segunda-feira, 2 de abril de 2018

Viva o Dia Mundial da Literatura Infantojuvenil!

Viva o Dia Mundial da Literatura Infantojuvenil!
Gabriela Kopinits*

O pequeno se torna grande num livro”. Este é o tema da campanha deste ano do International Board on Books for Young People (uma espécie de comitê mundial do livro infantojuvenil com sede na Suíça) em homenagem ao Dia Mundial da Literatura Infantil, comemorado neste 2 de abril. E já veremos o porquê dessa data.
Quem lê sabe que a leitura é uma das poucas coisas que nos possibilita viajar pelo Universo inteiro - e além - sem que saiamos do lugar. Ler um livro nos permite conhecer outras culturas, outras gentes, outras formas de pensar. Ler instrui, ensina, distrai, diverte, emociona e consola. 
Para as crianças, então, a leitura abre um mundo de sonhos e de fantasia, um mundo onde tudo é possível, inclusive aprender a se conhecer e a lidar com seus medos, a entender que não se está sozinho: há outros como nós.
Agora sim chegamos ao motivo da comemoração do dia mundial da literatura dedicada a elas num 2 de abril. Como toda boa história começa com três palavrinhas mágicas: era uma vez, em 1805, um bebê recém-nascido no seio de uma família dinamarquesa muito pobre formada pela lavadeira Anne Marie Andersdatter e pelo sapateiro Hans Andersen.
O menino ganhou o nome de Hans Christian e era adorado pelo pai, que apesar de não saber ler nem escrever, lhe contava muitas estórias chegando a lhe fazer um teatro de marionetes, despertando no pequeno a imaginação e a criatividade, dons que lhe permitiram sobreviver à rude realidade de pobreza e privação em que a família vivia.
Fã de Napoleão Bonaparte e querendo mais da vida do que ser simples sapateiro, o pai decidiu se juntar às tropas do imperador francês nas suas campanhas militares pela Europa e acabou sendo ferido, vindo a falecer em 1816 e deixando o filho órfão aos 11 anos. O menino então teve que abandonar os estudos para ajudar nas despesas de casa. Tornou-se aprendiz de tecelão e chegou a trabalhar para um alfaiate, mas o que ele queria mesmo era ser ator e cantor.
Aos 14 anos, Andersen decidiu ir para a capital dinamarquesa, Copenhague, tentar a sorte na carreira artística. Dizem que ele tinha uma bela voz, apesar de feioso e desajeitado. Juntou-se ao Teatro Real da Dinamarca, mas não fez muito sucesso.
Aos 17 anos publicou seu primeiro conto, "O fantasma da tumba de Palnatoke", e duas de suas peças acabaram chegando às mãos de um conselheiro real que lhe ofereceu uma bolsa de estudos.
Durante seis anos, Andersen frequentou a escola de Slagelse mas se sentia deslocado em meio aos colegas, mais jovens e menores que ele. Em 1828 começou a frequentar a Universidade de Copenhague e passou a se dedicar mais à literatura. Foi nessa época que a fama de excêntrico se consolidou entre os colegas.
Para ganhar uns trocados resolveu escrever algumas estórias infantis baseadas no folclore dinamarquês. Os contos fizeram sucesso e assim começou uma prolífica carreira, que durou quase 30 anos.
Antes de falecer em 4 de agosto de 1875, aos 70 anos de idade, Andersen deixou uma obra extensa: só de contos infantis foram 156, a maioria conhecidos por crianças do mundo inteiro, como "O soldadinho de chumbo", "A roupa nova do Imperador", "A pequena sereia”, e “O patinho feio", que dizem ter sido baseado na sua própria infância.
Apesar de não ter sido o primeiro a escrever para crianças - esse posto pertence a Charles Perrault, considerado o pai da literatura infantil - foi o primeiro a adaptar estórias já existentes para uma linguagem mais acessível a esse público, inserindo nelas valores morais e sociais, como em "A pequena vendedora de fósforos", conto que retrata de maneira tocante o drama da pobreza extrema.
Então, agora você já sabe. Foi graças à enorme contribuição do Andersen para a literatura infantojuvenil que a data do seu nascimento virou o Dia Internacional da Literatura Infantojuvenil, efeméride criada em 1967 por aquele comitê de que falamos no início desse artigo - o InternationalBoard on Books for Young People (IBBY). O IBBY criou ainda a Medalha Hans Christian Andersen para premiar os maiores nomes da literatura infantojuvenil mundial. No Brasil, a escritora Lygia Bojunga Nunes foi a primeira a receber essa medalha. Isso foi em 1982. De lá para cá, outros brasileiros também receberam essa distinção como a escritora Ana Maria Machado.
Viva, pois, o Dia Mundial da Literatura Infantojuvenil! Que tal comemorar com uma visita à biblioteca?

