quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Conto: Toalha de mesa

Os caminhos de Deus são misteriosos...

“Um novo pastor, recentemente formado, e sua esposa, que foram encarregados de reabrir uma igreja no bairro de Brooklyn, NY, chegaram no início de outubro, entusiasmados com a oportunidade.
Quando viram a igreja, observaram que havia muitos estragos e um grande trabalho a ser feito. Sem se deixar abater, estabeleceram como meta deixar tudo pronto para o primeiro serviço: o culto de Natal.
Trabalharam sem descanso, consertando o telhado... refazendo o piso... pintando... e, muito antes do Natal, em 18 de dezembro, tudo estava pronto!
Mas...  No dia seguinte, 19 de dezembro, desabou uma terrível tempestade que se alongou por dois dias.
No dia 21, o pastor foi até a igreja.  Seu coração doeu... viu que o telhado tinha quebrado e que uma grande área do revestimento de gesso decorado, da parede do santuário, logo atrás do púlpito, havia caído.
O pastor, enquanto limpava o chão, pensava em como resolver a situação.
No caminho de casa, pensando adiar o culto de Natal, observava as vitrines, enfeitadas para a época, quando notou um bazar beneficente e parou por instantes. Uma linda toalha de mesa, de crochê, na cor marfim, com um crucifixo delicadamente bordado no centro chamou-lhe a atenção.  Era do tamanho exato para cobrir o estrago atrás do púlpito. Comprou-a e voltou para a igreja.
Começou a nevar. Apressou seus passos e quando chegava à porta da igreja uma velha senhora vinha correndo em direção contrária tentando pegar o ônibus, o que não conseguiu.
O pastor convidou-a a entrar para esperar pelo próximo, abrigando-se do frio, que viria 45 minutos depois. Ela sentou-se num banco e nem prestava atenção no pastor que já providenciava a instalação da toalha de mesa na parede.
Ao terminar afastou-se e pôde admirar o quanto a toalha era linda e servia perfeitamente para esconder o estrago. Então, o pastor notou a velha encaminhando-se para ele. Seu rosto estava lívido e perguntou:
- Pastor, onde o senhor encontrou esta toalha de mesa?
O pastor contou a história. A mulher pediu-lhe que examinasse o canto direito inferior para encontrar as iniciais EBG bordadas. O pastor fez o que a mulher pediu e, intrigado, confirmou.
A mulher disse:
- Estas são as minhas iniciais.
E contou que fez esta toalha de mesa há 35 anos atrás, na Áustria. Contou que, antes da guerra, ela e seu marido eram bem de vida. Quando os nazistas invadiram seu país combinaram fugir; ela iria antes e seu marido a seguiria uma semana depois. Ela foi capturada, trancada numa prisão e nunca mais viu seu marido e sua casa.
O pastor ofereceu a toalha, mas, ela recusou, dizendo que estava num lugar muito apropriado. 
Insistindo, ofereceu-se para levá-la até sua casa; era o mínimo que poderia fazer. Ela morava em Staten Island e tinha passado o dia em Brooklin para um serviço de faxina.
No dia de Natal a igreja estava quase cheia. Foi um lindo trabalho.
Ao final, o pastor e sua esposa cumprimentaram os fiéis um a um à porta e muitos diziam que retornariam. Um velho homem, que o pastor reconheceu pela vizinhança, permaneceu sentado, atônito.  O pastor aproximou-se e, antes que dissesse palavra, o velho perguntou:
- Onde o senhor conseguiu a toalha de mesa da parede? Ela é idêntica à uma que minha mulher fez, muitos anos atrás, quando vivíamos na Áustria, antes da guerra. Como poderiam existir duas toalhas tão parecidas?
Imediatamente, o pastor entendeu o que tinha acontecido e disse:
- Venha... eu vou levá-lo a um lugar que o senhor vai gostar muito.
No caminho, o velho contou a mesma história da mulher. Ele, antes de poder fugir, também havia sido preso e nunca mais pôde ver sua mulher e sua casa, por 35 anos.
Ao chegar à mesma casa onde deixara a mulher, 3 dias antes, ajudou o velho a subir os 3 lances de escada e bateu na porta.
Creio que não há necessidade de se contar o resto da história. Quem disse que Deus não trabalha de maneira misteriosa?”

