terça-feira, 27 de junho de 2017

Conto: Pai, tô com fome!

Meu bom amigo Armando Lima me mandou esse conto dito verídico, que achei de uma beleza enorme, embora um pouco triste porque mostra uma realidade que está acontecendo nesse exato momento em que eu estou escrevendo e você, lendo. Mas também é um conto de esperança, que nos exorta a manter a fé, pois Deus proverá sempre!
Cena do filme "À procura da felicidade", com Will Smith.
"Ricardinho não aguentou o cheiro bom do pão e falou:
- Pai, tô com fome!!!
O pai, Agenor, sem ter um tostão no bolso, caminhando desde muito cedo em busca de um trabalho, olha com os olhos marejados para o filho e pede mais um pouco de paciência....
- Mas pai, desde ontem não comemos nada, eu tô com muita fome, pai!!!
Envergonhado, triste e humilhado em seu coração de pai, Agenor pede para o filho aguardar na calçada enquanto entra na padaria a sua frente...
Ao entrar dirige-se a um homem no balcão:
- Meu senhor, estou com meu filho de apenas 6 anos na porta, com muita fome, não tenho nenhum tostão, pois saí cedo para buscar um emprego e nada encontrei, eu lhe peço que em nome de Jesus me forneça um pão para que eu possa matar a fome desse menino, em troca posso varrer o chão de seu estabelecimento, lavar os pratos e copos, ou outro serviço que o senhor precisar!!!
Amaro, o dono da padaria estranha aquele homem de semblante calmo e sofrido, pedir comida em troca de trabalho e pede para que ele chame o filho...
Agenor pega o filho pela mão e apresenta-o a Amaro, que imediatamente pede que os dois se sentem junto ao balcão, onde manda servir dois pratos de comida do famoso PF (Prato Feito) - arroz, feijão, bife e ovo...
Para Ricardinho era um sonho, comer após tantas horas na rua....
Para Agenor, uma dor a mais, já que comer aquela comida maravilhosa fazia-o lembrar-se da esposa e mais dois filhos que ficaram em casa apenas com um punhado de fubá...
Grossas lágrimas desciam dos seus olhos já na primeira garfada...
A satisfação de ver seu filho devorando aquele prato simples como se fosse um manjar dos deuses, e lembrança de sua pequena família em casa, foi demais para seu coração tão cansado de mais de 2 anos de desemprego, humilhações e necessidades...
Amaro se aproxima de Agenor e percebendo a sua emoção, brinca para relaxar:
- Ô Maria!!! Sua comida deve estar muito ruim... Olha o meu amigo está até chorando de tristeza desse bife, será que é sola de sapato?!?!
Imediatamente, Agenor sorri e diz que nunca comeu comida tão apetitosa, e que agradecia a Deus por ter esse prazer. Amaro pede então que ele sossegue seu coração, que almoçasse em paz e depois conversariam sobre trabalho.
Mais confiante, Agenor enxuga as lágrimas e começa a almoçar, já que sua fome já estava nas costas.
Após o almoço, Amaro convida Agenor para uma conversa nos fundos da padaria, onde havia um pequeno escritório. Agenor conta então que há mais de 2 anos havia perdido o emprego e desde então, sem uma especialidade profissional, sem estudos, ele estava vivendo de pequenos 'biscates aqui e acolá', mas que há 2 meses não recebia nada.
Amaro resolve então contratar Agenor para serviços gerais na padaria, e penalizado, faz para o homem uma cesta básica com alimentos para pelo menos 15 dias. Agenor, com lágrimas nos olhos, agradece a confiança daquele homem e marca para o dia seguinte seu início no trabalho.
Ao chegar em casa com toda aquela 'fartura', Agenor é um novo homem, sentia esperanças, sentia que sua vida iria tomar novo impulso. Deus estava lhe abrindo mais do que uma porta, era toda uma esperança de dias melhores.
No dia seguinte, às 5 da manhã, Agenor estava na porta da padaria ansioso para iniciar seu novo trabalho. Amaro chega logo em seguida e sorri para aquele homem que nem ele sabia porque estava ajudando. Tinham a mesma idade, 32 anos, e histórias diferentes, mas algo dentro dele chamava-o para ajudar aquela pessoa.
 E ele não se enganou. Durante um ano, Agenor foi o mais dedicado trabalhador daquele estabelecimento, sempre honesto e extremamente zeloso com seus deveres.
Um dia, Amaro chama Agenor para uma conversa e fala da escola que abriu vagas para a alfabetização de adultos um quarteirão acima da padaria, e que ele fazia questão que Agenor fosse estudar.
Agenor nunca esqueceu seu primeiro dia de aula: a mão trêmula nas primeiras letras e a emoção da primeira carta.
Doze anos se passam desde aquele primeiro dia de aula.
Vamos encontrar o Dr. Agenor Baptista de Medeiros, advogado, abrindo seu escritório para seu cliente, e depois outro, e depois mais outro.
Ao meio dia ele desce para um café na padaria do amigo Amaro, que fica impressionado em ver o 'antigo funcionário' tão elegante em seu primeiro terno.  
Mais dez anos se passam, e agora o Dr. Agenor Baptista, já com uma clientela que mistura os mais necessitados que não podem pagar, e os mais abastados que o pagam muito bem, resolve criar uma instituição que oferece aos desvalidos da sorte, que andam pelas ruas, pessoas desempregadas e carentes de todos os tipos, um prato de comida diariamente na hora do almoço.
Mais de 200 refeições são servidas diariamente naquele lugar que é administrado pelo seu filho, o agora nutricionista Ricardo Baptista.
Tudo mudou, tudo passou, mas a amizade daqueles dois homens, Amaro e Agenor, impressionava a todos que conheciam um pouco da história de cada um. Contam que aos 82 anos os dois faleceram no mesmo dia, quase que à mesma hora, morrendo placidamente com um sorriso de dever cumprido.
Ricardinho, o filho, mandou gravar na frente da 'Casa do Caminho', que seu pai fundou com tanto carinho:

“Um dia eu tive fome, e você me alimentou. Um dia eu estava sem esperanças e você me deu um caminho. Um dia acordei sozinho, e você me deu Deus, e isso não tem preço. Que Deus habite em seu coração e alimente sua alma. E, que te sobre o pão da misericórdia para estender a quem precisar!”

terça-feira, 13 de junho de 2017

Olha como foi lindo!


Esse foi o cartaz que a designer Cassandra Kopinits, da Kosmos Comunicação, criou para a minha apresentação no Polo Infantil no São João de Caruaru, no sábado passado (10). Essa foi a primeira vez que me apresentei no evento, considerado um dos maiores do Brasil.
Meu filho e os amiguinhos da escola, com a minha mais nova auxiliar, a Ciganinha - Foto de Poliana Esteves
Foi um dia muito feliz, que começou com projeto bacana, com o amigo e jornalista Moreira Netto (surpresa que logo vou anunciar) e terminou com uma apresentação divertida, com um público muito especial, assistindo às minhas estórias, no espetáculo "Facécias do povo: contos populares do Brasil". 

