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segunda-feira, 1 de julho de 2019

Conto: "O camponês que vendia pensamentos"

Este conto, traduzido do espanhol por mim, foi escrito por Reine Cioulachtjian e faz parte do livro "Cuentos y leyendas de los armenios". A ilustração é de Catharine Chardonnay.

"Era uma vez um camponês cujo único bem era uma vaca, mas ela não lhe dava mais leite. Ele decidiu, então, vendê-la no mercado da cidade, onde recebeu cem rublos por ela.
Quando voltou para casa, encontrou um homem idoso que anunciava em voz alta:
- Vendo pensamentos! Pensamentos! Excelentes pensamentos!
- Que pensamentos são esses, irmão? perguntou o camponês, perplexo.
- Pensamentos de ouro, que ajudarão você a fazer o seu caminho nesta vida, que irão protegê-lo de infortúnios e até mesmo torná-lo rico. 
O camponês sempre estivera convencido de que um dia a sorte sorriria para ele e que, de repente, ficaria rico, como nas histórias. E ele pensou que o homem que vendia pensamentos era a oportunidade que ele não deveria deixar escapar.
-Quanto custa um desses pensamentos?
-Como vejo que você é pobre, eu vou lhe vender um bem barato: cem rublos.
-Muito bem. Aqui estão os cem rublos. Dê-me o pensamento.
E, sem hesitar por um momento, o camponês deu ao velho todo o dinheiro que recebera com a venda da vaca. O velho colocou o dinheiro no bolso e sussurrou ao seu ouvido: "Você colherá o que plantou. Esse é o pensamento ". E então desapareceu.
“O que será que ele quis dizer?”, o camponês se perguntou. "Eu conheço todos os provérbios, conselhos e ditos que existem, mas nunca me ocorreu que eu poderia ganhar dinheiro com qualquer um deles. Eu vou tentar vender para outra pessoa ". E começou a gritar:
- Vendo pensamentos, pensamentos valiosos! Pensamentos de ouro!
Mas ninguém prestou atenção nele. Alguns até o tomaram como um louco e riram dele sem nenhum pudor:
- Você viu? Como ele acha que tem muitos pensamentos, ele quer nos vender um pouco.
- Ei, você, saco de maldades! Se tem tantos pensamentos valiosos, por que é pobre?
Mas o camponês não perdeu a esperança e continuou gritando pelas ruas:
- Vendo pensamentos! Pensamentos valiosos! Pensamentos de ouro!
Então ele acabou chegando aos portões do palácio real. O rei, divertido, viu de sua sacada como aquele camponês ingênuo tentava em vão vender pensamentos aos cidadãos sabidos. Ele sentiu pena dele e o chamou.
- Diga-me, amigo, como é esse pensamento que você vende?
-É um pensamento muito útil, majestade.
-E quanto custa?
- Cem rublos.
- Tome cem rublos e me dê esse pensamento aqui, disse o rei.
O camponês guardou o dinheiro e disse ao rei cheio de mistério:
- Você colherá o que plantou. Esse é o pensamento. E viva o rei!
- Como? exclamou este. Você vai ganhar cem rublos por cinco míseras palavras?
- Que viva o rei! Eu, que sou muito pobre, paguei por esta simples frase cem rublos. Vossa Majestade teria que pagar mil.
-Diga-me, e por quê?
- Dirijo a vida de uma única família, majestade, enquanto Vossa Alteza dirige a vida de um país inteiro. É por isso que precisa de um pensamento tão vasto quanto o mar.
- Parece justo para mim", disse o rei. - Governar requer muito pensamento e muita sabedoria. Mas o que você me vendeu representa apenas uma pequena gota de sabedoria ...
-Muito certo, meu rei. Mas o mar é feito de gotas. Um homem inteligente deve estar sempre aprendendo. Os mares terminam em algum lugar, eles têm um limite. A sabedoria é ilimitada.
- Que tenhas uma vida longa, camponês. Você diz coisas muito sábias. Agora volte para sua casa, mas venha me ver de vez em quando. Conversaremos e recompensarei seu sábios conselhos.
O rei apreciou muito as palavras do camponês e frequentemente as dizia aos seus cortesões e seus servos. Certa manhã, quando seu barbeiro ia aparar-lhe a barba, o rei disse num tom muito sério:
- Você colherá o que você plantou. Compreende bem o significado dessas palavras, barbeiro: "Você colherá o que plantou".
Com essas palavras, o barbeiro começou a tremer. Sua longa e afiada navalha caiu de suas mãos e ele caiu de joelhos diante do rei, implorando:
-Perdão, meu rei, perdoe o seu escravo. Sou inocente. Eles me forçaram ... Eu juro que não queria fazer isso ...
O rei ficou petrificado. Levantou-se e sacudiu o barbeiro.
-O que eles forçaram você a fazer? E quem? Fala!
-Eles queriam que eu cortasse sua garganta ... Mas eu não ia podia fazer isso.
Foi assim que o rei descobriu a conspiração que havia sido armada contra sua vida. Os traidores receberam a punição merecida. Quanto ao camponês que vendia pensamentos, toda vez que ele se apresentava no palácio, o rei o recebia gentilmente e sempre o recompensava.
- Você salvou minha vida, sábio camponês, disse ele.
A partir daquele dia, os provérbios populares foram considerados pérolas de sabedoria e desde então passam de boca em boca e de geração em geração para que cheguem intactos aos nossos filhos."

