terça-feira, 27 de junho de 2017

Conto: Pai, tô com fome!

Meu bom amigo Armando Lima me mandou esse conto dito verídico, que achei de uma beleza enorme, embora um pouco triste porque mostra uma realidade que está acontecendo nesse exato momento em que eu estou escrevendo e você, lendo. Mas também é um conto de esperança, que nos exorta a manter a fé, pois Deus proverá sempre!
Cena do filme "À procura da felicidade", com Will Smith.
"Ricardinho não aguentou o cheiro bom do pão e falou:
- Pai, tô com fome!!!
O pai, Agenor, sem ter um tostão no bolso, caminhando desde muito cedo em busca de um trabalho, olha com os olhos marejados para o filho e pede mais um pouco de paciência....
- Mas pai, desde ontem não comemos nada, eu tô com muita fome, pai!!!
Envergonhado, triste e humilhado em seu coração de pai, Agenor pede para o filho aguardar na calçada enquanto entra na padaria a sua frente...
Ao entrar dirige-se a um homem no balcão:
- Meu senhor, estou com meu filho de apenas 6 anos na porta, com muita fome, não tenho nenhum tostão, pois saí cedo para buscar um emprego e nada encontrei, eu lhe peço que em nome de Jesus me forneça um pão para que eu possa matar a fome desse menino, em troca posso varrer o chão de seu estabelecimento, lavar os pratos e copos, ou outro serviço que o senhor precisar!!!
Amaro, o dono da padaria estranha aquele homem de semblante calmo e sofrido, pedir comida em troca de trabalho e pede para que ele chame o filho...
Agenor pega o filho pela mão e apresenta-o a Amaro, que imediatamente pede que os dois se sentem junto ao balcão, onde manda servir dois pratos de comida do famoso PF (Prato Feito) - arroz, feijão, bife e ovo...
Para Ricardinho era um sonho, comer após tantas horas na rua....
Para Agenor, uma dor a mais, já que comer aquela comida maravilhosa fazia-o lembrar-se da esposa e mais dois filhos que ficaram em casa apenas com um punhado de fubá...
Grossas lágrimas desciam dos seus olhos já na primeira garfada...
A satisfação de ver seu filho devorando aquele prato simples como se fosse um manjar dos deuses, e lembrança de sua pequena família em casa, foi demais para seu coração tão cansado de mais de 2 anos de desemprego, humilhações e necessidades...
Amaro se aproxima de Agenor e percebendo a sua emoção, brinca para relaxar:
- Ô Maria!!! Sua comida deve estar muito ruim... Olha o meu amigo está até chorando de tristeza desse bife, será que é sola de sapato?!?!
Imediatamente, Agenor sorri e diz que nunca comeu comida tão apetitosa, e que agradecia a Deus por ter esse prazer. Amaro pede então que ele sossegue seu coração, que almoçasse em paz e depois conversariam sobre trabalho.
Mais confiante, Agenor enxuga as lágrimas e começa a almoçar, já que sua fome já estava nas costas.
Após o almoço, Amaro convida Agenor para uma conversa nos fundos da padaria, onde havia um pequeno escritório. Agenor conta então que há mais de 2 anos havia perdido o emprego e desde então, sem uma especialidade profissional, sem estudos, ele estava vivendo de pequenos 'biscates aqui e acolá', mas que há 2 meses não recebia nada.
Amaro resolve então contratar Agenor para serviços gerais na padaria, e penalizado, faz para o homem uma cesta básica com alimentos para pelo menos 15 dias. Agenor, com lágrimas nos olhos, agradece a confiança daquele homem e marca para o dia seguinte seu início no trabalho.
Ao chegar em casa com toda aquela 'fartura', Agenor é um novo homem, sentia esperanças, sentia que sua vida iria tomar novo impulso. Deus estava lhe abrindo mais do que uma porta, era toda uma esperança de dias melhores.
No dia seguinte, às 5 da manhã, Agenor estava na porta da padaria ansioso para iniciar seu novo trabalho. Amaro chega logo em seguida e sorri para aquele homem que nem ele sabia porque estava ajudando. Tinham a mesma idade, 32 anos, e histórias diferentes, mas algo dentro dele chamava-o para ajudar aquela pessoa.
 E ele não se enganou. Durante um ano, Agenor foi o mais dedicado trabalhador daquele estabelecimento, sempre honesto e extremamente zeloso com seus deveres.
Um dia, Amaro chama Agenor para uma conversa e fala da escola que abriu vagas para a alfabetização de adultos um quarteirão acima da padaria, e que ele fazia questão que Agenor fosse estudar.
Agenor nunca esqueceu seu primeiro dia de aula: a mão trêmula nas primeiras letras e a emoção da primeira carta.
Doze anos se passam desde aquele primeiro dia de aula.
Vamos encontrar o Dr. Agenor Baptista de Medeiros, advogado, abrindo seu escritório para seu cliente, e depois outro, e depois mais outro.
Ao meio dia ele desce para um café na padaria do amigo Amaro, que fica impressionado em ver o 'antigo funcionário' tão elegante em seu primeiro terno.  
Mais dez anos se passam, e agora o Dr. Agenor Baptista, já com uma clientela que mistura os mais necessitados que não podem pagar, e os mais abastados que o pagam muito bem, resolve criar uma instituição que oferece aos desvalidos da sorte, que andam pelas ruas, pessoas desempregadas e carentes de todos os tipos, um prato de comida diariamente na hora do almoço.
Mais de 200 refeições são servidas diariamente naquele lugar que é administrado pelo seu filho, o agora nutricionista Ricardo Baptista.
Tudo mudou, tudo passou, mas a amizade daqueles dois homens, Amaro e Agenor, impressionava a todos que conheciam um pouco da história de cada um. Contam que aos 82 anos os dois faleceram no mesmo dia, quase que à mesma hora, morrendo placidamente com um sorriso de dever cumprido.
Ricardinho, o filho, mandou gravar na frente da 'Casa do Caminho', que seu pai fundou com tanto carinho:

“Um dia eu tive fome, e você me alimentou. Um dia eu estava sem esperanças e você me deu um caminho. Um dia acordei sozinho, e você me deu Deus, e isso não tem preço. Que Deus habite em seu coração e alimente sua alma. E, que te sobre o pão da misericórdia para estender a quem precisar!”

terça-feira, 13 de junho de 2017

Olha como foi lindo!


Esse foi o cartaz que a designer Cassandra Kopinits, da Kosmos Comunicação, criou para a minha apresentação no Polo Infantil no São João de Caruaru, no sábado passado (10). Essa foi a primeira vez que me apresentei no evento, considerado um dos maiores do Brasil.
Meu filho e os amiguinhos da escola, com a minha mais nova auxiliar, a Ciganinha - Foto de Poliana Esteves
Foi um dia muito feliz, que começou com projeto bacana, com o amigo e jornalista Moreira Netto (surpresa que logo vou anunciar) e terminou com uma apresentação divertida, com um público muito especial, assistindo às minhas estórias, no espetáculo "Facécias do povo: contos populares do Brasil". 

Comecei com "O milagre de São João", que vai estar no meu próximo livro, e segui com "Os compadres corcundas", "O caboclo, o padre e o estudante", "O passarinho do Malazartes" e fechei, chamando para a próxima apresentação, com a estória "Viva Deus e ninguém mais", todas de Luís da Câmara Cascudo. 

Nesta última, fiz a apresentação formal da Ciganinha, a boneca de mulungu que mestre Zé Gomes, de São Joaquim do Monte, fez para mim, e que vai fazer parte das minhas contações, usando agora a ventriloquia.

Foi muito massa, como a gente diz aqui. Quinta tem mais: fui convidada para contar estórias numa escola municipal aqui do Recife. Vamos que vamos!

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Sábado tem a Cigana Contadora de Estórias no Maior e Melhor São João do Mundo!

A Cigana Contadora de Estórias - Foto: Victor Vargas

Opa! No próximo sábado (10), às 17h, vou estar no Polo Infantil que a Prefeitura de Caruaru montou na Estação Ferroviária para entreter a meninada durante o Maior e Melhor São João do Mundo. Vou apresentar o espetáculo “Facécias do povo: contos populares do Brasil”, sessão de contos de minha autoria e do maravilhoso folclorista Luiz da Câmara Cascudo.

Esta vai ser a primeira vez que vou me apresentar no Maior e Melhor São João do Mundo e estou preparando um presente que vai divertir bastante quem vier ouvir minhas estórias 😊

Espero você lá! A foto é de Victor Vargas/Guanabara Comunicação.

terça-feira, 6 de junho de 2017

O professor deve dar asas aos seus alunos!