*Gabriela Kopinits é jornalista, escritora e contadora de estórias
PS: Em 2003 foi lançado o filme "A vida num conto de fadas" (no original "Hans Christian Andersen: my life as a fairytale"), contando um pouco da vida do escritor e das suas estórias e quem quiser conhecer mais sobre a vida e a obra dele também pode visitar o site do Instituto Andersen.


segunda-feira, 19 de março de 2018

Conto: "O duende esperto"


Esta é uma outra versão do conto que postei anteriormente, sobre o Tom esperto. A diferença é que ele usa sua gravata para marcar a flor que está em cima do ouro.

"Um jovem rapaz chamado Tom estava caminhando por uma trilha. Ele ouviu um barulho atrás dos arbustos e parou para ver o que era. Ele ficou surpreso ao ver um homem pequenino sentado na sombra do arbusto. Tom havia encontrado um duende. Em toda a sua vida, Tom havia ouvido estórias sobre os homenzinhos que viviam na florestas. As pessoas diziam que os duendes possuíam potes de ouro enterrados por toda a terra.
Tom decidiu tentar capturar o homenzinho e fazê-lo levá-lo até um pote de ouro.
Muito rapidamente, Tom segurou o duende pela gola. Tom sabia que os duendes são muito espertos e rápidos. Se ele soltasse a gola, o homenzinho poderia desaparecer num piscar de olhos. Mas o homenzinho estava tão assustado que concordou em mostrar a Tom onde poderia encontrar o seu tesouro.
O duende levou Tom por um caminho muito longo. Eles andaram e andaram, até que finalmente chegaram a um campo cheio de lindas flores. O duende apontou para uma planta e disse a Tom que o pote de ouro estava enterrado bem ali.
Tom ficou maluco, começou a pular de tão animado. Mas aí ele lembrou que não havia trazido sua pá para cavar o local onde o tesouro estava.
Tom então tirou a gravata e a amarrou na flor para que pudesse encontrá-la quando voltasse com a pá. Ele fez o duende prometer que não iria tocar em sua gravata enquanto ele estivesse fora. Muito solene, o duende prometeu, não iria tocar a gravata.
Enquanto Tom estava fora, como era de se esperar, o duende fez sua mágica. Estalou os dedos e de repente apareceram 50 gravatas exatamente como a de Tom. Rapidamente, o homenzinho amarrou-as em todas as flores que estavam ao redor daquela que estava sobre o tesouro.
Quando Tom voltou, ele não conseguia dizer qual era a preciosa flor. O duende esperto havia salvo seu tesouro sem quebrar a promessa feita."

É como se diz por aqui: Tom foi buscar lã e saiu tosquiado 😄

*Fonte: Folktales, by Remedia Publications (tradução desta contadora de estórias)

sexta-feira, 9 de março de 2018

Conto: "Tom esperto e o duende"

Estamos no mês de São Patrício, o padroeiro da Irlanda, o país mais verde do mundo, lindo demais. Para comemorar o dia do santo - 17 de março - publico aqui uma das várias estórias do rico folclore irlandês, esta proveniente de Ballincollig, cidade pertencente ao condado de Cork. A tradução é desta Cigana Contadora de Estórias 😊
Imagem do site Kids Gen
"Tom Fitzpatrick era o filho mais velho de um rico fazendeiro que morava em Ballincollig. Tom tinha acabado de completar vinte e nove anos, e era um rapaz tão inteligente, limpo e de boa aparência como qualquer outro em todo o condado de Cork.

Um bom dia na colheita, Tom foi passear pelo lado ensolarado de uma cerca. De repente, ouviu um ruído um pouco antes dele, na cerca. Então, Tom andou na pontapés, tentando ver se ele conseguia descobrir o que era que estava fazendo aquele barulho.

