quarta-feira, 17 de julho de 2019

Conto: "Em busca dos óculos dourados"

Este delicioso conto veio da revista StoryBox, da editora francesa Bayard, voltada para crianças. A autoria é de Karine Dupont-Belrhali, com ilustrações de Judith Gueyfier. A tradução e adaptação é desta contadora de estórias 😊

"Todo dia pela manhã, Aisha e suas amigas iam ao rio lavar roupa. 
Elas estendiam tudo para secar e então pulavam e brincavam na água.
Os macacos em cima das árvores comiam amendoim e observavam as meninas. 
Todo dia pela manhã, Aisha passava pela escola. 
Ela sempre olhava pela janela e via o professor usando seus óculos dourados.
Ele lia em voz alta as palavras que tinha escrito no quadro. 
Todos os meninos prestavam atenção nele.
Aisha tentava ler mas ela só conhecia algumas letras.
"T... T... T..."
Na aldeia de Aisha, as meninas não iam para a escola. Era assim que era.
Então um dia, depois da sesta, Aisha ouviu uma voz gritando:
"Socorro, ladrão! Alguém roubou meus óculos dourados!"
Era a voz do professor.
Os aldeões amontoavam-se ao seu redor.
Ele estava muito chateado.
"Eu não posso ficar sem meus óculos! Vão para casa, meninos, a escola está fechada. Ohhh... meus óculos preciosos! Eu darei a quem achá-los o que essa pessoa quiser".
"Pobre professor", pensou Aisha. "Eu vou ajudá-lo a encontrar seus óculos..."
Aisha perguntou, "Onde o senhor deixou seus óculos, professor?"
O professor se encaminhou para sua mesa.
"Eles estavam aqui antes de eu tirar minha soneca!"
"Olhe! O ladrão deixou marcas de mão!", disse Aisha. "Isso vai nos ajudar a encontrar quem roubou seus óculos!"
De repente, ela percebeu algo.
"Amit!", ela chamou um menino. "Você pegou os óculos durante a sesta!"
"Hmmm... Amit está sempre pregando peças!", disse o professor.
"Nao fui eu!", disse Amit.
"Eu pus minhas mãos na mesa mas não roubei nada! Eu estava ocupado durante a sesta!"
"Verdade?", perguntou Aisha. "Ocupado fazendo o quê?"
Amit se debruçou na janela e apontou.
"Eu estava ajudando meu pai a pintar seu barco!"
"Obrigado, filho!", disse o pai de Amit.
"Ok, você não é o ladrão", disse Aisha. "Mas talvez você possa me ajudar... De quem é este lenço?"
"É da Goldie!", disse Amit. "Ela vem limpar o quadro-negro todo dia".
"Goldie", pensou Aisha. "Ela adora tudo que brilha feito ouro! Talvez ela tenha pego os óculos do professor..."
"La está ela!", gritaram os meninos.
Amit disse, "Goldie, onde você estava durante a sesta?"
"Eu tive que ir ao rio", disse Goldie. "Eu tirei meu lenço para que limpar o quadro, mas precisei de mais água. O rio parecia tão fresquinho e limpo que não resisti e dei um mergulho nele!"
Ela deu uma torcida no cabelo ainda pingando água.

