domingo, 23 de junho de 2013

O milagre de São João

Nesta véspera de São João, compartilho com você uma estorinha do meu próximo livro. Espero que goste :)
O milagre de São João
Gabriela Kopinits - A Cigana Contadora de Estórias

Numa casa de taipa - aquelas feitas de madeira e barro - num lugar encantado chamado Alto do Moura, em Caruaru, morava um velho artesão de nome Elias.
Elias Tonheiro, como era mais conhecido por ser filho de seu “Antonho”, na fala simples do povo do lugar, tirava da arte no barro o seu minguado sustento. Como não tinha família – os pais já tinham morrido, não tinha parente que conhecesse, nem esposa ou filhos – aquele pouco dava para mantê-lo de pé, forte o suficiente para continuar sua vida de homem simples e humilde. Magro, de mãos calejadas pelo trabalho na roça – começado cedo, quando ainda era meninote – seu Elias era querido pelos moradores do bairro, famoso pelos seus ateliês de artesãos, de mestres como Vitalino, Galdino, entre tantos outros.
Mas a arte maior de “seu” Elias não era nem os bonequinhos que fazia. Entre tantos grandes mestres do Alto do Moura, a arte dele era contar estórias. Quando o velho se sentava na cadeira de balanço, na calçada cimentada de seu casebre, logo vinha um, dois, três, um mundo de menino, tudo morador dali, doido para ouvir as estórias dele.
Quando ele dava aquele sorriso manso, um leve pigarro para limpar a garganta e soltava o mágico “No tempo em que os bichos falavam...” ou o tradicional “Era uma vez...”, os meninos já sabiam que vinha estória - e das boas, daquelas de esquentar o coração e levar para casa, para nunca mais esquecer.
E seu Elias era bom nisso.
Teve uma vez em que ele contou a estória da “velha Firinfinfelha”, que andava de implicância com um macaco matreiro, que só queria saber de lhe roubar as bananas, a criançada riu de se acabar na parte em que o macaco danado arrumou uma pele de leão para dar um susto na velha e a bichinha quase bateu as caçuletas.
A estória era mais ou menos assim...
“Nos tempos de antanho, muito antes de vocês nascerem, os bichos ainda falavam e eram até amigos dos seres humanos. Pois nesse tempo havia uma velha – chamada Firinfinfelha – que não dava um prego pra seu ninguém de tão ruim que era.
Firinfinfelha tinha um sítio onde plantava banana, dessas que a gente compra na feira, bem docinhas. E havia um macaco chamado Simão, que era a gota de tão danado. Simão botou vistas no sítio de dona velha e se lambeu os beiços quando viu as bananas dela, madurinhas, pendendo dos cachos. Dava até pena esperar a colheita. Estavam tão madurinhas que deviam até escorrer mel de tão doce que pareciam ser. Tinha até aquelas abelhinhas pequenas, pretinhas, rondando as frutas.
Pois o danado do macaco resolveu que iria “aliviar” a Firinfinfelha de levar tanto peso para a feira e, pulando, matreiro, aventurou-se no bananal de dona velha a encher a pança, cuidando para não ser apanhado com a boca na botija – a tal da velha era braba como o quê e ainda tinha, diziam, um tal de trabuco para espantar gatuno – gatuno e macaco.
Deu sorte o danado, que a Firinfinfelha nem percebeu o estrago. Mas a sorte, às vezes, deixa o sujeito ousado. Ousado e descuidado. E o macaco Simão voltou uma vez, outra vez e mais uma vez, até que a Firinfinfelha notou que seu bananal estava ficando meio pelado. Cismada, achou que estava sendo roubada e decidiu ver quem era o ladrão. Escondeu-se por trás do pé de jabuticaba e ficou espiando, trabuco na mão, pronto para dar um tiro de sal grosso no rabo do malandro.
Não demorou muito, lá veio ele, todo lampeiro.