Comecei com "O milagre de São João", que vai estar no meu próximo livro, e segui com "Os compadres corcundas", "O caboclo, o padre e o estudante", "O passarinho do Malazartes" e fechei, chamando para a próxima apresentação, com a estória "Viva Deus e ninguém mais", todas de Luís da Câmara Cascudo. 

Nesta última, fiz a apresentação formal da Ciganinha, a boneca de mulungu que mestre Zé Gomes, de São Joaquim do Monte, fez para mim, e que vai fazer parte das minhas contações, usando agora a ventriloquia.

Foi muito massa, como a gente diz aqui. Quinta tem mais: fui convidada para contar estórias numa escola municipal aqui do Recife. Vamos que vamos!

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Sábado tem a Cigana Contadora de Estórias no Maior e Melhor São João do Mundo!

A Cigana Contadora de Estórias - Foto: Victor Vargas

Opa! No próximo sábado (10), às 17h, vou estar no Polo Infantil que a Prefeitura de Caruaru montou na Estação Ferroviária para entreter a meninada durante o Maior e Melhor São João do Mundo. Vou apresentar o espetáculo “Facécias do povo: contos populares do Brasil”, sessão de contos de minha autoria e do maravilhoso folclorista Luiz da Câmara Cascudo.

Esta vai ser a primeira vez que vou me apresentar no Maior e Melhor São João do Mundo e estou preparando um presente que vai divertir bastante quem vier ouvir minhas estórias 😊

Espero você lá! A foto é de Victor Vargas/Guanabara Comunicação.

terça-feira, 6 de junho de 2017

O professor deve dar asas aos seus alunos!

Meus primeiros aluninhos, turma de 2012, Young 1 na Cultura Inglesa Caruaru.
Uma das coisas que mais gosto de fazer é ensinar. Além de jornalista, escritora e contadora de estórias, também sou professora de inglês e tive, na minha formação, a tutoria de grandes mestras. Durante o meu Basic Teacher's Training Course na Cultura Inglesa, estudei o livro do Prof. Jim Scrivener, "Learning teaching" (Heinemann, 1994) e logo na introdução, o Prof. Adrian Underhill, editor da obra, fala que "A formação do professor é um processo contínuo de transformação do potencial humano em desempenho humano, um processo que nunca tem fim".
Nos meus workshops sobre a contação de estórias como ferramenta de ensino e de aprendizagem, sempre ressalto a responsabilidade do professor que, com uma única palavra, tem o poder de dar asas ao seu aluno, permitindo-lhe acreditar em si mesmo, como também pode podá-lo para sempre, fazendo-o acreditar falsamente que está destinado ao fracasso.
Para ilustrar isso, compartilho uma história, de autoria desconhecida, atribuída à mãe do Thomas Edison (o cara que inventou a lâmpada), que acho fantástica e que serve para nos lembrar de nossa responsabilidade enquanto educadores, de sala de aula e do lar:

"Certo dia, Thomas Edison chegou em casa com um bilhete para sua mãe. Ele disse:
“Meu professor me deu este papel para entregar apenas a você.”
Os olhos da mãe lacrimejavam ao ler a carta e resolveu ler em voz alta para seu filho:
“Seu filho é um gênio. Esta escola é muito pequena para ele e não tem suficiente professores ao seu nível para treiná-lo. Por favor, ensine-o você mesmo!!”
Depois de muitos anos, Edison veio a se tornar um dos maiores inventores do século. Após o falecimento de sua mãe, resolveu arrumar a casa quando viu um papel dobrado no canto de uma gaveta. Ele pegou e abriu. Para sua surpresa era a antiga carta que seu professor havia mandado a sua mãe, porém o conteúdo era outro que sua mãe leu anos atrás.
“Seu filho é confuso e tem problemas mentais. Não vamos deixá-lo vir mais à escola!!”
Edison chorou durante horas e então escreveu em seu diário:
“Thomas Edison era uma criança confusa mas graças a uma mãe heroína e dedicada, tornou-se o gênio do século.”

Lindo, né? 
Leia também o artigo que fala sobre como a relação positiva entre professor e aluno pode melhorar o comportamento em sala de aula. 

sábado, 3 de junho de 2017

Conto: "A descoberta da joaninha"

Essa estorinha é muito bacana, foi apresentada esta semana na culminância do projeto de leitura do Colégio Interativo, em Caruaru, pela turminha da Profª Flávia. É uma estória boa para falar de valores. No Portal do Professor, tem dica de aula para trabalhar com ela.


A descoberta da joaninha
Bellah Leite Cordeiro
                                                           
                                      
Dona Joaninha vai a uma festa em casa da lagartixa.Vai ser uma delícia!
Todos os bichinhos foram convidados...Afinal chegou o grande dia.
O dia da festa na casa da Lagartixa. Dona Joaninha está feliz.
Quer ir muito bonita!Por que assim, todo mundo vai querer dançar e conversar c om ela!
E ela poderá se divertir a valer!Por isso, colocou uma fita na cabeça, uma faixa na cintura,
muitas pulseiras nos braços e ainda levou um leque para se abanar.
No caminho, encontrou Dona Formiga na porta de do formigueiro e disse:
- Bom dia Dona Formiga! Não vai à festa da lagartixa?
- Não posso minha amiga. Ontem fizemos mudança e eu não tive tempo de me preparar...
- Não tem problema! Tudo bem! Eu posso emprestar a fita que tenho na cabeça e você vai ficar linda com ela! Quer???
- Mas que legal Dona Joaninha! Você faria isso por mim?
- Claro que sim! Estou muito enfeitada! Posso dividir com você.
Tirou a fita de sua cabeça e a ofereceu para Dona Formiga que, feliz, decidiu ir à festa.
Lá se foram as duas. A formiga radiante com a fita na cabeça.
Mais adiante, encontraram Dona Aranha na sua teia fazendo renda.
- Oi! Aonde vão as duas tão bonitas?
- À festa da lagartixa! Você não vai???
- Sinto muito! Tive muitas despesas este mês e sem dinheiro não pude me preparar para a festa.
- Não seja por isso! -disse a Joaninha - Estou muito enfeitada! Posso bem emprestar as minhas pulseiras... Vão ficar lindíssimas em você!
Emprestou suas pulseiras, que ficaram lindas em Dona Aranha.
- Que maravilha! Disse a aranha entusiasmada – Sempre tive vontade de usar pulseiras em meus braços! Dona Joaninha, você é legal demais! Sabia?
As três, radiantes de felicidade, seguiram rumo à festa.
Um pouco adiante, encontraram a Taturana. Como sempre, estava morrendo de calor!
- Oi, Dona Taturana! Como vai?
- Mal! Muito mal com esse calor! Sabe que nem tenho disposição para ir à festa da Lagartixa.
- Ora! Mas para isso dá-se um jeito! Disse a Joaninha muito amável – Posso lhe emprestar o meu leque.
E lá se foi também a Taturana, muito alegre, se abanando com o leque, e encantada com a gentileza da amiga.
Logo depois, deram de cara com a Minhoca. Que tinha colocado a cabeça pra fora da terra para tomar um pouco de ar.
- Dona Minhoca, não vai à festa? Disse a turminha ao passar por ela.
- Não dá, sabe? Eu trabalho demais! Quase não dá tempo pra comprar as coisas de que preciso.. E, agora, estou sem ter uma boa roupa boa pra vestir! Sinto bastante! Porque sei que a festa vai ser muito legal! Mas, que se há de fazer?...
- Ora, Dona Minhoca – Disse a Joaninha com pena dela – Dá-se um jeito... Posso emprestar a minha faixa e com ela você ficará muito elegante!
E emprestou a sua faixa à Minhoca que ficou muito elegante.
E seguiu com as amigas para a festa.
Dona Joaninha estava tão feliz com a alegria das outras, que nem reparou ter dado tudo o que ela havia posto para ficar mais bonita. Mas, a alegria de seu coração aparecia nos olhos, no sorriso, e em tudo o que ela dizia! E isso a fez tão linda, mas tão linda que ninguém, na festa dançou e se divertiu mais do que ela!
Foi então que a Joaninha descobriu que para a gente ficar bonita e se divertir não precisa se enfeitar toda. Basta ter o coração bem alegre que a alegria de dentro deixa a gente bonita por fora. E ela conseguiu essa alegria fazendo todo aquele pessoal ficar feliz!!!