"Ela está dizendo a verdade, ela não estava aqui!", disse Aisha.
"Ei, olhem! Uma trilha de migalhas! Vamos segui-la!"
A trilha continuava bem pelo meio da aldeia e terminava na padaria.
Amit disse para Aisha, "Você acha que foi a padeira?"
"Ela é uma mulher bem idosa", disse Aisha. "Ela provavelmente precisa de óculos!"
A padeira nem prestou atenção nas crianças. Ela apenas continuava mexendo sua mistura para bolo.
Aisha mordiscou um biscoito crocante e disse:
"Com licença! A senhora entregou bolos na escola no horário da sesta?"
A padeira se virou e disse, "Eu subi a colina para a cidade nesta hora. Fui comprar açúcar. Vejam, o motor da minha motocicleta ainda está quente! Agora, deixem-me continuar meu trabalho. Ainda tenho que assar esses bolos!"
Aisha voltou para a escola se sentindo desapontada.
O professor ainda estava na sala de aula.
"Meus óculos, meus óculos preciosos...", lamentava ele.
"O senhor aceita um amendoim, professor?", Aisha ofereceu.
"Obrigado, mas eu nunca como amendoim", disse ele.
"Amendoins!", berrou Aisha. "Claro! Eu sei onde seus óculos estão, professor!"
Aisha correu para o rio. Ela subiu no galho mais alto de uma árvore. Rishi, um macaco já idoso, estava abrindo a casca de um amendoim. No nariz dele estavam... os óculos! Oba!
Aisha adorava Rishi. 
Ela falou suavemente com ele, "Você pode me devolver os óculos? O professor precisa deles".
Ela os pegou e Rishi gentilmente deu tapinhas na sua cabeça.
"Obrigada, querido Rishi!", disse Aisha, sorridente.
Ela levou os óculos dourados para o professor.
"Muito bem!", disseram os aldeões.
O professor disse, "Muito obrigado, minha jovem! Como você encontrou o ladrão?"
Aisha explicou, "Eu vejo Rishi comendo amendoins no rio todo dia. Havia alguns sobre sua mesa, professor! Rishi é muito curioso. Ele deve ter descido pela janela da escola. Quando viu seus brilhantes óculos dourados, ele os pegou!"
O professor sorria feliz. "Diga-me o que quer que eu te darei".
Aisha sussurrou em seu ouvido.
"Este é um presente muito peculiar", disse o professor. "Mas... porque não?"

No próximo dia, Aisha e as outras meninas se juntaram aos meninos na escola.
O professor usava seus óculos dourados e lia em voz alta as palavras que tinha escrito no quadro.
"Quem quer ler agora?", ele perguntou.
Aisha levantou a mão.
"Eu!", disse ela.
Ela e as outras meninas estavam muito felizes de estarem na escola!
FIM"


segunda-feira, 1 de julho de 2019

Conto: "O camponês que vendia pensamentos"

Este conto, traduzido do espanhol por mim, foi escrito por Reine Cioulachtjian e faz parte do livro "Cuentos y leyendas de los armenios". A ilustração é de Catharine Chardonnay.