O barulho parou, mas quando Tom olhou através dos arbustos, viu um cântaro em que poderia caber cerca de um galão e meio de bebida. Ao lado, estava sentado um velhinho, com um chapeuzinho armado preso no topo da cabeça e um avental de couro.

O homenzinho puxou um pequeno banco de madeira, subiu nele e mergulhou uma caneca no cântaro. Desceu do banco, colocou a caneca cheia ao seu lado, se sentou e começou a colocar a sola em um minúsculo sapato.

"Incrível!", disse Tom para si mesmo, "Este deve ser um duende! Sou um homem rico. Mas dizem que você nunca deve tirar seus olhos deles, ou eles vão escapar. "

Tom se aproximou um pouco, com o olho fixo no homenzinho. Ele se aproximou dele e disse: "Deus abençoe seu trabalho, vizinho".

O duende levantou a cabeça e disse: "Obrigado, gentilmente".

"Trabalhando em dia sagrado?", perguntou Tom.

"Esse é o meu negócio, não o seu", foi a resposta.

"Talvez você me diga o que você tem no jarro?", disse Tom.

"Com prazer", disse o homenzinho, "é uma boa cerveja".

"Você me daria um pouco para provar?", perguntou Tom.

"Seria melhor para você se cuidasse da propriedade do seu pai em vez de estar incomodando pessoas decentes e quietas com suas perguntas tolas. Enquanto você está gastando seu tempo aqui, as vacas invadiram o celeiro e estão derrubando o milho ".

Tom tomou um susto e quase se virou quando se conteve, lembrando da esperteza dos duendes. Com medo de caísse de novo na conversa do duende, ele o segurou na mão, mas na pressa bateu no jarro e derramou toda a cerveja, de modo que não conseguiu provar nem um pouco da bebida encantada.

Tom ficou brabo e ameaçou o homenzinho, exigindo saber onde estava o ouro que todo duende guarda. Ele parecia tão perverso que o duende ficou bastante assustado.

"Há um pote de ouro escondido apenas um par de campos ali", disse o homenzinho.

Tom segurou o duende rápido na mão e não tirou os olhos dele, apesar de terem que cruzar sebes e valas, e um pedaço de pântano. O duende pareceu, por pura maquinação, escolher o caminho mais difícil. Finalmente, chegaram a um campo cheio de flores chamadas boliauns, assemelhadas a margaridas amarelas.

O duende apontou para a maior delas e disse: "Cave sobre essa flor e você encontrará um grande pote cheio de moedas".

Tom não trouxe uma pá, então tirou uma de suas ligas vermelhas e amarrou-a em torno da flor, para que ele pudesse encontrar o lugar novamente mais tarde.

"Suponho que você não precisa mais de mim?", perguntou o duende.

"Você pode ir", disse Tom, libertando o homenzinho.

"Tchau, Tom Fitzpatrick, que o que você ache faça bem a você".

Tom correu para casa, pegou uma pá, e então correu de volta para o campo de flores, tão rápido quanto ele poderia ir. Mas, quando ele chegou lá, cada flor no campo tinha uma liga vermelha, idêntica à sua, amarrada em torno dela.

Escavar todo o campo teria sido bobagem; Eram quarenta bons acres irlandeses. Então, Tom voltou para casa novamente com a pá no ombro. Muitas pragas ele jogou no duende a cada vez que lembrava da peça que ele tinha pregado em si."

A estória original em inglês você encontra no site Folkli - Folktale Library, uma bela coleção de estórias ("Online folklore magazine dedicated to preserving and promoting the tales of past generations".) Espero que tenha gostado! Ah, se achar um duende, fique esperto 😉

