domingo, 7 de junho de 2009

Um pouco sobre os contos de fadas

Não há, na realidade, algo que identifique a literatura infantil como tal, a não ser justamente a faixa etária à qual é direcionada. Aliás, nem isso serviria de referência, pois não são só as crianças que lêem esse gênero.
Segundo Roger Sale, da Enciclopédia Grolier, a literatura infantil surgiu com o advento da classe média, da burguesia mais atuante, do século XVII. Antes disso, as crianças eram vistas como adultos em miniatura - vide as roupas que costumavam usar - com atribuições semelhantes aos dos adultos. Portanto, sua educação, costumes, entretenimentos e papel na sociedade não diferiam muito da dos pais.
Não havia esse conceito que temos hoje de que são seres delicados, que precisam de uma educação especial, baseada em conceitos pedagógicos, etc, etc. Naquela época, crianças eram apenas isso: adultos em menor escala. E como tal, seus divertimentos eram os mesmos de todos. Música, canto, esportes, estórias. O que os adultos faziam, as crianças também podiam fazer.
Os contos que hoje chamamos de fadas, na realidade, não foram imaginados para crianças. Eram contados para adultos, tanto em elegantes salões quanto nas rodas suburbanas. E as estórias nada tinham de inocente; elementos como bárbaros assassinatos, adultério, incesto, pactos com demônios não seriam particularmente indicados para ouvidos infantis, pelo menos não do modo como hoje encaramos essas doces criaturinhas...
As Fábulas, publicadas entre 1668-94, de Jean de la Fontaine, por exemplo, eram mais anedotas, com as quais ele costumava deliciar os freqüentadores dos mais célebres salões parisienses, como o do ministro do Tesouro de Luís XIV, Nicolas Fouquet, onde as falhas de caráter, vícios e maldades humanas eram transportadas para personagens do reino animal, do que precisamente contos direcionados ao público infantil.
Aliás, muitas das fábulas de La Fontaine foram inspiradas no trabalho de Esopo, um escravo nascido na Frígia em 620 AC, célebre pelos contos bem-humorados, sobre valores como honestidade, trabalho e lealdade, de narrativa simples e que sempre deixavam uma moral – a “moral da estória”. Entre os contos mais famosos dele estão "A Raposa e as Uvas", "A Lebre e a Tartaruga" e "A Cigarra e a Formiga".
A tradição dos contos narrados por babás ou carinhosas avozinhas, no entanto, só surgiu em 1697, com a publicação dos Contos dos Tempos Passados, do francês Charles Perrault, cujo subtítulo Contos da Mamãe Gansa se tornou mais conhecido entre nós. Este era uma coletânea de oito contos que ganhou mais três numa edição posterior. Os contos que faziam parte desse que é considerado o primeiro livro de contos de fadas foram: A Bela Adormecida no Bosque, Chapeuzinho Vermelho, O Barba-Azul, O Gato de Botas, As Fadas, A Gata Borralheira (Cinderela), Rique, o Topetudo, O Pequeno Polegar. Os contos que foram incluídos depois foram: Pele de Asno, Os Desejos Ridículos e Grisélidis.
Muitas das estórias de Perrault, no entanto, já eram conhecidas mas sob outras versões. Algumas já haviam até figurado em outras coletâneas como a dos italianos Giovanni Straparola e a de Giambattista Basile. E isso é quase uma regra: dificilmente se consegue identificar o verdadeiro autor de cada estória...
A publicação dos contos, antes transmitidos de forma oral, foi um dos grandes responsáveis pelo declínio dessa arte. Todos podiam lê-los, de modo que o interesse em contá-los e em ouvi-los foi pouco a pouco diminuindo. Hoje, por exemplo, é difícil termos o hábito de contar estorinhas para nossas crianças. O máximo que fazemos - quando o fazemos - é ler para elas. Parece que ninguém mais tem tempo para isso, infelizmente.
O primeiro livro realmente direcionado a elas foi uma coletânea de cantigas infantis, publicado por Mary Cooper em 1744, cujo sugestivo título era Para Todos os Pequenos Senhores e Senhoritas; para ser cantado para eles por suas babás até que possam cantar sozinhos.
A segunda coletânea foi Melodia de Mamãe Gansa, atribuída ao livreiro John Newbery, em 1760, considerado o primeiro a descobrir e explorar o mercado de livros para crianças. Os contos deste trabalho nada mais eram do que estórias de livros para adultos encurtadas, adaptadas, ilustradas e postas num livro menor e menos pesado para que as crianças pudessem manuseá-lo sem dificuldade.
