Pedrinho, o Visconde, dona Benta, tia Nastácia, o Burro Falante, a Cuca, o Saci e a Iara. Estes são alguns dos moradores do encantado sítio onde mil aventuras sem fim são possíveis de ser vividas. Afinal, em que outro lugar do mundo se poderiam conhecer o Barão de Münchausen, o maior cascateiro da História, o temível Minotauro, um Centauro de verdade e ainda o grande filósofo Sócrates? Em que outro lugar poderia uma espiga de milho virar um visconde, ou uma boneca de pano falar e ainda virar marquesa? E uma menina casar com um príncipe peixe? Ou um jacaré ser, na verdade, uma terrível feiticeira?
A mais importante – e talvez a mais brasileira - das obras infantis já escritas, o Sítio do Picapau Amarelo nasceu da imaginação do neto do Visconde de Tremembé, batizado José Renato, nascido em Taubaté em 18 de abril de 1882 e falecido em 04 de julho de 1948.
Formado em Direito, a primeira ocupação de Monteiro Lobato foi como promotor. Quando herda do nobre avô a fazenda São José do Buquira (onde hoje é o Museu Monteiro Lobato, no município que leva seu nome), Lobato decide mudar de vida (e da pequena Areias onde exercia sua profissão) e vai com a mulher, Maria Pureza da Natividade de Souza e Castro (Purezinha) e os dois filhos Marta e Edgard para Buquira.
A nova vida de fazendeiro não foi de todo ruim e, se não deu para fazer fortuna, foi lá que lhe nasceram os filhos Guilherme e Rute e onde Monteiro Lobato (que já escrevia artigos e contos desde a época da faculdade) encontrou inspiração para criar seus personagens mais famosos, começando com “A menina do narizinho arrebitado”, obra publicada em 1921.
Mas o maior feito de Lobato, além da criação de uma literatura infantil largamente inspirada no folclore brasileiro (antes as obras eram meras traduções ou adaptações de estórias vindas principalmente da Europa), foi a de ter fundado a primeira editora brasileira, a Monteiro Lobato e Cia. Vou contar essa história: em 1918, ele vendeu a Fazenda Buquira e comprou a Revista do Brasil, que deu espaço a autores nacionais, como Godofredo Rangel (autor de “Um passeio à casa de Papai Noel” e “Histórias do tempo do onça”, entre outros), além dele mesmo, que publicou por ela “Urupês”, uma série de 14 contos que denunciam o descaso do governo com as dificuldades do produtor rural. É em Urupês que ele apresenta o personagem Jeca Tatu, símbolo do caipira sofredor e depois personagem de campanha sanitarista do Instituto Oswaldo Cruz.
Através da sua editora, Lobato deu oportunidade a autores que não conseguiam publicar suas obras por serem ainda desconhecidos. Disse ele: “Fui um editor revolucionário. Abri as portas aos novos. Era uma grande recomendação a chegada dum autor totalmente desconhecido – eu lhe examinava a obra com mais interesse. Nosso gosto era lançar nomes novos, exatamente o contrário dos velhos editores que só queriam saber dos “consagrados”.
Foi nessa época em que o visionário Monteiro Lobato teve uma ideia genial para vender livros. O problema principal era quanto à distribuição deles e Lobato achava que livro era que nem sobremesa, devia ser colocado debaixo do nariz das pessoas. O pesquisador Laurence Hallewell registra em “O livro no Brasil: sua história” (São Paulo: EdUSP, 2005, p. 320) que ele “escreveu para todos os agentes postais do Brasil (1300 ao todo), solicitando nomes e endereços de bancas de jornais, papelarias, armazéns e farmácias interessadas em vender livros”, dando início a uma rede de quase dois mil distribuidores de livros pelo país.
Infelizmente, por problemas financeiros, o empreendimento acabou sendo vendido, em 1925, a Assis Chateaubriand, mas um tempo depois, o inquieto empreendedor fundou com apoio de Octalles Marcondes Ferreira (que havia sido seu auxiliar no projeto anterior da Editora Monteiro Lobato) a Companhia Editora Nacional. Foi através dela que foi publicado o primeiro livro escrito no Brasil no século XVI, a obra “Meu cativeiro entre os selvagens brasileiros”, do aventureiro e mercenário alemão Hans Staden, que passou nove meses refém dos índios tupinambás.
A companhia, no entanto, não ficou muito tempo nas mãos de Lobato, que teve que vender suas ações ao sócio após grande prejuízo das ações investidas na Bolsa de Nova Iorque, época em que ele vivia nos Estados Unidos como adido comercial do governo brasileiro e em que escreveu as outras obras que iriam virar as aventuras do Sítio do Picapau Amarelo, reunidas no livro “Reinações de Narizinho” (1931).
De volta a São Paulo, focou seu interesse no petróleo e fundou várias companhias petrolíferas, sempre defendendo que a riqueza do petróleo brasileiro poderia melhorar a vida do povo, numa luta renhida contra interesses políticos e econômicos que o deixaram pobre e doente. Acusando o governo Vargas de administrar o país contra os interesses do brasileiro e criticando acidamente o então Conselho Nacional do Petróleo, foi condenado à prisão, ficando de março a junho de 1941 no Presídio Tiradentes e saindo de lá um homem ainda mais indignado contra a repressão aos que defendiam os direitos do povo.
Sempre usando a ferina e arguta pena, Lobato seguiu lutando pelo que acreditava, apoiou o Comunismo e defendeu até o fim o petróleo como bem de todos. O corpo, cansado das longas batalhas e da injustiça social e política, entrou em colapso e o grande escritor e nacionalista acabou deixando a vida terrena na madrugada do dia 04 de julho de 1948, aos 66 anos.
Sua vida, por si só, já é obra digna de aprofundado estudo e admiração, bem como sua produção literária, principalmente a que vem maravilhando tantas e tantas crianças há quase cem anos. Por isso, mui merecidamente, em 08 de janeiro de 2002 o então presidente Fernando Henrique Cardoso sancionou a Lei nº 10.402/02, criando o Dia Nacional do Livro Infantil, “a ser comemorado, anualmente, no dia 18 de abril, data natalícia do escritor Monteiro Lobato”. Viva, pois, Monteiro Lobato!