Imagem: SetimArtes

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Conto: Doja, a fada cigana

Este belo conto de Magda Szécsi, uma romi húngara, traduzido e adaptado por mim, foi tirado de um magnífico vídeo, de uma série produzida pelo estúdio húngaro Kecskemetfilm, Cigánymések (Gypsy tales ou contos ciganos). 
Eu o contei pela primeira vez na Roda de Histórias promovida pela Cia Palavras Andarilhas, no dia 04 de maio deste ano, no Teatro Joaquim Cardozo, em homenagem ao Mês dos Ciganos.


Há muito, muito tempo atrás, quando as pessoas ainda acreditavam que as gotas de chuva eram as lágrimas do sol entristecido com as maldades que os homens cometiam aqui na Terra, vivia uma bela fada cigana chamada Doja.
Um dia, Doja decidiu deixar seu palácio nas nuvens e se misturar com seu povo.
Os ciganos estavam lavando seus cavalos no córrego quando notaram a figura de uma bela mulher descendo pelo arco-íris.
"É um milagre!", suspirou Zurkoja.
"Quem pode ser?", perguntou Mutó.
"Talvez uma deusa", disse Csádi.
"Ei, Zukka, Runó, Zoldikó! Venham rápido!, gritou Dzsilla.
E todos vieram e formaram um círculo ao redor da bela mulher.
"Que os habitantes dos céus tornem os vossos dias fáceis e que nunca lhes faltem vinho, carne e pão".
"Eu sei quem você é!", gritou um.
“- A pele macia de sua mão!”, se maravilhou outro.
"Sim, você deve ser ...", começou Mutó.
"... a fada dos ciganos!", conclui Csádi.
"Doja! Doja! Doja! ", exclamaram todos, cheios de alegria.
“Vim para ajudar vocês. Vocês terão seu próprio país onde poderão viver em paz. Vocês poderão construir casas de pedra e tijolo, como outras pessoas fizeram. Vamos aprovar leis, porque as pessoas não podem viver sem leis. Vocês devem trabalhar e a ninguém será permitido acumular riqueza. O pão pertencerá a todos e todos terão uma parte igual ", disse Doja, com o rosto corado de animação.
"Sim, sim! Vai ser como você disse!”, exclamaram todos.
"Então desmontem suas tendas, pois vamos partir em uma longa jornada."
Eles tinham muito pouco para levar, de modo que logo estavam prontos, esperando para partir em sua viagem.
Doja pegou seu pente mágico e começou a pentear os cabelos, que eram negros e tão longos que tocavam o chão. À medida que ela penteava, os cabelos iam crescendo cada vez mais até formarem um longo tapete de veludo negro.
"Peguem meu cabelo e segurem-se firme! Não tenham medo!" - disse ela.
Então eles se agarraram aos seus belos e fortes cabelos. E de repente eles podiam sentir que estavam subindo no ar e voando, como os pássaros que sempre invejaram.
E eles viajaram por dias e dias antes de, finalmente, chegarem.
"Olhem sobre vocês! Esta é a Terra dos Ciganos! Esta água salgada é o Mar do Povo Romá, mas há milhares e milhares de fontes de água doce. Os animais são mansos, e os ramos das árvores pendem para baixo, pesados com frutas suculentas.
"Eu vivi cem anos, mas nunca teria pensado que algum dia teríamos uma terra própria. Ei, ciganos, isso é realmente um milagre! ", Disse Zurkoja.
E em sua alegria, Zurkoja caiu na terra perfumada em lágrimas.
Os outros seguiram seu exemplo e também derramaram suas lágrimas no solo.
O que então aconteceu levaria muito tempo para ser recontado, mas depois de muitos anos, o fruto de seu duro trabalho veio, tudo como Doja havia predito.
Fileiras de belas casas caiadas de branco, jardins resplandecentes com flores misteriosas e coloridas, milhares de cavalos correndo livre nas margens do rio e do mar. Um verdadeiro paraíso de conto de fadas.
Mas uma manhã uma coisa terrível aconteceu.
A terra se abriu e das rachaduras rastejaram criaturas verdes, escamosas, de pescoço de cobra e cascos vermelho, fazendo barulhos estridentes e chiados esquisitos.
A terra tremeu sob seus cascos. As fissuras continuavam se abrindo no chão. As casas desmoronaram.
Os ciganos estavam mortos de medo.
Doja chorou enquanto observava como o trabalho de muitos anos foi destruído em poucos minutos.
"Quem são essas criaturas, Doja?", perguntou Dzsilla.
"São monstros de baixo da terra. Só chegam à superfície se alguém lhes roubou algo ".
"Ontem à noite, meu filho Zoldikó desenterrou do solo uma besta de olhos de diamante e pés vermelhos exatamente como esses monstros. Está em nossa casa ", disse a mulher.
Doja correu para a casa e lá ela viu Zoldikó brincando calmamente com a estranha criatura.
Ela pegou o pequeno monstro e, segurando-o no colo, correu para fora e soltou-o. A pequena fera saltou para os braços de sua mãe.
"Zübirki-ridikiki! Bukiki-zuki!", os estranhos animais cantaram, curvando-se com gratidão, e desapareceram, como se nunca tivessem emergido do solo.
As feridas na terra gradualmente foram curadas, mas os ciganos não estavam mais tão satisfeitos quanto antes.
"Como era agradável em tempos antigos vagar pela terra, dormir onde quer que estivéssemos quando caía a noite", disse Dzsilla, dando voz à opinião de todos.
"E vocês estão tão infelizes assim aqui?", perguntou Doja.
"Perdemos nossas andanças. Temos medo ... ", disseram os ciganos.
"O que você pensa, Csádi?", perguntou Doja ao jovem.
"O que diria o pássaro do paraíso se alguém amarrasse um fio de seda à sua delicada perna e ele não pudesse mais voar?", foi a resposta dele. "Leve-nos de volta ao lugar de onde viemos", pediu o rapaz.
"Está bem. Amanhã vou levá-los de volta ", disse a fada, embora não pudesse evitar a tristeza.
Na manhã seguinte, Doja acordou com uma tremenda comoção. Os ciganos estavam ocupados empacotando suas coisas. Eles queriam levar tudo e qualquer coisa que pudessem pegar com as suas mãos.
"Pessoal, pessoal! Só podemos levar conosco as coisas que trouxemos, nada mais!", disse a fada. "Meu cabelo não é forte o suficiente para segurar tudo isso!"
"Mas como eu poderia deixar meus cem cavalos aqui?", perguntou Mutó.
Doja percebeu que ninguém a estava escutando, por isso não voltou a falar.
"Estamos prontos para partir!", disse Dzsilla.
“Agarrem-se no meu cabelo com uma mão e com a outra segurem as suas bagagens", recomendou a fada.
Eles voaram por um longo caminho, deixando a Terra dos Ciganos longe, muito atrás deles, mas, além da fada, ninguém mais lamentou perder as misteriosas flores de raros perfumes, os pássaros gentis com suas lindas penas coloridas, o mar, os sussurros da floresta.
"Ei, não consigo mais aguentar! Está muito pesado!", gritou Mutó.
"Solte sua carroça!", Doja gritou.
"Nunca! O que seria de meus cavalos? ", foi a resposta dele.
E eles voavam. Suas mãos morenas ficaram cansadas, agarradas aos cabelos de Doja e ao peso de suas bagagens, e com o tempo elas foram se soltando, esgotadas, e os ciganos caíram, um após o outro, espalhados pelo céu.
"O que será deles? O que será deles? ", pensou a fada, com grande tristeza e dor, vendo seu povo caindo.
E de repente ela percebeu que estava voando sozinha, que ninguém mais estava segurando em seu cabelo.
"Oh criaturas infelizes! Agora eles terão que vagar até que se encontrem novamente. Não há nada que eu possa fazer para ajudá-los agora! ", lamentou Doja.