Fonte: Nova Era

terça-feira, 31 de julho de 2018

Conto: O leão e o homem



O leão e o homem
Folclore nordestino

O leão é o rei das fera. É o rei... é o que quer ser mais valente no mundo, é o leão. Encontrou-se com a onça e trataram uma palestra, dizendo:
- Camarada onça, eu sou o rei das fera! Sou o mais valente que pode existir.
Aí, a onça disse:
- Você tá muito enganado! O mais valente que existe é o bicho-homem!
Disse:
- Como é que ... eu tinha vontade de me topar com o bicho-homem. Como é que eu topo com o bicho-homem, pra experimentar se ele é valente?
Aí, a onça disse:
- Vai haver uma festa de casamento ... você vá pastorar lá na estrada que você encontra o bicho-homem.
Aí, o leão, foi, se escondeu no beco do caminho ... quando lá vinha uma veinha, muito carcunda. Quando a veinha ia passando, o leão saltou na frente:
- A senhora é o bicho-homem?
Disse:
- Não senhor. Sou a mãe do bicho-homem.
Disse:
- Então, só pode ser outro.
Quando deu fé lá vinha um veinho. Aí, ele saltou na frente:
- Você é o bicho-homem?
Disse:
- Não senhor. Eu já fui.
- Passe, vá embora.
Lá vinha um menino assobiando. Um menino muito esperto, contente! Aí, quando viu o menino, saltou na frente:
- Meu filho, você é o bicho-homem?
- Não senhor. É de ser ainda o bicho-homem.
Aí, ficou. Quando deu fé, lá vinha o homem: um caboclo com chapéu de couro, um bacamarte ... que vinha voando pedra pra todo canto. Quando foi empariando, foi dizendo:
- O senhor é o bicho-homem?
- Pronto, leão, sou o bicho-homem. Que é que o senhor deseja?
- Desejo lutar. Pra ver se você é o rei das fera e eu sou o rei das fera ... das montanhas, pra ver se nós entramos em luta.
Aí, o homem disse ao leão:
- Demore aí... Deixe eu dar um espirro primeiro, pra mode nós entrar em luta.
Aí, o leão disse:
- Pronto, pode dar o seu espirro.
Pense num "espirro"...
O homem disparou o bacamarte, quebrou o focinho do leão, a cara com tudo. O leão saiu na carreira. Adiante, encontrou a onça, disse:
- Camarada onça, eu não quero negócio com o bicho-homem! O bicho é a fera pior que existe no mundo! O espirro do bicho fez esse trabalho comigo ... e o bicho-homem. Como é que faz? Não quero negócio com o bicho-homem.
Aí, ficou sendo o homem a fera maior do Brasil.

Fonte: Severino Carreiro. Catolé do Rocha. 17.07.1980. Relato recolhido por Myrian Gurgel Maia. In: TRIGUEIRO, O.M. e PIMENTEL, A. A. Contos populares brasileiros - Paraíba. Recife: FUNDAJ, Massangana, 1996, p.54-5.

Imagem: "Bacamarteiro", por Feliciano dos Prazeres

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Conto: Como Ewá livrou Orunmilá de Iku, a morte

