quinta-feira, 15 de abril de 2010

Artigo: "Contar histórias aproxima as pessoas" - Juliana Lopes

Contar histórias aproxima pais e filhos, professores e alunos. Desperta o lado lúdico dos ouvintes e transforma os contadores em atores.

Essa arte usada desde muito tempo por meio de lendas ou contos parece estar ainda mais presente nas escolas. Prova disso é a criação de cursos especializados para professores, como ‘O professor que conta história’, do Senac. “Ele estará disponível a partir do segundo semestre”, revela Robson Rocha, coordenador de desenvolvimento e lazer da organização.

De acordo com Elaine Gomes, docente em Contação de Histórias no Senac, curso básico inaugurado em 2003, os educadores podem adaptar contos em várias disciplinas. “Em aulas de matemática, por exemplo, os professores usam o livro ‘O homem que calculava’ (Malba Tahan) e a partir dele mostram um tabuleiro de xadrez. As peças são pedrinhas que ajudam a explicar simples operações e outros fundamentos”, explica.

Já para aulas de Geografia, a professora indica usar um globo e ir pintando as regiões conforme a explicação. Simples elementos como tecidos no chão ou detalhes na roupa mudam a rotina das aulas. Elaine cita o exemplo de uma voluntária de ONGs. Depois de criar uma saia cheia de retalhos e um ambiente simples, conseguiu pela primeira vez prender a atenção dos alunos durante toda tarefa.

Além de incentivar à leitura, quem sabe contar uma boa história também consegue despertar a imaginação, por isso tudo não deve ser apresentado ao pé da letra. Com pequenos gestos e materiais, a própria criança imagina o fato conforme a sua bagagem cultural. Suspenses, humor ou encantamento podem intrigar ou mesmo trazer à tona novas descobertas e a reflexão.

Sempre seguindo este princípio, Elaine elaborou o material do curso a partir da sua experiência em artes visuais, de fatos vivenciados quando criança - pois era uma tradição da família contar histórias ao redor do fogão à lenha - e ainda a partir do trabalho da professora Regina Machado, da Universidade de São Paulo.

Especialista em tradição oral e contadora de histórias desde 1980, a professora costuma afirmar em suas palestras que contar histórias é um ato de amor entre pais e filhos, uma forma diferente das crianças ouvirem a voz deles.

Teatro - Os contadores de histórias não atuam apenas em escolas, centros de recreação ou ONGs. Religiosos, como espíritas ou judeus, usam a criatividade para relatar os preceitos de forma mais lúdica às crianças.

Por trabalhar técnicas de dramatização, representação e voz, muitos atores usam o recurso de narrar lendas ou fábulas em vários espetáculos. Alexandre Camilo (foto) é um deles. Contos como “O Gigante Egoísta”, “O Rouxinol e a Rosa”, e “O aniversário da Infanta”, todos do escritor Oscar Wilde, servem de inspiração para espetáculos em vários projetos. Já a mitologia grega é aproveitada para ensinar e entreter crianças ou aquelas que habitam dentro da gente.

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Fonte: http://vilamulher.terra.com.br/contadores-de-historias-8-1-55-68.html

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Texto: "Contadores de histórias - Guardiões das culturas populares" - Benita Prieto

Tem um site muito bacana que recomendo como fonte de leitura para os contadores de estórias: o Roda de Histórias. Foi lá que achei esse texto:

Contadores de histórias - Guardiões das culturas populares
Benita Prieto

Falar em literatura oral no Brasil é falar de um país que muitas pessoas supõem que não mais existe. O processo de desenvolvimento fez com que várias manifestações culturais deixassem de ser entendidas como próprias do povo. Vejamos o caso do Carnaval, possivelmente a maior festa popular do mundo. Nela os foliões entregam-se aos seus desejos genuínos e primitivos sem saber que refazem, talvez atavicamente, o mesmo que fizeram todas as gerações passadas.
Especificamente com relação à literatura oral, andamos nos afastando desse rico acervo por acreditar que tudo são “causos”, lendas, superstições. Mas se temos a oportunidade de sentar ao redor de uma fogueira, toda essa ancestralidade nos penetra e logo podemos ter vontade de contar as histórias ouvidas dos nossos avós. Para completar, o quadro atual de todas as mídias no Brasil é confuso no que diz respeito a esse assunto. Muitas vezes a literatura oral é usada e não é referenciada como fonte. Claro que existe a dinâmica do folclore, mas como patrimônio que é da humanidade não pode ser aprisionado e usado em favor próprio.
Um exemplo são os programas infantis, que têm utilizado os contos populares e muitas vezes também os autorais, sem dizer de onde foram retirados ou por quem eram contados. Ainda há interferências com questionáveis conselhos em outros aspectos das culturas populares. Essa é uma maneira bastante leviana de tratar-se algo que não nos pertence individualmente.
Já tivemos bons exemplos de circulação da literatura oral como mostrava o programa Som Brasil de Rolando Boldrim, nas décadas 70 e 80, na TV Globo e o Canta Conto, de Bia Bedran, na TV Educativa do Rio de Janeiro. Também existiram ótimos programas de rádio que faziam muito sucesso entre as crianças como o Ta na hora de dormir, de Márcio Trigo, recheado de histórias de Andersen, dos Irmãos Grimm, contos populares, lendas indígenas.
Nesse momento, há uma lacuna na programação cultural das mídias a ser preenchida. E que quando bem executada dá belos frutos. É só lembrar, por exemplo, de algumas matérias feitas para o Fantástico, da TV Globo, onde já vimos muitas dessas manifestações sendo exibidas, como a cidade dos Lobisomens, a Associação de Criadores de Sacis, os pescadores que acreditam terem estado com entidades do mar. Quando essas matérias acontecem podem promover boas conversas nas indústrias, nos bancos, nas escolas, nas casas, nos bares.
A literatura oral está conectada com o passado de gerações e famílias. Nosso país tem uma miscigenação enorme e que varia de acordo com a região brasileira, pois somos a mistura de povos europeus, africanos, indígenas e asiáticos. Esse caldeirão de culturas possibilita a existência de muitas comunidades narrativas. Se tomarmos como exemplo uma favela do Rio de Janeiro sabemos que ali podemos ter histórias de várias partes do Brasil, devido à migração interna na busca de melhores condições de vida. Por isso, é fundamental fomentar nos jovens o desejo de preservar as histórias “particulares” da comunidade narrativa a que pertencem. Eles devem ser estimulados para que tragam as histórias que conhecem, para que tenham orgulho delas e passem a contá-las em todos os espaços possíveis. E aí podemos incluir a tv, o rádio, a internet, o cinema. Os jovens são sem dúvida o nosso maior investimento para a continuidade desse elo, neles devemos apostar.
Mas é preciso uma certa técnica para fazer a recolha dos contos. É importante não interferir na hora da narração, coletar o conto no local onde normalmente é contado e não acreditar na memória ou na própria escrita, gravando tudo para a futura transcrição. Existem muitos livros que mostram textos recolhidos onde em primeiro lugar está o texto tal qual foi dito pelo contador, e a seguir vem uma tradução ou versão feita pelo pesquisador. Essa é uma boa maneira de registro. Claro que o contador popular pode sofrer interferência da platéia, seguindo outros rumos na hora da narração, mas sempre haverá uma estrutura mínima respeitada por ele. Essa estrutura, juntamente com a dicção que foi preservada, será a nossa fonte de estudo e a nossa matriz.
Pena que a escola normalmente é muito preconceituosa com as manifestações populares, esquecendo a multiplicidade regional, os saberes do povo, o conhecimento tácito. Podemos incluir nesse pensamento desde a escola elementar até a universidade. A literatura oral não é valorizada ou então é reduzida ao mais simples registro possível. Imaginem se podemos dizer que o lobisomem possa representar, num país continental como o Brasil, todos os personagens do folclore que são peludos e "comem gente". É uma redução apenas para dizer que o folclore está sendo ensinado na escola e ainda num determinado mês do ano, o de agosto. Como se nos outros dias não pudéssemos usar os ensinamentos recebidos das gerações que nos precederam. O problema é um total desconhecimento da importância do tema.
É bom lembrar que existe hoje um diálogo e um trânsito permanente entre a literatura oral e a literatura escrita. Os grandes escritores do mundo bebem de suas fontes culturais e históricas, constroem releituras, alargam visões. E no Brasil tivemos alguns autores/pesquisadores que contribuíram de forma decisiva para esse diálogo. Temos várias gerações criadas com a literatura mágica e essencialmente brasileira de Monteiro Lobato, o inventor do Sítio do Picapau Amarelo. Temos também Mário de Andrade e Luís da Câmara Cascudo, cada qual a seu jeito, valorizando os saberes do povo para construir no nosso imaginário a força da narrativa. O ideal é nunca fechar as portas do coração, nunca esquecer a “aldeia” de onde viemos.
Já que não dá para fazer uma divisão entre literatura oral e literatura escrita, os contadores de histórias urbanos podem aproximar esses dois mundos, colocando a literatura escrita ao redor de uma fogueira mítica e valorizando a literatura oral dando-lhe status de saber.
Tudo o que foi descrito anteriormente só vem reforçar a importância do trabalho dos contadores de histórias para a preservação das culturas populares.
Mas, como não há no Brasil uma formação específica na arte de contar histórias, o interessado tem que ser autodidata. Precisa ler muito, fazer muitas oficinas, ver muitos contadores, descobrir o seu estilo de contar, o gênero de história que lhe dá prazer. Evitar copiar o repertório que vê, buscar novas fontes, trazer outros olhares. E principalmente usar os seus próprios recursos. Cada contador tem suas sutilezas na hora de narrar. Por isso, a mesma história pode ser contada de várias maneiras e todas serão belas desde que haja a verdade de quem conta.
Somos contadores na essência, estamos durante toda a vida construindo histórias. A narrativa faz parte do dia a dia. Um olhar para dentro pode ser o estopim dessa arte em cada um de nós.
O mais importante é entender que a literatura, seja oral ou escrita, é para ser brincada, dividida, compartilhada. Sejamos, portanto, solidários na vida e nos contos. De mãos dadas, vamos atravessar o caminho onde nossas histórias se cruzam, se completam, se constroem.