domingo, 14 de janeiro de 2018

Conto: A rainha de um dia


Como pesquisadora da literatura infantojuvenil, sempre me deparo com preciosidades, como esse almanaque, O Tico-Tico, primeira revista em quadrinhos publicada no Brasil, aliás primeira publicação nacional destinada às nossas crianças, antes mesmo das estórias de Monteiro Lobato. Foi lançada pelo jornalista Luís Bartolomeu de Souza e Silva (1866-1932) no dia 11 de outubro de 1905, tinha periodicidade semanal e sobreviveu até a década de 60. Seu nome veio das "escolas de tico-tico”, que era como eram chamados os jardins de infância. Seu conteúdo é um primor. A respeito da relevância dessa obra para a formação da criançada, o grande poeta Carlos Drummond de Andrade disse: "O Tico-Tico é pai e avô de muita gente importante". Se está curioso para conhecer O Tico-Tico, a Biblioteca Nacional disponibilizou um grande acervo. Vale a leitura, o encantamento é garantido, principalmente pelas fotos das crianças do século passado, suas vestimentas e cortes de cabelo, os anúncios comerciais e mesmo os textos. Uma belezura!
De lá, da edição de 1911, cuja capa você confere acima, pincei o conto "A rainha de um dia - conto do Dia de Reis", já inserido no meu banco de estórias para contar 😊