Os próximos cem anos não produziram nada de muito significativo exceto a coletânea dos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm: Contos de Fadas para Crianças e Adultos, publicada em alemão entre 1812 e 1815 e traduzida para o inglês em 1823. Os contos desse livro, muitos de escritores anteriores como Perrault, tinham o propósito de ensinar valores morais e acabaram por se tornar os mais populares em todo o mundo.
Em 1835 foi a vez do dinamarquês Hans Christian Andersen maravilhar o mundo com o seu Contos para Crianças. Entre os contos que figuravam nessa obra estavam:
O Pequeno Claus e o Grande Claus, A Princesa e a Ervilha (Uma Verdadeira Princesa) e As Flores da Pequena Ida.
Mais tarde, Andersen publicou vários outros contos como: As Roupas Novas do Imperador, O Patinho Feio , A Rainha da Neve, O Rouxinol, Sapatinhos Vermelhos, A Pequena Vendedora de Fósforos, O Soldadinho de Chumbo e A Pequena Sereia.
Andersen é considerado o precursor da literatura infantil mundial. Tanto que a data do seu nascimento, 2 de abril, tornou-se o Dia Internacional do Livro Infanto-Juvenil e a medalha Hans Christian Andersen é concedida aos melhores da categoria pelo Conselho Internacional de Livros para Jovens - a IBBY. A primeira brasileira a ganhar essa medalha foi Lygia Bojunga Nunes, em 1982, premiada pelo conjunto de sua obra.
Andrew Lang publicou, em 1889, The Blue Fairy Book, mais uma coletânea de contos de fadas, só que devidamente "purificados". Portanto, quem for ler qualquer um dos contos de fadas dos vários livros de Lang vai perceber que houve ali uma discreta censura vitoriana. Mas os contos, em suas versões menos inocentes, podem ser conferidos nos trabalhos dos Grimm, por exemplo.
Lang publicou ainda The Yellow Fairy Book, The Red Fairy Book, The Green Fairy Book, The Violet Fairy Book e The Crimson Fairy Book.
E no Brasil?
No Brasil, o maior autor infantil é, sem dúvida alguma, Monteiro Lobato, mas antes dele, já tivéramos bons trabalhos na nossa língua como a comédia infantil O Gorro de Papai, escrita em 1880 pelo conde Afonso Celso de Assis Figueiredo Júnior, filho do visconde de Ouro Preto, que foi inclusive um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.
Monteiro Lobato é considerado o pai da literatura infantil brasileira moderna, com a publicação na Revista do Brasil, em 1920, dos primeiros fragmentos da estória de Lúcia ou a Menina do Narizinho Arrebitado. O primeiro volume sobra as aventuras de Narizinho (como a conhecemos hoje) foi publicado, na íntegra, nesse mesmo ano pela Editora Monteiro Lobato.
Entre 1918 e 1944, Lobato publicou 30 livros, a grande maioria dedicada às crianças e jovens.
Os brilhantes personagens de Monteiro Lobato, como a boneca Emília, o visconde de Sabugosa, a tia Nastácia, a dona Benta, o Pedrinho, Pedro Malasartes, a Cuca, o Saci-Pererê, foram levados para a televisão em fins da década de 70/início de 80, no seriado Sítio do Picapau Amarelo, apresentado pela TV Globo.
Depois de Lobato, vieram muitos outros cujos trabalhos que podem ser conferidos em séries como a Vaga-Lume, da Editora Moderna, autores maravilhosos como Tatiana Belinky, Ruth Rocha, Ana Maria Machado e tantos outros...
Pena que os pais não têm mais tempo nem disposição para contar estorinhas e os livrinhos permanecem empoeirados, jogados num canto qualquer, esperando para um dia, mais uma vez, trazerem sorrisos sonhadores em rostinhos infantis...

E é aí que entramos nós, os contadores de estórias! Percebe a importância do que fazemos? Resgatamos sonhos, moldamos espíritos e ofertamos esperança. E isso não é pouco, principalmente num século tão pesado, cheio de tristezas e decepções, onde há pouco espaço para a ilusão. Mas, como disse o poeta, sonhar é preciso!
***
Fontes:
1. Dicionário Crítico da Literatura Infantil e Juvenil Brasileira - Nelly Novaes Coelho - Ed USP
2. Enciclopédia Grolier
3. De Tudo um Pouco - homepage de Cristiane Madanêlo, mestra em literatura brasileira e especialista em literatura infantil e juvenil.

Imagens:
Internet, créditos desconhecidos

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