"Era uma vez um camponês cujo único bem era uma vaca, mas ela não lhe dava mais leite. Ele decidiu, então, vendê-la no mercado da cidade, onde recebeu cem rublos por ela.
Quando voltou para casa, encontrou um homem idoso que anunciava em voz alta:
- Vendo pensamentos! Pensamentos! Excelentes pensamentos!
- Que pensamentos são esses, irmão? perguntou o camponês, perplexo.
- Pensamentos de ouro, que ajudarão você a fazer o seu caminho nesta vida, que irão protegê-lo de infortúnios e até mesmo torná-lo rico. 
O camponês sempre estivera convencido de que um dia a sorte sorriria para ele e que, de repente, ficaria rico, como nas histórias. E ele pensou que o homem que vendia pensamentos era a oportunidade que ele não deveria deixar escapar.
-Quanto custa um desses pensamentos?
-Como vejo que você é pobre, eu vou lhe vender um bem barato: cem rublos.
-Muito bem. Aqui estão os cem rublos. Dê-me o pensamento.
E, sem hesitar por um momento, o camponês deu ao velho todo o dinheiro que recebera com a venda da vaca. O velho colocou o dinheiro no bolso e sussurrou ao seu ouvido: "Você colherá o que plantou. Esse é o pensamento ". E então desapareceu.
“O que será que ele quis dizer?”, o camponês se perguntou. "Eu conheço todos os provérbios, conselhos e ditos que existem, mas nunca me ocorreu que eu poderia ganhar dinheiro com qualquer um deles. Eu vou tentar vender para outra pessoa ". E começou a gritar:
- Vendo pensamentos, pensamentos valiosos! Pensamentos de ouro!
Mas ninguém prestou atenção nele. Alguns até o tomaram como um louco e riram dele sem nenhum pudor:
- Você viu? Como ele acha que tem muitos pensamentos, ele quer nos vender um pouco.
- Ei, você, saco de maldades! Se tem tantos pensamentos valiosos, por que é pobre?
Mas o camponês não perdeu a esperança e continuou gritando pelas ruas:
- Vendo pensamentos! Pensamentos valiosos! Pensamentos de ouro!
Então ele acabou chegando aos portões do palácio real. O rei, divertido, viu de sua sacada como aquele camponês ingênuo tentava em vão vender pensamentos aos cidadãos sabidos. Ele sentiu pena dele e o chamou.
- Diga-me, amigo, como é esse pensamento que você vende?
-É um pensamento muito útil, majestade.
-E quanto custa?
- Cem rublos.
- Tome cem rublos e me dê esse pensamento aqui, disse o rei.
O camponês guardou o dinheiro e disse ao rei cheio de mistério:
- Você colherá o que plantou. Esse é o pensamento. E viva o rei!
- Como? exclamou este. Você vai ganhar cem rublos por cinco míseras palavras?
- Que viva o rei! Eu, que sou muito pobre, paguei por esta simples frase cem rublos. Vossa Majestade teria que pagar mil.
-Diga-me, e por quê?
- Dirijo a vida de uma única família, majestade, enquanto Vossa Alteza dirige a vida de um país inteiro. É por isso que precisa de um pensamento tão vasto quanto o mar.
- Parece justo para mim", disse o rei. - Governar requer muito pensamento e muita sabedoria. Mas o que você me vendeu representa apenas uma pequena gota de sabedoria ...
-Muito certo, meu rei. Mas o mar é feito de gotas. Um homem inteligente deve estar sempre aprendendo. Os mares terminam em algum lugar, eles têm um limite. A sabedoria é ilimitada.
- Que tenhas uma vida longa, camponês. Você diz coisas muito sábias. Agora volte para sua casa, mas venha me ver de vez em quando. Conversaremos e recompensarei seu sábios conselhos.
O rei apreciou muito as palavras do camponês e frequentemente as dizia aos seus cortesões e seus servos. Certa manhã, quando seu barbeiro ia aparar-lhe a barba, o rei disse num tom muito sério:
- Você colherá o que você plantou. Compreende bem o significado dessas palavras, barbeiro: "Você colherá o que plantou".
Com essas palavras, o barbeiro começou a tremer. Sua longa e afiada navalha caiu de suas mãos e ele caiu de joelhos diante do rei, implorando:
-Perdão, meu rei, perdoe o seu escravo. Sou inocente. Eles me forçaram ... Eu juro que não queria fazer isso ...
O rei ficou petrificado. Levantou-se e sacudiu o barbeiro.
-O que eles forçaram você a fazer? E quem? Fala!
-Eles queriam que eu cortasse sua garganta ... Mas eu não ia podia fazer isso.
Foi assim que o rei descobriu a conspiração que havia sido armada contra sua vida. Os traidores receberam a punição merecida. Quanto ao camponês que vendia pensamentos, toda vez que ele se apresentava no palácio, o rei o recebia gentilmente e sempre o recompensava.
- Você salvou minha vida, sábio camponês, disse ele.
A partir daquele dia, os provérbios populares foram considerados pérolas de sabedoria e desde então passam de boca em boca e de geração em geração para que cheguem intactos aos nossos filhos."

terça-feira, 25 de junho de 2019

Conto: "O ladrão de damascos"

Ainda maravilhada com o folclore armênio, trago outro belo conto - este, sobre um vizinho invejoso que teve um merecido castigo. Esta versão eu li no site de Pepe Marin Gil e traduzi do espanhol para você. A ilustração é de Catharine Chardonnay para o livro de Reine Cioulachtjian, "Cuentos y leyendas de los armenios", onde li outra bela versão desse conto.

"Nos arredores de uma cidade vivia uma pobre viúva que tinha apenas um filho. Ela o educou em respeito aos anciãos e aos costumes de seu povo. Mãe e filho viviam do que o pequeno jardim produzia, que cultivavam com as próprias mãos e com muito amor.

No meio daquele jardim havia uma linda árvore de damasco muito velha. Seus frutos tinham um sabor requintado, com aromas de sol e mel. Sua polpa macia se desmanchava ao contato com os dentes, liberando um delicado e perfumado suco que enchia a boca com a sua doçura. Mãe e filho vendiam esses damascos, chamados "os seios de Semiramis", a pessoas ricas que pagavam um bom dinheiro por eles.