sábado, 22 de junho de 2019

Conto: "Semíramis e Ara, o Belo"

Este belo conto veio da obra "Cuentos y leyendas de los armenios", da franco-armênia Reine Cioulachtjian com ilustrações da francesa Catherine Chardonnay, cuja versão em espanhol que encontrei na Biblioteca Central de Cerdanyola del Vallès (Barcelona). Fala do amor da mítica rainha Semíramis, da Babilônia, pelo belo rei Ara, rei da Armênia. Vamos a ele, na versão de Reine e minha livre tradução:

"As hortas de Van eram as mais bonitas do mundo. Até o início do século XX produziu frutos de sabor delicado não encontrado em qualquer outro lugar: pêssegos macios como veludo, cerejas tenras da cor do rubi, uvas pretas com sumo de mel, damascos dourados e grandes como romãs, com aromas de rosa, sol e de almíscar...
Se os frutos de Van eram tão bonitos, foi graças ao cuidado constante que os armênios lhes dedicaram por milênios. Mas isso também era devido ao milagre do amor.

Na verdade, era uma vez uma rainha bela como uma lua de catorze dias: grandes olhos negros sob sobrancelhas arqueadas finamente desenhadas, lábios vermelhos, corpo de gazela... Chamava-se Semíramis e era rainha da Babilônia. Na Armênia governava o rei Ara, o Belo. Semíramis estava apaixonada por Ara, mas Ara era casado e rejeitava suas investidas. O amor da rainha por Ara era tão grande que, incapaz de resignar-se a sua indiferença, decidiu que faria o que fosse para conseguir por amor, mesmo contra a sua vontade. E ela conseguiu que, naquele jardim, todos falassem dela.