E assim tem sido desde então. O povo cigano continua vagando, sem encontrar a sua terra verdadeira, espalhado por todos os cantos do mundo, sem pátria, mas com o céu como teto e a liberdade como religião.
Optcha!

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Roda de Histórias terá a participação da Cigana Contadora de Estórias


Nesta quinta-feira (04), às 19h30, Gabriela Kopinits, a Cigana Contadora de Estórias, vai estar no Teatro Joaquim Cardozo, no Recife, participando da Roda de Histórias, evento promovido pelo grupo pernambucano Cia Palavras Andarilhas. O tema será estórias ciganas e Gabriela vai trazer uma especialmente da Hungria, terra dos seus antepassados. "Será um prazer muito grande para mim trazer estórias da terra dos meus avós, abrindo o Mês dos Ciganos, cujo dia é comemorado em 24 de maio, dia de Santa Sara Kali, padroeira do povo Rom", comenta a contadora de estórias.

Além da Cigana (autora do livro infantil "Era uma vez... estórias de um contadora de estórias", da Cepe Editora), o público vai poder se encantar com as narrativas de Luciana Moura e Márcia Cruz e a apresentação de dança cigana com a Confraria das Ciganas de Olinda.
“Há mais de sete anos a Cia Palavras Andarilhas vem com essa maravilhosa ação de resgatar a tradição oral e de ofertar, para todos que emprestarem seus ouvidos dourados, maravilhosas histórias”, ressalta Mônica Xavier, uma das coordenadoras do evento, que acontece sempre nas primeiras quintas-feiras de cada mês e tem entrada franca.
Serviço:
Roda de Histórias Ciganas
Quinta-feira - 04/05/2017 às 19h30
Teatro Joaquim Cardozo - Rua Benfica nº 157, no Bairro da Madalena - Recife

Fábula sinfônica terá a narração da Cigana Contadora de Estórias


Estreia nesta quarta-feira (03), no Teatro Luiz Mendonça (Parque Dona Lindu, Recife) a fábula sinfônica “O Sítio da Amizade”. Escrito e composto pelo conhecido maestro Jorge Salgueiro o espetáculo é uma fábula onde os personagens são animais representados por instrumentos musicais. Nesta passagem pelo Recife, serão os músicos da Orquestra Criança Cidadã.

“O Sítio da Amizade” conta a estória de um elefante que procura abrigar-se da tempestade dentro de um sítio onde já se encontram vários outros animais. O seu tamanho, a sua cor e a sua forma fazem com que não seja muito bem recebido entre os demais bichos. As crianças no sítio intervêm e ensinam uma lição de solidariedade e aceitação das diferenças. A narração do espetáculo será feita pela escritora Gabriela Kopinits. Membro da Red Internacional de Cuentacuentos/International Storytelling Network, a maior rede de contadores de estórias do mundo, Gabriela é conhecida em Pernambuco como A Cigana Contadora de Estórias.

A produção do espetáculo é da premiada companhia portuguesa Foco Musical, há mais de duas décadas dedicadas à difusão da pedagogia musical. “O Sítio da Amizade” é o segundo projeto que a companhia traz para o Brasil. No ano passado, o grupo trouxe “A Orquestra dos Brinquedos”, que se apresentou em concertos por cidades de São Paulo, Pernambuco e do Ceará.

A montagem em Pernambuco tem o apoio do Real Hospital Português do Recife, Conselho da Comunidade Portuguesa em Pernambuco, Gabinete Português de Leitura de Pernambuco e Hotel TRYP Pernambuco/Rede Meliá Hotels International.

Guanabara Comunicação, com informações da Foco Musical

Foto: Telmo Losquiavo​




Serviço:

O Sítio da Amizade – Teatro Luiz Mendonça/Parque Dona Lindu- Boa Viagem/Recife

03-05: 08h30, 10h00, 14h30 e 16h00

04-05: 08h30, 10h00 e 14h30

05-05:09h30 (esgotada), 14h00, 15h30 (esgotada) e 18h30 (esgotada)

Ingressos: R$ 35,00 meia e R$ 70,00 inteira na bilheteria do teatro

segunda-feira, 24 de abril de 2017

A pedra na porta - conto marroquino

A pedra na porta - ilustração de Meredith Johnson
Era uma vez um homem que havia ganhado tanto dinheiro que nem sequer conseguia contar. Ele só queria proteger a si mesmo e a seu filho amado. Mas, infelizmente, todo o seu dinheiro não poderia evitar a mortalidade. O homem ficou gravemente doente e, quando compreendeu que iria morrer, chamou seu filho ao seu lado.