A RAINHA DE UM DIA
Conto do Dia de Reis
            Isto passou-se há muito tempo, num antigo castelo construído à margem de um rio. O senhor dessa magnífica vivenda havia já bastante tempo que não ria, muito triste por haver perdido, de uma só vez, seus três filhos numa guerra. Destes só lhe restava uma lembrança – uma menina, filha do filho mais velho.
Tal legado ainda mais acabrunhava o velho castelão.
Nessa época festejavam-se os Reis, isto é, dividia-se entre as pessoas da família e amigos um grande bolo onde se ocultava uma fava. Aquele em cujo pedaço fosse encontrada a fava era rei considerado por um dia e podia escolher quem quisesse para compartilhar seu trono. Era senhor absoluto durante todo o tempo do seu reinado.
Ora, apesar das suas tristezas o castelão consentiu que se festejasse também o dia dos Reis no castelo afim de divertir sua neta, a pequena Lúcia.
Mas só deu consentimento depois da seguinte recomendação:
- Se a fava cair por sorte a uma moça ou senhora, previno que não quero ser escolhido para rei. Com esta condição, permito que se divirtam e assistirei à festa. Quero que todos brinquem muito e para isso não tomo parte com a minha tristeza. Como sabem, para mim não há mais diversões na terra. Os velhos são velhos e os moços, folgazões; portanto, tristezas para uns e alegrias para outros.
À noite, sentaram-se todos à mesa: o castelão na cabeceira, depois crianças, amigos e servidores. O bolo foi carregado numa espécie de andor coberto por uma toalha alvíssima de linho e inteiramente bordada com ramos e rosas do Natal.
Dividiram-se entre todos, reservando a parte do pobre. A fava caiu por sorte a Lúcia que, com toda a majestade que lhe investia a cerimônia, deixou-se paramentar e cingir a fronte com uma belíssima coroa. Diante dela foi colocada outra coroa ainda mais linda.
Lúcia lançou os olhos pelas pessoas presentes e estava muito triste por não ter encontrado uma ao seu agrado para rei, quando bateram à porta.
Vinham reclamar a parte do pobre. E a pessoa que assim fazia era um velho andrajosamente vestido, tendo um gorro na cabeça. Sob o gorro apareciam mechas de cabelo em desalinho. Ao pedir a sua parte, o pobre tremia.
Lúcia levantou-se e correu até ele com a coroa na mão, como era de costume.
- Pobre como és, – disse ela – faço-te rei: manda e serás servido.
Ele pediu então, com voz mais calma:
- Gentil rainha, peço-te um lugar à tua direita e para meu companheiro, que ficou da parte de fora do castelo, outro lugar à tua esquerda.
O castelão, indignado com a escolha feita por Lúcia e com a audácia do pobre, exclamou:
- Olá, que pensas então? Achas que...
Mas Lúcia lhe disse:
- Lembre-se que neste instante és um servo desse pobre.
Ela sorria; e é preciso acrescentar que tinha o rir mais bonito dentre os risos mais bonitos, que emolduravam de vez em quando o rosto de uma santa.
De seu barrete de seda azul, bordado de prata escapavam-se duas compridas tranças de pareciam feitas de ouro; suas faces róseas pareciam duas auroras; seus olhos, estrelas e flores, brilhavam numa suave luz azul.
O castelão, no entanto, adorava esta criança, não devido à sua beleza, rara e soberana, mas porque parecia feita de graça e de sorriso.
E só ela conseguia por vezes diverti-lo.
Não ousou magoá-la e sentidíssimo murmurou:
- Pois bem, pobre de ontem e pobre de amanhã, sê rei por hoje e mostra-nos, se tens bastante audácia para isso, como se deve sustentar um cetro!
O pobre levantou-se, sacudindo a cabeça; a barba cobria-lhe por completo o peito. Sua voz agora, cheia e vibrante, ocupava toda a sala quando dava uma ordem.
- Vão buscar meu companheiro; encontrá-lo-ão sentado no primeiro degrau do castelo.
Deram-se pressa em cumprir as ordens do novo rei, e uma criada conduziu pela mão um segundo pobre, também mal vestido e coberto por uma capa em frangalhos.
- Este tipo parece que nunca lavou o rosto, - disse o castelão zombando.
Mas o primeiro pobre acudiu:
- Não, porque ele jurou não lavá-lo até que houvesse beijado aqueles a quem ama na terra. Vamos, pois, jantar!
- Pois não – atalhou a pequena rainha – És rei, mandas, não pedes.
Serviram-lhe o que restava, um quarto de javali.
O rei de um dia cortou um soberbo pedaço, depois outro, outro ainda sem neles tocar. Então, o castelão, não pode conter uma gargalhada. Todos o acompanharam.
- Pena é que não tenhamos um outro quarto. Esse pobre acharia lugar para guardá-lo. Seu companheiro não faz senão regar seu primeiro pedaço. Teria jurado comer de tal forma?
O primeiro pobre estendeu seu copo e exclamou:
- Que todos aqui bebam quando o rei beba. Bebe, linda rainha de olhos azuis, bebe senhor Hugo, bebe tu também, senhor dos oceanos! Copos ao alto! E tu, nobre avó de minha rainha, se quiseres alguma coisa é só pedir, pobre como sou, tenho algum poder...
Mas o velho castelão passou a mão sobre a fronte como para afastar um mau pensamento.
- Cala-te – disse-lhe – rei de mentira! Esse nome, Hugo, que dás a teu companheiro é um nome de nobreza. Onde o obtiveste? Não é dado a qualquer mendigo usá-lo. Ah, meu filho mais velho assim se chamava, e há dez anos que morreu. Rei coroado de papel e ouro falso, acabou-se a festa. Irão encher teu saco para que possas saciar a fome, que é grande. Tenho piedade de ti e não levo a mal tuas brincadeiras. Se eu tivesse que pedir alguma coisa, seria tornar a ver meu filho Hugo, que ninguém me pode trazer. O imperador, ele próprio, com todo o seu poder, não conseguiria ressuscitá-lo. Portanto, não me perguntes se quero alguma coisa.
O pobre pôs-se de pé altivamente, colocou a mão sobre a cabeça do seu companheiro, e disse:
- Hugo, levanta-te. Permito agora que fale. Homem, aqui está o teu filho: só dez anos de cativeiro não o desfiguraram completamente, reconhece-o.
O companheiro do pobre, tirando a capa, ajoelhou-se aos pés do seu pai. Este, semi-louco de alegria, reconhecia-o entre lágrimas. Depois, o filho, desprendendo-se dos braços do pai, que o enlaçava, dirigiu-se ao pobre dizendo:
- Meu pai, esse pobre que aí vês está habituado a coroas. É chamado em toda parte o Grande. Sim, é o imperador Othon, nosso chefe. Foi ele quem me resgatou do cativeiro e aqui me trouxe.
Todos os que aí se encontravam, confusos e mudos, conservaram-se de pé pois o imperador Othon o Grande inspirava respeito pela sua valentia e saber.
O velho castelão estendeu a mão ao imperador, que não havia reconhecido sob os andrajos, e disse:
- Imperador, minha vida te pertence, bem como a de todos os meus e como a do meu filho, que acabas de trazer. Agora possa morrer, tenho alguém que me sucederá.
Hugo tomou a filha e a mulher nos braços, apertando-as contra o coração.
O imperador depositou sobre a fronte da menina um terno beijo.
- Pequena rainha – disse ele – serei teu pobre e o rei de tua escolha. Dentro de oito anos, se eu ainda viver, leva-me a fava, que ficou em meu copo, e a coroa, que me destes. Ordeno. Parto deixando todos felizes. Proíbo que me sigam.
Detendo com um gesto aqueles que queriam lhe agradecer, deixou a sala, desceu a grande escada e tocou uma campainha de prata, que trazia escondida no cinto. Então, ouviu-se uma cavalgada, e viu-se pelas janelas do castelo os homens de armas que vinham buscar o imperador Othon.
Oito anos mais tarde, a filha do conde Hugo levou a fava e a coroa; o imperador, em troco desses objetos, deu-lhe um saco com ouro para o seu dote e, em troca da coroa, outra de conde, dando-lhe um lindo rapaz para esposo.
Até o fim de sua vida, teve muita honra em ser seu ‘pobre’ e cultivar sua amizade. Chamava-a ‘a pequena rainha’ e fez guardar a fava em seu tesouro, ao lado das pérolas raras.
Tinha garbo em dizer:
- Aqueles que me fizeram imperador, escolheram-me em meu poder. Mas aquela que me fez rei, escolheu-me na pobreza. Esta será para sempre a minha rainha.


