quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Conto: São Francisco e a menina perdida - um milagre no Canindé

Esta estória me foi contado pelo meu pai há duas semanas. Sabedor que coleciono causos e contos do folclore nordestino, ele me narrou que há muito tempo, no Ceará, uma criança se perdeu na mata. Todos ajudaram a procurá-la mas ninguém a encontrou. Aflita, a mãe do pequeno fez uma promessa a São Francisco. 
Passado muito tempo, já tinham perdido a esperança de encontrá-la viva, eis que a criança aparece e, apesar de ter ficado tanto tempo perdida na mata, encontrava-se em perfeita saúde. Contou ela que durante todo o tempo em que esteve perdida, um bom velhinho lhe protegeu e alimentou.
A mãe então foi cumprir a promessa, levando a criança à igreja para agradecer a São Francisco. Quando se postaram diante da imagem, a criança exclamou:
- Foi ele, mamãe! Este foi o velhinho que cuidou de mim!
A imagem era ninguém menos de São Francisco.

Achei a estória linda e aproveito para reproduzir uma versão do site Cantinho Franciscano, com a imagem alusiva:
"Por volta do ano 1926, com apenas 4 anos de idade lá nas matas do Amazonas, perdeu-se Maria Aparecida. Seus pais aflitos procuraram todos os dias sem parar e não encontraram. Então a mãe cearense fez uma promessa a São Francisco, que iria imediatamente em romaria à cidade franciscana se sua filha chegasse salva em casa.
Um ano passou a mãe já quase sem esperança de encontrá-la de repente foi surpreendida com a chegada da filha em sua casa. A menina na escondeu nada da mãe contou que um velhinho de barbas dava-lhe comida e água todos os dias e lhe protegia de todos os perigos existente naquela mata.
Ele era muito amável e lhe ensinou a rezar, ela chamava-o de padrinho, a mãe ouviu tudo e não poupou esforços para pagar a promessa.
Veio para Canindé conduzindo a criança, ao entrarem no santuário a menina avistou a imagem de são Francisco no alar e disse: mãe lá está o velhinho que me salvou."

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Conto: A fonte das três comadres