*Idealizadora e produtora do Simpósio Internacional de Contadores de Histórias.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Artigo: "Medo do medo" - Lya Luft

Passei a semana nos preparativos para o batismo de minha filha Victoria, ao mesmo tempo que lia o belíssimo conto de Tristão e Isolda, na versão publicada pela Martins Claret, e preparava um texto sobre a importância do resgate das cantigas de roda e demais cantigas do nosso folclore, quando me deparei com um texto, um artigo da escritora Lya Luft, sobre as alterações que estão querendo - pais e educadores - fazer nos contos de fadas e nas cantigas de roda para torná-los "politicamente corretos". Inclusive eu mesma já não canto a tradicional "Atirei o pau no gato". Substitui-a por "Não atire o pau no gato", para não incentivar crianças a maltratar os bichos. Mas será que elas mesmas - se devidamente educadas - já não teriam o discernimento de entender que cantigas são só para divertir e entreter? Aceito opiniões...
Bem, segue o texto, como publicado na Revista Veja - Edição 2158, de 31 de março de 2010:
Medo do medo
Lya Luft

"Querendo ser politicamente corretos, estamos cometendo um triste engano, deformando histórias e até cantigas que fazem parte do nosso imaginário mais básico"

Tenho observado alguns esforços psicopedagógicos no sentido de tornar nossas crianças politicamente corretas - postura que muitas vezes nos transforma em seres tediosos, sem graça nem fervor. Contos de fadas, por exemplo, alimento da minha alma de criança, raiz de quase toda a minha obra adulta, sobretudo romances e contos, foram originalmente - dizem estudiosos - narrativas populares, orais, de povos muito antigos. Assim eles representavam e tentavam controlar seus medos e dúvidas, carentes das quase excessivas informações científicas de que hoje dispomos. Nascimento e morte, sexo, sol e lua, raios e trovões, o brotar das colheitas lhes pareciam misteriosos, portanto fascinantes.

Muito mais recentemente, escritores como Andersen e os irmãos Grimm adaptaram tais relatos ao mundo infantil e criaram suas maravilhosas histórias, que unem, como a vida real, o belo e o sinistro. Uma sereia quer pernas para namorar seu príncipe na praia, mas o sacrifício é terrível, a cada passo de suas novas pernas, dores inimagináveis a dilaceram. Uma princesa, sua família, séquito e criados do castelo dormem um sono profundo, maldição de uma fada má, e só serão libertados pelo príncipe salvador - que, é claro, sempre aparece. Branca de Neve, Rapunzel e dezenas de outros personagens alimentaram nossa fantasia e continuam a alimentar a das crianças que têm sorte, cujos pais e escolas lhes proporcionam contato cotidiano com esses livros.