"Deixo-te uma fortuna", disse ele ao rapaz, "e você deve se proteger contra aqueles que não são verdadeiros. Quando você decidir que é hora de se casar, vá para o meu amigo mais velho e peça que ele encontre uma noiva. Ele vai encontrar a noiva que Deus escolheu para você. "

O jovem prometeu que faria o que seu pai pediu. Logo depois disso, seu pai morreu.

O tempo passou e assim o jovem começou a desejar o amor. E quando decidiu que queria se casar, cumpriu sua promessa e visitou o amigo de seu pai para buscar seu conselho. O amigo lhe disse que encontraria a noiva perfeita.

Poucas semanas se passaram até que o velho amigo de seu pai finalmente encontrou uma mulher bonita, sábia e confiável. O jovem estava muito feliz em ouvir isso, e então eles começaram a fazer arranjos para um grande casamento.

No dia anterior ao casamento, o amigo do pai disse para o jovem: "Para descobrir se Deus realmente escolheu esta mulher para você, você deve ir a seu quarto esta noite. Você encontrará uma pedra fora de sua porta. Se você puder mover a pedra, você saberá que ela é a escolhida. Se você não conseguir mover a pedra, você deve enviá-la de volta para casa. "

Naquela noite, o jovem foi até a porta da moça e, de dentro, ouviu uma voz cantando uma linda canção. Imediatamente ele soube que esta deve ser a mulher para ele, pois a canção soava como uma que ele lembrou de sua infância. Seu coração disparou de excitação quando ele espiou através da porta entreaberta e viu uma linda mulher vestida com vestes de seda. Ela era elegante e lembrou-lhe de sua falecida mãe. Ao lembrar-se da ternura que sentira nos braços de sua mãe, ele se abaixou para mover a pedra.

A pedra não era muito grande, mas quando ele tentou movê-la da porta, ele não conseguiu, nem mesmo uma polegada.

Ele soube então que esta noiva teria que voltar para sua família. Ele estava triste porque tinha tanta certeza de que ela era a única para ele.

E assim o amigo do seu pai arranjou uma nova moça. Mais uma vez, uma data de casamento foi estabelecida, e a segunda noiva chegou à casa. Mais uma vez o velho amigo disse ao jovem o que ele tinha que fazer: "Haverá uma pedra fora de sua porta, se você puder movê-la, você saberá que esta é a esposa que Deus escolheu para você".

Quando o jovem se aproximou da porta, mais uma vez ouviu a canção familiar, mas desta vez foi uma harpa a tocá-la. Quando ele olhou para o quarto, viu uma mulher tão bonita quanto a que veio antes dela. Seus dedos dançaram através das cordas da harpa, e quando ela começou a dançar, ele teve certeza de que ela era a noiva certa para ele.

Ele então se abaixou para mover a pedra. Porém, mais uma vez, ele não conseguiu movê-la nem uma polegada. Seu coração ficou pesado de tristeza, e novamente a noiva voltou para sua família.

Pela terceira vez, o amigo do pai arranjou uma noiva, embora agora o jovem estivesse desanimado. Ele sabia que aquela mulher seria linda, naturalmente, e naturalmente ela seria sábia e gentil. Disso ele estava certo. Mas e se ele não pudesse mover a pedra novamente? Deveria então viver para sempre sozinho?

Com esses pensamentos tristes no coração, ele caminhou lentamente em direção ao quarto da noiva. E, pela terceira vez, ouviu aquela canção de sua infância, a canção que lembrava todos os amigos que já conhecera, os dias em campos ensolarados, as noites sonhando sob as estrelas, subindo em árvores, nadando nos rios e dançando entre amigos. O quanto ele tinha desfrutado daqueles dias de infância. O quanto ele amava seus amigos. O quanto havia sido feliz.

E desta vez, quando olhou para dentro da sala, viu uma mulher vestida de camponesa, com os cabelos longos, escuros e macios como a seda. Seus olhos estavam iluminados por uma alegria interior, e ela costurava uma linda colcha enquanto cantava.

Enquanto ele ouvia, o jovem percebeu que as três noivas poderiam ter sido a mesma mulher - bonita, sábia, atraente e gentil, alguém para amar e alguém que seria sua companheira fiel.

Mas quando ele se abaixou para mover a pedra, mais uma vez ele não conseguiu movê-la nem uma só polegada.

Ele estava prestes a chorar quando de repente viu uma sombra passar pela porta, e ele ouviu uma voz gentil dizendo: "Deixe-me ajudá-lo." A mulher estendeu a mão em direção à pedra, junto com ele, e assim os dois conseguiram afastaram a pedra com facilidade.

O jovem soube então que finalmente havia encontrado a noiva que Deus havia escolhido para ele, e ela também soube que esse era o homem que Deus queria que ela amasse.

Mas eles também entenderam algo a mais: encontrar o ser amado, apenas, não era suficiente. Eles perceberam que deveriam sempre trabalhar juntos para mover as pedras que vez por outra bloqueiam as portas que levam a uma vida rica e feliz.

****
Fonte: Tell me a story, by Amy Friedman and Meredith Johnson
Tradução e adaptação: Gabriela Kopinits

quinta-feira, 20 de abril de 2017

A lenda da Vitória-Régia

Conta a lenda que uma bela índia chamada Naiá apaixonou-se por Jaci (a Lua), que brilhava no céu a iluminar as noites. Nos contos dos pajés e caciques, Jaci de quando em quando descia à Terra para buscar alguma virgem e transformá-la em estrela do céu para lhe fazer companhia. Naiá, ouvindo aquilo, quis também virar estrela para brilhar ao lado de Jaci.

Durante o dia, bravos guerreiros tentavam cortejar Naiá, mas era tudo em vão, pois ela recusava todos os convites de casamento. E mal podia esperar a noite chegar, quando saía para admirar Jaci, que parecia ignorar a pobre Naiá. Mas ela esperava sua subida e sua descida no horizonte e, já quase de manhãzinha, saía correndo em sentido oposto ao Sol para tentar alcançar a Lua. Corria e corria até cair de cansaço no meio da mata. 

Vitória-Régia, de Eduardo Azevedo
Noite após noite, a tentativa de Naiá se repetia. Até que ela adoeceu. De tanto ser ignorada por Jaci, a moça começou a definhar. Mesmo doente, não havia uma noite que não fugisse para ir em busca da Lua. 