Dona velha quase caiu para trás quando viu que o ladrão não era outro senão o macaco Simão. “Arre, que já te pego, macaco ladrão!” bufou Firinfinfelha, em pensamento, para não alertar o macaco. Aprumou o trabuco, mirou no rabo de Simão e apertou o gatilho. Mas que azar! O trabuco fez “traaaque”, mas não soltou o tiro. O barulho alertou o ladrão e Simão pulou que pulou para fugir da fúria da Firinfinfelha, que soltou o trabuco e correu a pegar a vassoura, doida para acertar o quengo do macaco.
Mas qual o quê! O danado já tinha sumido, pulando que nem perereca em frigideira quente. E a velha, bufando de raiva, jurou que ia pegar o macaco de todo jeito, nem que fosse a última coisa que fizesse na vida.
Da jura passou para a ação.
Foi na venda de seu Astrogildo e comprou uma saca de alcatrão. Dias depois, fez um boneco com a parecença de um moleque, da idade de vocês, e colocou-o no meio do bananal, onde o macaco ainda não tinha lhe rapado as frutas. Na cabeça do boneco de alcatrão, dona velha colocou uma cesta com umas bananas bem madurinhas, isca boa para pegar peixe – ou melhor – macaco ladrão.
Tudo armado, toca a esperar.
Se vocês pensaram que o medo tivesse ensinado alguma lição ao macaco enganaram-se, pois o bicho, sentindo o ronco da fome – e da gulodice – soltou-se na direção da casa de dona velha, já planejando afanar-lhe mais algumas deliciosas bananinhas.
Assim pensado, assim feito.
Pulando que pulando, chegou Simão no sítio da Firinfinfelha. Mas, no meio do bananal, uma coisa esquisita chamou-lhe a atenção: um moleque pretinho carregava uma cesta de bananas, algumas já descascadas, prontas para serem comidas. “Arre, que coisa é essa? Um moleque afoito veio roubar minhas bananas?”, arretou-se o macaco. Cheio de raiva pela ousadia do moleque, ele foi tirar satisfação.
- Me passe essas bananas senão lhe dou um chute! – ameaçou Simão.
O boneco nem lhe deu confiança, então Simão cumpriu o prometido: aplicou-lhe um violento chute na canela, mas, olha só, ficou com o pé grudado no menino de alcatrão!
- Solte meu pé, seu moleque atrevido, senão dou-lhe outro chutão!
Nem adiantou. O macaco, então, deu outro chute no boneco, mas acabou com o pé preso também, grudado no alcatrão.
- Solte meus pés, seu desinfeliz, senão te dou um bofetão! – ameaçou o macaco, os dois pés grudados no boneco.
Aborrecido, pois o menino nem se mexeu para lhe responder, Simão acertou-lhe um bofetão, mas a mão acabou igual aos pés: grudada no boneco.
A essa altura, dona velha, escondida detrás do pé de jaca mole, mal segurava o riso, só assistindo à patacoada do macaco, desesperado para se soltar do boneco. Mas a coisa ainda não tinha acabado, pois, nesse momento, depois de ameaçar novamente o menino, se não lhe soltasse os pés e a mão, o macaco deu-lhe outro bofetão e acabou todo grudado no boneco. A única parte livre era a cabeça, então o macaco ameaçou:
- Solte meus pés e minhas mãos, seu moleque desavergonhado, senão dou-lhe uma cabeçada!
Vocês já adivinham que o boneco não respondeu. Simão, então, deu-lhe uma cabeçada e acabou todo grudado, dos pés à cabeça – passando pelas mãos – no menino de alcatrão.
Foi então que Firinfinfelha saiu do seu esconderijo com a vassoura em punho, ventas fumegando para se vingar da ousadia do macaco ladrão.
- Então era você que vinha roubando minhas bananas, não é? – e lept, lept, lept, sem nem deixar o macaco se explicar, saraivou uma carga de lapadas no costado de Simão, deixando o bicho meio leso de tanto apanhar. Sentindo-se vingada, a velha desgrudou o macaco do alcatrão, que, assim que se viu livre, ajuntou o resto de força que tinha e se foi de lá.
Magoado, todo quebrado, Simão jurou que aquilo tinha volta.
A raiva é má conselheira. A gente não deve nunca fazer as coisas de cabeça quente para não se arrepender depois, é o meu conselho para vocês, meninos. Pois Simão não queria nem saber. “Firinfinfelha me paga”, era o pensamento dele, dia e noite.