Um vizinho, invejoso, propusera várias vezes à viúva, comprar-lhe o jardim, mas ela sempre recusara. Irritado, o homem propôs forçá-la a vendê-lo. Todas as noites pulava o muro que os separava, subia na árvore e pegava uma grande quantidade de damascos, de modo que no dia seguinte a mãe não conseguia colher os frutos necessários para vendê-los e cumprir os pedidos de seus clientes ricos. Então, pouco a pouco, eles perderam o interesse ​​e acabaram comprando de outro vendedor, o vizinho invejoso.

Com o passar do tempo, a situação econômica da família piorou. Então a mãe foi implorar a seu vizinho malvado que não pegasse seus damascos, porque a venda deles lhes dava comida. A única resposta que dele recebeu foi:

   -Bem, se o que você precisa é de dinheiro, aceite minha oferta e me venda o jardim.

Às vezes, o filho sentia uma terrível tentação de insultar e bater no seu vizinho, mas felizmente seu bom senso o ajudava a cair em si e se conter:

"Bem, eu não quero machucar ninguém por um punhado de damascos", ele disse a si mesmo. "É verdade que eu e minha mãe vivemos graças a eles, mas, enfim, vou procurar trabalho para ganhar dinheiro. Amanhã irei à cidade para oferecer meus serviços como porteiro".

Naquela mesma noite, depois que mãe e filho comeram do pouco que ainda tinham e quando estavam prontos para ir para a cama, ouviram uma batida na porta. O filho foi abri-la e encontrou-se diante de um jovem de aparência majestosa.

"Eu sou um viajante que se perdeu", disse o estranho. Estou com fome e com frio. Você pode me dar hospitalidade para esta noite? Eu vou embora amanhã de manhã cedo.

O filho recebeu o misterioso estranho com todas as honras. A mãe, obedecendo às leis sagradas da hospitalidade, ofereceu-lhe o melhor que tinha e abriu para ele sua última garrafa de vinho, o único vestígio de um passado mais próspero e feliz.

O homem comeu com apetite e depois disse a seus anfitriões que ele gostaria de comer alguma fruta.

Ah! -O filho respondeu-, não podemos satisfazer seu desejo. Um vizinho perverso e invejoso rouba os doces damascos do nosso jardim. E ele contou ao visitante sobre o roubo diário de damascos por seu vizinho. E acrescentou:

- Saiba, bom senhor, que não me falta vontade de nos livrar desse mal. Eu bem que gostaria de surpreendê-lo roubando e aí acabar com ele. Mas quando eu reflito e percebo que a vida é um bem sagrado, afasto esses pensamentos. Eu não quero machucá-lo por uma simples cesta de damascos.

- Seus sentimentos te honram e te fazem bem, disse o estranho. - Mas vou lhe dizer uma coisa, vou punir aquele ladrão sem que tenha que pagar com a própria vida.

Ele pediu que o levassem até a árvore de damasco centenária, a tocou com a mão e garantiu ao rapaz que aquele que subir na árvore sem autorização ficaria preso por seus galhos e não poderia descer de jeito nenhum.

Na noite seguinte, como sempre, o ladrão subiu no pé de damasco e começou a colher os frutos mais belos e maduros que lá havia. Mas quando ele quis descer, todos os seus esforços foram inúteis. Os galhos o mantinham preso na árvore.

Na manhã seguinte, mãe e filho ouviram barulhos altos no pomar e correram em direção a ele. Muitos vizinhos vieram e observaram o vizinho malvado que estava preso entre os galhos da árvore de damasco. Quanto mais ele se mexia, mais preso ficava. Enquanto isso, todos riam e zombavam dele. Finalmente, eles mandaram chamar o juiz. Antes de ser libertado da árvore, o vizinho ladrão reconheceu publicamente seu malfeito e, perante o juiz, se ofereceu para pagar todos os damascos roubados.