E em uma noite de lua cheia, Semíramis, vestida como uma deusa, tão bonita que, ao seu lado, o sol parecia escurecer, entrou nos jardins do rei e, sob a luz leitosa da estrela da noite, sorveu, uma a uma, as essências de todas as árvores, dando-lhes às cerejas o sabor dos seus lábios, ao pêssego o veludo de sua pele e o formato dos seus seios, às uvas pretas o fulgor dos seus olhos e às maçãs o rubro de suas faces...
É por isso que as frutas da região de Van são tão bonitas, aveludadas e doces. Mesmo depois de tantos milênios, elas continuam a nutrir-se da beleza que Semíramis lhes deu por amor.
Quanto à bela história de amor, digamos que não teve um bom final. Ara, sempre fiel a sua esposa, não foi seduzido pelos encantamentos de Semíramis. Ela, rancorosa, declarou-lhe guerra, mas ordenou que seus capitães e seus soldados não matassem Ara, a quem eles facilmente reconheceriam por sua armadura com o emblema real. No entanto, Ara trocou sua vestimenta com a de seu escudeiro e morreu.
Semíramis, desesperada, ordenou que buscassem o seu corpo entre os mortos no campo de batalha, e o colocou no alto das muralhas da fortificação. Ali, orou aos deuses Haralez (dois deuses cães, que segundo a tradição curam as feridas lambendo-as e impregnando-as com sua saliva) para que eles pudessem trazê-lo de volta à vida. 
A história, no entanto, não nos diz se os deuses cumpriram sua missão sagrada..."

Que linda estória, hein? E para finalizar, digo o que aqui aprendi em castellano:
"Y colorín colorado, este cuento se ha acabado!" 
e em catalão:
"Conte contat, conte acabat!"

Fonte: Cuentos y leyendas de los armenios: Un pueblo del Caúcaso, de Reine Cioulachtjian com ilustrações de Catherine Chardonnay (Madrid: Ed. Kókinos, 2007).

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Conto: São Francisco e a menina perdida - um milagre no Canindé

Esta estória me foi contado pelo meu pai há duas semanas. Sabedor que coleciono causos e contos do folclore nordestino, ele me narrou que há muito tempo, no Ceará, uma criança se perdeu na mata. Todos ajudaram a procurá-la mas ninguém a encontrou. Aflita, a mãe do pequeno fez uma promessa a São Francisco. 
Passado muito tempo, já tinham perdido a esperança de encontrá-la viva, eis que a criança aparece e, apesar de ter ficado tanto tempo perdida na mata, encontrava-se em perfeita saúde. Contou ela que durante todo o tempo em que esteve perdida, um bom velhinho lhe protegeu e alimentou.
A mãe então foi cumprir a promessa, levando a criança à igreja para agradecer a São Francisco. Quando se postaram diante da imagem, a criança exclamou:
- Foi ele, mamãe! Este foi o velhinho que cuidou de mim!
A imagem era ninguém menos de São Francisco.

Achei a estória linda e aproveito para reproduzir uma versão do site Cantinho Franciscano, com a imagem alusiva:
"Por volta do ano 1926, com apenas 4 anos de idade lá nas matas do Amazonas, perdeu-se Maria Aparecida. Seus pais aflitos procuraram todos os dias sem parar e não encontraram. Então a mãe cearense fez uma promessa a São Francisco, que iria imediatamente em romaria à cidade franciscana se sua filha chegasse salva em casa.
Um ano passou a mãe já quase sem esperança de encontrá-la de repente foi surpreendida com a chegada da filha em sua casa. A menina na escondeu nada da mãe contou que um velhinho de barbas dava-lhe comida e água todos os dias e lhe protegia de todos os perigos existente naquela mata.
Ele era muito amável e lhe ensinou a rezar, ela chamava-o de padrinho, a mãe ouviu tudo e não poupou esforços para pagar a promessa.
Veio para Canindé conduzindo a criança, ao entrarem no santuário a menina avistou a imagem de são Francisco no alar e disse: mãe lá está o velhinho que me salvou."

