sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Conto: "Pedro Rimales, o curandeiro"


Este conto vem lá da Venezuela e ganhou versão em português pela Ed. Ática.

"Certo dia, Pedro Rimales chegou a um país muito distante, cansado e sem um centavo. Então decidiu fingir-se de curandeiro para ganhar alguns tostões e não morrer de fome.
“Alguns tostões? Numa dessas até fico rico e poderoso”, pensou. Espalhou o boato de que era dotado de grande sabedoria, de que conhecia todas as doenças possíveis e imagináveis e de que curava com remédios misteriosos.
Mas não apareceu ninguém. Nem mesmo um simples doente com tosse.
Soube, então que o rei desse país muito distante tinha mania de médico e que todos os doentes, querendo ou não, tinham que esse tratar com ele.
“Tanto melhor”, pensou Pedro Rimales. “Se eu chegar a curar algum doente que o rei não tenha curado, até rei poderei vir a ser.”
E certa manhã, justamente aconteceu que um homem desse país distante acordou com muita preguiça e sem nenhuma vontade de trabalhar.
- Estou morrendo! – gritou. E atirou-se ao chão, fazendo-se de morto.
Cada vez que alguém se aproximava para vê-lo, o homem prendia a respiração e ficava duro.
- Está morto – diziam todos.
Pedro Rimales se pôs a observá-lo e percebeu que, quando não havia ninguém por perto, a camisa do morto subia e descia com sua respiração. Pra cima e pra baixo, pra cima e pra baixo.
- Por que não chamam o rei para curá-lo? – perguntou Pedro Rimales.
- E pra quê? Está louco, moço? Não está vendo que o homem está morto?
Pedro Rimales sorriu, com ar de mistério e disse:
- A morte é uma doença que também pode ser curada. Se a gente souber com quê, é claro.
Todo mundo ficou pasmo. Havia alguém capaz de curar a morte?
- Então cure o homem que acaba de morrer – disse alguém.
- Eu faria isso, mas o rei pode se zangar. Talvez até mandasse me matar.
- Mas se você pode curar o homem, é sinal de que o rei também pode – replicaram.
E foram buscar o rei. Este chegou pouco depois, numa carruagem cheia de potes de ungüento, caixinhas de pós e ervas mágicas. Fez o morto cheirar sais, untou-o com pomadas e tentou fazê-lo tomar uma poção especial. Porém o preguiçoso, cansado de se fazer de morto, havia caído em sono profundo e nenhuma das misturas do rei conseguiu fazê-lo acordar. Furioso, o rei chamou Pedro Rimales:
- Tente você, agora. Mas se não conseguir pôr o morto de pé, farei com que dêem uma surra. Assim acabará toda a sua vontade de fazer-se passar por curandeiro.
Pedro Rimales enfiou um montão de folhas de diferentes plantas numa cuia e misturou tudo com água do rio. Acendeu um charuto e por três vezes soprou fumaça na cuia. Aproximou-se do morto com a outra mão, sem que ninguém percebesse, apagou o charuto no traseiro do homem.
Ao sentir a terrível dor da queimadura, o morto deu um berro e ficou de pé num pulo. As pessoas mal podiam acreditar no que estavam vendo. E Pedro Rimales foi aclamado rei, recebendo sua coroa e seu manto.
Ele reinou por muitos e muitos anos naquele país tão distante, até que um dia, farto de receber embaixadores e de dançar a valsa, resolveu ir embora. Tirou a coroa e o manto e foi correr o mundo."

(ORAMAS, Rafael Ribeiro. Pedro Rimales, o curandeiro. In: Contos populares para crianças da América Latina. 2ed. Trad. e adaptado por Neide T. Maia Gonzáles. São Paulo, Ática, 1985. P.66-71)

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