sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Conto espírita: Três pedidos atendidos


Três pedidos atendidos

Naquele ano, um grande baque atingiu o coração do jovem casal. Seu filho, de apenas sete anos, partiu para a Espiritualidade.
Haviam sido meses exaustivos de cuidados até que a enfermidade o abraçou, minando-lhe a vida física.
Um ano depois, em férias, optaram por visitar a Turquia. Entre tantas paisagens maravilhosas, uma visita especial a Éfeso, à casa de Maria, a mãe de Jesus.
A edificação de pedra, no monte Rouxinol, recebe, anualmente, cerca de dois milhões de visitantes.  A grande maioria relata intensas emoções ao adentrar o local.
Não foi diferente com eles. De mãos dadas, andaram por entre aquelas paredes, lembrando a grandeza do Espírito de Maria de Nazaré.
Recordaram o que haviam lido em obras que relatavam a respeito de João ter ido a Betânia buscar a mãe de Jesus para que viesse morar com ele.
Recordaram... recordaram, enquanto os corações pareciam unidos em prece.
Na saída, sentaram em uma pequena mureta, contemplando o que faziam quase todos os peregrinos: escreviam em um papel três pedidos e colocavam o bilhete entre as pedras de um extenso muro lateral.
Ambos ficaram ali, olhando, e disseram um ao outro: Por que escrever em um papel o que desejamos, se Deus conhece o que vai na nossa intimidade?
Ademais, pensaram, como podemos pedir algo mais à Divindade? Nosso filho se foi, mas guardamos a certeza de que vive na Espiritualidade.
Nossa filha está bem. Nós temos saúde, emprego. Que mais poderíamos pedir?
Numa prece silenciosa, rogaram ao Pai Supremo que, se algo pudessem receber a mais, por Sua vontade, então que Ele lhes enviasse.
Retornaram ao Brasil e, mal passados dez dias, Oswaldo recebeu um telefonema. Era de uma cidade do Estado vizinho.
A questão era simples: três meninas estavam à disposição para adoção. Ele gostaria de adotá-las?
O número três lhe veio à mente, de imediato. Três pedidos poderiam ter sido feitos lá em Éfeso. Eles haviam deixado que Deus decidisse se mereceriam algo mais.
Agora, Deus estava lhes enviando três joias para sua casa.
O Divino Pai ouvira sua rogativa e a atendera.
Entre a emoção e a gratidão, telefonou para a esposa e juntos foram buscar as três pérolas que Deus lhes encaminhara aos generosos corações.
Dez anos se passaram. As joias cresceram, se desenvolveram e, repetidas vezes, entre abraços de amor, dizem ao jovem casal como sua presença é importante em suas vidas.
***
Fonte: Redação do Momento Espírita, com base em fato, relatado por Oswaldo Feltrin.
Em 20.10.2017

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Uma estória de magia e amor contada por quatro contadores encantados


Hades e Persephone by Alexandra V Bach
Esta estória nasceu depois de uma sessão do Storytelling Club da Cultura Inglesa Caruaru, que fiz com alunos de turmas de inglês intermediário e avançado. Usei a técnica do baú do tesouro, onde vários objetos são colocados dentro de um baú (ou uma cesta, uma bolsa, uma caixa, etc). O meu baú dos tesouros tem vários objetos representativos de vários estórias que já contei, como a lâmpada do Aladim, o gorro do Pequeno Polegar, o nariz da bruxa de João e Maria, um anel de cristal "cabelo de fada" (quartzo rutilado), um biscoito encolhedor de Alice no País das Maravilhas, a varinha de condão da Fada Azul de Pinóquio, um colar de sereia, a tikka da Sherazade, o macaquinho que não conseguia dormir, um isqueiro mágico (da estória escrita por Andersen), o bracelete da Pocahontas, a abóbora da Cinderela e um pedaço de arco-íris.

Cada um dos meus alunos tirou um objeto. Pedi que eles olhassem bem seu objeto e imaginassem sua estória, de onde vieram. Depois de alguns minutos, a magia começou o seu trabalho. Cleyton, do Pre-Intermediate, pegou o  nariz da bruxa e o anel do cristal "cabelo de fada" e foi quem começou a estória: 

"Era uma vez uma mulher muito feia. Ela era muito feia, mas também muito rica. E ela queria se casar com um lindo príncipe. Então, ela foi atrás de uma bruxa na floresta e disse a ela que precisava de algo mágico que a fizesse ficar bonita. A bruxa disse que o que ela queria era algo muito difícil, precisaria de magia muito forte e ela não poderia ajudá-la. Desesperada, a mulher ofereceu tudo que tinha - joias, ouro, dinheiro - mas ainda assim a bruxa recusou. A mulher disse que faria qualquer coisa para se tornar bela.
- Você trocaria seu palácio pela minha cabana? - perguntou a bruxa.
A princípio, a mulher não queria, mas se aquilo era o que a faria conseguir se tornar bela, então que fosse. Ela trocou o seu lindo palácio pela horrenda cabana da bruxa. E a feiticeira deu a ela um anel mágico. Ela deveria deixar o anel exposto à luz da lua e usá-lo no dia seguinte.
A mulher assim fez. Colocou o anel na janela para tomar um banho de lua, mas aí apareceu um macaco...

E Cleyton escolheu dessa forma o próximo contador da estória, escolhendo o objeto tirado do baú do tesouro. Então Janeide, da turma do Advanced, entrou na estória...

O macaco achou o anel tão lindo, brilhando à luz do luar - ele adorava coisas brilhantes - então ele correu e roubou o anel, fugindo pela janela, rápido como um corisco, em direção à floresta.

Na manhã seguinte, quando a mulher acordou, ela percebeu que o anel mágico tinha desaparecido e ela chorou amargamente, pois esse anel era sua única chance de se tornar bela, de conquistar o coração do seu príncipe. Então, ela decidiu procurá-lo, mas, ainda que ela tivesse procurado em todos os lugares, o anel não estava em nenhum lugar. Ela se lembrou que havia uma feira na cidade e talvez ela pudesse encontrar outro objeto mágico para ajudá-la. E lá foi ela...