Mãe e filho ouviram suas súplicas e permitiram que ele finalmente descesse da árvore."

sábado, 22 de junho de 2019

Conto: "Semíramis e Ara, o Belo"

Este belo conto veio da obra "Cuentos y leyendas de los armenios", da franco-armênia Reine Cioulachtjian com ilustrações da francesa Catherine Chardonnay, cuja versão em espanhol que encontrei na Biblioteca Central de Cerdanyola del Vallès (Barcelona). Fala do amor da mítica rainha Semíramis, da Babilônia, pelo belo rei Ara, rei da Armênia. Vamos a ele, na versão de Reine e minha livre tradução:

"As hortas de Van eram as mais bonitas do mundo. Até o início do século XX produziu frutos de sabor delicado não encontrado em qualquer outro lugar: pêssegos macios como veludo, cerejas tenras da cor do rubi, uvas pretas com sumo de mel, damascos dourados e grandes como romãs, com aromas de rosa, sol e de almíscar...
Se os frutos de Van eram tão bonitos, foi graças ao cuidado constante que os armênios lhes dedicaram por milênios. Mas isso também era devido ao milagre do amor.

Na verdade, era uma vez uma rainha bela como uma lua de catorze dias: grandes olhos negros sob sobrancelhas arqueadas finamente desenhadas, lábios vermelhos, corpo de gazela... Chamava-se Semíramis e era rainha da Babilônia. Na Armênia governava o rei Ara, o Belo. Semíramis estava apaixonada por Ara, mas Ara era casado e rejeitava suas investidas. O amor da rainha por Ara era tão grande que, incapaz de resignar-se a sua indiferença, decidiu que faria o que fosse para conseguir por amor, mesmo contra a sua vontade. E ela conseguiu que, naquele jardim, todos falassem dela.

E em uma noite de lua cheia, Semíramis, vestida como uma deusa, tão bonita que, ao seu lado, o sol parecia escurecer, entrou nos jardins do rei e, sob a luz leitosa da estrela da noite, sorveu, uma a uma, as essências de todas as árvores, dando-lhes às cerejas o sabor dos seus lábios, ao pêssego o veludo de sua pele e o formato dos seus seios, às uvas pretas o fulgor dos seus olhos e às maçãs o rubro de suas faces...
É por isso que as frutas da região de Van são tão bonitas, aveludadas e doces. Mesmo depois de tantos milênios, elas continuam a nutrir-se da beleza que Semíramis lhes deu por amor.
Quanto à bela história de amor, digamos que não teve um bom final. Ara, sempre fiel a sua esposa, não foi seduzido pelos encantamentos de Semíramis. Ela, rancorosa, declarou-lhe guerra, mas ordenou que seus capitães e seus soldados não matassem Ara, a quem eles facilmente reconheceriam por sua armadura com o emblema real. No entanto, Ara trocou sua vestimenta com a de seu escudeiro e morreu.
Semíramis, desesperada, ordenou que buscassem o seu corpo entre os mortos no campo de batalha, e o colocou no alto das muralhas da fortificação. Ali, orou aos deuses Haralez (dois deuses cães, que segundo a tradição curam as feridas lambendo-as e impregnando-as com sua saliva) para que eles pudessem trazê-lo de volta à vida. 
A história, no entanto, não nos diz se os deuses cumpriram sua missão sagrada..."

Que linda estória, hein? E para finalizar, digo o que aqui aprendi em castellano:
"Y colorín colorado, este cuento se ha acabado!" 
e em catalão:
"Conte contat, conte acabat!"

Fonte: Cuentos y leyendas de los armenios: Un pueblo del Caúcaso, de Reine Cioulachtjian com ilustrações de Catherine Chardonnay (Madrid: Ed. Kókinos, 2007).

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Conto: "Os três desejos"

"Em um pequeno povoado viviam um homem e sua esposa, uma mulher muito pouco atraente. Apesar do homem trabalhar do nascer ao pôr do sol, eles mal tinham o suficiente para comer.

Desejando mudar sua sorte, o homem foi ao deserto para orar e permaneceu lá por quarenta dias com suas quarenta noites, orando a Alá para que ele tivesse compaixão e o ajudasse.

- Eu vou lhe conceder três desejos, Alá finalmente disse a ele. - Pense bem antes de formulá-los e não se deixe influenciar por ninguém.

O homem voltou para casa, não muito convencido de que tinha sido mesmo Alá quem tinha falado com ele, e disse a sua esposa.

- Você não perde nada por experimentar, ela lhe disse. - Peça-lhe para me transformar em uma mulher bonita.