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Conto: A fonte das três comadres

Esta versão é de Theobaldo Miranda Santos, mas há uma que adoro, adaptação que Monteiro Lobato fez do conto recolhido pelo mestre Silvio Romero.
A fonte das três comadres
Era uma vez um rei muito poderoso que teve uma enfermidade nos olhos e ficou completamente cego. Consultou então os melhores médicos do mundo, tomou todos os remédios aconselhados pela ciência, mas nada conseguiu. Sua cegueira parecia incurável. Um belo dia, apareceu no palácio uma velhinha pedindo esmola e, sabendo que o rei estava cego, pediu licença para dirigir-lhe a palavra, pois desejava ensinar-lhe um remédio maravilhoso. Conduzida à presença do rei, ela lhe disse: 
— Saiba Vossa Majestade que só existe uma coisa capaz de fazer voltar sua vista: é banhar seus olhos com água tirada da Fonte das Três Comadres. É muito difícil, porém, ir a essa fonte que fica num reino situado quase no fim do mundo. Quem for buscar a água deve entender-se com uma velha que mora perto da fonte. Ela conhece o dragão que guarda a fonte e sabe quando ele está acordado ou adormecido. 
O rei ficou muito satisfeito com a informação da velhinha e recompensou-a com uma bolsa cheia de dinheiro.
Mandou, em seguida, preparar uma esquadra para conduzir seu filho mais velho que deveria ir buscar a água da fonte milagrosa. Deu-lhe o prazo de um ano para cumprir sua missão, aconselhando-o a não saltar em nenhum porto para não se distrair do que devia fazer. O príncipe partiu, mas no meio da viagem, encontrou uma cidade onde havia muitas festas e lindas moças. Atraído pelos divertimentos, aí ficou gastando todo o dinheiro que levava e contraindo grandes dívidas. No fim do prazo que lhe fora marcado, não seguiu viagem nem voltou ao reino do seu pai, o que causou a este profundo desgosto.
Resolveu então o rei preparar outra esquadra a fim de que o seu segundo filho fosse buscar a água maravilhosa. O moço partiu, mas encontrou em seu caminho a mesma cidade onde se havia arruinado o seu irmão mais velho. Ficou também encantado pelas festas e pelas moças bonitas, e gastou tudo o que trazia, esquecendo-se da missão que seu pai lhe confiara. No fim de um ano, ainda se encontrava nessa cidade, pobre e endividado.
O rei, ao saber da notícia do que acontecera ao seu segundo filho, ficou muito triste e desanimado. E perdeu a esperança de curar sua cegueira. Mas seu filho mais moço, que era ainda um menino, não se conformou com os acontecimentos e disse-lhe: 
— Agora, meu pai, eu é que vou buscar a água. Garanto-lhe que hei de trazê-la! 
O rei procurou dissuadi-lo:
— Se seus irmãos, que eram homens nada conseguiram, que poderá você fazer, meu filho? 
Mas, o pequeno príncipe tanto insistiu e rogou que o pai acabou cedendo. E mandou preparar uma esquadra para sua viagem. O jovem partiu cheio de esperança. Depois de muito navegar, encontrou a famosa cidade onde seus irmãos já se achavam presos pelas dívidas que haviam contraído. O príncipe pagou as dívidas dos irmãos e conseguiu pô-los em liberdade. Estes tudo fizeram para dissuadir o rapaz de seguir viagem.
Mas o príncipe nada quis ouvir e continuou, resolutamente sua jornada.
Chegando à região onde se encontrava a Fonte das Três Comadres, desembarcou sozinho, levando apenas uma garrafa. Seguiu logo para a casa da velhinha, que residia perto da fonte. Esta, ao vê-lo, ficou muito admirada, dizendo: 
— Por que veio aqui, meu netinho? Está correndo um grande perigo! O monstro que vigia a fonte é uma princesa encantada que tudo devora. Se quiser, realmente, apanhar água da fonte, aproveite a ocasião em que o monstro estiver adormecido. Quando ele estiver com os olhos abertos, pode aproximar-se sem receio. É sinal de que está dormindo. Mas se o encontrar com os olhos fechados, fuja depressa, pois ele estará, na certa, acordado.
O príncipe prestou bastante atenção aos conselhos da velha e seguiu para a fonte. Quando lá chegou, viu que a fera estava com os olhos abertos. Verificando que ela estava dormindo, o príncipe aproveitou o momento para encher sua garrafa com a água milagrosa. Mas, quando se ia retirando cuidadosamente, o monstro acordou e lançou-se, com fúria, sobre o rapaz. Este puxou da espada e travou uma luta terrível com a fera. Depois de muito lutar, conseguiu ferir o horrendo bicho e fazer seu sangue correr. Nesse momento, o monstro se desencantou, transformando-se numa belíssima princesa. O príncipe ficou extasiado, pois nunca tinha visto uma moça tão formosa. Ela então lhe disse: 