Ewá, de Felipe Caprini

Conta a lenda que Ewá era esposa de Omolu, e era estéril, não podendo dar um filho ao seu grande amado e rei, sofrendo muito por isso.
Em uma bela tarde, a dona dos horizontes estava-se a deleitar às margens de um rio, juntamente com suas serviçais que lavavam vários alás (panos brancos). De repente, surge de dentro da floresta um jovem que corria muito assustado.
- Como ousas interromper o deleite da rainha Ewá? Quem és tu? - indagou a bela dama, irritada com a impertinência do rapaz.
- Minha rainha, não era minha intenção interromper tão sagrado ato, oh esposa de Omolu! Porém Ikú (a morte) persegue-me há vários dias e preciso escapar dela, pois tenho ainda um grande destino a seguir. Peço sua ajuda, Ewá, peço que me escondas para que Ikú não me pegue!
- Gostei de você e vou ajudá-lo, respondeu a rainha. - Esconda-se nos alás que minhas serviçais estão a lavar e eu despistarei Ikú de seu caminho.
E assim foi feito. O jovem rapaz se escondeu debaixo dos panos brancos. Pouco depois eis que aparece Ikú, a morte!
- Como ousas adentrar aos domínios de minha morada, quem és tu? - perguntou Ewá com ar de indignada.
- Sou Ikú e entro onde as pessoas menos esperam. Entro e carrego comigo dezenas, centenas e até milhares de pessoas! Porém hoje estou a procurar um jovem rapaz, que está a me escapar há dias, você o viu passar por aqui? - perguntou Ikú para Ewá.
- Eu o vi sim, Ikú, ele foi naquela direção. - Ewa apontou para um direção totalmente oposta ao das suas serviçais, que estavam escondendo o rapaz.
Ikú agradeceu e seguiu pelo caminho indicado. O rapaz saiu de seu esconderijo, aliviado.
- Ewá, agradeço sua ajuda, terei tempo agora de prosseguir meu caminho. Sou um grande adivinho, e em sinal de minha gratidão, a partir de hoje presenteio-lhe com o dom da adivinhação.
Ewá agradeceu o presente dado pelo rapaz, que já havia se virado para ir embora, quando ele retornou e falou a Ewá.
- Sim, eu sei, você não pode ter filhos, pois lhe concedo a fertilidade também. A partir de hoje você poderá ter filhos e alegrar ao seu marido.
Então Ewá agradeceu novamente muito contente e perguntou ao jovem rapaz.
- Qual é seu nome?
E o rapaz respondeu...
- Meu nome é Orunmilá Ifá!

* Ifá é o orixá da adivinhação e do destino.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Conto: "A Goela e o Rabo da Baleia" - Luís da Câmara Cascudo


A Baleia era o bicho do mar mais veloz e mais comilão. Nadava mais do que todos os outros peixes e comia por peste. Nosso Senhor torceu o rabo da Baleia. Por isso ela nada mais devagar e é o único peixe que tem a barbatana do rabo virada para baixo, batendo água de baixo para cima, em vez de ser da direita para a esquerda como todos os viventes d’água.
Também a Baleia comia tudo. 
Uma feita uma moça devota de Santo Antônio ia rezando com uma imagem desse Santo, pedindo que o navio entrasse logo na barra, quando o Sant’Antônio escapuliu e t’xim bum! caiu no mar. A Baleia, vendo o clarear, veio em cima e, sem reconhecer, engoliu a imagem. Sant’Antônio, para castigar a gulodice, fez a Baleia ficar engasgada e tanto se engasgava mais a goela ia ficando estreita. Sant’Antônio desapareceu e a Baleia ficou, até hoje, só engolindo peixe pichititinho.

A Baleia é peixe nobre,
Não come senão sardinha!
Abre a boca, pega miles,
Engole a mais miudinha!...

Francisco Ildefonso (Chico Preto), Areia Preta, Natal, Rio G. do Norte.

Nota – “A expressão conto etiológico é técnica entre os folcloristas; quer dizer que o conto foi sugerido e inventado para explicar e dar a razão de ser de um aspecto, propriedade, caráter de qualquer ente natural. Assim há contos para explicar o pescoço longo da girafa, o porquê da cauda dos macacos, etc.” João Ribeiro, O Folk-Lore, p. 20, Rio de Janeiro, 1919. A história acima é um conto etiológico, em toda sua legitimidade.

