sexta-feira, 5 de junho de 2009

Conto: "O macaco juiz"

Dois gatos, um branco e um malhado, depois de muita manha e trabalho, conseguiram roubar um belo queijo do reino de uma despensa e, uma vez postos a salvo, trataram de dividir a presa entre si.

A partilha deu lugar a um sério desentendimento entre ambos pois cada um queria o maior pedaço para si. O gato branco, não querendo ser roubado, propôs logo que o queijo - e a pendenga - fosse levado à presença de um macaco conhecido por toda a bicharada como justo e sábio.

Partiram ambos e, chegando à presença do juiz, o gato branco disse:

- Amigo Macaco, reconhecendo sua justiça e finura, propus ao meu amigo malhado que você fosse o juiz na questão da partilha deste queijo.

O gato malhado ajuntou:

- Aceitei logo e já digo, de antemão, que qualquer que seja a sua decisão, sábio amigo, eu irei aceitá-la, tal é a confiança que deposito em sua sabedoria.

- Bem, - disse o macaco, com ar sério - aceito a nobre missão, que me parece de fácil solução.

Dizendo isto, sentou-se diante de uma pequena banca, onde havia uma balança, e, tomando uma faca, partiu o queijo ao meio. Colocou cada parte do queijo em um do pratos da balança e viu que a da direita pesava mais do que a esquerda.

Pegando a parte mais pesada, deu-lhe uma dentada, tirando um bom naco para ver se assim equilibrava os pedaços. Porém, tal não aconteceu: o da esquerda agora é que ficou mais pesado. O macaco juiz não teve dúvida. Pegou o pedaço da esquerda e também aplicou-lhe uma boa dentada. Colocando os pedaços na balança, viu que ainda não estavam iguais e ele não teve remédio a não ser continuar mordendo um e outro até que ficassem com o mesmo peso.

Ao ver que os pedaços estavam diminuindo com uma rapidez espantosa, o gato malhado exclamou:

- Com mil raios e trovões! Se o senhor juiz continuar tentando equilibrar as partes, não vai sobrar mais nada!

- Basta! - exclamou por sua vez o gato branco. - Pode me dar a menor parte, que ficarei satisfeito.

- Ah, isso não! - respondeu o macaco. - Antes de tudo a justiça! Procuro dar a cada um quinhão igual...

E continou tranquilamente tirando um naco de cada um dos pedaços até que, restando apenas dois pedacinhos, mostrou-os aos gatos, dizendo-lhes:

- Isso agora também não vale equiparar! Vou comê-los também, como paga do trabalho que tive no julgamento dessa questão!

Bestinha esse juiz, não? :)

***

Adaptado da versão de Viriato Padilha - Histórias do Arco da Velha

3 comentários:

  1. "Imagino que a arte de contar "estória" transcende o tempo e nos coloca diante de imagens criadas para divertir e despertar as emoções com referências de valores criados por "contadores artistas" que espelham o retrato de uma era" .....essa é do "Arco da Véia"..

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  2. Adorei o conto, você escreve muito bem! Parabéns.

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  3. Oi, Martha! Obrigada pelo seu elogio, mas o conto não é de minha autoria! Adaptei da versão de Viriato Padilha, no livro "Histórias do Arco da Velha", da Ed. Quaresma.

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