Porém, faz algum tempo, há um movimento para reformular tais relatos, tirando-lhes sua essência, isto é, o misterioso e até o assustador. Lobos seriam bobalhões e vovozinhas umas pândegas, só existiriam fadas boas, e as bruxas, ah, essas passam a ser velhotas azaradas. Até cantigas de roda seculares tendem a ser distorcidas, pois atirar um pau num gato é uma crueldade, como se fosse preciso explicar isso para as crianças saberem que animais a gente ama e cuida - se é assim que se faz em casa.

Vejo em tudo isso um engano e um atraso. Impedindo nossas crianças do natural contato com essas antiquíssimas histórias, que retratam as possibilidades boas e negativas do mundo, nós as deixamos despreparadas para a vida, cujos perigos entram hoje em seus quartos, rondam escolas e clubes, esperam na esquina com um revólver na mão de um drogado, ou de um psicopata lúcido e frio, sem falar nos insidiosos pedófilos na internet.

Estamos emburrecendo nossas crianças e jovens, mesmo querendo seu bem? E, afinal, o que será o seu bem? Ignorar o que existe de sombrio e mau, caminhar feito João e Maria alegrinhos, não abandonados pelos pais, mas procurando borboletas no mato? Receio que a gente esteja cometendo um triste engano, deformando histórias e até cantigas que fazem parte do nosso imaginário mais básico com arquétipos humanos essenciais.

Em compensação, adolescentes e crianças procuram o encanto do misterioso lendo sobre vampiros, bruxos e avatares, vendo seus filmes e pesquisando na internet. Por que isso? - me perguntou recentemente um pai. Porque, neste momento de altíssima tecnologia, a alma humana busca a expectativa, o segredo e o susto. Precisa conhecer o mal para se acautelar e se proteger, o belo e o bom para crescer com esperança. Mas nós, pedagogos e pais, nem sempre seguros e informados, começamos a querer alisar excessivamente a estrada para eles, não lhes ensinando que o mal existe, assim como o bem, que o belo nos atrai, assim como o monstruoso, e que é preciso desenvolver discernimento (gosto dessa palavra), isto é, a capacidade de entender e distinguir o melhor do pior, a fim de fazer com mais clareza e segurança as inevitáveis escolhas.

Mas se, porque isso nos tranquiliza, tratamos as crianças como imbecis, e queremos nosso adolescente infantilizado por um longo tempo, exigindo-o cada vez menos em casa, na escola e nas universidades - embora deixando que se sexualize de forma precoce e criminosa -, vai ser difícil que tenham informação, capacidade de julgar e escolher, que seriam nosso maior e melhor legado para elas.

Lya Luft é escritora

segunda-feira, 29 de março de 2010

Texto: "Contos de fadas diminuem a atração das crianças por filmes e jogos violentos"

Achei esse texto em diversos sites e pensei que seria bom postá-lo aqui. Muita gente fala que contos de fadas enchem a cabeça das crianças de fantasias imaginosas, mas eu acredito que eles trazem a magia e o encantamento para a vida delas, ainda mais numa fase tão especial como é a dos primeiros anos, antes da difícil fase da adolescência. Inclusive, há estudos sobre que tipo de conto é mais adequado para cada faixa etária. Mas isso é assunto para um outro post...

Contos de fadas diminuem a atração das crianças por filmes e jogos violentos
"Uma pesquisa realizada por psicólogos da Universidade Católica de Pernambuco mostrou que crianças que tiveram maior contato com contos de fadas e histórias infantis gostam menos de brincadeiras e enredos de filmes e jogos violentos. A pesquisa também apontou que os contos de fadas ajudam as crianças a associar a leitura a lazer.
O estudo foi feito entre outubro de 2003 e agosto de 2004, com cerca de 40 crianças de ambos os sexos e idades entre 8 e 9 anos. Elas foram separadas de acordo com a linha pedagógica das escolas em que estudavam. Em algumas, ocorria a leitura sistemática de contos de fadas durante o período de alfabetização e nas outras, não.
Entre aqueles que não tiveram contato com os contos na escola, 70% eram adeptos dos jogos eletrônicos violentos, enquanto esse número era de 30% nas outras escolas - lembrando que todas as crianças afirmaram gostar de ação e aventura durante os testes.
Aqueles que tiveram maior contato com contos de fadas também criavam brincadeiras menos violentas que os demais, além de demonstrarem mais criatividade. Segundo os psicólogos, o contato com a fantasia desses contos adia o fascínio pela violência além de estimular a imaginação e a leitura."