*Gabriela Kopinits é jornalista, escritora e contadora de estórias.

Imagem: Site Ceuma

segunda-feira, 20 de março de 2017

20 de março – Dia Mundial do Contador de Estórias


Por Gabriela Kopinits

Era uma vez... Palavras mágicas que nos levam a lugares encantados, principalmente em nossa infância. São também o abre-te-sésamo das maravilhas de todo contador de estórias. São essas três palavrinhas que avisam ao expectador que lá vem magia e das boas. É só sentar, apurar os ouvidos e abrir os olhos, especialmente os da mente, e se permitir viajar.
Para celebrar essa, que é uma das artes mais antigas da humanidade, arte que já nasce com a gente (mesmo sem a gente se dar conta), há muito tempo atrás, lá pelos idos de 1991, um grupo de contadores de estórias da Suécia achou que seria legal promover um dia todinho de contação de estórias. Criaram um evento chamado "Alla berättares dag" (All storytellers day – dia de todos os contadores de estórias) que foi realizado no dia 20 de março, data que marca também o equinócio da primavera no Hemisfério Norte (outono para nós), estação em que a Natureza nos encanta com a prodigalidade de suas flores e perfumes.
A ideia ganhou força e se espalhou para outros países da Europa e das Américas. Em 1997, contadores de estórias em Perth, na Austrália, organizaram um festival de cinco dias com muitas estórias. Aqui no Brasil, as comemorações ainda são tímidas, alguns poucos estados, como o Distrito Federal, promovem sessões alusivas à data. Em Pernambuco, não achei divulgação de nenhum evento relacionado ao dia. No entanto, se o Congresso Nacional aprovar, isso pode mudar.
Desde 2012 tramita um projeto de lei (o PL 4005/2012), da deputada federal Erika Kokay (PT/DF), para a criação da Semana Nacional dos Contadores de Estória. “A contação de estória é importante para resgatar a identidade nacional”, disse a deputada.
Pelo seu projeto, as escolas públicas de educação básica deverão ter uma semana inteira de programações culturais destinadas a promover as manifestações orais, incluindo poesia, estórias e músicas. O acesso aos bens culturais é ainda extremamente modesto para larga parcela da população brasileira”, disse a deputada, que ressaltou a importância da preservação da tradição oral para a preservação da cultura. “O conhecimento e a vivência da cultura são elementos fundamentais para assegurar a identidade de uma nação. Trata-se de um direito de cidadania e de fator essencial na vida de todo ser humano”, acrescentou a parlamentar, defendendo ainda que a todos deve ser garantido o acesso ao que ela chama de “patrimônio cultural historicamente construído”.
O texto do PL - desde dezembro aguardando designação de relator na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara dos Deputados - está no site da entidade. Vale a pena ler até porque se trata de um importante instrumento na educação das crianças do nosso país. Nele, vemos os principais objetivos para sua criação, que são “disseminar informações sobre o patrimônio cultural imaterial brasileiro; discutir formas de democratização do acesso aos bens culturais imateriais; valorizar a diversidade cultural do povo brasileiro, contribuindo para a difusão das manifestações verbais, poéticas, literárias, musicais e outras modalidades de manifestações artísticas e culturais do povo brasileiro; estimular o debate de ações nas áreas da cultura; e contribuir para a formação de pessoal qualificado neste tema”.
Como contadora de estórias já há 17 anos, digo que só a apresentação desse projeto de lei já é um grande avanço para nós, artistas que ainda não tiveram seu lugar, enquanto profissionais, corretamente estabelecido ou seu valor devidamente reconhecido, até em questão de remuneração.
Estamos no limbo entre literatura e artes cênicas, quando deveríamos ser um amálgama dos dois. O contador de estórias bebe das duas fontes: busca sua inspiração principalmente na literatura e usa das artes da encenação para sua apresentação. Com as discussões que estão sendo promovidas em torno desse projeto de lei, estaremos certamente apontando balizas mais claras para nos colocar enquanto profissionais, ajudar a regulamentar a nossa profissão e, claro, finalmente nos dar um lugar ao sol.
E viva o contador de estórias!