ALMANACH O TICO-TICO, 1911

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Conto: O dedo de Deus também aponta para baixo

Com grande alegria, trago para você meu conto, que ficou entre os finalistas do II Concurso de Contos "Recortes de Caruaru", promovido pelo Instituto Histórico de Caruaru, com apoio da Academia Caruaruense de Cultura, Ciências e Letras e da Academia Pernambucana de Letras: "O dedo de Deus também aponta para baixo". Agradeço críticas e comentários 😉

O dedo de Deus também aponta para baixo

As contas se empilhavam na mesa. João levou as mãos à cabeça. De costas para ele, Maria, protuberante nos seus quase nove meses de gravidez, limpava os restos do humilde café da manhã. João trabalhava de pedreiro, construindo prédio para os ricos do Maurício de Nassau. Desde os nove anos ajudava em casa, trazendo os trocadinhos que ganhava guardando e lavando carros no Parque 18 de Maio. Os carros dos dotôres, como ele falava, no linguajar de quem nunca foi à escola.

Não porque não quisesse. O maior sonho dele era poder vestir um daqueles uniformes de brim azul-marinho, tênis conga, cadernos e livros debaixo do braço. Mas a mãe, viúva, oito
filhos pequenos para criar, nunca poderia se dar ao luxo de enviar, logo o mais velho, para a
escola, mesmo a pública, quando ele podia trabalhar. E assim o destino correu para ele. Os sete irmãos foram alimentados com o que a mãe ganhava, como doméstica e lavadeira, e com o que ele, menino de nove, depois dez, onze (e assim por diante) trazia dos bicos que arranjava pela rua.

Agora, aos trinta e dois, prematuramente envelhecido pelo trabalho penoso e desgastante
precocemente iniciado, pela falta de alimentação adequada, pela deficiência da assistência
médica pública, estava prestes a ser pai. Maria, sua esposa, tinha dezenove anos. Pequenina,
mirrada, moreninha. Caçula de uma família de treze irmãos. O pai, alcoólatra, batia na mãe, nos irmãos, nela. Aos treze, depois do pai tê-la estuprado, fugiu de casa, lá no Rafael, e foi morar nas ruas. Corpo de menina-moça, não lhe foi difícil encontrar trabalho. Como prostituta.

Arranchou-se numa pensãozinha modesta no Divinópolis, onde as outras meninas também moravam. A cafetina, uma mulher gorda e fedorenta, com um horrendo buço-quase bigode,
as explorava continuamente. Às vezes, tinha que atender a cinco clientes na mesma noite.
Um dia, Maria engravidou. Ao descobrir isso, a dona da pensão a espancou horrivelmente. Ela burlara a regra número um da casa. Não pegar barriga. Expulsa do lugar que se acostumara a chamar de lar, com um filho no ventre e sem um tostão, ela foi dormir na rua.
Gemendo por causa da surra que recebera da ex-patroa, deitou-se na calçada de uma loja
perto do Palácio do Bispo, tentando proteger-se do chuvisco que caía.

Um grupo de senhoras, que saía da Matriz, a viu. Teriam passado direto por Maria, não fosse uma delas, que se apiedou do embrulho humano largado numa calçada, naquela noite tão fria. A mulher, Adelaide Fontes, esposa de um conhecido comerciante português, ao ver que a moça estava muito machucada, levou-a para a Casa de Saúde. Maria foi salva mas perdeu o bebê.