Ele fez o pedido e sua esposa se tornou uma mulher muito bonita que, a partir daquele momento, só pensou em se arrumar e se fazer admirar por todos. Mas como isso não servia para encher o prato, o homem teve que se esforçar para trabalhar ainda mais.

Pouco tempo depois, o rei passou pela aldeia, foi cativado pela beleza da mulher e quis fazê-la sua esposa.

- Ela já é casada comigo, protestou o homem.

- Pouco me importa, disse o rei arrogantemente. - Eu tenho poder para divorciá-los. Eu vou levá-la comigo para o palácio.

E os soldados afastaram o pobre homem, que se sentiu incapaz de fazer qualquer coisa contra o rei.

"Se eu tivesse pensado um pouco antes de fazer o primeiro pedido", disse ele em voz alta quando já estava em sua cabana, "nada disso teria acontecido comigo. O que posso fazer para recuperar minha esposa?"

Ele pensou, pensou e pensou, até que teve uma ideia. "Já sei! Vou fazer outro pedido. Vou pedir que ela se transforme em uma macaca!

Dito e feito. No momento em que a mulher ia experimentar um lindo vestido, ela se transformou em um peludo chimpanzé. O rei, horrorizado, expulsou-a do palácio e ela, não tendo nenhum outro lugar para ir, voltou para a casa do marido.

Agora transformada num macaco, a mulher pulava de um lado para o outro, berrava continuamente, quebrava tudo em casa, e a vida ao seu lado era insuportável.

"Felizmente", suspirou o marido, "ainda tenho um desejo. Vou pedir para que ela recupere sua aparência normal."

Imediatamente, a mulher voltou a ser o que era antes. Grata, ela correu para abraçar o marido.

- Como me arrependo de não ter sido mais inteligente e seguido o conselho de Alá! - o homem lamentou. - Acabaram-se meus desejos e continuamos tão pobres quanto antes."

Este conto de origem africana foi tirado do site Muchos cuentos, orignalmente em espanho, com tradução e adaptação minhas. A fonte original é do livro "Un mundo de cuentos", de Anna Gasol e Teresa Blanch (vide referências abaixo).

GASOL, Anna Maria, e BLANCH, Teresa. Un mundo de cuentos - cuentos populares de los cinco continentes. España: Editorial Juventud, 2012.

Conto: "Oochigeaskw, a Cinderela indígena"

"Numa aldeia Mi'kmaw, à beira de um grande lago, vivia um viúvo com suas três filhas. A mais velha era vaidosa e impaciente; a segunda, preguiçosa e rabugenta; a terceira, humilde e de bom coração. Suas irmãs a maltratavam o tempo todo, obrigando-a a fazer o trabalho pesado e a cuidar do fogo. Às vezes, a mais velha a queimava com cinza quente, o que a deixou com tantas cicatrizes que passou a ser chamada Oochigeaskw, a menina do rosto marcado.

Na fronteira dessa aldeia viviam dois irmãos, um rapaz e uma moça. Eles não chamariam a atenção de ninguém se não fosse por um detalhe: o rapaz era invisível aos olhos de todos, a não ser os da irmã. E todos sabiam que, se um dia alguma jovem pudesse vê-lo, casaria com ele... o que todas, levadas pela curiosidade e pela fascinação, gostariam de fazer.

Uma a uma, as jovens da aldeia se submetiam à prova estabelecida pelo rapaz, indo ao encontro da irmã dele e passeando com ela à beira do lago. Em dado momento, a irmã do rapaz invisível parava e indagava se a amiga estava vendo seu irmão, e, caso a resposta fosse afirmativa, perguntava de que era feita a corda de seu arco e com o que ele puxava seu trenó.

Sem poder vê-lo, as jovens arriscavam respostas. “A corda é feita de couro cru”, diziam, ou ainda, “Ele puxa o trenó com um galho flexível de árvore”. A irmã percebia que as moças tentavam enganá-la, mas mesmo assim as convidava à sua tenda, onde servia ao irmão alimentos que, pouco a pouco, iam desaparecendo, sem que as convidadas pudessem ver quem comia. Por fim, as jovens desistiam de ver o que quer que fosse e voltavam para casa.