E Janeide convocou o próximo contador, adicionando a lâmpada mágica do Aladim, o objeto escolhido por Daniela, da turma Upper 1. E Daniela continuou a estória...

Ela comprou uma lâmpada mágica e esfregou-a, até que um gênio apareceu. O gênio disse que poderia conceder-lhe três desejos, mas seu único desejo era tornar-se bela para que pudesse ganhar o coração do príncipe. No entanto, o gênio disse que sua magia não era forte o suficiente para realizar tal milagre, apenas o anel da bruxa poderia fazê-lo. A mulher disse que o tinha perdido. Usando seus poderes, o gênio viu o que aconteceu com o anel e disse-lhe que um macaco o havia roubado na noite em que ela o havia colocava sob o luar. O macaco, no entanto, havia desaparecido, nem mesmo a magia conseguiu encontrá-lo. O gênio então lhe disse que sabia de um pó de fada que talvez pudesse ajudá-la. Ele a levou até o reino das fadas e...

Neste ponto, Daniela escolheu o próximo contador, Élida, do Pré-Intermediário 1, que tomou o pó de fadas mágico como seu objeto. Então Élida entrou na estória.

As fadas deram à mulher uma poção mágica feita com pó de fadas mas que, por mais poderosa que fosse, ainda não podia fazê-la linda, mas poderia fazê-la voltar no tempo. A mulher teve uma ideia, ela iria voltar no tempo até o momento em que o pequeno macaco estava prestes a roubar o anel. A mulher então tomou a poção e voltou no tempo. Ela correu para o anel e o escondeu em um lugar seguro para que o macaco - ou qualquer outra pessoa - não conseguisse pegá-lo.

Na manhã seguinte, estava chovendo e havia um lindo arco-íris no céu. O anel refletia todas as suas cores.

Foi assim que Élida devolveu a estória para mim, que havia escolhido um pedaço de "arco-íris" - um laço colorido, da bandeira peruana de Cusco, a capital do Império Inka.

As cores refletiam não só sobre o anel no dedo da mulher, mas também sobre ela, criando uma ilusão de mágica, uma aura de fadas, tornando-a a mais bela criatura do mundo. Então, quando o príncipe a viu, ele ficou tão encantado, tão enfeitiçado por sua beleza mágica, por todas as cores magníficas que a rodeavam, que imediata e irremediavelmente ele se apaixonou por ela. Eles se casaram e ele fez dela sua princesa. E eles viveram felizes, magicamente, para sempre. E é assim que a estória termina.

Quando terminamos a nossa estória, estávamos tão emocionados, tão tocados pela nossa criação, que bateram palmas, felizes e orgulhosos do nosso trabalho. Posso dizer que foi um dos mais belos momentos de narração da minha vida. Abençoados sejam todos, meus quatro mágicos e encantados cantadores de estórias!
Caruaru, 20 de maio de 2011 / Cultura Inglesa Caruaru
English and original version

A story of magic and love told by four enchanted tellers
Gabriela the Brazilian Gypsy Storyteller
After telling The Flower of Honesty story, at our Storytelling Club (every Friday at Cultura Inglesa Caruaru’s Library), I showed my chest of treasures full of objects borrowed from stories and tales I had told. I showed all the objects – Aladdin’s lamp, Tom Thumb’s hat, a witch’s nose (from Hansel and Gretel), a fairy hair crystal ring, an Alice in Wonderland’s shrinking cookie, the Blue Fairy wand (from Pinocchio), a mermaid’s necklace, Sheherazade’s tikka, the little monkey that wouldn’t let his dad sleep, a magical lighter (from the Tinderbox story), Pocahontas’ bracelet, Cinderella’s pumpkin and a piece of rainbow – and asked each one to choose an object.
Cleyton – from Pre-Intermediate – picked a witch’s nose and a fairy hair crystal ring and began weaving the story…
Once upon a time there was a very ugly woman. She was very ugly but also very rich. And she wanted to marry a beautiful prince. So she went after a witch, in the forest, and told her she needed something magical to make her beautiful. The witch said what she wanted was something very difficult, needed a lot of magic and she couldn’t help her. Desperate, the woman offered everything she had – jewels, gold, money – but still the witch refused. The woman said she would do anything to become beautiful.
- Would you trade your palace for my hut? – asked the witch.
At first, the woman didn’t want but if that was what it would take for her to become beautiful, so be it. So she traded her beautiful palace for the horrible witch’s hut. And the witch gave her a magical ring. She should put the ring under the full moon light and wear it the next day.
The woman did as she was told and put the ring at the window so it would catch the moonlight but then there was a monkey…
And Cleyton chose the next storyteller by prompting another object: a little toy monkey. So Janeide – from the Advanced class – stepped in.
The monkey found the ring so beautiful, shiny with the moonlight – he loved pretty shiny things – so he ran and stole it. And through the window the little monkey went, speedy as light, heading for the forest.
The next morning, when the woman woke up, she realized the magical ring was gone and she wept bitterly, for that ring was her only chance of becoming beautiful, of conquering her prince’s heart. So she decided to look for it, but, even though she searched everywhere, the ring was nowhere to be found. She remembered there was a town fair and maybe she could find another magical object to help her. And there she went.
And Janeide prompted the next teller, by adding a magical lamp, the object chosen by Daniela, from Upper 1 class. And Daniela continued the story…
She bought a magical lamp and rubbed it, until a genie appeared. The genie said he could grant her three wishes but her only wish was to become beautiful so that she could win her prince’s heart. But the genie said his magic wasn’t strong enough to perform such a miracle, only the witch’s ring could do it. The woman said she had lost it. Using his powers, the genie saw what had happened to the ring and told her that a monkey had stolen it on the night she put it under the moonlight. The monkey  had disappeared, not even magic was able to find it. The genie, then, told her he knew of a fairy dust that maybe could help her. So he took her all the way down to fairyland and…
At this point, Daniela chose the coming teller, Élida, from Pre-Intermediate 1, who had taken the magical fairy dust as her object. So Élida stepped in.
The fairies gave the woman a magical fairy dust potion that, powerful as it was, still couldn’t make her beautiful, but could turn back time. The woman had an idea, she would go back in time until the moment the little monkey was about to steal the ring. So the woman drank the potion and went back in time. She ran to the ring and hid it away, in a safe place, so the monkey – or anybody else – couldn’t get it.
The next morning, it was raining and there was a beautiful rainbow at the sky. The ring reflected all of its colours.
That´s how Élida got back to me, who had ended up with a piece of “rainbow” – a coloured lace, from the Peruvian’s Cusco’s flag.
The colours reflected not only on the ring on the woman’s finger but also on her, creating an illusion of a magical, fairy aura, making her the most beautiful creature of the worlds. So when the prince saw her, he was so enchanted, so bewitched by her magical beauty, by all the magnificent colours surrounding her, that immediately, helplessly, he fell in love with her. He married her and made her his princess. And they lived happily, magically, ever after. And that’s how the story ends.
When we finished our story, we were all so moved, so touched by our creation that we clapped our hands, happy and proud of our work. I can tell you it was one of the most beautiful storytelling moments of my life. Blessed be them all, my four magical, enchanted tellers!