— Prometi que havia de me casar com aquele que me desencantasse. Portanto, dentro de um ano, virás buscar-me. Se não o fizeres, irei à tua procura. 
E para que o jovem pudesse ser reconhecido quando fosse buscá-la, a princesa deu-lhe um pedaço do seu vestido.
Contente e feliz, o príncipe partiu de volta à sua terra. Passando pela cidade onde se encontravam seus irmãos, convidou-os para embarcar na sua esquadra, a fim de que pudessem regressar ao seu país. Os irmãos aceitaram o convite. O rapaz havia guardado a garrafa com a água milagrosa na sua mala. Seus irmãos armaram, então, um plano para roubar-lhe a garrafa e se apresentarem ao pai como seus salvadores. Para isso sugeriram, ao príncipe, dar um banquete na esquadra para comemorar o fato de ter ele conseguido o maravilhoso remédio. A festa foi realizada e os irmãos, aproveitando-se da boa fé do jovem príncipe, conseguiram que ele bebesse muito vinho e adormecesse profundamente. Tiraram então do seu bolso a chave da mala, abriram-na, tiraram a garrafa com o remédio e a substituíram por outra cheia de água do mar.
Quando a esquadra atracou no porto de sua terra, o príncipe foi recebido com grande alegria e muitas festas. Mas, quando ele colocou nos olhos do pai a água que supunha ser da fonte maravilhosa, o velho soltou um grito de dor, devido ao sal do mar, e continuou cego. Os dois irmãos traidores acusaram então o príncipe de impostor e declararam que eles é que haviam conseguido a água milagrosa. Dizendo isso, banharam com a mesma os olhos do rei que recobrou a visão. Houve então grandes festas e banquetes no palácio e o jovem príncipe foi condenado à morte. Mas os soldados encarregados de degolar o príncipe, ficaram com pena do rapaz e o deixaram na floresta. O príncipe ficou tão desgostoso que perdeu o amor à vida. Um lenhador malvado o encontrou, caminhando como um louco, no meio da mata. Vendo que ele não reagia, fez dele seu escravo, obrigando-o a trabalhar, sem descanso.
Um ano depois, chegou a ocasião em que o rapaz devia ir casar com a princesa, conforme havia combinado na Fonte das Três Comadres. Não tendo ele aparecido, a princesa ficou preocupada. Mandou então aparelhar uma poderosa esquadra e partiu para o reino do príncipe. Chegando lá, deu ordem ao comandante da esquadra para avisar ao rei de que ele devia enviar-lhe o filho que fora ao seu reino buscar um remédio e lhe prometera casamento. Caso o noivo não viesse ao seu encontro, ela ordenaria à esquadra para fazer fogo sobre a cidade. O rei ficou apavorado e mandou seu filho mais velho apresentar-se à princesa, supondo que ele fosse o noivo. Mas a princesa, ao vê-lo disse: 
— Grande mentiroso, onde está o sinal do nosso reconhecimento? 
Ele que nada possuía, ficou calado e voltou para a terra envergonhado.
Nova intimação e foi ter com a princesa o segundo filho do rei. Repetiu-se a pergunta anterior e o príncipe nada respondeu. A princesa mandou então que os canhões da sua esquadra fossem preparados para o bombardeio da cidade O rei ficou aflitíssimo, certo de que a capital do seu reino seria arrasada, pois havia mandado matar o filho mais moço. Nesse momento, surgiram os dois soldados encarregados de executar o jovem príncipe, que confessaram ao rei que não o tinham degolado. Saiu todo o mundo à procura do príncipe e foi prometido um grande prêmio a quem o encontrasse.
O lenhador que o tinha escravizado ficou mais morto do que vivo quando soube que ele era filho do rei. Mais do que depressa, colocou o rapaz nas costas e o levou ao palácio. O príncipe foi então lavado e vestido com lindas roupas. O prazo que a princesa tinha concedido já estava terminado e, quando os canhões iam começar a bombardear a cidade, o rapaz correu ao encontro da noiva, sendo logo reconhecido devido ao pedaço do vestido que levava na mão. A princesa abraçou-o chorando de alegria. Seguiram então para o reino da princesa onde se casaram no meio de festas que duraram seis meses. O rapaz tornou-se rei de um dos países mais belos e ricos do mundo. Seus irmãos traidores foram expulsos do reino de seu pai e condenados a pedir esmola até o fim de sua vida.
Fonte: Contos Maravilhosos – Theobaldo Miranda Santos, Editora Nacional (1966)
Imagem: Mundo da Luha