D. Adelaide resolveu tomar a moça a seu serviço. E Maria virou doméstica. O João, com quem se casou logo depois, conheceu quando ele foi na mansão dos Fontes reformar um dos banheiros. Foi amor à primeira vista. João se agradou da moça quieta, tímida, que vinha lhe trazer um copo d’água, de vez em quando. E Maria gostou daquele homem trabalhador, de olhar tranquilo e fala mansa. 

D. Adelaide ajudou-os a fazer o enxoval. Modesto, a maior parte dos itens coisas usadas, doadas pela patroa, mas, ainda assim, um belo enxoval para uma doméstica e um pedreiro. O casal foi morar num casebre no Fernando Lyra, comprado com as economias que João conseguira fazer mais um dinheiro que dona Adelaide deu a eles. Não era muita coisa, mas, para os dois, acostumados com a pobreza e apaixonados, era um pequeno ninho de amor.

Foi nessa época que a patroa de Maria descobriu que estava esperando um filho. Ela estava nos seus quarenta anos e já tinha engravidado várias vezes e abortado em todas. O marido
nem se animava mais. Tinha medo de perder esse também.

No barraco não muito longe dali, Maria também esperava uma criança. João ficara contente com a notícia, mas, ao mesmo tempo, apreensivo. Tinham pouco dinheiro e o que ganhavam mal dava para ele e a mulher. Como iriam sustentar mais um? Ele haveria de querer que pelo menos seu filho pudesse ir para a escola, como nunca pudera ir. Meu Deus, o que fazer? Alheia a isso, Maria cantarolava pelos cantos.

Na mansão dos Fontes, d. Adelaide também se preparava, certa de que, dessa vez, Deus iria lhe ajudar. Os exames mostravam que tudo ia bem. Por que, então, acreditar que algo daria errado? ‘Não’, pensou ela, sacudindo a cabeça, ‘dessa vez, você vai nascer’. E alisou a barriga de apenas oito semanas. E os meses se passaram e os exames provaram estar corretos. Pelo menos até agora. A barriga de d. Adelaide cada vez crescia mais. A de Maria também. E a preocupação de João idem.

Faltando quase um mês para o neném nascer, ele sofreu um acidente na obra e foi dispensado. Desesperado, não quis contar à mulher por causa do bebê. Depois de uma semana, sarado o ferimento, voltou a sair de casa todo dia, dizendo que ia para a obra. As contas, penduradas há algum tempo, pois ele tinha vergonha de pedir dinheiro a Maria, começaram a ser cobradas. Ele continuava a fingir que estava tudo bem e Maria de nada desconfiava.

Um dia, ela estava lavando a louça na casa da patroa, quando começou a sentir as contrações. Morrendo de dor, encostou-se na pia, segurando a barriga. A bolsa d’água arrebentou e o líquido começou a escorrer por entre as suas pernas. D. Adelaide entrou na cozinha naquele momento e viu o estado da empregada. Mais que depressa, correu ao telefone e chamou a ambulância. Dez minutos depois, as duas estavam a caminho da maternidade, quando d. Adelaide deu um grito, ao sentir uma dor insuportável lhe esmagando o ventre. ‘Meu bebê! ’, ela gritou desesperada, ‘Salvem meu bebê!’

João foi avisado pela vizinha e correu para o hospital. Ao chegar lá, viu o dr. Fontes, sentado no sofá, com o rosto entre as mãos. Era a imagem do desespero. Estava na loja quando lhe telefonaram, avisando que a mulher fora hospitalizada.

O médico saiu do bloco cirúrgico. Os dois homens olharam para ele. ‘O parto está sendo muito difícil’, começou ele, ‘de modo que não podemos prever nada’. O marido de d. Adelaide baixou a cabeça. ‘Meu Deus, me ajude! Não posso perdê-la também...’, e começou a chorar baixinho. João apiedou-se daquele homem. Tão rico, tão poderoso e, no entanto, tão impotente quanto às coisas da vida. Sacudiu a cabeça. Só mesmo Deus.

Numa das salas de parto, os médicos lutavam para trazer um bebê à vida, enquanto que numa outra uma mulher acabava de perder o filho. Uma hora depois, o mesmo médico que viera antes, saiu para falar com eles.