Meus primeiros aluninhos, turma de 2012, Young 1 na Cultura Inglesa Caruaru.
Uma das coisas que mais gosto de fazer é ensinar. Além de jornalista, escritora e contadora de estórias, também sou professora de inglês e tive, na minha formação, a tutoria de grandes mestras. Durante o meu Basic Teacher's Training Course na Cultura Inglesa, estudei o livro do Prof. Jim Scrivener, "Learning teaching" (Heinemann, 1994) e logo na introdução, o Prof. Adrian Underhill, editor da obra, fala que "A formação do professor é um processo contínuo de transformação do potencial humano em desempenho humano, um processo que nunca tem fim".
Nos meus workshops sobre a contação de estórias como ferramenta de ensino e de aprendizagem, sempre ressalto a responsabilidade do professor que, com uma única palavra, tem o poder de dar asas ao seu aluno, permitindo-lhe acreditar em si mesmo, como também pode podá-lo para sempre, fazendo-o acreditar falsamente que está destinado ao fracasso.
Para ilustrar isso, compartilho uma história, de autoria desconhecida, atribuída à mãe do Thomas Edison (o cara que inventou a lâmpada), que acho fantástica e que serve para nos lembrar de nossa responsabilidade enquanto educadores, de sala de aula e do lar:

"Certo dia, Thomas Edison chegou em casa com um bilhete para sua mãe. Ele disse:
“Meu professor me deu este papel para entregar apenas a você.”
Os olhos da mãe lacrimejavam ao ler a carta e resolveu ler em voz alta para seu filho:
“Seu filho é um gênio. Esta escola é muito pequena para ele e não tem suficiente professores ao seu nível para treiná-lo. Por favor, ensine-o você mesmo!!”
Depois de muitos anos, Edison veio a se tornar um dos maiores inventores do século. Após o falecimento de sua mãe, resolveu arrumar a casa quando viu um papel dobrado no canto de uma gaveta. Ele pegou e abriu. Para sua surpresa era a antiga carta que seu professor havia mandado a sua mãe, porém o conteúdo era outro que sua mãe leu anos atrás.
“Seu filho é confuso e tem problemas mentais. Não vamos deixá-lo vir mais à escola!!”
Edison chorou durante horas e então escreveu em seu diário:
“Thomas Edison era uma criança confusa mas graças a uma mãe heroína e dedicada, tornou-se o gênio do século.”

Lindo, né? 
Leia também o artigo que fala sobre como a relação positiva entre professor e aluno pode melhorar o comportamento em sala de aula. 

sábado, 3 de junho de 2017

Conto: "A descoberta da joaninha"

Essa estorinha é muito bacana, foi apresentada esta semana na culminância do projeto de leitura do Colégio Interativo, em Caruaru, pela turminha da Profª Flávia. É uma estória boa para falar de valores. No Portal do Professor, tem dica de aula para trabalhar com ela.