Numa dessas vezes, a índia caiu cansada à beira de um igarapé. Quando acordou, teve um susto e quase não acreditou: o reflexo da Lua nas águas claras do igarapé a fizeram exultar de felicidade! Finalmente ela estava ali, bem próxima de suas mãos. 

Naiá não teve dúvidas: mergulhou nas águas profundas e acabou se afogando. Jaci, vendo o sacrifício da índia, resolveu transformá-la numa estrela incomum. O destino de Naiá não estava no céu, mas nas águas, a refletir o clarão do luar. Naiá virou a Vitória Régia, a grande flor amazônica das águas calmas, a estrela das águas, tão linda quanto as estrelas do céu e com um perfume inconfundível. E que só abre suas pétalas ao luar. 

Fonte: UFMG
Ilustração: Eduardo Azevedo

terça-feira, 18 de abril de 2017

18 de abril – Dia Nacional do Livro Infantil


Gabriela Kopinits*

Viajar por outras terras, conhecer outras culturas e outros povos sem sair do lugar. Ir do Brasil à África em questão de segundos! Mergulhar bem lá no fundo do mar, dentro de um fantástico submarino com o Capitão Nemo e ver os peixes mais incríveis do oceano? E ainda bater um papo com um gigante e conhecer o magnífico país de Lilliput ou ainda dançar com a bela Titânia e suas fadas?
Quem não gostaria disso? Passear pelo mundo inteiro sem ter que gastar dinheiro, sem ter que pagar passagem?
Maluquice? Que nada! Magia e da boa. Basta pronunciar três palavrinhas: era uma vez...
A mais conhecida introdução de estórias, “Era uma vez...”, é a fórmula mágica para viagens fantásticas como essas e muitas outras narradas pelos nossos contadores de estórias, dentre os quais um dos maiores foi José (Renato) Bento Monteiro Lobato, o criador do Sítio do Picapau Amarelo.
A maior parte das crianças brasileiras certamente conhece personagens como a Emília, Narizinho, Pedrinho, o Visconde, dona Benta, tia Nastácia, o Burro Falante, a Cuca, o Saci e a Iara. Estes são alguns dos moradores do encantado sítio onde mil aventuras sem fim são possíveis de ser vividas. Afinal, em que outro lugar do mundo se poderiam conhecer o Barão de Münchausen, o maior cascateiro da História, o temível Minotauro, um Centauro de verdade e ainda o grande filósofo Sócrates? Em que outro lugar poderia uma espiga de milho virar um visconde, ou uma boneca de pano falar e ainda virar marquesa? E uma menina casar com um príncipe peixe? Ou um jacaré ser, na verdade, uma terrível feiticeira?
A mais importante – e talvez a mais brasileira - das obras infantis já escritas, o Sítio do Picapau Amarelo nasceu da imaginação do neto do Visconde de Tremembé, batizado José Renato, nascido em Taubaté em 18 de abril de 1882 e falecido em 04 de julho de 1948.
Formado em Direito, a primeira ocupação de Monteiro Lobato foi como promotor. Quando herda do nobre avô a fazenda São José do Buquira (onde hoje é o Museu Monteiro Lobato, no município que leva seu nome), Lobato decide mudar de vida (e da pequena Areias onde exercia sua profissão) e vai com a mulher, Maria Pureza da Natividade de Souza e Castro (Purezinha) e os dois filhos Marta e Edgard para Buquira.
A nova vida de fazendeiro não foi de todo ruim e, se não deu para fazer fortuna, foi lá que lhe nasceram os filhos Guilherme e Rute e onde Monteiro Lobato (que já escrevia artigos e contos desde a época da faculdade) encontrou inspiração para criar seus personagens mais famosos, começando com “A menina do narizinho arrebitado”, obra publicada em 1921.
Mas o maior feito de Lobato, além da criação de uma literatura infantil largamente inspirada no folclore brasileiro (antes as obras eram meras traduções ou adaptações de estórias vindas principalmente da Europa), foi a de ter fundado a primeira editora brasileira, a Monteiro Lobato e Cia. Vou contar essa história: em 1918, ele vendeu a Fazenda Buquira e comprou a Revista do Brasil, que deu espaço a autores nacionais, como Godofredo Rangel (autor de “Um passeio à casa de Papai Noel” e “Histórias do tempo do onça”, entre outros), além dele mesmo, que publicou por ela “Urupês”, uma série de 14 contos que denunciam o descaso do governo com as dificuldades do produtor rural. É em Urupês que ele apresenta o personagem Jeca Tatu, símbolo do caipira sofredor e depois personagem de campanha sanitarista do Instituto Oswaldo Cruz.
Através da sua editora, Lobato deu oportunidade a autores que não conseguiam publicar suas obras por serem ainda desconhecidos. Disse ele: “Fui um editor revolucionário. Abri as portas aos novos. Era uma grande recomendação a chegada dum autor totalmente desconhecido – eu lhe examinava a obra com mais interesse. Nosso gosto era lançar nomes novos, exatamente o contrário dos velhos editores que só queriam saber dos “consagrados”.
Foi nessa época em que o visionário Monteiro Lobato teve uma ideia genial para vender livros. O problema principal era quanto à distribuição deles e Lobato achava que livro era que nem sobremesa, devia ser colocado debaixo do nariz das pessoas. O pesquisador Laurence Hallewell registra em “O livro no Brasil: sua história” (São Paulo: EdUSP, 2005, p. 320) que ele “escreveu para todos os agentes postais do Brasil (1300 ao todo), solicitando nomes e endereços de bancas de jornais, papelarias, armazéns e farmácias interessadas em vender livros”, dando início a uma rede de quase dois mil distribuidores de livros pelo país.
Infelizmente, por problemas financeiros, o empreendimento acabou sendo vendido, em 1925, a Assis Chateaubriand, mas um tempo depois, o inquieto empreendedor fundou com apoio de Octalles Marcondes Ferreira (que havia sido seu auxiliar no projeto anterior da Editora Monteiro Lobato) a Companhia Editora Nacional. Foi através dela que foi publicado o primeiro livro escrito no Brasil no século XVI, a obra “Meu cativeiro entre os selvagens brasileiros”, do aventureiro e mercenário alemão Hans Staden, que passou nove meses refém dos índios tupinambás.
A companhia, no entanto, não ficou muito tempo nas mãos de Lobato, que teve que vender suas ações ao sócio após grande prejuízo das ações investidas na Bolsa de Nova Iorque, época em que ele vivia nos Estados Unidos como adido comercial do governo brasileiro e em que escreveu as outras obras que iriam virar as aventuras do Sítio do Picapau Amarelo, reunidas no livro “Reinações de Narizinho” (1931).
De volta a São Paulo, focou seu interesse no petróleo e fundou várias companhias petrolíferas, sempre defendendo que a riqueza do petróleo brasileiro poderia melhorar a vida do povo, numa luta renhida contra interesses políticos e econômicos que o deixaram pobre e doente. Acusando o governo Vargas de administrar o país contra os interesses do brasileiro e criticando acidamente o então Conselho Nacional do Petróleo, foi condenado à prisão, ficando de março a junho de 1941 no Presídio Tiradentes e saindo de lá um homem ainda mais indignado contra a repressão aos que defendiam os direitos do povo.
Sempre usando a ferina e arguta pena, Lobato seguiu lutando pelo que acreditava, apoiou o Comunismo e defendeu até o fim o petróleo como bem de todos. O corpo, cansado das longas batalhas e da injustiça social e política, entrou em colapso e o grande escritor e nacionalista acabou deixando a vida terrena na madrugada do dia 04 de julho de 1948, aos 66 anos.
Sua vida, por si só, já é obra digna de aprofundado estudo e admiração, bem como sua produção literária, principalmente a que vem maravilhando tantas e tantas crianças há quase cem anos. Por isso, mui merecidamente, em 08 de janeiro de 2002 o então presidente Fernando Henrique Cardoso sancionou a Lei nº 10.402/02, criando o Dia Nacional do Livro Infantil, “a ser comemorado, anualmente, no dia 18 de abril, data natalícia do escritor Monteiro Lobato”. Viva, pois, Monteiro Lobato!