In "Contos Tradicionais do Brasil", Luís da Câmara Cascudo.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Conto: "Fiapo de Trapo" - Ana Maria Machado




Espantalho tão bonito e elegante nunca se tinha visto por aquelas redondezas. Nem por outras, que ele era mesmo carregado de belezas. Precisava só ouvir a conversinha do Dito Ferreira enquanto montava o espantalho, todo orgulhoso do seu trabalho:
- Nunca vi coisa igual. O patrão caprichou de verdade. Vai botar no campo um espantalho com roupa de gente ir à festa na cidade. 
 E era mesmo. Tudo roupa velha, claro, como convém a um espantalho que se preza. Mas da melhor qualidade, roupa de se ir à igreja em dia de procissão e reza. 
Dito Ferreira mostrava todo prosa: 
- Esse chapéu é de um tal de veludo. E vejam que beleza essa camisa cor-de-rosa. Tem até coração bordado... O patrãozinho pensou em tudo. Com uma gravata de seda, fez esse cinto estampado. Até a palha do recheio é toda macia e cheirosa. Não é que era mesmo, a danada? Tinha um perfume forte, que ajudava a espancar a passarada. 
Ah, porque é preciso também dizer que aquilo tudo dava certo, funcionava tanto... O espantalho elegante era mesmo um espanto. Passarinho nem chegava perto. E lá ficava sozinho, espetado no milharal deserto. 
O patrão ficava feliz com um defensor tão eficiente. Dito Ferreira se alegrava com aquela figura imponente. Que espantalho diferente! Só que eles nem sabiam que diferença era essa.
Como todo espantalho, esse não andava nem falava, mas tinha o dom de poder sentir as coisas ao seu jeito --- para um boneco de palha, isso era um grande defeito. 
E era só por causa de desenho que tinha bordado no peito. Linhas de cor em forma de coração --- e pronto, lá estava o pobre espantalho sofrendo com a solidão! Ninguém se aproximava dele, ninguém fazia um carinho, e ele ficava tão triste, só, espantando passarinho... 
De longe via uma passarada, de todo tipo e feição. Pintassilgo e saíra, cambaxirra e corruíra, rolinha e corrupião. Pássaro de toda cor, de todo canto e tamanho, de todo a-e-i-o-u --- sabiá, tié, bem-te-vi, curió e nhambu. Vontade de chamar: 
- Vem cá me ver, bem-te-vi! 
Vontade de mostrar: 
- Tico-tico, olha lá o teco-teco! 
 Mas não adiantava. Ninguém chegava perto. E o tempo passava. Horas e dias, dias e semanas, semanas e meses, meses e anos. 
E o espantalho ficava no tempo. No bom tempo e no mau tempo. No sol que queimava e na chuva que molhava. No mormaço que fervia e no vento que zunia. 
E seu cheiro se gastava, sua cor se desbotava, sua seda desfiava, seu veludo se puía. 
Até que um dia... 
No tempo tem sempre um dia. Um dia em que muda o tempo e um tempo novo se inicia.
Pois foi o que aconteceu. Houve um dia em que choveu. Mas não foi chuva miúda, foi pra valer, de verdade, foi mesmo um deus-nos-acuda, uma imensa tempestade, de granizo, raio, vendaval, com aguaceiro e temporal, chuva de muito trovão que virou inundação. 
Quando a chuvarada passou e o sol voltou, um arco-íris no céu se formou. E na beleza do dia novo, azul lavado, vieram os pássaros, em bando assanhado, ocupando todo o campo, ciscando no milharal. Livres, soltos, à vontade, numa alegria sem igual. 
 Foi aí que Dito Ferreira reparou: 
- Cadê o espantalho velho? 
Saiu todo mundo procurando. Não acharam. Nem podiam achar. Ele tinha desmanchado, tinha sido carregado, pelo vento espalhado, pela chuva semeado, com a terra misturado, plantado naquele chão, sua palha adubando muito pé de solidão. 
Do que sobrou por aí, foi tudo virando ninho, protegendo com carinho filhotes que iam nascer. Veludo em trapos, seda em farrapos, coração bordado em fiapos, maciezas boas de se aquecer. 
E hoje em dia, sua palha misturada na terra ajuda a plantação a crescer.
Os trapos de sua seda, o seu forro de bom cheiro, farrapos de seu veludo se espalham desde o galinheiro até a mais alta árvore que tenha um ninho barbudo. 
E em cada ovo que nasce ali por aquele lugar, cada ninhada que se achega à procura de calor, em cada vida a brotar, em cada marca de amor, seu coração sobrevive num fiapinho de cor. 