Esta versão é de Theobaldo Miranda Santos, mas há uma que adoro, adaptação que Monteiro Lobato fez do conto recolhido pelo mestre Silvio Romero.
A fonte das três comadres
Era uma vez um rei muito poderoso que teve uma enfermidade nos olhos e ficou completamente cego. Consultou então os melhores médicos do mundo, tomou todos os remédios aconselhados pela ciência, mas nada conseguiu. Sua cegueira parecia incurável. Um belo dia, apareceu no palácio uma velhinha pedindo esmola e, sabendo que o rei estava cego, pediu licença para dirigir-lhe a palavra, pois desejava ensinar-lhe um remédio maravilhoso. Conduzida à presença do rei, ela lhe disse: 
— Saiba Vossa Majestade que só existe uma coisa capaz de fazer voltar sua vista: é banhar seus olhos com água tirada da Fonte das Três Comadres. É muito difícil, porém, ir a essa fonte que fica num reino situado quase no fim do mundo. Quem for buscar a água deve entender-se com uma velha que mora perto da fonte. Ela conhece o dragão que guarda a fonte e sabe quando ele está acordado ou adormecido. 
O rei ficou muito satisfeito com a informação da velhinha e recompensou-a com uma bolsa cheia de dinheiro.
Mandou, em seguida, preparar uma esquadra para conduzir seu filho mais velho que deveria ir buscar a água da fonte milagrosa. Deu-lhe o prazo de um ano para cumprir sua missão, aconselhando-o a não saltar em nenhum porto para não se distrair do que devia fazer. O príncipe partiu, mas no meio da viagem, encontrou uma cidade onde havia muitas festas e lindas moças. Atraído pelos divertimentos, aí ficou gastando todo o dinheiro que levava e contraindo grandes dívidas. No fim do prazo que lhe fora marcado, não seguiu viagem nem voltou ao reino do seu pai, o que causou a este profundo desgosto.
Resolveu então o rei preparar outra esquadra a fim de que o seu segundo filho fosse buscar a água maravilhosa. O moço partiu, mas encontrou em seu caminho a mesma cidade onde se havia arruinado o seu irmão mais velho. Ficou também encantado pelas festas e pelas moças bonitas, e gastou tudo o que trazia, esquecendo-se da missão que seu pai lhe confiara. No fim de um ano, ainda se encontrava nessa cidade, pobre e endividado.
O rei, ao saber da notícia do que acontecera ao seu segundo filho, ficou muito triste e desanimado. E perdeu a esperança de curar sua cegueira. Mas seu filho mais moço, que era ainda um menino, não se conformou com os acontecimentos e disse-lhe: 
— Agora, meu pai, eu é que vou buscar a água. Garanto-lhe que hei de trazê-la! 
O rei procurou dissuadi-lo:
— Se seus irmãos, que eram homens nada conseguiram, que poderá você fazer, meu filho? 
Mas, o pequeno príncipe tanto insistiu e rogou que o pai acabou cedendo. E mandou preparar uma esquadra para sua viagem. O jovem partiu cheio de esperança. Depois de muito navegar, encontrou a famosa cidade onde seus irmãos já se achavam presos pelas dívidas que haviam contraído. O príncipe pagou as dívidas dos irmãos e conseguiu pô-los em liberdade. Estes tudo fizeram para dissuadir o rapaz de seguir viagem.
Mas o príncipe nada quis ouvir e continuou, resolutamente sua jornada.
Chegando à região onde se encontrava a Fonte das Três Comadres, desembarcou sozinho, levando apenas uma garrafa. Seguiu logo para a casa da velhinha, que residia perto da fonte. Esta, ao vê-lo, ficou muito admirada, dizendo: 
— Por que veio aqui, meu netinho? Está correndo um grande perigo! O monstro que vigia a fonte é uma princesa encantada que tudo devora. Se quiser, realmente, apanhar água da fonte, aproveite a ocasião em que o monstro estiver adormecido. Quando ele estiver com os olhos abertos, pode aproximar-se sem receio. É sinal de que está dormindo. Mas se o encontrar com os olhos fechados, fuja depressa, pois ele estará, na certa, acordado.
O príncipe prestou bastante atenção aos conselhos da velha e seguiu para a fonte. Quando lá chegou, viu que a fera estava com os olhos abertos. Verificando que ela estava dormindo, o príncipe aproveitou o momento para encher sua garrafa com a água milagrosa. Mas, quando se ia retirando cuidadosamente, o monstro acordou e lançou-se, com fúria, sobre o rapaz. Este puxou da espada e travou uma luta terrível com a fera. Depois de muito lutar, conseguiu ferir o horrendo bicho e fazer seu sangue correr. Nesse momento, o monstro se desencantou, transformando-se numa belíssima princesa. O príncipe ficou extasiado, pois nunca tinha visto uma moça tão formosa. Ela então lhe disse: 