Caruaru, 20th May 2011 / Cultura Inglesa Caruaru
https://culturainglesacaruaru.wordpress.com/2011/05/22/a-story-of-magic-and-love-told-by-four-enchanted-tellers/

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Conto: O avô e o netinho

Essa é especial, em homenagem aos avôs e avós do mundo todo, comemorando o seu dia neste 26 de julho! "Um avô é aquele que tem prata no cabelo e ouro no coração", diz a sabedoria do povo. Curta o seu enquanto puder, eles são um livro precioso cheio de histórias incríveis!
Esse conto veio dos irmãos Grimm. A foto é do site BioCare e a ilustração é de Arthur Rackham. 





       Havia, uma vez, um homem muito velho, cujos olhos eram embaçados, seus ouvidos cansados de ouvir, seus joelhos trêmulos, e, quando se sentava à mesa, mal podia segurar a colher, e derramava o caldo sobre a toalha ou deixava escorrer pela boca.
O seu filho e a esposa dele achavam aquilo muito repugnante, até que fizeram o velho avó se sentar num canto, atrás do fogão, e lhe davam pouca comida em uma tigela de barro. Ele olhava a mesa com olhos afogados em lágrimas. Certo dia, sua mão trêmula não segurou a tigela, que se despedaçou no chão. A jovem esposa o repreendeu, ele suspirou apenas. Compraram eles, então, por cinco centavos, uma tigela de madeira na qual o velho teria que comer.
Sentados, dias depois, o filho e a esposa notaram o neto, de apenas quatro anos, coletando pedaços de madeira do chão. "O que faz aí?" perguntou seu pai. "Estou fazendo uma gamela", replicou o garoto, "para o papai e a mamãe comerem quando eu for grande."
O homem e a mulher entreolharam-se por alguns instantes, até que começaram a chorar. Eles levaram o avô até mesa e, desde esse dia, sempre o deixaram comer com eles e nunca disseram mais nada quando ele derramava qualquer coisa.

Versión en Español

El abuelo y su nieto

Esto es especial, en homenaje a los abuelos y abuelas todo el mundo, comemorando su día este 26 de julio! "Un abuelo es aquel que tiene plata en su pelo y oro en su corazón", dice la sabiduría del pueblo. ¡Disfrute de sus abuelos y abuelas de la mejor manera que pueda. Ellos son un libro precioso lleno de historias increíbles! Este cuento vino de los hermanos Grimm. La foto es del sitio BioCare y la ilustración es de Arthur Rackham.





Una vez, un hombre muy viejo, cuyos ojos eran borrosos, sus oídos cansados ​​de oír, sus rodillas trémulas, y, cuando se sentaba a la mesa, apenas podía sostener la cuchara, y derramaba el caldo sobre el mantel o dejaba escurrir por la boca.

El hijo y su esposa hallaron aquello muy repugnante, hasta que hicieron que el viejo abuelo se sentara en un rincón detrás de la cocina, y le daban poca comida en un tazón de barro. Él miraba la mesa con ojos ahogados en lágrimas. Un día, su mano temblorosa no agarró el tazón, que se rompió en el suelo. La joven esposa lo reprendió, y él solamente suspiró. Ellos compraron entonces por cinco centavos, un tazón de madera en el que el viejo tendría que comer.

Sentados, días después, el hijo y la esposa notaron al nieto, de apenas cuatro años, recogiendo pedazos de madera del suelo. "¿Qué haces ahí?" Preguntó su padre. "Estoy haciendo una batea", replicó el chico, "para papá y mamá comer cuando sean viejos."

El hombre y la mujer se miraron entre sí por unos instantes y luego rompieron a llorar. Ellos llevaron al abuelo hasta la mesa y, desde ese día él siempre comió con ellos y nunca más dijeron nada cuando derramaba alguna cosa sobre el mantel.

*Con muchas gracias a mi amigo y profesor Carlos Hantis por la ayuda con la traducción 😊


segunda-feira, 24 de julho de 2017

Opa, olha a Cigana na Biblioteca Pública do Estado!

Opa! Sexta-feira (28) estarei na Biblioteca Pública Estadual, aquela perto do Parque 13 de Maio, no centro do Recife, às 14h contando as estórias do folclore brasileiro e do meu livro "Era uma vez... estórias de uma contadora de estórias" (Cepe, 2014, ilustração de Rivaldo Barboza). A entrada é franca! 
Espero você lá 😉


quinta-feira, 29 de junho de 2017

Conto: "A mãe de São Pedro"

Este veio do maravilhoso livro "Contos tradicionais do Brasil", do folclorista Luís da Câmara Cascudo (Ediouro, 2001), e eu publico neste dia 29 de junho em homenagem ao grande São Pedro, um dos doze apóstolos e o primeiro papa da Igreja Católica.