A descoberta da joaninha
Bellah Leite Cordeiro
                                                           
                                      
Dona Joaninha vai a uma festa em casa da lagartixa.Vai ser uma delícia!
Todos os bichinhos foram convidados...Afinal chegou o grande dia.
O dia da festa na casa da Lagartixa. Dona Joaninha está feliz.
Quer ir muito bonita!Por que assim, todo mundo vai querer dançar e conversar c om ela!
E ela poderá se divertir a valer!Por isso, colocou uma fita na cabeça, uma faixa na cintura,
muitas pulseiras nos braços e ainda levou um leque para se abanar.
No caminho, encontrou Dona Formiga na porta de do formigueiro e disse:
- Bom dia Dona Formiga! Não vai à festa da lagartixa?
- Não posso minha amiga. Ontem fizemos mudança e eu não tive tempo de me preparar...
- Não tem problema! Tudo bem! Eu posso emprestar a fita que tenho na cabeça e você vai ficar linda com ela! Quer???
- Mas que legal Dona Joaninha! Você faria isso por mim?
- Claro que sim! Estou muito enfeitada! Posso dividir com você.
Tirou a fita de sua cabeça e a ofereceu para Dona Formiga que, feliz, decidiu ir à festa.
Lá se foram as duas. A formiga radiante com a fita na cabeça.
Mais adiante, encontraram Dona Aranha na sua teia fazendo renda.
- Oi! Aonde vão as duas tão bonitas?
- À festa da lagartixa! Você não vai???
- Sinto muito! Tive muitas despesas este mês e sem dinheiro não pude me preparar para a festa.
- Não seja por isso! -disse a Joaninha - Estou muito enfeitada! Posso bem emprestar as minhas pulseiras... Vão ficar lindíssimas em você!
Emprestou suas pulseiras, que ficaram lindas em Dona Aranha.
- Que maravilha! Disse a aranha entusiasmada – Sempre tive vontade de usar pulseiras em meus braços! Dona Joaninha, você é legal demais! Sabia?
As três, radiantes de felicidade, seguiram rumo à festa.
Um pouco adiante, encontraram a Taturana. Como sempre, estava morrendo de calor!
- Oi, Dona Taturana! Como vai?
- Mal! Muito mal com esse calor! Sabe que nem tenho disposição para ir à festa da Lagartixa.
- Ora! Mas para isso dá-se um jeito! Disse a Joaninha muito amável – Posso lhe emprestar o meu leque.
E lá se foi também a Taturana, muito alegre, se abanando com o leque, e encantada com a gentileza da amiga.
Logo depois, deram de cara com a Minhoca. Que tinha colocado a cabeça pra fora da terra para tomar um pouco de ar.
- Dona Minhoca, não vai à festa? Disse a turminha ao passar por ela.
- Não dá, sabe? Eu trabalho demais! Quase não dá tempo pra comprar as coisas de que preciso.. E, agora, estou sem ter uma boa roupa boa pra vestir! Sinto bastante! Porque sei que a festa vai ser muito legal! Mas, que se há de fazer?...
- Ora, Dona Minhoca – Disse a Joaninha com pena dela – Dá-se um jeito... Posso emprestar a minha faixa e com ela você ficará muito elegante!
E emprestou a sua faixa à Minhoca que ficou muito elegante.
E seguiu com as amigas para a festa.
Dona Joaninha estava tão feliz com a alegria das outras, que nem reparou ter dado tudo o que ela havia posto para ficar mais bonita. Mas, a alegria de seu coração aparecia nos olhos, no sorriso, e em tudo o que ela dizia! E isso a fez tão linda, mas tão linda que ninguém, na festa dançou e se divertiu mais do que ela!
Foi então que a Joaninha descobriu que para a gente ficar bonita e se divertir não precisa se enfeitar toda. Basta ter o coração bem alegre que a alegria de dentro deixa a gente bonita por fora. E ela conseguiu essa alegria fazendo todo aquele pessoal ficar feliz!!!


Imagem: SetimArtes

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Conto: Doja, a fada cigana

Este belo conto de Magda Szécsi, uma romi húngara, traduzido e adaptado por mim, foi tirado de um magnífico vídeo, de uma série produzida pelo estúdio húngaro Kecskemetfilm, Cigánymések (Gypsy tales ou contos ciganos). 
Eu o contei pela primeira vez na Roda de Histórias promovida pela Cia Palavras Andarilhas, no dia 04 de maio deste ano, no Teatro Joaquim Cardozo, em homenagem ao Mês dos Ciganos.