Um dia, rondando pela mata, matutando no que fazer, ouviu uma conversa entre caçadores.
- Rapaz, que leão enorme conseguimos pegar! Vamos ganhar um bom dinheiro com a pele dele! – comentava um dos homens.
E de fato, lá estava, secando ao sol, a tal pele de leão. O bicho era mesmo grande! Daria até medo se a gente não soubesse que estava morto.
Eita! Foi aí que nasceu a ideia.
Do galho onde estava, Simão pulou e afanou a pele, sumindo na mata, já imaginando o susto que ia dar na Firinfinfelha.
            Com a pele do bicho enrolada debaixo do braço, o macaco foi direto ao sítio da velha. Chegando ao bananal, ele se escondeu atrás do pé de cajá e se cobriu com a pele, preparando-se para quando a Firinfinfelha aparecesse no quintal. Não demorou muito e lá veio ela jogar milho para as galinhas. Simão, vestido de leão, saltou na frente dela, dando um urro bem alto. A pobre da velha ficou paralisada com o susto, branca que nem lençol. Desarmada, sem trabuco, vassoura ou vara de marmelo que lhe valesse, dona velha sentiu as pernas bambearem e acabou caindo no fundo do poço.
- Acudam a velha, que a velhinha caiu no poço! – gritou a pobre, lá de dentro.
Apesar de danado, o macaco Simão não era malvado e ficou com pena da Firinfinfelha. A ideia era só dar um susto nela, não matar a pobrezinha.
- Aguenta, velhinha, que já te tiro daí! – e procurou um galho comprido bastante para puxar a Firinfinfelha, mas não encontrou. A pobre gritava, assustada.
- Socorro, socorro! Me tirem daqui!
O macaco, então, pendurou-se num galho baixo e jogou seu rabo – que era bem comprido - lá dentro.
- Agarra o rabo, velhinha, que já te tiro daí!
E a Firinfinfelha agarrou-se com gosto no rabo do macaco, que fez um esforço danado para puxá-la lá de dentro.
- Eita, que velha mais pesada! – chiou Simão.
- Puxa, macaco! Força, macaco! – berrava a velhinha.
Simão deu um puxavanco com tanta força que conseguiu tirar a Firinfinfelha de dentro do poço. Coitada da bichinha, estava tremendo que nem vara verde, olho arregalado e pretinho feito jabuticaba!
E o que parecia impossível aconteceu. Firinfinfelha abraçou o macaco e agradeceu por ele ter lhe salvo a vida. Eles se tornaram grandes amigos e, desde aquele dia, o macaco Simão nunca mais precisou roubar banana porque a velha Firinfinfelha lhe dava as mais bonitas e madurinhas que havia no seu bananal.
Eu sei de tudo isso porque eu mesmo passei por ali e vi tudo acontecer, do mesminho jeito que estou contando a vocês. E, para provar, eu trouxe essas mariolas, feitas com as bananas do quintal da velha Firinfinfelha. Quem vai querer?”
Seu Elias terminou a estória oferecendo o gostoso doce feito com banana e goiaba, típico da região. A meninada se serviu com gosto, agradeceu pela estória e debandou, porque a tarde já se findava. Todos foram embora, menos um menininho, de delicados cabelos cacheados, que segurava um carneirinho. Seu Elias conhecia toda a gente do lugar, mas não reconheceu aquele menino, apesar dele lhe parecer meio familiar.
- Gostou da estória, meu filho? – perguntou ao menino.
- Ah, sim, muito! Eu adoro ouvir suas estórias, mas só posso vir aqui uma vez por ano.
Seu Elias estranhou.
- Oxe, e por quê? Seus pais são de fora, é?
O menino sorriu. O velho artesão lhe ofereceu uma mariola, mas ele apenas agradeceu. Não tinha fome, estava só esperando a hora de ir embora.
- O senhor sabe muitas estórias? – perguntou o pequeno.
- Sei, sim, e quando esqueço, invento. – respondeu seu Elias.
- Seus filhos devem ser crianças muito felizes.
O velho deu um sorriso triste e disse que os filhos que tinha eram aqueles meninos do bairro, que vinham sempre lhe escutar as estórias. Conhecia cada um derna do bucho da mãe e os considerava como seus próprios filhos.