Certo dia, as irmãs de Oochigeaskw resolveram tentar a sorte, mas não quiseram levar a mais nova, a quem deixaram com serviço dobrado para fazer enquanto estivessem fora. No fundo, elas não acreditavam poder ver o rapaz invisível, mas tinham esperanças de que ele se deixaria seduzir por sua beleza. O rapaz e sua irmã, contudo, se portaram exatamente como das outras vezes, e as duas voltaram para casa sem nada ter conseguido.

No dia seguinte, o pai delas chegou com uma porção de conchinhas muito bonitas, que as filhas mais velhas pegaram para si. Enquanto isso, Oochigeaskw, que sempre andara descalça, pediu e obteve do pai um velho par de mocassins, e depois foi à floresta e arrancou cascas de bétula, com as quais fez um vestido. Ao retornar, pediu conchinhas às irmãs para adorná-lo. A mais velha não a atendeu, mas a segunda ficou com pena e lhe deu algumas conchinhas. Oochigeaskw enfeitou seu vestido com elas, conforme aprendera com seus ancestrais, calçou os mocassins do pai e saiu para também tentar a sorte com o ser invisível, embora as outras moças tentassem impedi-la, dizendo que era tão feia que nem seria recebida pela irmã do rapaz.
De fato, com a estranha roupa de casca de árvore, os velhos mocassins e o rosto coberto de cicatrizes, Oochigeaskw não era atraente. Mas a irmã do ser invisível, que enxergava além das aparências, a recebeu com um sorriso e a levou para caminhar à margem do lago.

- Você pode ver meu irmão chegar? – perguntou ela, de repente.
- Sim, e ele é muito belo – disse Oochigeaskw.
- De que é feita a corda do seu trenó?
- Do arco-íris.
- E a corda do seu arco?
- São as estrelas da Via Láctea – murmurou a moça. 
- Eu sabia desde o início que você o veria! – exclamou a irmã, feliz. – Venha, vamos para casa esperá-lo.

Ao entrar na tenda, a irmã preparou um banho com raízes perfumadas para Oochigeaskw. Enquanto a banhava, suas cicatrizes iam desaparecendo e seu cabelo se tornando espesso e brilhante. A irmã a penteou e depois a vestiu com um lindo vestido de casamento, bordado em conchinhas dispostas em desenhos, como faziam os antepassados. Então, disse-lhe para sentar no lugar reservado àquela que seria a esposa de seu irmão.

Quando ele, belo e forte, entrou na tenda, viu a jovem que o esperava e perguntou:

- Já não nos vimos antes?
- Sim, hoje, no final da tarde – respondeu ela, os olhos brilhando como estrelas.

E, desse dia em diante, Oochigeaskw, a menina do rosto marcado, ficou na memória de seu povo como a mulher do ser invisível... aquela que soube ver."

Esta versão veio do site Estante Mágica da Ana, da escritora Ana Lúcia Merege, adaptado por ela do livro “O violino cigano”, de Regina Machado (Cia. das Letras, 2004).

Conto: "A lavadeira e o padeiro"

"Era uma vez uma jovem lavadeira que ia ao rio todas as manhãs para lavar as roupas dos aldeões. Ela era uma garota humilde e com seu trabalho ela conseguia apenas o suficiente para ir vivendo.

No entanto, sua natureza alegre e tranquila lhe havia conquistado a simpatia e o afeto de seus vizinhos, que tentavam ajudá-la sempre que podiam. A menina, portanto, estava sempre feliz, não desejava mais nada e gostava de cantar enquanto lavava as roupas.

Ao lado da margem do rio, havia uma padaria e, todos os dias, da janela aberta, o delicioso cheiro de pão recém-assado se espalhava pelos arreadores. Era um aroma que a lavadeira achava delicioso, e embora ela não pudesse comprar o pão, sua boca se enchia de água apenas com o cheiro.

O padeiro era um homem ganancioso e desagradável que passava o dia resmungando. Toda manhã ele aparecia na janela para observar a lavadeira. Ele não suportava vê-la tão feliz e, embora sua voz fosse doce e agradável, ele preferia fechar a janela e assar no calor do que ter que ouvir suas canções.