‘Senhores’, pigarreou contrito, ‘suas esposas deram à luz e passam bem, mas...’

‘Graças a Deus! ’, dr. Fontes interrompeu o médico, visivelmente aliviado. Adelaide estava a salvo, era o que importava. João puxou a manga do obstetra.  ‘Doutor, e o meu filho?' 
O médico sacudiu a cabeça, pesaroso. ‘Infelizmente, seu filho não sobreviveu.' 
João fechou os olhos. Sentiu uma mistura de tristeza e de alívio. Deus é sábio, pensou ele. 

O médico perguntou se queriam ver as esposas. No mesmo quarto (exigência de d. Adelaide), as duas mulheres descansavam, depois da luta para trazer os filhos ao mundo. D. Adelaide, orgulhosa, os louros cabelos penteados pela enfermeira, sorriu quando o marido entrou. Maria, de olhos fechados, parecia serena e conformada com a morte do seu filhinho. João a beijou na testa. Ela entreabriu os olhos. 

D. Adelaide estendeu as mãos para ela e murmurou: ‘Obrigada’... Maria assentiu. João olhou de uma para outra, sem entender. No berçário, um saudável bebezinho moreno, de fartos cabelos escuros chorava, inconsolável por ter sido arrancado do seu refúgio seguro. No pequenino pulso, a pulseira de identificação com o nome João Augusto Fontes.

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sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Domingo com estórias da Cigana no Polo Caruaru


Você conhece a lenda da flor do Natal? E a origem do pinheirinho e suas luzes? Pois no próximo domingo (10), Gabriela Kopinits - a Cigana Contadora de Estórias - vai contar essas e outras estórias na Festa do Comércio do Polo Caruaru.
Carioca radicada em Caruaru, Gabriela, que também é autora infantil, vai trazer, entre suas narrativas, um pouco do começo dessa festa, revivida pelo Polo. “Quando eu vim para cá, a Festa do Comércio já não era mais realizada, mas ficou na memória afetiva do povo - e na própria história do município - como um momento lindo, de congraçamento entre as famílias no centro da cidade, com uma programação cultural e social riquíssima. Poder fazer parte disso, nessa nova roupagem, é uma honra”, comentou a contadora de estórias, que se apresenta às 14h.
A Festa do Comércio do Polo vai até o dia 31 de dezembro. Além de contação de estórias, a programação tem shows de artistas e de calouros, parque de diversões, retretas no coreto, pastoril e até a Monga, a Mulher Gorila, atração que durante anos assustou e divertiu os foliões. A entrada é franca. O centro de compras fica na Rodovia BR 104, km 62.

Guanabara Comunicação
Imagem:  Allison Lima


quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Domingo tem as estórias da Cigana nas “Olindas”


No próximo domingo (29), a escritora Gabriela Kopinits - a Cigana Contadora de Estórias vai estar no Centro de Cultura Luiz Freire participando do projeto “Coisas que se contam nas Olindas”, parceria do centro com a Ekó Educação e Cultura. Com “Suave na nave: o céu é o limite”, o projeto propõe no mês das crianças uma tarde cheia de estórias para elas, com direito a brincadeiras e muita alegria. “Será uma honra participar desse projeto, que considero muito bacana”, comenta Gabriela, autora do livro infantil “Era uma vez... estórias de uma contadora de estórias” (Cepe Editora).

Além da Cigana, também vão participar a escritora Solange Lasalvia, Guga Bezerra e Júlia Sol. A entrada é gratuita e a apresentação acontecerá no Centro de Cultura Luiz Freire, no Bairro do Carmo, em Olinda.

SERVIÇO
“Suave na nave: o céu é o limite”
Data: 29/10/2017, a partir das 15h30
Local: Centro de Cultura Luiz Freire
Endereço: Rua 27 de Janeiro nº 181, Carmo, Olinda

Guanabara Comunicação

Imagem: Allyson Lima

Ouça a estória "O galo rouco e o rato esperto", da Cigana Contadora de Estórias!

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Apresentações de contadores de estórias

Palavra Cantada - O rato
Clara Haddad - O coelho e o baobá

Cia Ópera na Mala - A sopa de pedras do Pedro

Cia Ópera na Mala - Pedro Malazartes e o pássaro raro

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