- Eu nunca me casei. – disse ele, coçando a cabeça, embaraçado.
O menino percebeu-lhe a melancolia.
- Se o senhor pudesse pedir uma coisa extraordinária, o maior desejo do seu coração, o que o senhor pediria? – indagou o pequeno.
- Eu gostaria muito de ter um filhinho, mas estou muito velho para isso. – respondeu seu Elias, olhos baixos, lembrando a única tristeza que carregava no seu coração.
O menino se enterneceu e o abraçou. Seu Elias alisou os macios e encaracolados cabelos castanhos com o carinho de um pai.
- O senhor tem fé? – a pergunta pegou o velho artesão de surpresa. Sim, era o que ele mais tinha no mundo.
- Meu menino, - respondeu ele, a voz séria - o que me sustenta, todo santo dia, é a fé. Apesar de todas as dificuldades, de todas as provações, é a fé, a crença num dia melhor, num mundo melhor, que me mantém vivo.
- Se o senhor crê de verdade, então, sabe que não há nada que nosso Pai do Céu não possa fazer, não é?
Seu Elias balançou a cabeça concordando. Ia responder quando percebeu que já era tarde, o sol já tinha se posto e a noite já se anunciava.
- Menino, cadê seus pais? Eles não vêm lhe buscar? – perguntou, preocupado.
O pequeno sorriu e disse:
- Eu sei o caminho. Obrigado pela estória. Gostei muito. Se Papai do Céu deixar, ano que vem, estarei aqui de novo.
Despediu-se de seu Elias e saiu caminhando, só, na companhia das estrelas e do seu carneirinho. A fraca luz amarela do poste, alumiando a cena, iluminou algo que chamou a atenção do velho artesão. A cabecinha do menino brilhava, como que circundada por um halo celestial.
Seu Elias balançou a cabeça. “Minhas vistas estão cada vez mais fracas!”, pensou ele, ao entrar em sua humilde casa.
Cansado pela lida do dia, ainda emocionado pela palestra com o doce menino, seu Elias adormeceu quase que de imediato. E teve o sonho mais incrível de todos. Sonhou que um lindo menino de cabelos cacheados, puxando um carneirinho, aparecia em sua oficina e pegava um de seus bonequinhos de barro.
Sorrindo, o menino chegou junto do velho adormecido e lhe sussurrou ao ouvido:
- Eu não disse que nosso Pai pode tudo?
E botou sua gorducha mãozinha na cabeça do boneco, que foi crescendo, crescendo e ganhou vida, transformando-se num menino de verdade.
O barulho dos fogos saudando a noite de São João acordou seu Elias. Impressionado com o sonho, ele levantou-se da cama, acendeu o lampião e foi espiar a oficina. Na prateleira, faltava um boneco, o que tinha feito naquela manhã. Ensimesmado com aquele mistério, seu Elias quase tropeçou em algo que estava em cima da esteira onde modelava seus bonequinhos, mania que pegou do amigo Vitalino. Segurando o lampião para iluminar o chão, seu Elias arregalou os olhos: deitado em sua velha esteira de palha, dormia, tranquilo e sereno, um lindo menino, cabelos cacheados como um anjo.
Sem entender de onde tinha surgido aquele menino, seu Elias levantou os olhos e o lampião brilhou em cheio nas gravuras dos três santos juninos que tinha pendurado na parede. Segurando a emoção, compreendeu o milagre. Lembrou-se de onde tinha visto aquele menino, que tinha lhe perguntado, com muita seriedade, se tinha fé. Sorrindo-lhe, da gravura do meio, lá estava o pequeno, o São João do Carneirinho.
- Sim, meu doce menino, meu São João do Carneirinho, eu tenho fé! – sussurrou o velho artesão.
E ajoelhando-se no chão de terra batida, seu Elias orou com todo o fervor de seu coração, agradecendo a Deus – Papai do Céu, como o menino tinha chamado – pelo milagre que ele tinha trazido para a sua vida.
De onde teria vindo aquele menino? Seria mesmo um bonequinho de barro que virou gente? Ou era um menino de rua, perdido, sem pai nem mãe? Isso pouco importava para seu Elias. Aquele era o milagre mais lindo que já tinha lhe acontecido.