Certa manhã, a jovem levantou a cabeça e flagrou o padeiro lhe olhando pela janela.

- Bom dia, padeiro! - saudou ela. - O cheirinho do seu pão alegra o meu dia.

- Só me faltava essa! - rosnou o homem. -  Pois se você gosta tanto do cheiro do meu pão, vai ter que pagar por ele.

- Que engraçado que você é! - a jovem sorriu sem parar de lavar a roupa. - Eu não estou brincando. Só o cheiro do seu pão já me alimenta.

- Se lhe alimenta, - disse o padeiro com raiva, - vou levar o caso aos tribunais e não vou parar até que um juiz a obrigue a pagar por desfrutar do cheiro do meu pão.

A garota o viu bater a janela e não conseguia entender por que ele estava tão zangado. Como o homem era conhecido pelo seu gênio ruim, ela pensava que a chateação dele iria desaparecer com o tempo.

Mas o padeiro não estava brincando. Ele foi em busca de um juiz para explicar o caso.

Alguns dias depois, um oficial de justiça foi ao encontro da garota e lhe entregou um papel com um selo oficial.

- O que é isso? - perguntou a lavadeira, que não sabia ler.

- Uma convocação do juiz.

- Você poderia lê-la para mim, por favor? - pediu a lavadeira.

- Aqui diz que o padeiro acusa você de apreciar o aroma de seu pão recém-saído do forno, todas as manhãs, sem pagar nada em troca.

- Caramba, o padeiro não estava brincando! - disse a jovem, que de repente perdeu a vontade de cantar.

- Você vai ter que ir ao tribunal esta tarde - acrescentou o oficial de justiça.

Ainda sem conseguir acreditar no que estava acontecendo, a moça foi se apresentar ao juiz.

Os cem habitantes do povoado também estavam na sala onde o julgamento seria realizado. O padeiro, certo de que ia ganhar a causa, pedia cem moedas de ouro da lavadeira por cheirar seu pão. As pessoas começaram a murmurar.

- Por que você pede tanto? Já é um homem rico! - eles disseram.

- Pobre menina, como vai pagá-lo? - eles se compadeciam dela.

O juiz ouviu o padeiro e depois a lavadeira. Finalmente, decidiu:

- Está bem! Menina, você tem três dias para pagar cem moedas de ouro ao padeiro.

Os aldeões não podiam acreditar em seus ouvidos!

A lavadeira saiu da sala do tribunal de cabeça baixa, sem conseguir conter as lágrimas. Enquanto isso, o padeiro foi para casa satisfeito, com a cabeça bem erguida e um sorriso de orelha a orelha.

- Não se preocupe, - disse um dos rapazes da cidade, aproximando-se da garota. - Todos nós vamos ajudá-la.

E assim foi. Os cem habitantes daquele lugar colocaram cada uma uma moeda de ouro em uma sacolinha, que entregaram à lavadeira.

Passados os três dias, a moça se apresentou diante do juiz e lhe entregou a bolsa.

- Muito bem, - disse o juiz, tilintando a bolsa diante dos olhos gananciosos do padeiro. - Nós já temos as moedas. Caso encerrado.

O homem se aproximou do juiz para pegar a bolsa.

- Um momento! - o juiz advertiu.

- Minha bolsa ...- resmungou o padeiro.

- A lavadeira lhe roubou o cheiro do pão, mas você deixou que ela o provasse alguma vez? - o juiz perguntou.

- Não, - respondeu o padeiro.

- Pois você também vai ter que se contentar em ouvir o tilintar das moedas! - exclamou o juiz, que era um homem muito justo.

Desta forma, o caso foi resolvido e a lavadeira recuperou a alegria e a vontade de cantar."

Conto peruano e imagem do site Muchos cuentos, traduzido e adaptado por mim. A fonte original é do livro "Un mundo de cuentos", de Anna Gasol e Teresa Blanch (vide referências abaixo).

GASOL, Anna Maria, e BLANCH, Teresa. Un mundo de cuentos - cuentos populares de los cinco continentes. España: Editorial Juventud, 2012.

Ouça a estória "O galo rouco e o rato esperto", da Cigana Contadora de Estórias!

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Apresentações de contadores de estórias

Palavra Cantada - O rato
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