*Gabriela Kopinits é jornalista, escritora e contadora de estórias.

Imagem: Site Ceuma

segunda-feira, 20 de março de 2017

20 de março – Dia Mundial do Contador de Estórias


Por Gabriela Kopinits

Era uma vez... Palavras mágicas que nos levam a lugares encantados, principalmente em nossa infância. São também o abre-te-sésamo das maravilhas de todo contador de estórias. São essas três palavrinhas que avisam ao expectador que lá vem magia e das boas. É só sentar, apurar os ouvidos e abrir os olhos, especialmente os da mente, e se permitir viajar.
Para celebrar essa, que é uma das artes mais antigas da humanidade, arte que já nasce com a gente (mesmo sem a gente se dar conta), há muito tempo atrás, lá pelos idos de 1991, um grupo de contadores de estórias da Suécia achou que seria legal promover um dia todinho de contação de estórias. Criaram um evento chamado "Alla berättares dag" (All storytellers day – dia de todos os contadores de estórias) que foi realizado no dia 20 de março, data que marca também o equinócio da primavera no Hemisfério Norte (outono para nós), estação em que a Natureza nos encanta com a prodigalidade de suas flores e perfumes.
A ideia ganhou força e se espalhou para outros países da Europa e das Américas. Em 1997, contadores de estórias em Perth, na Austrália, organizaram um festival de cinco dias com muitas estórias. Aqui no Brasil, as comemorações ainda são tímidas, alguns poucos estados, como o Distrito Federal, promovem sessões alusivas à data. Em Pernambuco, não achei divulgação de nenhum evento relacionado ao dia. No entanto, se o Congresso Nacional aprovar, isso pode mudar.
Desde 2012 tramita um projeto de lei (o PL 4005/2012), da deputada federal Erika Kokay (PT/DF), para a criação da Semana Nacional dos Contadores de Estória. “A contação de estória é importante para resgatar a identidade nacional”, disse a deputada.
Pelo seu projeto, as escolas públicas de educação básica deverão ter uma semana inteira de programações culturais destinadas a promover as manifestações orais, incluindo poesia, estórias e músicas. O acesso aos bens culturais é ainda extremamente modesto para larga parcela da população brasileira”, disse a deputada, que ressaltou a importância da preservação da tradição oral para a preservação da cultura. “O conhecimento e a vivência da cultura são elementos fundamentais para assegurar a identidade de uma nação. Trata-se de um direito de cidadania e de fator essencial na vida de todo ser humano”, acrescentou a parlamentar, defendendo ainda que a todos deve ser garantido o acesso ao que ela chama de “patrimônio cultural historicamente construído”.
O texto do PL - desde dezembro aguardando designação de relator na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara dos Deputados - está no site da entidade. Vale a pena ler até porque se trata de um importante instrumento na educação das crianças do nosso país. Nele, vemos os principais objetivos para sua criação, que são “disseminar informações sobre o patrimônio cultural imaterial brasileiro; discutir formas de democratização do acesso aos bens culturais imateriais; valorizar a diversidade cultural do povo brasileiro, contribuindo para a difusão das manifestações verbais, poéticas, literárias, musicais e outras modalidades de manifestações artísticas e culturais do povo brasileiro; estimular o debate de ações nas áreas da cultura; e contribuir para a formação de pessoal qualificado neste tema”.
Como contadora de estórias já há 17 anos, digo que só a apresentação desse projeto de lei já é um grande avanço para nós, artistas que ainda não tiveram seu lugar, enquanto profissionais, corretamente estabelecido ou seu valor devidamente reconhecido, até em questão de remuneração.
Estamos no limbo entre literatura e artes cênicas, quando deveríamos ser um amálgama dos dois. O contador de estórias bebe das duas fontes: busca sua inspiração principalmente na literatura e usa das artes da encenação para sua apresentação. Com as discussões que estão sendo promovidas em torno desse projeto de lei, estaremos certamente apontando balizas mais claras para nos colocar enquanto profissionais, ajudar a regulamentar a nossa profissão e, claro, finalmente nos dar um lugar ao sol.
E viva o contador de estórias!

*Gabriela Kopinits é jornalista, escritora e contadora de estórias, autora do livro “Era uma vez...” pela Cepe Editora.




segunda-feira, 6 de março de 2017

‘Domingo no Museu’ especial com a Cigana Contadora de Estórias


]No próximo dia 12 de março será comemorado o aniversário de Olinda e Recife. Para marcar esse dia tão especial, a Cepe Editora vai promover mais uma edição do seu ‘Domingo no Museu’, desta vez com a participação da Cigana Contadora de Estórias.
Personagem da jornalista e escritora carioca Gabriela Kopinits, autora do livro infantil “Era uma vez... estórias de uma contadora de estórias” (Cepe, 2014), a Cigana vai contar as suas estórias e a do livro “O computador que queria ser gente”, de Homero Fonseca, também da Cepe Editora. “Comemorar o aniversário de duas das cidades que mais amo contando estórias é bom demais”, diz Gabriela. “Meu projeto de conclusão de curso da faculdade de Jornalismo foi justamente em cima das histórias do Recife, então vou estar num momento muito especial, devolvendo à cidade o carinho com que fui acolhida aqui”, completa.
A Cigana Contadora de Estórias - Foto: Victor Vargas/Guanabara Comunicação
Além das estórias da Cigana e de Homero Fonseca, a programação inclui show com o mágico Rodrigo Lima, food trucks e food bikes e muitas brincadeiras para a criançada.
Anote na sua agenda: o ‘Domingo no Museu’ acontece no dia 12 de março, a partir das 9h da manhã, no Museu do Estado de Pernambuco, que fica na Av. Rui Barbosa nº 960, no bairro das Graças, no Recife. A entrada é franca.