Em homenagem ao meu avô, o verdadeiro Elias Tonheiro, e a meu pai, o seu “Astro”Gildo. Com enorme carinho e gratidão, de Gabriela Kopinits dos Santos,
A Cigana Contadora de Estórias.


Caruaru, 29 de abril de 2013

sábado, 15 de junho de 2013

Estorinha: "O bolo de fubá" - de Pedro Bandeira


Pedro Bandeira é um daqueles escritores encantados, que possuem o dom de transportar o leitor - seja ele criança, adolescente ou adulto - a mundos fantásticos, como o da estória "O fantástico mistério de Feiurinha", publicado pela Editora FTD, vencedor do Prêmio Jabuti 1986 (Melhor Livro Infantil) e relançado pela Editora Moderna em 2009, numa edição especial, ilustrada com cenas do filme adaptado para o cinema, com a Xuxa no papel principal ("Xuxa em o Mistério de Feiurinha").


Xuxa e Pedro Bandeira na Bienal do Livro 2009 - Fotos: Divulgação

Aproveitando as festas juninas, publico aqui uma estorinha legal, versão da fábula "A galinha ruiva", de autoria desse maravilhoso escritor e contador de estórias - orgulho brasileiro.

O bolo de fubá

Pedro Bandeira


A Galinha Ruiva, a ciscar pelo terreiro, encontrou uma linda espiga de milho.
– Que achado! Vou fazer um bolo de fubá!
No terreiro, estavam o Pato, o Porco e o Peru a vadiar. A Galinha Ruiva foi até eles 
pedir ajuda:
– Quem me ajuda a debulhar o milho?
– Eu não – começou o Pato. – Estou muito ocupado...
– Eu não – continuou o Porco. – Estou muito cansado...
– Eu não – completou o Peru. – Pois hoje é feriado...
Sozinha, a Galinha Ruiva debulhou a espiga.
– Quem me ajuda a moer o milho? – pediu a Galinha Ruiva.
– Eu não – começou o Pato. – Estou muito ocupado...
– Eu não – continuou o Porco. – Estou muito cansado...
– Eu não – completou o Peru. – Pois hoje é feriado...
Sem ninguém para ajudar, a Galinha Ruiva moeu o milho e fez a farinha.
– Quem me ajuda a fazer a massa? – pediu a Galinha Ruiva.
– Eu não – começou o Pato. – Estou muito ocupado...
– Eu não – continuou o Porco. – Estou muito cansado...
– Eu não – completou o Peru. – Pois hoje é feriado...
Mais uma vez sozinha, a Galinha Ruiva amassou a farinha e preparou a massa do 
bolo.
– Quem me ajuda a assar o bolo? – pediu a Galinha Ruiva.
– Eu não – começou o Pato. – Estou muito ocupado...
– Eu não – continuou o Porco. – Estou muito cansado...
– Eu não – completou o Peru. – Pois hoje é feriado...
A Galinha Ruiva assou o bolo de fubá sozinha e, logo, o terreiro encheu-se do cheiro 
gostoso do bolo prontinho!
– Quem me ajuda a comer o bolo? – disse a Galinha Ruiva.
Mais que depressa, os três preguiçosos pularam do seu canto e vieram correndo.
– Eu ajudo! – apresentou-se o Pato, todo animado.
– Eu como! – disse o Porco.
– Pode deixar comigo! – veio dizendo o Peru.
A Galinha Ruiva pôs as asas na cintura e devolveu:
– Ah, é? Na hora que eu precisei de ajuda, nenhum de vocês apareceu. Agora que 
o bolo está pronto, vou comê-lo inteirinho, junto com os meus pintinhos! Quanto a vocês, 
chupem o dedo!

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Conto: "O presente dos magos" - O. Henry

O presente dos magos


Um dólar e oitenta e sete centavos. Era tudo. E sessenta centavos eram em moedas. Moedas economizadas uma a uma, pechinchando com o dono do armazém, o dono da quitanda, o açougueiro, até o rosto arder à muda acusação de parcimônia que tais pechinchas implicavam. Três vezes Della contou o dinheiro. Um dólar e oitenta e sete centavos. E no dia seguinte seria Natal.

Não havia evidentemente mais nada a fazer senão atirar-se ao pequeno sofá puído e chorar. Foi o que Della fez. O que leva à reflexão moral de que a vida é feita de soluços, fungadelas e sorrisos, com predomínio das fungadelas.

Enquanto a dona da casa gradualmente passa do primeiro ao segundo estágio, vamos dar uma espiada na casa. Um apartamento mobiliado, a oito dólares por semana. Não era exatamente miserável, mas tinha essa palavra pronta para o grupo de mendicância.

No vestíbulo embaixo havia uma caixa de correspondência na qual carta nenhuma seria posta, e um botão de campainha que nenhum dedo mortal jamais apertaria. Encontrava-se ali também um cartão anunciando o nome do "Sr. James Dillingham Young".

O "Dillingham" fora acrescentado durante um anterior período de prosperidade, quando seu possuidor estava ganhando trinta dólares por semana. Agora, que a receita baixara para vinte dólares, as letras de "Dillingham" pareciam nubladas, como se estivessem pensando seriamente em abreviar para um modesto e despretensioso D. Mas sempre que o Sr. James Dillingham Young voltava para casa e chegava ao seu apartamento lá em cima, era chamado de "Jim" e carinhosamente abraçado pela Srª. James Dillingham Young, já apresentada ao leitor como Della. O que está muito bem.

Della terminou de chorar e cuidou do rosto com a esponja de pó. Postou-se junto à janela e ficou a contemplar melancolicamente um gato cinzento caminhando sobre uma cerca cinzenta num quintal cinzento. Amanhã seria Dia de Natal e ela tinha apenas um dólar e oitenta e sete centavos para comprar o presente de Jim. Estivera a economizar tostão por tostão havia meses, e esse era o resultado. Vinte dólares por semana não dão para nada. As despesas tinham sido maiores do que calculara. Sempre são. Apenas um dólar e oitenta e sete centavos para comprar o presente de Jim. O seu Jim. Muitas horas felizes passara ela planejando comprar-lhe alguma coisa bonita. Alguma coisa fina, rara, legítima - algo que estivesse bem perto de merecer a honra de ser possuída por Jim.