terça-feira, 31 de julho de 2018

Conto: O leão e o homem



O leão e o homem
Folclore nordestino

O leão é o rei das fera. É o rei... é o que quer ser mais valente no mundo, é o leão. Encontrou-se com a onça e trataram uma palestra, dizendo:
- Camarada onça, eu sou o rei das fera! Sou o mais valente que pode existir.
Aí, a onça disse:
- Você tá muito enganado! O mais valente que existe é o bicho-homem!
Disse:
- Como é que ... eu tinha vontade de me topar com o bicho-homem. Como é que eu topo com o bicho-homem, pra experimentar se ele é valente?
Aí, a onça disse:
- Vai haver uma festa de casamento ... você vá pastorar lá na estrada que você encontra o bicho-homem.
Aí, o leão, foi, se escondeu no beco do caminho ... quando lá vinha uma veinha, muito carcunda. Quando a veinha ia passando, o leão saltou na frente:
- A senhora é o bicho-homem?
Disse:
- Não senhor. Sou a mãe do bicho-homem.
Disse:
- Então, só pode ser outro.
Quando deu fé lá vinha um veinho. Aí, ele saltou na frente:
- Você é o bicho-homem?
Disse:
- Não senhor. Eu já fui.
- Passe, vá embora.
Lá vinha um menino assobiando. Um menino muito esperto, contente! Aí, quando viu o menino, saltou na frente:
- Meu filho, você é o bicho-homem?
- Não senhor. É de ser ainda o bicho-homem.
Aí, ficou. Quando deu fé, lá vinha o homem: um caboclo com chapéu de couro, um bacamarte ... que vinha voando pedra pra todo canto. Quando foi empariando, foi dizendo:
- O senhor é o bicho-homem?
- Pronto, leão, sou o bicho-homem. Que é que o senhor deseja?
- Desejo lutar. Pra ver se você é o rei das fera e eu sou o rei das fera ... das montanhas, pra ver se nós entramos em luta.
Aí, o homem disse ao leão:
- Demore aí... Deixe eu dar um espirro primeiro, pra mode nós entrar em luta.
Aí, o leão disse:
- Pronto, pode dar o seu espirro.
Pense num "espirro"...
O homem disparou o bacamarte, quebrou o focinho do leão, a cara com tudo. O leão saiu na carreira. Adiante, encontrou a onça, disse:
- Camarada onça, eu não quero negócio com o bicho-homem! O bicho é a fera pior que existe no mundo! O espirro do bicho fez esse trabalho comigo ... e o bicho-homem. Como é que faz? Não quero negócio com o bicho-homem.
Aí, ficou sendo o homem a fera maior do Brasil.