— Prometi que havia de me casar com aquele que me desencantasse. Portanto, dentro de um ano, virás buscar-me. Se não o fizeres, irei à tua procura. 
E para que o jovem pudesse ser reconhecido quando fosse buscá-la, a princesa deu-lhe um pedaço do seu vestido.
Contente e feliz, o príncipe partiu de volta à sua terra. Passando pela cidade onde se encontravam seus irmãos, convidou-os para embarcar na sua esquadra, a fim de que pudessem regressar ao seu país. Os irmãos aceitaram o convite. O rapaz havia guardado a garrafa com a água milagrosa na sua mala. Seus irmãos armaram, então, um plano para roubar-lhe a garrafa e se apresentarem ao pai como seus salvadores. Para isso sugeriram, ao príncipe, dar um banquete na esquadra para comemorar o fato de ter ele conseguido o maravilhoso remédio. A festa foi realizada e os irmãos, aproveitando-se da boa fé do jovem príncipe, conseguiram que ele bebesse muito vinho e adormecesse profundamente. Tiraram então do seu bolso a chave da mala, abriram-na, tiraram a garrafa com o remédio e a substituíram por outra cheia de água do mar.
Quando a esquadra atracou no porto de sua terra, o príncipe foi recebido com grande alegria e muitas festas. Mas, quando ele colocou nos olhos do pai a água que supunha ser da fonte maravilhosa, o velho soltou um grito de dor, devido ao sal do mar, e continuou cego. Os dois irmãos traidores acusaram então o príncipe de impostor e declararam que eles é que haviam conseguido a água milagrosa. Dizendo isso, banharam com a mesma os olhos do rei que recobrou a visão. Houve então grandes festas e banquetes no palácio e o jovem príncipe foi condenado à morte. Mas os soldados encarregados de degolar o príncipe, ficaram com pena do rapaz e o deixaram na floresta. O príncipe ficou tão desgostoso que perdeu o amor à vida. Um lenhador malvado o encontrou, caminhando como um louco, no meio da mata. Vendo que ele não reagia, fez dele seu escravo, obrigando-o a trabalhar, sem descanso.
Um ano depois, chegou a ocasião em que o rapaz devia ir casar com a princesa, conforme havia combinado na Fonte das Três Comadres. Não tendo ele aparecido, a princesa ficou preocupada. Mandou então aparelhar uma poderosa esquadra e partiu para o reino do príncipe. Chegando lá, deu ordem ao comandante da esquadra para avisar ao rei de que ele devia enviar-lhe o filho que fora ao seu reino buscar um remédio e lhe prometera casamento. Caso o noivo não viesse ao seu encontro, ela ordenaria à esquadra para fazer fogo sobre a cidade. O rei ficou apavorado e mandou seu filho mais velho apresentar-se à princesa, supondo que ele fosse o noivo. Mas a princesa, ao vê-lo disse: 
— Grande mentiroso, onde está o sinal do nosso reconhecimento? 
Ele que nada possuía, ficou calado e voltou para a terra envergonhado.
Nova intimação e foi ter com a princesa o segundo filho do rei. Repetiu-se a pergunta anterior e o príncipe nada respondeu. A princesa mandou então que os canhões da sua esquadra fossem preparados para o bombardeio da cidade O rei ficou aflitíssimo, certo de que a capital do seu reino seria arrasada, pois havia mandado matar o filho mais moço. Nesse momento, surgiram os dois soldados encarregados de executar o jovem príncipe, que confessaram ao rei que não o tinham degolado. Saiu todo o mundo à procura do príncipe e foi prometido um grande prêmio a quem o encontrasse.
O lenhador que o tinha escravizado ficou mais morto do que vivo quando soube que ele era filho do rei. Mais do que depressa, colocou o rapaz nas costas e o levou ao palácio. O príncipe foi então lavado e vestido com lindas roupas. O prazo que a princesa tinha concedido já estava terminado e, quando os canhões iam começar a bombardear a cidade, o rapaz correu ao encontro da noiva, sendo logo reconhecido devido ao pedaço do vestido que levava na mão. A princesa abraçou-o chorando de alegria. Seguiram então para o reino da princesa onde se casaram no meio de festas que duraram seis meses. O rapaz tornou-se rei de um dos países mais belos e ricos do mundo. Seus irmãos traidores foram expulsos do reino de seu pai e condenados a pedir esmola até o fim de sua vida.
Fonte: Contos Maravilhosos – Theobaldo Miranda Santos, Editora Nacional (1966)
Imagem: Mundo da Luha