A mãe de São Pedro

A mãe de São Pedro era uma velhinha muito má, rezinguenta, somítica, com cara de poucos amigos. Não tinha amizades, todos lhe fugiam.
Aconteceu que um dia estava a lavar num córrego um molhe de folhinha de cebolas, quando uma delas se desprendeu, ganhou a correnteza e lá se foi pela água abaixo.
A velha tentou reavê-la, e, não o conseguindo, exclamou:
– Ora, seja tudo pelo amor de Deus!
Não levou muito tempo morreu e foi apresentar-se no céu. Foi pesada na balança de S. Miguel e não houve outro remédio senão mandá-la para o inferno, tão grande era o peso de seus pecados.
O filho ainda andava pelo mundo. Não lhe podia valer.
Quando S. Pedro morreu foi nomeado chaveiro do céu.
Das profundezas do abismo, avistou a velha ao filho no gozo e posse das glórias celestes e pediu-lhe por gestos que a salvasse.
O santo chaveiro, que não podia resolver nada por si, foi ter com o Senhor.
– Salva minha mãe, Divino Mestre.
O Senhor respondeu-lhe assim por estas palavras:
– Se houver registada no livro das almas, na vida de tua mãe, ao menos uma boa ação, estará salva, caso ela saiba aproveitá-la.
Examinou-se o livro e às folhas tantas, nas contas da mãe de São Pedro, se encontrou a folhinha de cebola, nada mais! Era a mesma que motivara aquele dizer com que a velha, ao menos uma vez, se mostrara conformada:
– Seja tudo pelo amor de Deus!
O Senhor disse a Pedro:
– Lança uma das pontas da folhinha em direção ao inferno. Tua mãe que se agarre a ela. Tu puxarás. Se conseguir subir até cá, estará salva.
Pedro fez tudo o que o Senhor lhe ordenara.
A velhinha agarrou-se à folha, mas uma porção de almas, querendo aproveitar o ensejo de salvação, segura-se às pernas da velha. Apesar disto esta subia.
Quando já estava o grupo a certa altura, outras almas se iam apegando às pernas das primeiras.
A velha indignada, de avara que era, esperneou e atirou novamente ao inferno as companheiras, não querendo levá-las para o céu.
Mas, no mesmo instante, a folha de cebola partiu-se, e a mãe de São Pedro ficou no espaço.
Não tinha por onde subir ao céu e o pedacinho da folha que conservava nas mãos não a deixava voltar ao inferno.
E assim vive até hoje: nem na terra, nem no céu.

Colhida em Juiz de Fora, Minas Gerais – Lindolfo Gomes, “Contos Populares, etc.”, volume IIº, p. 86, Ciclo de S. Pedro.

Ilustração: Hime Navarro

Version en Español

La madre de San Pedro

La madre de San Pedro era una viejita muy mala, gruñona, con cara de pocos amigos. No tenía amistades, todos le huían.
Sucedió que un día estaba lavando en un arroyo un mohe de hojitas de cebolla, cuando una de ellas se desprendió, ganó la corriente y allí se fue por el agua abajo.
La vieja intentó recuperala, y, no lo consiguió, exclamó:
- ¡Oh, sea todo por el amor de Dios!
No tardó mucho tiempo murió y fue a presentarse en el cielo. Fue pesada en la balanza de San Miguel y no hubo otro remedio que mandarla al infierno, tan grande era el peso de sus pecados.
El hijo aún andaba por el mundo. No le podía valer.
Cuando San Pedro murió fue nombrado llavero del cielo.
De las profundidades del abismo, divisó la vieja al hijo en el goce y posesión de las glorias celestiales y le pidió por gestos que la salvara.
El santo llavero, que no podía resolver nada por sí, fue a tener con el Señor.
- Salva a mi madre, Divino Maestro.
El Señor le respondió así por estas palabras:
- Si hay registrada en el libro de las almas, en la vida de tu madre, al menos una buena acción, estará salva, si ella sabe aprovecharla.
Se examinó el libro y las hojas tantas, en las cuentas de la madre de San Pedro, se encontró la hoja de cebolla, nada más. Era la misma que motivó a aquel decir con que la vieja, al menos una vez, se mostró conformada:
- ¡Sea todo por el amor de Dios!
El Señor le dijo a Pedro:
- Lanza una de las puntas de la hoja hacia el infierno. Tu madre que se aferra a ella. Tú tirarás. Si logra subir hasta aquí, estará guardada.
Pedro hizo todo lo que el Señor le había mandado.
La viejita se aferró a la hoja, pero una porción de almas, queriendo aprovechar la ocasión de salvación, se sostiene a las piernas de la vieja. A pesar de esto esta subía.
Cuando ya estaba el grupo a cierta altura, otras almas se iban a agarrar a las piernas de las primeras.
La vieja indignada, de avara que era, esperó y arrojó de nuevo al infierno a las compañeras, no queriendo llevarlas al cielo.
Pero, en el mismo instante, la hoja de cebolla se partió, y la madre de San Pedro quedó en el espacio.
No tenía por dónde subir al cielo y el pedacito de la hoja que conservaba en las manos no la dejaba volver al infierno.
Y así vive hasta hoy: ni en la tierra, ni en el cielo.


Recogida en Juiz de Fora, Minas Gerais – Lindolfo Gomes, “Contos Populares, etc.”, volume IIº, p. 86, Ciclo de S. Pedro.

Ilustración: Hime Navarro


terça-feira, 27 de junho de 2017

Conto: Pai, tô com fome!