Fonte: Severino Carreiro. Catolé do Rocha. 17.07.1980. Relato recolhido por Myrian Gurgel Maia. In: TRIGUEIRO, O.M. e PIMENTEL, A. A. Contos populares brasileiros - Paraíba. Recife: FUNDAJ, Massangana, 1996, p.54-5.

Imagem: "Bacamarteiro", por Feliciano dos Prazeres

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Opa, olha a Cigana na Biblioteca Pública do Estado!

Opa! Sexta-feira (28) estarei na Biblioteca Pública Estadual, aquela perto do Parque 13 de Maio, no centro do Recife, às 14h contando as estórias do folclore brasileiro e do meu livro "Era uma vez... estórias de uma contadora de estórias" (Cepe, 2014, ilustração de Rivaldo Barboza). A entrada é franca! 
Espero você lá 😉


quinta-feira, 29 de junho de 2017

Conto: "A mãe de São Pedro"

Este veio do maravilhoso livro "Contos tradicionais do Brasil", do folclorista Luís da Câmara Cascudo (Ediouro, 2001), e eu publico neste dia 29 de junho em homenagem ao grande São Pedro, um dos doze apóstolos e o primeiro papa da Igreja Católica.

A mãe de São Pedro

A mãe de São Pedro era uma velhinha muito má, rezinguenta, somítica, com cara de poucos amigos. Não tinha amizades, todos lhe fugiam.
Aconteceu que um dia estava a lavar num córrego um molhe de folhinha de cebolas, quando uma delas se desprendeu, ganhou a correnteza e lá se foi pela água abaixo.
A velha tentou reavê-la, e, não o conseguindo, exclamou:
– Ora, seja tudo pelo amor de Deus!
Não levou muito tempo morreu e foi apresentar-se no céu. Foi pesada na balança de S. Miguel e não houve outro remédio senão mandá-la para o inferno, tão grande era o peso de seus pecados.
O filho ainda andava pelo mundo. Não lhe podia valer.
Quando S. Pedro morreu foi nomeado chaveiro do céu.
Das profundezas do abismo, avistou a velha ao filho no gozo e posse das glórias celestes e pediu-lhe por gestos que a salvasse.
O santo chaveiro, que não podia resolver nada por si, foi ter com o Senhor.
– Salva minha mãe, Divino Mestre.
O Senhor respondeu-lhe assim por estas palavras:
– Se houver registada no livro das almas, na vida de tua mãe, ao menos uma boa ação, estará salva, caso ela saiba aproveitá-la.
Examinou-se o livro e às folhas tantas, nas contas da mãe de São Pedro, se encontrou a folhinha de cebola, nada mais! Era a mesma que motivara aquele dizer com que a velha, ao menos uma vez, se mostrara conformada:
– Seja tudo pelo amor de Deus!
O Senhor disse a Pedro:
– Lança uma das pontas da folhinha em direção ao inferno. Tua mãe que se agarre a ela. Tu puxarás. Se conseguir subir até cá, estará salva.
Pedro fez tudo o que o Senhor lhe ordenara.
A velhinha agarrou-se à folha, mas uma porção de almas, querendo aproveitar o ensejo de salvação, segura-se às pernas da velha. Apesar disto esta subia.
Quando já estava o grupo a certa altura, outras almas se iam apegando às pernas das primeiras.
A velha indignada, de avara que era, esperneou e atirou novamente ao inferno as companheiras, não querendo levá-las para o céu.
Mas, no mesmo instante, a folha de cebola partiu-se, e a mãe de São Pedro ficou no espaço.
Não tinha por onde subir ao céu e o pedacinho da folha que conservava nas mãos não a deixava voltar ao inferno.
E assim vive até hoje: nem na terra, nem no céu.

Colhida em Juiz de Fora, Minas Gerais – Lindolfo Gomes, “Contos Populares, etc.”, volume IIº, p. 86, Ciclo de S. Pedro.