MACHADO, Ana Maria. Quem perde ganha. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994.

Fonte: Armazém de Textos

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Viva o Dia Mundial da Literatura Infantojuvenil!

Viva o Dia Mundial da Literatura Infantojuvenil!
Gabriela Kopinits*

“O pequeno se torna grande num livro”. Este é o tema da campanha deste ano do International Board on Books for Young People (uma espécie de comitê mundial do livro infantojuvenil com sede na Suíça) em homenagem ao Dia Mundial da Literatura Infantil, comemorado neste 2 de abril. E já veremos o porquê dessa data.
Quem lê sabe que a leitura é uma das poucas coisas que nos possibilita viajar pelo Universo inteiro - e além - sem que saiamos do lugar. Ler um livro nos permite conhecer outras culturas, outras gentes, outras formas de pensar. Ler instrui, ensina, distrai, diverte, emociona e consola. 
Para as crianças, então, a leitura abre um mundo de sonhos e de fantasia, um mundo onde tudo é possível, inclusive aprender a se conhecer e a lidar com seus medos, a entender que não se está sozinho: há outros como nós.
Agora sim chegamos ao motivo da comemoração do dia mundial da literatura dedicada a elas num 2 de abril. Como toda boa história começa com três palavrinhas mágicas: era uma vez, em 1805, um bebê recém-nascido no seio de uma família dinamarquesa muito pobre formada pela lavadeira Anne Marie Andersdatter e pelo sapateiro Hans Andersen.
O menino ganhou o nome de Hans Christian e era adorado pelo pai, que apesar de não saber ler nem escrever, lhe contava muitas estórias chegando a lhe fazer um teatro de marionetes, despertando no pequeno a imaginação e a criatividade, dons que lhe permitiram sobreviver à rude realidade de pobreza e privação em que a família vivia.
Fã de Napoleão Bonaparte e querendo mais da vida do que ser simples sapateiro, o pai decidiu se juntar às tropas do imperador francês nas suas campanhas militares pela Europa e acabou sendo ferido, vindo a falecer em 1816 e deixando o filho órfão aos 11 anos. O menino então teve que abandonar os estudos para ajudar nas despesas de casa. Tornou-se aprendiz de tecelão e chegou a trabalhar para um alfaiate, mas o que ele queria mesmo era ser ator e cantor.
Aos 14 anos, Andersen decidiu ir para a capital dinamarquesa, Copenhague, tentar a sorte na carreira artística. Dizem que ele tinha uma bela voz, apesar de feioso e desajeitado. Juntou-se ao Teatro Real da Dinamarca, mas não fez muito sucesso.
Aos 17 anos publicou seu primeiro conto, "O fantasma da tumba de Palnatoke", e duas de suas peças acabaram chegando às mãos de um conselheiro real que lhe ofereceu uma bolsa de estudos.
Durante seis anos, Andersen frequentou a escola de Slagelse mas se sentia deslocado em meio aos colegas, mais jovens e menores que ele. Em 1828 começou a frequentar a Universidade de Copenhague e passou a se dedicar mais à literatura. Foi nessa época que a fama de excêntrico se consolidou entre os colegas.
Para ganhar uns trocados resolveu escrever algumas estórias infantis baseadas no folclore dinamarquês. Os contos fizeram sucesso e assim começou uma prolífica carreira, que durou quase 30 anos.
Antes de falecer em 4 de agosto de 1875, aos 70 anos de idade, Andersen deixou uma obra extensa: só de contos infantis foram 156, a maioria conhecidos por crianças do mundo inteiro, como "O soldadinho de chumbo", "A roupa nova do Imperador", "A pequena sereia”, e “O patinho feio", que dizem ter sido baseado na sua própria infância.
Apesar de não ter sido o primeiro a escrever para crianças - esse posto pertence a Charles Perrault, considerado o pai da literatura infantil - foi o primeiro a adaptar estórias já existentes para uma linguagem mais acessível a esse público, inserindo nelas valores morais e sociais, como em "A pequena vendedora de fósforos", conto que retrata de maneira tocante o drama da pobreza extrema.
Então, agora você já sabe. Foi graças à enorme contribuição do Andersen para a literatura infantojuvenil que a data do seu nascimento virou o Dia Internacional da Literatura Infantojuvenil, efeméride criada em 1967 por aquele comitê de que falamos no início desse artigo - o InternationalBoard on Books for Young People (IBBY). O IBBY criou ainda a Medalha Hans Christian Andersen para premiar os maiores nomes da literatura infantojuvenil mundial. No Brasil, a escritora Lygia Bojunga Nunes foi a primeira a receber essa medalha. Isso foi em 1982. De lá para cá, outros brasileiros também receberam essa distinção como a escritora Ana Maria Machado.
Viva, pois, o Dia Mundial da Literatura Infantojuvenil! Que tal comemorar com uma visita à biblioteca?