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Conto: Toalha de mesa

Os caminhos de Deus são misteriosos...

“Um novo pastor, recentemente formado, e sua esposa, que foram encarregados de reabrir uma igreja no bairro de Brooklyn, NY, chegaram no início de outubro, entusiasmados com a oportunidade.
Quando viram a igreja, observaram que havia muitos estragos e um grande trabalho a ser feito. Sem se deixar abater, estabeleceram como meta deixar tudo pronto para o primeiro serviço: o culto de Natal.
Trabalharam sem descanso, consertando o telhado... refazendo o piso... pintando... e, muito antes do Natal, em 18 de dezembro, tudo estava pronto!
Mas...  No dia seguinte, 19 de dezembro, desabou uma terrível tempestade que se alongou por dois dias.
No dia 21, o pastor foi até a igreja.  Seu coração doeu... viu que o telhado tinha quebrado e que uma grande área do revestimento de gesso decorado, da parede do santuário, logo atrás do púlpito, havia caído.
O pastor, enquanto limpava o chão, pensava em como resolver a situação.
No caminho de casa, pensando adiar o culto de Natal, observava as vitrines, enfeitadas para a época, quando notou um bazar beneficente e parou por instantes. Uma linda toalha de mesa, de crochê, na cor marfim, com um crucifixo delicadamente bordado no centro chamou-lhe a atenção.  Era do tamanho exato para cobrir o estrago atrás do púlpito. Comprou-a e voltou para a igreja.
Começou a nevar. Apressou seus passos e quando chegava à porta da igreja uma velha senhora vinha correndo em direção contrária tentando pegar o ônibus, o que não conseguiu.
O pastor convidou-a a entrar para esperar pelo próximo, abrigando-se do frio, que viria 45 minutos depois. Ela sentou-se num banco e nem prestava atenção no pastor que já providenciava a instalação da toalha de mesa na parede.
Ao terminar afastou-se e pôde admirar o quanto a toalha era linda e servia perfeitamente para esconder o estrago. Então, o pastor notou a velha encaminhando-se para ele. Seu rosto estava lívido e perguntou:
- Pastor, onde o senhor encontrou esta toalha de mesa?
O pastor contou a história. A mulher pediu-lhe que examinasse o canto direito inferior para encontrar as iniciais EBG bordadas. O pastor fez o que a mulher pediu e, intrigado, confirmou.
A mulher disse:
- Estas são as minhas iniciais.
E contou que fez esta toalha de mesa há 35 anos atrás, na Áustria. Contou que, antes da guerra, ela e seu marido eram bem de vida. Quando os nazistas invadiram seu país combinaram fugir; ela iria antes e seu marido a seguiria uma semana depois. Ela foi capturada, trancada numa prisão e nunca mais viu seu marido e sua casa.
O pastor ofereceu a toalha, mas, ela recusou, dizendo que estava num lugar muito apropriado. 
Insistindo, ofereceu-se para levá-la até sua casa; era o mínimo que poderia fazer. Ela morava em Staten Island e tinha passado o dia em Brooklin para um serviço de faxina.
No dia de Natal a igreja estava quase cheia. Foi um lindo trabalho.
Ao final, o pastor e sua esposa cumprimentaram os fiéis um a um à porta e muitos diziam que retornariam. Um velho homem, que o pastor reconheceu pela vizinhança, permaneceu sentado, atônito.  O pastor aproximou-se e, antes que dissesse palavra, o velho perguntou:
- Onde o senhor conseguiu a toalha de mesa da parede? Ela é idêntica à uma que minha mulher fez, muitos anos atrás, quando vivíamos na Áustria, antes da guerra. Como poderiam existir duas toalhas tão parecidas?
Imediatamente, o pastor entendeu o que tinha acontecido e disse:
- Venha... eu vou levá-lo a um lugar que o senhor vai gostar muito.
No caminho, o velho contou a mesma história da mulher. Ele, antes de poder fugir, também havia sido preso e nunca mais pôde ver sua mulher e sua casa, por 35 anos.
Ao chegar à mesma casa onde deixara a mulher, 3 dias antes, ajudou o velho a subir os 3 lances de escada e bateu na porta.
Creio que não há necessidade de se contar o resto da história. Quem disse que Deus não trabalha de maneira misteriosa?”