Havia um espelho de tremó entre as janelas da sala. Talvez o leitor já tenha visto um espelho de tremó num apartamento de oito dólares. Uma pessoa muito esguia e muito ágil pode, com observar seu reflexo numa rápida seqüência de tiras longitudinais, obter uma concepção bastante acurada de sua aparência. Della, por ser esguia, lograra aperfeiçoar-se nessa arte.

Subitamente, afastou-se da janela e postou-se diante do espelho. Seus olhos estavam brilhantes, mas sua face perdeu a cor ao cabo de vinte segundos. Num gesto rápido, soltou o cabelo e deixou desdobrar-se em toda a sua extensão.

Ora, os James Dillingham Youngs tinham dois haveres de que muito se orgulhavam. Um era o relógio de ouro de Jim, que pertencera a seu pai e a seu avô. O outro era o cabelo de Della. Morara a Rainha de Sabá no apartamento do outro lado do poço de ventilação, e Della teria algum dia deixado o seu cabelo cair fora da janela para secá-lo e depreciar assim as jóias e as riquezas de Sua Majestade. Fora o Rei Salomão o zelador, com todos os seus tesouros empilhados no porão, e Jim teria puxado o relógio cada vez que por ele passasse, só para vê-lo arrancar as barbas de inveja.

O cabelo de Della, pois, caiu-lhe pelas costas, ondulando e brilhando como uma cascata de águas castanhas. Chegava-lhe abaixo do joelho e quase lhe servia de manto. Ela então o prendeu de novo, célere e nervosamente. A certo momento, deteve-se e permaneceu imóvel, enquanto uma ou duas lágrimas caíam sobre o puído tapete vermelho.

Vestiu o velho casaco marrom; pôs o velho chapéu marrom. Com um ruge-ruge de saias e coma centelha brilhante ainda nos olhos, correu para a porta e desceu rapidamente a escada que levava à rua.

Parou onde havia um letreiro anunciando: "Mme. Sofronie, Artigos de Toda Espécie para Cabelos". Della subiu a correr um lance de escada e se deteve no alto, arquejante, para recompor-se. Madame, corpulenta, alva demais, fria, dificilmente faria jus ao nome de "Sofronie".

- Quer comprar meu cabelo? - perguntou Della.

- Eu compro cabelo - disse Madame. - Tire o chapéu e vamos dar uma olhada no seu.

Despenhou-se, ondulante, a cascata de águas castanhas.

- Vinte dólares - ofereceu Madame, erguendo a massa com mão prática.

- Dê-me o dinheiro depressa - pediu Della.

Oh, as duas horas seguintes voaram com asas róseas. Perdoe-se a metáfora gasta. Della se pôs a vasculhar as lojas à procura de um presente para Jim.

Encontrou-o por fim. Fora certamente feito para ele e para ninguém mais. Nada havia que se lhe parecesse nas outras lojas, e ela as revirara de alto a baixo. Era uma corrente de platina, curta, simples e de modelo discreto, proclamando adequadamente seu valor por sua mesma substância e não por qualquer ornamentação espúria - como o devem fazer todas as coisas boas. Era digna até do Relógio. Tão logo a viu, soube que tinha de ser de Jim. Era como ele. Serenidade e valor - a descrição se aplicava a ambos. Vinte e um dólares cobraram-lhe por ela, e Della correu para casa com os oitenta e sete centavos. Com aquela corrente no relógio, Jim poderia preocupar-se decentemente com o tempo na frente de qualquer pessoa. Grande como era o relógio, ele às vezes o consultava meio envergonhado devido à velha tira de couro que usava em lugar de corrente.

Quando Della chegou a casa, seu embevecimento cedeu lugar a um pouco de prudência e razão. Pegou os ferros de frisar, acendeu o gás e pôs-se a reparar os estragos causados pela generosidade acrescida ao amor. O que sempre é uma tarefa muito árdua, queridos amigos - uma tarefa gigantesca.

Ao cabo de quarenta minutos, sua cabeça estava coberta de pequenos caracóis cerrados, que a faziam parecer, admiravelmente, um menino vadio. Contemplou sua imagem no espelho durante longo tempo, crítica e cuidadosamente.

- Se Jim não me matar - disse consigo mesma - antes de olhar-me pela segunda vez, dirá que pareço uma corista de Coney Island. Mas que podia eu fazer... oh, que podia eu fazer com um dólar e oitenta e sete centavos? Às sete horas, o café estava preparado e uma frigideira quente no fogão esperava o momento de fritar as costeletas.