*Gabriela Kopinits é jornalista, escritora e contadora de estórias, autora do livro “Era uma vez...” pela Cepe Editora.




segunda-feira, 6 de março de 2017

‘Domingo no Museu’ especial com a Cigana Contadora de Estórias


]No próximo dia 12 de março será comemorado o aniversário de Olinda e Recife. Para marcar esse dia tão especial, a Cepe Editora vai promover mais uma edição do seu ‘Domingo no Museu’, desta vez com a participação da Cigana Contadora de Estórias.
Personagem da jornalista e escritora carioca Gabriela Kopinits, autora do livro infantil “Era uma vez... estórias de uma contadora de estórias” (Cepe, 2014), a Cigana vai contar as suas estórias e a do livro “O computador que queria ser gente”, de Homero Fonseca, também da Cepe Editora. “Comemorar o aniversário de duas das cidades que mais amo contando estórias é bom demais”, diz Gabriela. “Meu projeto de conclusão de curso da faculdade de Jornalismo foi justamente em cima das histórias do Recife, então vou estar num momento muito especial, devolvendo à cidade o carinho com que fui acolhida aqui”, completa.
A Cigana Contadora de Estórias - Foto: Victor Vargas/Guanabara Comunicação
Além das estórias da Cigana e de Homero Fonseca, a programação inclui show com o mágico Rodrigo Lima, food trucks e food bikes e muitas brincadeiras para a criançada.
Anote na sua agenda: o ‘Domingo no Museu’ acontece no dia 12 de março, a partir das 9h da manhã, no Museu do Estado de Pernambuco, que fica na Av. Rui Barbosa nº 960, no bairro das Graças, no Recife. A entrada é franca.

Guanabara Comunicação
Foto: Victor Vargas

sábado, 4 de março de 2017

Homenagem à Cigana no Dia Internacional da Mulher


Olha só que felicidade! No próximo dia 7, a Cigana Contadora de Estórias vai receber uma tremenda honra da Loja Maçônica Terra Prometida nº 63, lá em Caruaru, na sessão solene alusiva ao Dia da Mulher. O convite veio do presidente Armando Jose Lima, companheiro de muitos eventos na nossa Capital do Agreste.

Fiquei muito feliz com essa homenagem, ainda mais vinda de uma entidade que tem prestado lindos serviços à comunidade, como a Festa das Crianças, de que participei nos últimos dois anos, contando as minhas estórias.
Deus os abençoe e obrigada, muito obrigada pela honraria!

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Conto: "A cidade dos poços" - Jorge Bucay

"Esta história representa para mim o símbolo da corrente que une as pessoas através da sabedoria dos contos. Contou-ma uma paciente que a tinha ouvido, por sua vez, da boca de um ser maravilhoso, o padre crioulo Mamerto Menapace. Assim como a reproduzo agora, ofereci-a uma noite a Marce e a Paula."