Ilustração: Hime Navarro

Version en Español

La madre de San Pedro

La madre de San Pedro era una viejita muy mala, gruñona, con cara de pocos amigos. No tenía amistades, todos le huían.
Sucedió que un día estaba lavando en un arroyo un mohe de hojitas de cebolla, cuando una de ellas se desprendió, ganó la corriente y allí se fue por el agua abajo.
La vieja intentó recuperala, y, no lo consiguió, exclamó:
- ¡Oh, sea todo por el amor de Dios!
No tardó mucho tiempo murió y fue a presentarse en el cielo. Fue pesada en la balanza de San Miguel y no hubo otro remedio que mandarla al infierno, tan grande era el peso de sus pecados.
El hijo aún andaba por el mundo. No le podía valer.
Cuando San Pedro murió fue nombrado llavero del cielo.
De las profundidades del abismo, divisó la vieja al hijo en el goce y posesión de las glorias celestiales y le pidió por gestos que la salvara.
El santo llavero, que no podía resolver nada por sí, fue a tener con el Señor.
- Salva a mi madre, Divino Maestro.
El Señor le respondió así por estas palabras:
- Si hay registrada en el libro de las almas, en la vida de tu madre, al menos una buena acción, estará salva, si ella sabe aprovecharla.
Se examinó el libro y las hojas tantas, en las cuentas de la madre de San Pedro, se encontró la hoja de cebolla, nada más. Era la misma que motivó a aquel decir con que la vieja, al menos una vez, se mostró conformada:
- ¡Sea todo por el amor de Dios!
El Señor le dijo a Pedro:
- Lanza una de las puntas de la hoja hacia el infierno. Tu madre que se aferra a ella. Tú tirarás. Si logra subir hasta aquí, estará guardada.
Pedro hizo todo lo que el Señor le había mandado.
La viejita se aferró a la hoja, pero una porción de almas, queriendo aprovechar la ocasión de salvación, se sostiene a las piernas de la vieja. A pesar de esto esta subía.
Cuando ya estaba el grupo a cierta altura, otras almas se iban a agarrar a las piernas de las primeras.
La vieja indignada, de avara que era, esperó y arrojó de nuevo al infierno a las compañeras, no queriendo llevarlas al cielo.
Pero, en el mismo instante, la hoja de cebolla se partió, y la madre de San Pedro quedó en el espacio.
No tenía por dónde subir al cielo y el pedacito de la hoja que conservaba en las manos no la dejaba volver al infierno.
Y así vive hasta hoy: ni en la tierra, ni en el cielo.


Recogida en Juiz de Fora, Minas Gerais – Lindolfo Gomes, “Contos Populares, etc.”, volume IIº, p. 86, Ciclo de S. Pedro.

Ilustración: Hime Navarro


quarta-feira, 7 de junho de 2017

Sábado tem a Cigana Contadora de Estórias no Maior e Melhor São João do Mundo!

A Cigana Contadora de Estórias - Foto: Victor Vargas

Opa! No próximo sábado (10), às 17h, vou estar no Polo Infantil que a Prefeitura de Caruaru montou na Estação Ferroviária para entreter a meninada durante o Maior e Melhor São João do Mundo. Vou apresentar o espetáculo “Facécias do povo: contos populares do Brasil”, sessão de contos de minha autoria e do maravilhoso folclorista Luiz da Câmara Cascudo.

Esta vai ser a primeira vez que vou me apresentar no Maior e Melhor São João do Mundo e estou preparando um presente que vai divertir bastante quem vier ouvir minhas estórias 😊

Espero você lá! A foto é de Victor Vargas/Guanabara Comunicação.

Conto: "A mulher que colecionava domingos", de Cristina Porcaro

  Ela se chamava Isadora, mas poderia se chamar Flora, Ana ou mesmo Sossego e tinha o hábito de, estranhamente, colecionar domingos. Não em ...