Guanabara Comunicação
Foto: Victor Vargas

sábado, 4 de março de 2017

Homenagem à Cigana no Dia Internacional da Mulher


Olha só que felicidade! No próximo dia 7, a Cigana Contadora de Estórias vai receber uma tremenda honra da Loja Maçônica Terra Prometida nº 63, lá em Caruaru, na sessão solene alusiva ao Dia da Mulher. O convite veio do presidente Armando Jose Lima, companheiro de muitos eventos na nossa Capital do Agreste.

Fiquei muito feliz com essa homenagem, ainda mais vinda de uma entidade que tem prestado lindos serviços à comunidade, como a Festa das Crianças, de que participei nos últimos dois anos, contando as minhas estórias.
Deus os abençoe e obrigada, muito obrigada pela honraria!

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Conto: "A cidade dos poços" - Jorge Bucay

"Esta história representa para mim o símbolo da corrente que une as pessoas através da sabedoria dos contos. Contou-ma uma paciente que a tinha ouvido, por sua vez, da boca de um ser maravilhoso, o padre crioulo Mamerto Menapace. Assim como a reproduzo agora, ofereci-a uma noite a Marce e a Paula."

Aquela cidade não era habitada por pessoas, como todas as outras cidades do planeta.
Aquela cidade era habitada por poços. Poços vivos… mas afinal poços.
Os poços distinguiam-se entre si não somente pelo lugar onde estavam escavados, mas também pelo parapeito (a abertura que os ligava ao exterior).
Havia poços ricos e ostensivos com parapeitos de mármore e metais preciosos; poços humildes de tijolo e madeira, e outros mais pobres, simples buracos rasos que se abriam na terra.
A comunicação entre os habitantes da cidade fazia-se de parapeito em parapeito, e as notícias corriam rapidamente de ponta a ponta do povoado.
Um dia, chegou à cidade uma «moda» que certamente tinha nascido nalgum pequeno povoado humano.
A nova ideia assinalava que qualquer ser vivo que se prezasse deveria cuidar muito mais do interior do que do exterior. O importante não era o superficial, mas o conteúdo.
Foi assim que os poços começaram a encher-se de coisas.
Alguns enchiam-se de jóias, moedas de ouro e pedras preciosas. Outros, mais práticos, encheram-se de electrodomésticos e aparelhos mecânicos. Outros ainda optaram pela arte, e foram-se enchendo de pinturas, pianos de cauda e sofisticadas esculturas pós-modernas. Finalmente, os intelectuais encheram-se de livros, de manifestos ideológicos e de revistas especializadas.
O tempo passou.
A maioria dos poços encheu-se a tal ponto que já não podia conter mais nada.
Os poços não eram todos iguais, por isso, embora alguns se tenham conformado, outros pensaram no que teriam de fazer para continuar a meter coisas no seu interior…
Um deles foi o primeiro. Em vez de apertar o conteúdo, lembrou-se de aumentar a sua capacidade alargando-se.
Não passou muito tempo até que a ideia começasse a ser imitada. Todos os poços utilizavam grande parte das suas energias a alargar-se para criarem mais espaço no seu interior. Um poço, pequeno e afastado do centro da cidade, começou a ver os seus colegas que se alargavam desmedidamente. Ele pensou que se continuassem a alargar-se daquela maneira, dentro em pouco confundir-se-iam os parapeitos dos vários poços e cada um perderia a sua identidade…
Talvez a partir dessa ideia, ocorreu-lhe que outra maneira de aumentar a sua capacidade seria crescer, mas não em largura, antes em profundidade. Fazer-se mais fundo em vez de mais largo. Depressa se deu conta de que tudo o que tinha dentro dele lhe impedia a tarefa de aprofundar. Se quisesse ser mais profundo, seria necessário esvaziar-se de todo o conteúdo…
A princípio teve medo do vazio. Mas, quando viu que não havia outra possibilidade, depressa meteu mãos à obra.
Vazio de posses, o poço começou a tornar-se profundo, enquanto os outros se apoderavam das coisas das quais ele se tinha despojado…
Um dia, algo surpreendeu o poço que crescia para dentro. Dentro, muito no interior e muito no fundo… encontrou água!
Nunca antes nenhum outro poço tinha encontrado água.
O poço venceu a sua surpresa e começou a brincar com a água do fundo, humedecendo as suas paredes, salpicando o seu parapeito e, por último, atirando a água para fora.
A cidade nunca tinha sido regada a não ser pela chuva, que na verdade era bastante escassa. Por isso, a terra que estava à volta do poço, revitalizada pela água, começou a despertar.
As sementes das suas entranhas brotaram em forma de erva, de trevos, de flores e de hastezinhas delicadas que depois se transformaram em árvores…
A vida explodiu em cores à volta do poço afastado, ao qual começaram a chamar «o Vergel».
Todos lhe perguntavam como tinha conseguido aquele milagre.
— Não é nenhum milagre — respondeu o Vergel. — Deve procurar-se no interior, até ao fundo.
Muitos quiseram seguir o exemplo do Vergel, mas aborreceram-se da ideia quando se deram conta de que para serem mais profundos, se tinham de esvaziar. Continuaram a encher-se cada vez mais de coisas…
No outro extremo da cidade, outro poço decidiu correr também o risco de se esvaziar…
E também começou a escavar…
E também chegou à água…
E também salpicou até ao exterior criando um segundo oásis verde no povoado…
— Que vais fazer quando a água acabar? — perguntavam-lhe.
— Não sei o que se passará — respondia ele. — Mas, por agora, quanto mais água tiro, mais água há.
Passaram-se uns meses antes da grande descoberta.
Um dia, quase por acaso, os dois poços deram-se conta de que a água que tinham encontrado no fundo de si próprios era a mesma…
Que o mesmo rio subterrâneo que passava por um inundava a profundidade do outro.
Deram-se conta de que se abria para eles uma vida nova.
Não somente podiam comunicar um com o outro de parapeito em parapeito, superficialmente, como todos os outros, mas a busca também os tinha feito descobrir um novo e secreto ponto de contacto.
Tinham descoberto a comunicação profunda que somente conseguem aqueles que têm a coragem de se esvaziar de conteúdos e procurar no fundo do seu ser o que têm para dar…
Jorge Bucay Contos para pensar - Cascais, Editora Pergaminho, 2004

Ouça a estória "O galo rouco e o rato esperto", da Cigana Contadora de Estórias!

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Apresentações de contadores de estórias

Palavra Cantada - O rato
Clara Haddad - O coelho e o baobá

Cia Ópera na Mala - A sopa de pedras do Pedro

Cia Ópera na Mala - Pedro Malazartes e o pássaro raro

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