*Gabriela Kopinits é jornalista, escritora e contadora de estórias
PS: Em 2003 foi lançado o filme "A vida num conto de fadas" (no original "Hans Christian Andersen: my life as a fairytale"), contando um pouco da vida do escritor e das suas estórias e quem quiser conhecer mais sobre a vida e a obra dele também pode visitar o site do Instituto Andersen.


segunda-feira, 19 de março de 2018

Conto: "O duende esperto"


Esta é uma outra versão do conto que postei anteriormente, sobre o Tom esperto. A diferença é que ele usa sua gravata para marcar a flor que está em cima do ouro.

"Um jovem rapaz chamado Tom estava caminhando por uma trilha. Ele ouviu um barulho atrás dos arbustos e parou para ver o que era. Ele ficou surpreso ao ver um homem pequenino sentado na sombra do arbusto. Tom havia encontrado um duende. Em toda a sua vida, Tom havia ouvido estórias sobre os homenzinhos que viviam na florestas. As pessoas diziam que os duendes possuíam potes de ouro enterrados por toda a terra.
Tom decidiu tentar capturar o homenzinho e fazê-lo levá-lo até um pote de ouro.
Muito rapidamente, Tom segurou o duende pela gola. Tom sabia que os duendes são muito espertos e rápidos. Se ele soltasse a gola, o homenzinho poderia desaparecer num piscar de olhos. Mas o homenzinho estava tão assustado que concordou em mostrar a Tom onde poderia encontrar o seu tesouro.
O duende levou Tom por um caminho muito longo. Eles andaram e andaram, até que finalmente chegaram a um campo cheio de lindas flores. O duende apontou para uma planta e disse a Tom que o pote de ouro estava enterrado bem ali.
Tom ficou maluco, começou a pular de tão animado. Mas aí ele lembrou que não havia trazido sua pá para cavar o local onde o tesouro estava.
Tom então tirou a gravata e a amarrou na flor para que pudesse encontrá-la quando voltasse com a pá. Ele fez o duende prometer que não iria tocar em sua gravata enquanto ele estivesse fora. Muito solene, o duende prometeu, não iria tocar a gravata.
Enquanto Tom estava fora, como era de se esperar, o duende fez sua mágica. Estalou os dedos e de repente apareceram 50 gravatas exatamente como a de Tom. Rapidamente, o homenzinho amarrou-as em todas as flores que estavam ao redor daquela que estava sobre o tesouro.
Quando Tom voltou, ele não conseguia dizer qual era a preciosa flor. O duende esperto havia salvo seu tesouro sem quebrar a promessa feita."

É como se diz por aqui: Tom foi buscar lã e saiu tosquiado 😄

*Fonte: Folktales, by Remedia Publications (tradução desta contadora de estórias)

Conto: "A mulher que colecionava domingos", de Cristina Porcaro

  Ela se chamava Isadora, mas poderia se chamar Flora, Ana ou mesmo Sossego e tinha o hábito de, estranhamente, colecionar domingos. Não em ...