Fonte: Nova Era

terça-feira, 31 de julho de 2018

Conto: O leão e o homem



O leão e o homem
Folclore nordestino

O leão é o rei das fera. É o rei... é o que quer ser mais valente no mundo, é o leão. Encontrou-se com a onça e trataram uma palestra, dizendo:
- Camarada onça, eu sou o rei das fera! Sou o mais valente que pode existir.
Aí, a onça disse:
- Você tá muito enganado! O mais valente que existe é o bicho-homem!
Disse:
- Como é que ... eu tinha vontade de me topar com o bicho-homem. Como é que eu topo com o bicho-homem, pra experimentar se ele é valente?
Aí, a onça disse:
- Vai haver uma festa de casamento ... você vá pastorar lá na estrada que você encontra o bicho-homem.
Aí, o leão, foi, se escondeu no beco do caminho ... quando lá vinha uma veinha, muito carcunda. Quando a veinha ia passando, o leão saltou na frente:
- A senhora é o bicho-homem?
Disse:
- Não senhor. Sou a mãe do bicho-homem.
Disse:
- Então, só pode ser outro.
Quando deu fé lá vinha um veinho. Aí, ele saltou na frente:
- Você é o bicho-homem?
Disse:
- Não senhor. Eu já fui.
- Passe, vá embora.
Lá vinha um menino assobiando. Um menino muito esperto, contente! Aí, quando viu o menino, saltou na frente:
- Meu filho, você é o bicho-homem?
- Não senhor. É de ser ainda o bicho-homem.
Aí, ficou. Quando deu fé, lá vinha o homem: um caboclo com chapéu de couro, um bacamarte ... que vinha voando pedra pra todo canto. Quando foi empariando, foi dizendo:
- O senhor é o bicho-homem?
- Pronto, leão, sou o bicho-homem. Que é que o senhor deseja?
- Desejo lutar. Pra ver se você é o rei das fera e eu sou o rei das fera ... das montanhas, pra ver se nós entramos em luta.
Aí, o homem disse ao leão:
- Demore aí... Deixe eu dar um espirro primeiro, pra mode nós entrar em luta.
Aí, o leão disse:
- Pronto, pode dar o seu espirro.
Pense num "espirro"...
O homem disparou o bacamarte, quebrou o focinho do leão, a cara com tudo. O leão saiu na carreira. Adiante, encontrou a onça, disse:
- Camarada onça, eu não quero negócio com o bicho-homem! O bicho é a fera pior que existe no mundo! O espirro do bicho fez esse trabalho comigo ... e o bicho-homem. Como é que faz? Não quero negócio com o bicho-homem.
Aí, ficou sendo o homem a fera maior do Brasil.

Fonte: Severino Carreiro. Catolé do Rocha. 17.07.1980. Relato recolhido por Myrian Gurgel Maia. In: TRIGUEIRO, O.M. e PIMENTEL, A. A. Contos populares brasileiros - Paraíba. Recife: FUNDAJ, Massangana, 1996, p.54-5.

Imagem: "Bacamarteiro", por Feliciano dos Prazeres

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Conto: Como Ewá livrou Orunmilá de Iku, a morte