Aquela cidade não era habitada por pessoas, como todas as outras cidades do planeta.
Aquela cidade era habitada por poços. Poços vivos… mas afinal poços.
Os poços distinguiam-se entre si não somente pelo lugar onde estavam escavados, mas também pelo parapeito (a abertura que os ligava ao exterior).
Havia poços ricos e ostensivos com parapeitos de mármore e metais preciosos; poços humildes de tijolo e madeira, e outros mais pobres, simples buracos rasos que se abriam na terra.
A comunicação entre os habitantes da cidade fazia-se de parapeito em parapeito, e as notícias corriam rapidamente de ponta a ponta do povoado.
Um dia, chegou à cidade uma «moda» que certamente tinha nascido nalgum pequeno povoado humano.
A nova ideia assinalava que qualquer ser vivo que se prezasse deveria cuidar muito mais do interior do que do exterior. O importante não era o superficial, mas o conteúdo.
Foi assim que os poços começaram a encher-se de coisas.
Alguns enchiam-se de jóias, moedas de ouro e pedras preciosas. Outros, mais práticos, encheram-se de electrodomésticos e aparelhos mecânicos. Outros ainda optaram pela arte, e foram-se enchendo de pinturas, pianos de cauda e sofisticadas esculturas pós-modernas. Finalmente, os intelectuais encheram-se de livros, de manifestos ideológicos e de revistas especializadas.
O tempo passou.
A maioria dos poços encheu-se a tal ponto que já não podia conter mais nada.
Os poços não eram todos iguais, por isso, embora alguns se tenham conformado, outros pensaram no que teriam de fazer para continuar a meter coisas no seu interior…
Um deles foi o primeiro. Em vez de apertar o conteúdo, lembrou-se de aumentar a sua capacidade alargando-se.
Não passou muito tempo até que a ideia começasse a ser imitada. Todos os poços utilizavam grande parte das suas energias a alargar-se para criarem mais espaço no seu interior. Um poço, pequeno e afastado do centro da cidade, começou a ver os seus colegas que se alargavam desmedidamente. Ele pensou que se continuassem a alargar-se daquela maneira, dentro em pouco confundir-se-iam os parapeitos dos vários poços e cada um perderia a sua identidade…
Talvez a partir dessa ideia, ocorreu-lhe que outra maneira de aumentar a sua capacidade seria crescer, mas não em largura, antes em profundidade. Fazer-se mais fundo em vez de mais largo. Depressa se deu conta de que tudo o que tinha dentro dele lhe impedia a tarefa de aprofundar. Se quisesse ser mais profundo, seria necessário esvaziar-se de todo o conteúdo…
A princípio teve medo do vazio. Mas, quando viu que não havia outra possibilidade, depressa meteu mãos à obra.
Vazio de posses, o poço começou a tornar-se profundo, enquanto os outros se apoderavam das coisas das quais ele se tinha despojado…
Um dia, algo surpreendeu o poço que crescia para dentro. Dentro, muito no interior e muito no fundo… encontrou água!
Nunca antes nenhum outro poço tinha encontrado água.
O poço venceu a sua surpresa e começou a brincar com a água do fundo, humedecendo as suas paredes, salpicando o seu parapeito e, por último, atirando a água para fora.
A cidade nunca tinha sido regada a não ser pela chuva, que na verdade era bastante escassa. Por isso, a terra que estava à volta do poço, revitalizada pela água, começou a despertar.
As sementes das suas entranhas brotaram em forma de erva, de trevos, de flores e de hastezinhas delicadas que depois se transformaram em árvores…
A vida explodiu em cores à volta do poço afastado, ao qual começaram a chamar «o Vergel».
Todos lhe perguntavam como tinha conseguido aquele milagre.
— Não é nenhum milagre — respondeu o Vergel. — Deve procurar-se no interior, até ao fundo.
Muitos quiseram seguir o exemplo do Vergel, mas aborreceram-se da ideia quando se deram conta de que para serem mais profundos, se tinham de esvaziar. Continuaram a encher-se cada vez mais de coisas…
No outro extremo da cidade, outro poço decidiu correr também o risco de se esvaziar…
E também começou a escavar…
E também chegou à água…
E também salpicou até ao exterior criando um segundo oásis verde no povoado…
— Que vais fazer quando a água acabar? — perguntavam-lhe.
— Não sei o que se passará — respondia ele. — Mas, por agora, quanto mais água tiro, mais água há.
Passaram-se uns meses antes da grande descoberta.
Um dia, quase por acaso, os dois poços deram-se conta de que a água que tinham encontrado no fundo de si próprios era a mesma…
Que o mesmo rio subterrâneo que passava por um inundava a profundidade do outro.
Deram-se conta de que se abria para eles uma vida nova.
Não somente podiam comunicar um com o outro de parapeito em parapeito, superficialmente, como todos os outros, mas a busca também os tinha feito descobrir um novo e secreto ponto de contacto.
Tinham descoberto a comunicação profunda que somente conseguem aqueles que têm a coragem de se esvaziar de conteúdos e procurar no fundo do seu ser o que têm para dar…
Jorge Bucay Contos para pensar - Cascais, Editora Pergaminho, 2004

Ouça a estória "O galo rouco e o rato esperto", da Cigana Contadora de Estórias!

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Apresentações de contadores de estórias

Palavra Cantada - O rato
Clara Haddad - O coelho e o baobá

Cia Ópera na Mala - A sopa de pedras do Pedro

Cia Ópera na Mala - Pedro Malazartes e o pássaro raro

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