Jim nunca se atrasava. Della dobrou a corrente no côncavo da mão e sentou-se a um canto da mesa, perto da porta pela qual ele sempre entrava. Ouviu então seus passos no primeiro lance da escada e empalideceu por um instante. Ela tinha o hábito de rezar pequenas preces silenciosas a propósito das mínimas coisas diárias, e agora murmurava:

- Oh, Deus, fazei-o por favor achar-me ainda bonita!

A porta se abriu, Jim entrou e a fechou. Parecia magro e muito sério. Pobre sujeito, apenas vinte e dois anos e já responsável por uma família! Precisava de um sobretudo novo e não tinha luvas.

Jim avançou alguns passos, tão rígido quanto um perdigueiro na pista de uma codorniz. Seus olhos estavam fitos em Dela e havia neles uma expressão que ela não conseguia ler e que a aterrorizava. Não era raiva, nem surpresa, nem desaprovação, nem horror; não era nenhum dos sentimentos para os quais ela estava preparada. Ele simplesmente a fitava com aquela peculiar expressão na face.

Della esgueirou-se para fora da mesa e se encaminhou para ele.

- Jim, querido - gritou - , não me olhe desse jeito! Mandei cortar o cabelo e o vendi porque não poderia passar o Natal sem dar um presente a você. Ele crescerá de novo... não se aborreça, por favor. Eu tinha de fazer isso. Meu cabelo cresce terrivelmente depressa. Diga "Feliz Natal!", Jim, e fiquemos felizes. Você não sabe que coisa bonita, que belo presente tenho para você.

- Mandou cortar o cabelo? - perguntou Jim a custo, como se não se tivesse ainda compenetrado desse fato patente após o mais árduo esforço mental.

- Cortei-o e vendi-o - disse Della. - Você não continua a gostar de mim do mesmo jeito, então? Estou sem cabelo, não estou?

Jim olhou à volta do aposento de modo curioso.

- Você diz que seu cabelo se foi? - insistiu, com um ar de quase idiotia.

- Não precisa procurar por ele - disse Della. - Foi vendido, como lhe disse... vendido, não está mais aqui. É Véspera de Natal, querido. Seja bonzinho comigo, fiz isso por sua causa. Talvez fosse possível contar os cabelos da minha cabeça - continuou ela, com súbita e grave doçura - mas ninguém poderá jamais avaliar o meu amor por você. Posso fritar as costeletas, Jim?

Emergindo do seu transe, Jim pareceu despertar rapidamente. Abraçou a sua Della. Por dez segundos, contemplemos, com discreta atenção, qualquer objeto inconseqüente, noutra direção. Oito dólares por semana ou um milhão por ano - qual a diferença? Um matemático ou uma pessoa arguta daria a resposta errônea. Os magos trouxeram presentes valiosos, mas isso não estava entre eles. Esta asserção obscura será esclarecida mais tarde.

Jim tirou um pacote do bolso do sobretudo e atirou-o sobre a mesa.

- Não me interprete mal, Della - disse. - Não acho que haja alguma coisa, corte de cabelo, raspagem ou xampu, capaz de fazer-me gostar menos da minha mulherinha. Mas se você abrir esse pacote, poderá ver por que fiquei abafado no princípio.

Alvos dedos ligeiros desfizeram o atilho e o embrulho. Ouviu-se então um grito estático de alegria, e depois, ai!, uma súbita mudança feminina para as lágrimas e os gemidos, que exigiram o imediato emprego de todos os poderes de consolação do senhor do apartamento.

Pois sobre a mesa jaziam Os Pentes - o jogo de pentes para cabelos que Della adorara havia muito numa vitrine da Broadway. Belos pentes, de tartaruga legítima, orlados de pedraria - da cor exata para combinar com o lindo cabelo desvanecido. Eram pentes caros, ela o sabia, e seu coração se limitara a desejá-los e a suspirar por eles sem a menor esperança de vir um dia a possuí-los. E agora pertenciam-lhe, mas as tranças que os anelados enfeites deveriam adornar não mais existiam.

Ela, porém, os apertou contra o peito e, por fim, pôde erguer os olhos nublados, sorrir e dizer:

- Meu cabelo cresce tão depressa, Jim!

E então Della pulou como um gatinho chamuscado e gritou:

- Oh! oh!

Jim ainda não vira o seu belo presente. Ela lho estendeu ansiosamente na palma da mão aberta. O fosco metal precioso parecia brilhar com o reflexo do seu jubiloso e ardente espírito.