Ewá, de Felipe Caprini

Conta a lenda que Ewá era esposa de Omolu, e era estéril, não podendo dar um filho ao seu grande amado e rei, sofrendo muito por isso.
Em uma bela tarde, a dona dos horizontes estava-se a deleitar às margens de um rio, juntamente com suas serviçais que lavavam vários alás (panos brancos). De repente, surge de dentro da floresta um jovem que corria muito assustado.
- Como ousas interromper o deleite da rainha Ewá? Quem és tu? - indagou a bela dama, irritada com a impertinência do rapaz.
- Minha rainha, não era minha intenção interromper tão sagrado ato, oh esposa de Omolu! Porém Ikú (a morte) persegue-me há vários dias e preciso escapar dela, pois tenho ainda um grande destino a seguir. Peço sua ajuda, Ewá, peço que me escondas para que Ikú não me pegue!
- Gostei de você e vou ajudá-lo, respondeu a rainha. - Esconda-se nos alás que minhas serviçais estão a lavar e eu despistarei Ikú de seu caminho.
E assim foi feito. O jovem rapaz se escondeu debaixo dos panos brancos. Pouco depois eis que aparece Ikú, a morte!
- Como ousas adentrar aos domínios de minha morada, quem és tu? - perguntou Ewá com ar de indignada.
- Sou Ikú e entro onde as pessoas menos esperam. Entro e carrego comigo dezenas, centenas e até milhares de pessoas! Porém hoje estou a procurar um jovem rapaz, que está a me escapar há dias, você o viu passar por aqui? - perguntou Ikú para Ewá.
- Eu o vi sim, Ikú, ele foi naquela direção. - Ewa apontou para um direção totalmente oposta ao das suas serviçais, que estavam escondendo o rapaz.
Ikú agradeceu e seguiu pelo caminho indicado. O rapaz saiu de seu esconderijo, aliviado.
- Ewá, agradeço sua ajuda, terei tempo agora de prosseguir meu caminho. Sou um grande adivinho, e em sinal de minha gratidão, a partir de hoje presenteio-lhe com o dom da adivinhação.
Ewá agradeceu o presente dado pelo rapaz, que já havia se virado para ir embora, quando ele retornou e falou a Ewá.
- Sim, eu sei, você não pode ter filhos, pois lhe concedo a fertilidade também. A partir de hoje você poderá ter filhos e alegrar ao seu marido.
Então Ewá agradeceu novamente muito contente e perguntou ao jovem rapaz.
- Qual é seu nome?
E o rapaz respondeu...
- Meu nome é Orunmilá Ifá!

* Ifá é o orixá da adivinhação e do destino.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Conto: "A Goela e o Rabo da Baleia" - Luís da Câmara Cascudo


A Baleia era o bicho do mar mais veloz e mais comilão. Nadava mais do que todos os outros peixes e comia por peste. Nosso Senhor torceu o rabo da Baleia. Por isso ela nada mais devagar e é o único peixe que tem a barbatana do rabo virada para baixo, batendo água de baixo para cima, em vez de ser da direita para a esquerda como todos os viventes d’água.
Também a Baleia comia tudo. 
Uma feita uma moça devota de Santo Antônio ia rezando com uma imagem desse Santo, pedindo que o navio entrasse logo na barra, quando o Sant’Antônio escapuliu e t’xim bum! caiu no mar. A Baleia, vendo o clarear, veio em cima e, sem reconhecer, engoliu a imagem. Sant’Antônio, para castigar a gulodice, fez a Baleia ficar engasgada e tanto se engasgava mais a goela ia ficando estreita. Sant’Antônio desapareceu e a Baleia ficou, até hoje, só engolindo peixe pichititinho.

A Baleia é peixe nobre,
Não come senão sardinha!
Abre a boca, pega miles,
Engole a mais miudinha!...

Francisco Ildefonso (Chico Preto), Areia Preta, Natal, Rio G. do Norte.

Nota – “A expressão conto etiológico é técnica entre os folcloristas; quer dizer que o conto foi sugerido e inventado para explicar e dar a razão de ser de um aspecto, propriedade, caráter de qualquer ente natural. Assim há contos para explicar o pescoço longo da girafa, o porquê da cauda dos macacos, etc.” João Ribeiro, O Folk-Lore, p. 20, Rio de Janeiro, 1919. A história acima é um conto etiológico, em toda sua legitimidade.

In "Contos Tradicionais do Brasil", Luís da Câmara Cascudo.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Conto: "Fiapo de Trapo" - Ana Maria Machado