Meu bom amigo Armando Lima me mandou esse conto dito verídico, que achei de uma beleza enorme, embora um pouco triste porque mostra uma realidade que está acontecendo nesse exato momento em que eu estou escrevendo e você, lendo. Mas também é um conto de esperança, que nos exorta a manter a fé, pois Deus proverá sempre!
Cena do filme "À procura da felicidade", com Will Smith.
"Ricardinho não aguentou o cheiro bom do pão e falou:
- Pai, tô com fome!!!
O pai, Agenor, sem ter um tostão no bolso, caminhando desde muito cedo em busca de um trabalho, olha com os olhos marejados para o filho e pede mais um pouco de paciência....
- Mas pai, desde ontem não comemos nada, eu tô com muita fome, pai!!!
Envergonhado, triste e humilhado em seu coração de pai, Agenor pede para o filho aguardar na calçada enquanto entra na padaria a sua frente...
Ao entrar dirige-se a um homem no balcão:
- Meu senhor, estou com meu filho de apenas 6 anos na porta, com muita fome, não tenho nenhum tostão, pois saí cedo para buscar um emprego e nada encontrei, eu lhe peço que em nome de Jesus me forneça um pão para que eu possa matar a fome desse menino, em troca posso varrer o chão de seu estabelecimento, lavar os pratos e copos, ou outro serviço que o senhor precisar!!!
Amaro, o dono da padaria estranha aquele homem de semblante calmo e sofrido, pedir comida em troca de trabalho e pede para que ele chame o filho...
Agenor pega o filho pela mão e apresenta-o a Amaro, que imediatamente pede que os dois se sentem junto ao balcão, onde manda servir dois pratos de comida do famoso PF (Prato Feito) - arroz, feijão, bife e ovo...
Para Ricardinho era um sonho, comer após tantas horas na rua....
Para Agenor, uma dor a mais, já que comer aquela comida maravilhosa fazia-o lembrar-se da esposa e mais dois filhos que ficaram em casa apenas com um punhado de fubá...
Grossas lágrimas desciam dos seus olhos já na primeira garfada...
A satisfação de ver seu filho devorando aquele prato simples como se fosse um manjar dos deuses, e lembrança de sua pequena família em casa, foi demais para seu coração tão cansado de mais de 2 anos de desemprego, humilhações e necessidades...
Amaro se aproxima de Agenor e percebendo a sua emoção, brinca para relaxar:
- Ô Maria!!! Sua comida deve estar muito ruim... Olha o meu amigo está até chorando de tristeza desse bife, será que é sola de sapato?!?!
Imediatamente, Agenor sorri e diz que nunca comeu comida tão apetitosa, e que agradecia a Deus por ter esse prazer. Amaro pede então que ele sossegue seu coração, que almoçasse em paz e depois conversariam sobre trabalho.
Mais confiante, Agenor enxuga as lágrimas e começa a almoçar, já que sua fome já estava nas costas.
Após o almoço, Amaro convida Agenor para uma conversa nos fundos da padaria, onde havia um pequeno escritório. Agenor conta então que há mais de 2 anos havia perdido o emprego e desde então, sem uma especialidade profissional, sem estudos, ele estava vivendo de pequenos 'biscates aqui e acolá', mas que há 2 meses não recebia nada.
Amaro resolve então contratar Agenor para serviços gerais na padaria, e penalizado, faz para o homem uma cesta básica com alimentos para pelo menos 15 dias. Agenor, com lágrimas nos olhos, agradece a confiança daquele homem e marca para o dia seguinte seu início no trabalho.
Ao chegar em casa com toda aquela 'fartura', Agenor é um novo homem, sentia esperanças, sentia que sua vida iria tomar novo impulso. Deus estava lhe abrindo mais do que uma porta, era toda uma esperança de dias melhores.
No dia seguinte, às 5 da manhã, Agenor estava na porta da padaria ansioso para iniciar seu novo trabalho. Amaro chega logo em seguida e sorri para aquele homem que nem ele sabia porque estava ajudando. Tinham a mesma idade, 32 anos, e histórias diferentes, mas algo dentro dele chamava-o para ajudar aquela pessoa.
 E ele não se enganou. Durante um ano, Agenor foi o mais dedicado trabalhador daquele estabelecimento, sempre honesto e extremamente zeloso com seus deveres.
Um dia, Amaro chama Agenor para uma conversa e fala da escola que abriu vagas para a alfabetização de adultos um quarteirão acima da padaria, e que ele fazia questão que Agenor fosse estudar.
Agenor nunca esqueceu seu primeiro dia de aula: a mão trêmula nas primeiras letras e a emoção da primeira carta.
Doze anos se passam desde aquele primeiro dia de aula.
Vamos encontrar o Dr. Agenor Baptista de Medeiros, advogado, abrindo seu escritório para seu cliente, e depois outro, e depois mais outro.
Ao meio dia ele desce para um café na padaria do amigo Amaro, que fica impressionado em ver o 'antigo funcionário' tão elegante em seu primeiro terno.  
Mais dez anos se passam, e agora o Dr. Agenor Baptista, já com uma clientela que mistura os mais necessitados que não podem pagar, e os mais abastados que o pagam muito bem, resolve criar uma instituição que oferece aos desvalidos da sorte, que andam pelas ruas, pessoas desempregadas e carentes de todos os tipos, um prato de comida diariamente na hora do almoço.
Mais de 200 refeições são servidas diariamente naquele lugar que é administrado pelo seu filho, o agora nutricionista Ricardo Baptista.
Tudo mudou, tudo passou, mas a amizade daqueles dois homens, Amaro e Agenor, impressionava a todos que conheciam um pouco da história de cada um. Contam que aos 82 anos os dois faleceram no mesmo dia, quase que à mesma hora, morrendo placidamente com um sorriso de dever cumprido.
Ricardinho, o filho, mandou gravar na frente da 'Casa do Caminho', que seu pai fundou com tanto carinho:

“Um dia eu tive fome, e você me alimentou. Um dia eu estava sem esperanças e você me deu um caminho. Um dia acordei sozinho, e você me deu Deus, e isso não tem preço. Que Deus habite em seu coração e alimente sua alma. E, que te sobre o pão da misericórdia para estender a quem precisar!”

terça-feira, 13 de junho de 2017

Olha como foi lindo!