- Não é uma beleza, Jim? Vasculhei a cidade toda para achá-lo. Doravante, você terá de ver as horas uma centena de vezes por dia. Dê-me o seu relógio. Quero ver como fica nele.

Em lugar de obedecer, Jim deixou-se cair no sofá, pôs as mãos atrás da cabeça, e sorriu:

- Della - disse - vamos pôr os nossos presentes de Natal de lado e deixá-los por algum tempo. São lindos demais para poderem ser usados agora. Vendi o relógio para conseguir o dinheiro com que comprei os seus pentes. Que tal se você fritasse as costeletas agora?

Os magos, como sabem, eram homens sábios - homens maravilhosamente sábios - que trouxeram presentes para a Criança na manjedoura. Inventaram a arte de dar presentes natalinos. Sendo eles sábios, seus presentes eram sem dúvida igualmente sábios. Possivelmente admitiam o privilégio de troca em caso de duplicação. E aqui lhes contei canhestramente a crônica não importante de duas crianças tolas, num apartamento, as quais da maneira a mais insensata, sacrificaram, uma pela outra, os maiores tesouros de seu lar. Mas como derradeira palavra para os sensatos dos dias que correm, seja dito que, de todos que dão presentes, os dois foram os mais sábios. Todos que dêem e recebam presentes como os deles são os mais sábios. Em toda parte, os mais sábios. São os magos."

Fonte: 
O. HENRY. Caminhos do Destino e outros contos. Seleção e prefácio de José Paulo Paes. Tradução de Alzira Machado Kawall e José Paulo Paes. Ediouro, 1988.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Livro digital x livro impresso

Lendo o artigo do economista Gustavo Ioschpe ("Educação e tecnologia: o sarrafo subiu"), na Veja edição 2.322 (de 22 de maio), sobre o discurso dos professores medíocres que dizem não conseguir estimular seus alunos por culpa da disparidade tecnológica entre a chamada Geração Y (geração que nasceu convivendo com a internet) e eles, dinossauros que não conseguem se adaptar às novidades - me deparei com uma declaração que me deixou de cabelo em pé e doida para digitar uma resposta - professora e contadora de estórias que sou. Ioschpe disse que já não há mais espaço para a intermediação - "No mundo pré-internet, precisávamos de intermediários para realizar uma série de atividades. Precisávamos de agência de turismo para comprar passagem de avião, de um jornal ou revista para receber notícias, de editoras e livrarias para ler um livro, de médicos para conhecer doenças e opções de tratamento.
Rapaz, concordei com quase tudo, o que pegou foi esse trecho de que não precisamos mais de editoras e livrarias para ler um livro
Como escritora - iniciante, porém empolgadíssima - essa opinião, baseada em evidências (já se pode comprar livros em formato digital e lê-los com todo o conforto em um tablet) - me deixa triste. Tudo bem, é mais barato e mais amigo do meio ambiente, porque menos árvores serão cortadas para produzir o papel. Mas ainda permaneço triste. 
Triste porque gosto de pensar que me sinto confortável em meio a toda essa tecnologia - apesar de não pertencer à Geração Y (já sou quarentona). Entendo as redes sociais e até consigo transitar, com relativa segurança e desenvoltura, por elas. 
Mas ler um livro em uma tela de cristal líquido (a tradução das letrinhas LCD) - para mim é uma chatice sem fim. Aquela luz me incomoda, me dá sono e me rouba o prazer de virar as páginas, sentir o cheirinho do papel, acariciar a capa, me deliciando com seus elementos visuais, segurar o livro ao peito com carinho como se um amigo fosse, e vê-lo, lindo, entre outros tesouros da minha biblioteca. Tudo bem que num simples pendrive eu consiga carregar centenas de obras de tudo quanto é formato - PDF, DOC, MP3, AVI, WMW, MPG4, DVIX, etc etc - mas é algo tão abstrato! Nesse notebook mesmo eu tenho um monte de livro - nem 10% lidos.
Aí eu matuto com meus botões e as teclas do meu teclado: será que esse tipo de facilidade - da obra digital - não está chegando cedo demais ao alcance de um público que ainda nem passou pelo estágio de se acostumar a - e curtir - folhear um livro? 
Peço vênia, meu caro Ioschpe, mas ainda acho que precisamos de editoras, livrarias, sebos, bibliotecas e livros - impressos. Esse negócio de virtual, digital e coisa e tal é coisa para outra geração.

Ouça a estória "O galo rouco e o rato esperto", da Cigana Contadora de Estórias!

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