Espantalho tão bonito e elegante nunca se tinha visto por aquelas redondezas. Nem por outras, que ele era mesmo carregado de belezas. Precisava só ouvir a conversinha do Dito Ferreira enquanto montava o espantalho, todo orgulhoso do seu trabalho:
- Nunca vi coisa igual. O patrão caprichou de verdade. Vai botar no campo um espantalho com roupa de gente ir à festa na cidade. 
 E era mesmo. Tudo roupa velha, claro, como convém a um espantalho que se preza. Mas da melhor qualidade, roupa de se ir à igreja em dia de procissão e reza. 
Dito Ferreira mostrava todo prosa: 
- Esse chapéu é de um tal de veludo. E vejam que beleza essa camisa cor-de-rosa. Tem até coração bordado... O patrãozinho pensou em tudo. Com uma gravata de seda, fez esse cinto estampado. Até a palha do recheio é toda macia e cheirosa. Não é que era mesmo, a danada? Tinha um perfume forte, que ajudava a espancar a passarada. 
Ah, porque é preciso também dizer que aquilo tudo dava certo, funcionava tanto... O espantalho elegante era mesmo um espanto. Passarinho nem chegava perto. E lá ficava sozinho, espetado no milharal deserto. 
O patrão ficava feliz com um defensor tão eficiente. Dito Ferreira se alegrava com aquela figura imponente. Que espantalho diferente! Só que eles nem sabiam que diferença era essa.
Como todo espantalho, esse não andava nem falava, mas tinha o dom de poder sentir as coisas ao seu jeito --- para um boneco de palha, isso era um grande defeito. 
E era só por causa de desenho que tinha bordado no peito. Linhas de cor em forma de coração --- e pronto, lá estava o pobre espantalho sofrendo com a solidão! Ninguém se aproximava dele, ninguém fazia um carinho, e ele ficava tão triste, só, espantando passarinho... 
De longe via uma passarada, de todo tipo e feição. Pintassilgo e saíra, cambaxirra e corruíra, rolinha e corrupião. Pássaro de toda cor, de todo canto e tamanho, de todo a-e-i-o-u --- sabiá, tié, bem-te-vi, curió e nhambu. Vontade de chamar: 
- Vem cá me ver, bem-te-vi! 
Vontade de mostrar: 
- Tico-tico, olha lá o teco-teco! 
 Mas não adiantava. Ninguém chegava perto. E o tempo passava. Horas e dias, dias e semanas, semanas e meses, meses e anos. 
E o espantalho ficava no tempo. No bom tempo e no mau tempo. No sol que queimava e na chuva que molhava. No mormaço que fervia e no vento que zunia. 
E seu cheiro se gastava, sua cor se desbotava, sua seda desfiava, seu veludo se puía. 
Até que um dia... 
No tempo tem sempre um dia. Um dia em que muda o tempo e um tempo novo se inicia.
Pois foi o que aconteceu. Houve um dia em que choveu. Mas não foi chuva miúda, foi pra valer, de verdade, foi mesmo um deus-nos-acuda, uma imensa tempestade, de granizo, raio, vendaval, com aguaceiro e temporal, chuva de muito trovão que virou inundação. 
Quando a chuvarada passou e o sol voltou, um arco-íris no céu se formou. E na beleza do dia novo, azul lavado, vieram os pássaros, em bando assanhado, ocupando todo o campo, ciscando no milharal. Livres, soltos, à vontade, numa alegria sem igual. 
 Foi aí que Dito Ferreira reparou: 
- Cadê o espantalho velho? 
Saiu todo mundo procurando. Não acharam. Nem podiam achar. Ele tinha desmanchado, tinha sido carregado, pelo vento espalhado, pela chuva semeado, com a terra misturado, plantado naquele chão, sua palha adubando muito pé de solidão. 
Do que sobrou por aí, foi tudo virando ninho, protegendo com carinho filhotes que iam nascer. Veludo em trapos, seda em farrapos, coração bordado em fiapos, maciezas boas de se aquecer. 
E hoje em dia, sua palha misturada na terra ajuda a plantação a crescer.
Os trapos de sua seda, o seu forro de bom cheiro, farrapos de seu veludo se espalham desde o galinheiro até a mais alta árvore que tenha um ninho barbudo. 
E em cada ovo que nasce ali por aquele lugar, cada ninhada que se achega à procura de calor, em cada vida a brotar, em cada marca de amor, seu coração sobrevive num fiapinho de cor. 

MACHADO, Ana Maria. Quem perde ganha. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994.

Fonte: Armazém de Textos

Conto: "A mulher que colecionava domingos", de Cristina Porcaro

  Ela se chamava Isadora, mas poderia se chamar Flora, Ana ou mesmo Sossego e tinha o hábito de, estranhamente, colecionar domingos. Não em ...