sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Conto: "O homem que pôs um ovo" - Câmara Cascudo

"Quem tiver o seu segredo, 
Não conte a mulher casada,

Esta conta ao seu marido,
O marido aos camaradas...

Em algum lugar lá pelo interior desse Brasil, um marido tinha uma mulher que gabava-se em saber guardar segredo. Vivia dizendo que as outras eram saco rasgado e ninguém podia confiar senão no juízo dela.
Tanto se gabou e se gabou que o marido pensou em fazer uma experiência para ver se a mulher era mesmo segura de língua.
Uma noite, voltando tarde para casa, o homem trouxe um grande ovo de pata, que é muito maior do que os da galinha, e deitou-se na cama. Lá para as tantas da madrugada, acordou a mulher, todo assustado e, pedindo que ela guardasse todo segredo, contou que acabara de pôr um ovo!
A mulher só faltou morrer de admiração, mas o marido mostrou o ovo e ela acreditou, jurando que nem ao padre confessor havia de dizer o que soubera.
Ora muito bem. Pela manhã, assim que o marido saiu para o trabalho a mulher correu para a vizinha e, pedindo segredo de amiga, contou que o marido pusera um ovo na cama e estava todo aborrecido com essa desgraça.
A vizinha prometeu que ninguém saberia, mas passou o dia contando o caso, ao marido, aos vizinhos, aos conhecidos, sempre pedindo segredo.
E, como quem conta um conto aumenta um ponto, toda vez que a história passava adiante o ovo ia mudando de número. Primeiro era um, depois dois, deppois três... e ao anoitecer o homem já pusera meio cento de ovos.
Voltando para casa, o marido encontrou-se com um amigo e este lhe disse que havia novidade naquela rua.
- Qual a novidade ?
- Não soube ? Uma coisa bem esquisita! Imagine que um morador nesta rua pôs, penso eu, quase um cento de ovos, seu mano ! Diz que está muito doente e que cada ovo tem duas gemas. É mesmo o fim do mundo.
O marido não quis saber quem estava de vigia. Entrou em casa, chamou a mulher, agarrou uma bengala e passou-lhe a lenha com vontade, dando uma surra de preceito, que a deixou de cama, toda moída e com panos de água e sal.
Depois o homem saiu contando como o caso começara e a mulher ficou desmoralizada."


Essa estória foi publicada no livro "Contos tradicionais do Brasil", de Câmara Cascudo (Ediouro, 1999), uma beleza de coletânea com muitos contos deliciosos recolhidos pelo querido mestre folclorista.

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