Há muito, muito tempo atrás, quando as pessoas ainda acreditavam que as gotas de chuva eram as lágrimas do sol entristecido com as maldades que os homens cometiam aqui na Terra, vivia uma bela fada cigana chamada Doja.
Um dia, Doja decidiu deixar seu palácio nas nuvens e se misturar com seu povo.
Os ciganos estavam lavando seus cavalos no córrego quando notaram a figura de uma bela mulher descendo pelo arco-íris.
"É um milagre!", suspirou Zurkoja.
"Quem pode ser?", perguntou Mutó.
"Talvez uma deusa", disse Csádi.
"Ei, Zukka, Runó, Zoldikó! Venham rápido!, gritou Dzsilla.
E todos vieram e formaram um círculo ao redor da bela mulher.
"Que os habitantes dos céus tornem os vossos dias fáceis e que nunca lhes faltem vinho, carne e pão".
"Eu sei quem você é!", gritou um.
“- A pele macia de sua mão!”, se maravilhou outro.
"Sim, você deve ser ...", começou Mutó.
"... a fada dos ciganos!", conclui Csádi.
"Doja! Doja! Doja! ", exclamaram todos, cheios de alegria.
“Vim para ajudar vocês. Vocês terão seu próprio país onde poderão viver em paz. Vocês poderão construir casas de pedra e tijolo, como outras pessoas fizeram. Vamos aprovar leis, porque as pessoas não podem viver sem leis. Vocês devem trabalhar e a ninguém será permitido acumular riqueza. O pão pertencerá a todos e todos terão uma parte igual ", disse Doja, com o rosto corado de animação.
"Sim, sim! Vai ser como você disse!”, exclamaram todos.
"Então desmontem suas tendas, pois vamos partir em uma longa jornada."
Eles tinham muito pouco para levar, de modo que logo estavam prontos, esperando para partir em sua viagem.
Doja pegou seu pente mágico e começou a pentear os cabelos, que eram negros e tão longos que tocavam o chão. À medida que ela penteava, os cabelos iam crescendo cada vez mais até formarem um longo tapete de veludo negro.
"Peguem meu cabelo e segurem-se firme! Não tenham medo!" - disse ela.
Então eles se agarraram aos seus belos e fortes cabelos. E de repente eles podiam sentir que estavam subindo no ar e voando, como os pássaros que sempre invejaram.
E eles viajaram por dias e dias antes de, finalmente, chegarem.
"Olhem sobre vocês! Esta é a Terra dos Ciganos! Esta água salgada é o Mar do Povo Romá, mas há milhares e milhares de fontes de água doce. Os animais são mansos, e os ramos das árvores pendem para baixo, pesados com frutas suculentas.
"Eu vivi cem anos, mas nunca teria pensado que algum dia teríamos uma terra própria. Ei, ciganos, isso é realmente um milagre! ", Disse Zurkoja.
E em sua alegria, Zurkoja caiu na terra perfumada em lágrimas.
Os outros seguiram seu exemplo e também derramaram suas lágrimas no solo.
O que então aconteceu levaria muito tempo para ser recontado, mas depois de muitos anos, o fruto de seu duro trabalho veio, tudo como Doja havia predito.
Fileiras de belas casas caiadas de branco, jardins resplandecentes com flores misteriosas e coloridas, milhares de cavalos correndo livre nas margens do rio e do mar. Um verdadeiro paraíso de conto de fadas.
Mas uma manhã uma coisa terrível aconteceu.
A terra se abriu e das rachaduras rastejaram criaturas verdes, escamosas, de pescoço de cobra e cascos vermelho, fazendo barulhos estridentes e chiados esquisitos.
A terra tremeu sob seus cascos. As fissuras continuavam se abrindo no chão. As casas desmoronaram.
Os ciganos estavam mortos de medo.
Doja chorou enquanto observava como o trabalho de muitos anos foi destruído em poucos minutos.
"Quem são essas criaturas, Doja?", perguntou Dzsilla.
"São monstros de baixo da terra. Só chegam à superfície se alguém lhes roubou algo ".
"Ontem à noite, meu filho Zoldikó desenterrou do solo uma besta de olhos de diamante e pés vermelhos exatamente como esses monstros. Está em nossa casa ", disse a mulher.
Doja correu para a casa e lá ela viu Zoldikó brincando calmamente com a estranha criatura.
Ela pegou o pequeno monstro e, segurando-o no colo, correu para fora e soltou-o. A pequena fera saltou para os braços de sua mãe.
"Zübirki-ridikiki! Bukiki-zuki!", os estranhos animais cantaram, curvando-se com gratidão, e desapareceram, como se nunca tivessem emergido do solo.
As feridas na terra gradualmente foram curadas, mas os ciganos não estavam mais tão satisfeitos quanto antes.
"Como era agradável em tempos antigos vagar pela terra, dormir onde quer que estivéssemos quando caía a noite", disse Dzsilla, dando voz à opinião de todos.
"E vocês estão tão infelizes assim aqui?", perguntou Doja.
"Perdemos nossas andanças. Temos medo ... ", disseram os ciganos.
"O que você pensa, Csádi?", perguntou Doja ao jovem.
"O que diria o pássaro do paraíso se alguém amarrasse um fio de seda à sua delicada perna e ele não pudesse mais voar?", foi a resposta dele. "Leve-nos de volta ao lugar de onde viemos", pediu o rapaz.
"Está bem. Amanhã vou levá-los de volta ", disse a fada, embora não pudesse evitar a tristeza.
Na manhã seguinte, Doja acordou com uma tremenda comoção. Os ciganos estavam ocupados empacotando suas coisas. Eles queriam levar tudo e qualquer coisa que pudessem pegar com as suas mãos.
"Pessoal, pessoal! Só podemos levar conosco as coisas que trouxemos, nada mais!", disse a fada. "Meu cabelo não é forte o suficiente para segurar tudo isso!"
"Mas como eu poderia deixar meus cem cavalos aqui?", perguntou Mutó.
Doja percebeu que ninguém a estava escutando, por isso não voltou a falar.
"Estamos prontos para partir!", disse Dzsilla.
“Agarrem-se no meu cabelo com uma mão e com a outra segurem as suas bagagens", recomendou a fada.
Eles voaram por um longo caminho, deixando a Terra dos Ciganos longe, muito atrás deles, mas, além da fada, ninguém mais lamentou perder as misteriosas flores de raros perfumes, os pássaros gentis com suas lindas penas coloridas, o mar, os sussurros da floresta.
"Ei, não consigo mais aguentar! Está muito pesado!", gritou Mutó.
"Solte sua carroça!", Doja gritou.
"Nunca! O que seria de meus cavalos? ", foi a resposta dele.
E eles voavam. Suas mãos morenas ficaram cansadas, agarradas aos cabelos de Doja e ao peso de suas bagagens, e com o tempo elas foram se soltando, esgotadas, e os ciganos caíram, um após o outro, espalhados pelo céu.
"O que será deles? O que será deles? ", pensou a fada, com grande tristeza e dor, vendo seu povo caindo.
E de repente ela percebeu que estava voando sozinha, que ninguém mais estava segurando em seu cabelo.
"Oh criaturas infelizes! Agora eles terão que vagar até que se encontrem novamente. Não há nada que eu possa fazer para ajudá-los agora! ", lamentou Doja.