Esse foi o cartaz que a designer Cassandra Kopinits, da Kosmos Comunicação, criou para a minha apresentação no Polo Infantil no São João de Caruaru, no sábado passado (10). Essa foi a primeira vez que me apresentei no evento, considerado um dos maiores do Brasil.
Meu filho e os amiguinhos da escola, com a minha mais nova auxiliar, a Ciganinha - Foto de Poliana Esteves
Foi um dia muito feliz, que começou com projeto bacana, com o amigo e jornalista Moreira Netto (surpresa que logo vou anunciar) e terminou com uma apresentação divertida, com um público muito especial, assistindo às minhas estórias, no espetáculo "Facécias do povo: contos populares do Brasil". 

Comecei com "O milagre de São João", que vai estar no meu próximo livro, e segui com "Os compadres corcundas", "O caboclo, o padre e o estudante", "O passarinho do Malazartes" e fechei, chamando para a próxima apresentação, com a estória "Viva Deus e ninguém mais", todas de Luís da Câmara Cascudo. 

Nesta última, fiz a apresentação formal da Ciganinha, a boneca de mulungu que mestre Zé Gomes, de São Joaquim do Monte, fez para mim, e que vai fazer parte das minhas contações, usando agora a ventriloquia.

Foi muito massa, como a gente diz aqui. Quinta tem mais: fui convidada para contar estórias numa escola municipal aqui do Recife. Vamos que vamos!

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Sábado tem a Cigana Contadora de Estórias no Maior e Melhor São João do Mundo!

A Cigana Contadora de Estórias - Foto: Victor Vargas

Opa! No próximo sábado (10), às 17h, vou estar no Polo Infantil que a Prefeitura de Caruaru montou na Estação Ferroviária para entreter a meninada durante o Maior e Melhor São João do Mundo. Vou apresentar o espetáculo “Facécias do povo: contos populares do Brasil”, sessão de contos de minha autoria e do maravilhoso folclorista Luiz da Câmara Cascudo.

Esta vai ser a primeira vez que vou me apresentar no Maior e Melhor São João do Mundo e estou preparando um presente que vai divertir bastante quem vier ouvir minhas estórias 😊

Espero você lá! A foto é de Victor Vargas/Guanabara Comunicação.

terça-feira, 6 de junho de 2017

O professor deve dar asas aos seus alunos!

Meus primeiros aluninhos, turma de 2012, Young 1 na Cultura Inglesa Caruaru.
Uma das coisas que mais gosto de fazer é ensinar. Além de jornalista, escritora e contadora de estórias, também sou professora de inglês e tive, na minha formação, a tutoria de grandes mestras. Durante o meu Basic Teacher's Training Course na Cultura Inglesa, estudei o livro do Prof. Jim Scrivener, "Learning teaching" (Heinemann, 1994) e logo na introdução, o Prof. Adrian Underhill, editor da obra, fala que "A formação do professor é um processo contínuo de transformação do potencial humano em desempenho humano, um processo que nunca tem fim".
Nos meus workshops sobre a contação de estórias como ferramenta de ensino e de aprendizagem, sempre ressalto a responsabilidade do professor que, com uma única palavra, tem o poder de dar asas ao seu aluno, permitindo-lhe acreditar em si mesmo, como também pode podá-lo para sempre, fazendo-o acreditar falsamente que está destinado ao fracasso.
Para ilustrar isso, compartilho uma história, de autoria desconhecida, atribuída à mãe do Thomas Edison (o cara que inventou a lâmpada), que acho fantástica e que serve para nos lembrar de nossa responsabilidade enquanto educadores, de sala de aula e do lar:

"Certo dia, Thomas Edison chegou em casa com um bilhete para sua mãe. Ele disse:
“Meu professor me deu este papel para entregar apenas a você.”
Os olhos da mãe lacrimejavam ao ler a carta e resolveu ler em voz alta para seu filho:
“Seu filho é um gênio. Esta escola é muito pequena para ele e não tem suficiente professores ao seu nível para treiná-lo. Por favor, ensine-o você mesmo!!”
Depois de muitos anos, Edison veio a se tornar um dos maiores inventores do século. Após o falecimento de sua mãe, resolveu arrumar a casa quando viu um papel dobrado no canto de uma gaveta. Ele pegou e abriu. Para sua surpresa era a antiga carta que seu professor havia mandado a sua mãe, porém o conteúdo era outro que sua mãe leu anos atrás.
“Seu filho é confuso e tem problemas mentais. Não vamos deixá-lo vir mais à escola!!”
Edison chorou durante horas e então escreveu em seu diário:
“Thomas Edison era uma criança confusa mas graças a uma mãe heroína e dedicada, tornou-se o gênio do século.”

Lindo, né? 
Leia também o artigo que fala sobre como a relação positiva entre professor e aluno pode melhorar o comportamento em sala de aula. 

sábado, 3 de junho de 2017

Conto: "A descoberta da joaninha"

Essa estorinha é muito bacana, foi apresentada esta semana na culminância do projeto de leitura do Colégio Interativo, em Caruaru, pela turminha da Profª Flávia. É uma estória boa para falar de valores. No Portal do Professor, tem dica de aula para trabalhar com ela.


A descoberta da joaninha
Bellah Leite Cordeiro
                                                           
                                      
Dona Joaninha vai a uma festa em casa da lagartixa.Vai ser uma delícia!
Todos os bichinhos foram convidados...Afinal chegou o grande dia.
O dia da festa na casa da Lagartixa. Dona Joaninha está feliz.
Quer ir muito bonita!Por que assim, todo mundo vai querer dançar e conversar c om ela!
E ela poderá se divertir a valer!Por isso, colocou uma fita na cabeça, uma faixa na cintura,
muitas pulseiras nos braços e ainda levou um leque para se abanar.
No caminho, encontrou Dona Formiga na porta de do formigueiro e disse:
- Bom dia Dona Formiga! Não vai à festa da lagartixa?
- Não posso minha amiga. Ontem fizemos mudança e eu não tive tempo de me preparar...
- Não tem problema! Tudo bem! Eu posso emprestar a fita que tenho na cabeça e você vai ficar linda com ela! Quer???
- Mas que legal Dona Joaninha! Você faria isso por mim?
- Claro que sim! Estou muito enfeitada! Posso dividir com você.
Tirou a fita de sua cabeça e a ofereceu para Dona Formiga que, feliz, decidiu ir à festa.
Lá se foram as duas. A formiga radiante com a fita na cabeça.
Mais adiante, encontraram Dona Aranha na sua teia fazendo renda.
- Oi! Aonde vão as duas tão bonitas?
- À festa da lagartixa! Você não vai???
- Sinto muito! Tive muitas despesas este mês e sem dinheiro não pude me preparar para a festa.
- Não seja por isso! -disse a Joaninha - Estou muito enfeitada! Posso bem emprestar as minhas pulseiras... Vão ficar lindíssimas em você!
Emprestou suas pulseiras, que ficaram lindas em Dona Aranha.
- Que maravilha! Disse a aranha entusiasmada – Sempre tive vontade de usar pulseiras em meus braços! Dona Joaninha, você é legal demais! Sabia?
As três, radiantes de felicidade, seguiram rumo à festa.
Um pouco adiante, encontraram a Taturana. Como sempre, estava morrendo de calor!
- Oi, Dona Taturana! Como vai?
- Mal! Muito mal com esse calor! Sabe que nem tenho disposição para ir à festa da Lagartixa.
- Ora! Mas para isso dá-se um jeito! Disse a Joaninha muito amável – Posso lhe emprestar o meu leque.
E lá se foi também a Taturana, muito alegre, se abanando com o leque, e encantada com a gentileza da amiga.
Logo depois, deram de cara com a Minhoca. Que tinha colocado a cabeça pra fora da terra para tomar um pouco de ar.
- Dona Minhoca, não vai à festa? Disse a turminha ao passar por ela.
- Não dá, sabe? Eu trabalho demais! Quase não dá tempo pra comprar as coisas de que preciso.. E, agora, estou sem ter uma boa roupa boa pra vestir! Sinto bastante! Porque sei que a festa vai ser muito legal! Mas, que se há de fazer?...
- Ora, Dona Minhoca – Disse a Joaninha com pena dela – Dá-se um jeito... Posso emprestar a minha faixa e com ela você ficará muito elegante!
E emprestou a sua faixa à Minhoca que ficou muito elegante.
E seguiu com as amigas para a festa.
Dona Joaninha estava tão feliz com a alegria das outras, que nem reparou ter dado tudo o que ela havia posto para ficar mais bonita. Mas, a alegria de seu coração aparecia nos olhos, no sorriso, e em tudo o que ela dizia! E isso a fez tão linda, mas tão linda que ninguém, na festa dançou e se divertiu mais do que ela!
Foi então que a Joaninha descobriu que para a gente ficar bonita e se divertir não precisa se enfeitar toda. Basta ter o coração bem alegre que a alegria de dentro deixa a gente bonita por fora. E ela conseguiu essa alegria fazendo todo aquele pessoal ficar feliz!!!


Imagem: SetimArtes

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Conto: Doja, a fada cigana

Este belo conto de Magda Szécsi, uma romi húngara, traduzido e adaptado por mim, foi tirado de um magnífico vídeo, de uma série produzida pelo estúdio húngaro Kecskemetfilm, Cigánymések (Gypsy tales ou contos ciganos). 
Eu o contei pela primeira vez na Roda de Histórias promovida pela Cia Palavras Andarilhas, no dia 04 de maio deste ano, no Teatro Joaquim Cardozo, em homenagem ao Mês dos Ciganos.