E assim tem sido desde então. O povo cigano continua vagando, sem encontrar a sua terra verdadeira, espalhado por todos os cantos do mundo, sem pátria, mas com o céu como teto e a liberdade como religião.
Optcha!

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Roda de Histórias terá a participação da Cigana Contadora de Estórias


Nesta quinta-feira (04), às 19h30, Gabriela Kopinits, a Cigana Contadora de Estórias, vai estar no Teatro Joaquim Cardozo, no Recife, participando da Roda de Histórias, evento promovido pelo grupo pernambucano Cia Palavras Andarilhas. O tema será estórias ciganas e Gabriela vai trazer uma especialmente da Hungria, terra dos seus antepassados. "Será um prazer muito grande para mim trazer estórias da terra dos meus avós, abrindo o Mês dos Ciganos, cujo dia é comemorado em 24 de maio, dia de Santa Sara Kali, padroeira do povo Rom", comenta a contadora de estórias.

Além da Cigana (autora do livro infantil "Era uma vez... estórias de um contadora de estórias", da Cepe Editora), o público vai poder se encantar com as narrativas de Luciana Moura e Márcia Cruz e a apresentação de dança cigana com a Confraria das Ciganas de Olinda.
“Há mais de sete anos a Cia Palavras Andarilhas vem com essa maravilhosa ação de resgatar a tradição oral e de ofertar, para todos que emprestarem seus ouvidos dourados, maravilhosas histórias”, ressalta Mônica Xavier, uma das coordenadoras do evento, que acontece sempre nas primeiras quintas-feiras de cada mês e tem entrada franca.
Serviço:
Roda de Histórias Ciganas
Quinta-feira - 04/05/2017 às 19h30
Teatro Joaquim Cardozo - Rua Benfica nº 157, no Bairro da Madalena - Recife

Ouça a estória "O galo rouco e o rato esperto", da Cigana Contadora de Estórias!

Quer saber quando tem estória nova no blog?

Apresentações de contadores de estórias

Palavra Cantada - O rato
Clara Haddad - O coelho e o baobá

Cia Ópera na Mala - A sopa de pedras do Pedro

Cia Ópera na Mala - Pedro Malazartes e o pássaro raro

Eventos & Cursos

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