Há muito, muito tempo atrás, quando as pessoas ainda acreditavam que as gotas de chuva eram as lágrimas do sol entristecido com as maldades que os homens cometiam aqui na Terra, vivia uma bela fada cigana chamada Doja.
Um dia, Doja decidiu deixar seu palácio nas nuvens e se misturar com seu povo.
Os ciganos estavam lavando seus cavalos no córrego quando notaram a figura de uma bela mulher descendo pelo arco-íris.
"É um milagre!", suspirou Zurkoja.
"Quem pode ser?", perguntou Mutó.
"Talvez uma deusa", disse Csádi.
"Ei, Zukka, Runó, Zoldikó! Venham rápido!, gritou Dzsilla.
E todos vieram e formaram um círculo ao redor da bela mulher.
"Que os habitantes dos céus tornem os vossos dias fáceis e que nunca lhes faltem vinho, carne e pão".
"Eu sei quem você é!", gritou um.
“- A pele macia de sua mão!”, se maravilhou outro.
"Sim, você deve ser ...", começou Mutó.
"... a fada dos ciganos!", conclui Csádi.
"Doja! Doja! Doja! ", exclamaram todos, cheios de alegria.
“Vim para ajudar vocês. Vocês terão seu próprio país onde poderão viver em paz. Vocês poderão construir casas de pedra e tijolo, como outras pessoas fizeram. Vamos aprovar leis, porque as pessoas não podem viver sem leis. Vocês devem trabalhar e a ninguém será permitido acumular riqueza. O pão pertencerá a todos e todos terão uma parte igual ", disse Doja, com o rosto corado de animação.
"Sim, sim! Vai ser como você disse!”, exclamaram todos.
"Então desmontem suas tendas, pois vamos partir em uma longa jornada."
Eles tinham muito pouco para levar, de modo que logo estavam prontos, esperando para partir em sua viagem.
Doja pegou seu pente mágico e começou a pentear os cabelos, que eram negros e tão longos que tocavam o chão. À medida que ela penteava, os cabelos iam crescendo cada vez mais até formarem um longo tapete de veludo negro.
"Peguem meu cabelo e segurem-se firme! Não tenham medo!" - disse ela.
Então eles se agarraram aos seus belos e fortes cabelos. E de repente eles podiam sentir que estavam subindo no ar e voando, como os pássaros que sempre invejaram.
E eles viajaram por dias e dias antes de, finalmente, chegarem.
"Olhem sobre vocês! Esta é a Terra dos Ciganos! Esta água salgada é o Mar do Povo Romá, mas há milhares e milhares de fontes de água doce. Os animais são mansos, e os ramos das árvores pendem para baixo, pesados com frutas suculentas.
"Eu vivi cem anos, mas nunca teria pensado que algum dia teríamos uma terra própria. Ei, ciganos, isso é realmente um milagre! ", Disse Zurkoja.
E em sua alegria, Zurkoja caiu na terra perfumada em lágrimas.
Os outros seguiram seu exemplo e também derramaram suas lágrimas no solo.
O que então aconteceu levaria muito tempo para ser recontado, mas depois de muitos anos, o fruto de seu duro trabalho veio, tudo como Doja havia predito.
Fileiras de belas casas caiadas de branco, jardins resplandecentes com flores misteriosas e coloridas, milhares de cavalos correndo livre nas margens do rio e do mar. Um verdadeiro paraíso de conto de fadas.
Mas uma manhã uma coisa terrível aconteceu.
A terra se abriu e das rachaduras rastejaram criaturas verdes, escamosas, de pescoço de cobra e cascos vermelho, fazendo barulhos estridentes e chiados esquisitos.
A terra tremeu sob seus cascos. As fissuras continuavam se abrindo no chão. As casas desmoronaram.
Os ciganos estavam mortos de medo.
Doja chorou enquanto observava como o trabalho de muitos anos foi destruído em poucos minutos.
"Quem são essas criaturas, Doja?", perguntou Dzsilla.
"São monstros de baixo da terra. Só chegam à superfície se alguém lhes roubou algo ".
"Ontem à noite, meu filho Zoldikó desenterrou do solo uma besta de olhos de diamante e pés vermelhos exatamente como esses monstros. Está em nossa casa ", disse a mulher.
Doja correu para a casa e lá ela viu Zoldikó brincando calmamente com a estranha criatura.
Ela pegou o pequeno monstro e, segurando-o no colo, correu para fora e soltou-o. A pequena fera saltou para os braços de sua mãe.
"Zübirki-ridikiki! Bukiki-zuki!", os estranhos animais cantaram, curvando-se com gratidão, e desapareceram, como se nunca tivessem emergido do solo.
As feridas na terra gradualmente foram curadas, mas os ciganos não estavam mais tão satisfeitos quanto antes.
"Como era agradável em tempos antigos vagar pela terra, dormir onde quer que estivéssemos quando caía a noite", disse Dzsilla, dando voz à opinião de todos.
"E vocês estão tão infelizes assim aqui?", perguntou Doja.
"Perdemos nossas andanças. Temos medo ... ", disseram os ciganos.
"O que você pensa, Csádi?", perguntou Doja ao jovem.
"O que diria o pássaro do paraíso se alguém amarrasse um fio de seda à sua delicada perna e ele não pudesse mais voar?", foi a resposta dele. "Leve-nos de volta ao lugar de onde viemos", pediu o rapaz.
"Está bem. Amanhã vou levá-los de volta ", disse a fada, embora não pudesse evitar a tristeza.
Na manhã seguinte, Doja acordou com uma tremenda comoção. Os ciganos estavam ocupados empacotando suas coisas. Eles queriam levar tudo e qualquer coisa que pudessem pegar com as suas mãos.
"Pessoal, pessoal! Só podemos levar conosco as coisas que trouxemos, nada mais!", disse a fada. "Meu cabelo não é forte o suficiente para segurar tudo isso!"
"Mas como eu poderia deixar meus cem cavalos aqui?", perguntou Mutó.
Doja percebeu que ninguém a estava escutando, por isso não voltou a falar.
"Estamos prontos para partir!", disse Dzsilla.
“Agarrem-se no meu cabelo com uma mão e com a outra segurem as suas bagagens", recomendou a fada.
Eles voaram por um longo caminho, deixando a Terra dos Ciganos longe, muito atrás deles, mas, além da fada, ninguém mais lamentou perder as misteriosas flores de raros perfumes, os pássaros gentis com suas lindas penas coloridas, o mar, os sussurros da floresta.
"Ei, não consigo mais aguentar! Está muito pesado!", gritou Mutó.
"Solte sua carroça!", Doja gritou.
"Nunca! O que seria de meus cavalos? ", foi a resposta dele.
E eles voavam. Suas mãos morenas ficaram cansadas, agarradas aos cabelos de Doja e ao peso de suas bagagens, e com o tempo elas foram se soltando, esgotadas, e os ciganos caíram, um após o outro, espalhados pelo céu.
"O que será deles? O que será deles? ", pensou a fada, com grande tristeza e dor, vendo seu povo caindo.
E de repente ela percebeu que estava voando sozinha, que ninguém mais estava segurando em seu cabelo.
"Oh criaturas infelizes! Agora eles terão que vagar até que se encontrem novamente. Não há nada que eu possa fazer para ajudá-los agora! ", lamentou Doja.

E assim tem sido desde então. O povo cigano continua vagando, sem encontrar a sua terra verdadeira, espalhado por todos os cantos do mundo, sem pátria, mas com o céu como teto e a liberdade como religião.
Optcha!

Ouça a estória "O galo rouco e o rato esperto", da Cigana Contadora de Estórias!

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