Fonte: www.revistagalileu.globo.com

sexta-feira, 26 de março de 2010

Camelos viram biblioteca ambulante no Quênia

Vi essa matéria hoje no UOL e achei muito interessante. Imaginei uma adaptação aqui pro Nordeste, que enfrenta uma carência semelhante, com a existência de poucas bibliotecas públicas, a maioria instalada em escolas da zona urbana. As crianças dos sítios e povoados bem que adorariam a visita de um jegue-biblioteca... Idea maluca? Não, solução barata e de longo alcance, pois o burrico é barato, de manutenção igualmente pouco custosa, resistente, com boa capacidade de carga e que anda por qualquer lugar. Alô, governantes! Mirem-se no exemplo das escolas do Quênia!

Camelos ajudam escolas no Quênia
da BBC Brasil

Camelos estão sendo usados no Quênia em um programa para levar livros para escolas em áreas remotas do nordeste do país.
A educação de nível básico é gratuita, mas muitas crianças não têm acesso às escolas.
O governo queniano diz que muitos menores de comunidades nômades não recebem educação porque passam todo o tempo disponível cuidando dos rebanhos, que são a base da subsistência local.
O plano que inclui o uso de camelos como "bibliotecas ambulantes" pode estar ajudando a mudar isso.
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sábado, 6 de março de 2010

Conto: "O melhor de si"

Esse conto eu havia lido no livro "Maktub", de Paulo Coelho, há muito tempo. Achei bacana e decidi incorporá-lo ao meu repertório. Contei-o uma vez no Hospital Municipal Manoel Afonso, aqui em Caruaru, e as pessoas - pacientes, acompanhantes e enfermeiras - gostaram muito. Narra uma visita de Nossa Senhora com o Menino Jesus à terra e guarda um ensinamento lindo. O título fui eu que dei, já que no livro do Paulo Coelho, não há nenhum. Também adaptei um pouco o texto, mais ou menos como eu o contei. É lindo e emociona todo mundo, quem conta e quem ouve.
"O melhor de si"

Nossa Senhora, com o Menino Jesus nos braços, desceu à Terra para visitar um mosteiro. Orgulhosos, os padres fizeram fila para homenageá-lo; um declamou poemas, outro mostrou iluminuras que fizera para a Bíblia, outro recitou o nome de todos os santos, de A a Z.

No final da fila estava um padre humilde, que não tivera chance de aprender com os sábios da época. Seus pais eram pessoas simples, que trabalhavam num circo.

Quando chegou sua vez, os monges quiseram encerrar as homenagens, com medo de que ele comprometesse a imagem do mosteiro.

Mas também ele queria mostrar seu amor pela Virgem e pelo Menino Jesus.

Envergonhado, pois sabia que não tinha grandes dons ou habilidades como seus irmãos de fé, e sentindo o olhar reprovador dos outros padres, tirou umas laranjas do bolso e começou a atirá-las para o ar - fazendo malabarismos que seus pais lhe haviam ensinado no circo.

Foi só então que o Menino Jesus sorriu, batendo palmas de alegria. E só para ele a Virgem estendeu os braços, deixando que segurasse um pouco seu filho.

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Fonte: Maktub - Paulo Coelho

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Conto: "Pequerrucha"

Minha sobrinha Camila adora essa estória. E é em homenagem ao seu aniversário de 7 anos, no próximo dia 21/02, que a publico como primeiro a li, há quase 30 anos, em um livrão maravilhoso - e pesado para uma criança - chamado O Grande Livro das Fábulas. Essa versão também foi publicada num lindo site, feito pela professora Vera Rossi, o Contando História. Recomendo a visita!
Pequerrucha
Era uma vez uma moça que gostava muito de flores. Chamava-se Vicentina. Passava todo o tempo livre cuidando do seu jardim, podando, adubando, regando as plantas. Mas vivia sozinha e triste, pois não tinha com quem conversar. Um dia, as flores, que ela tratava com tanto carinho, reuniram-se e decidiram ajudá-la. Então deixaram cair uma semente especial. Vicentina encontrou a sementinha e . . .
- Que semente estranha! Talvez dê uma linda flor . . . Vou plantá-la neste vaso.
A sementinha germinou. Devagarinho foram surgindo as folhas, primeiro uma depois outra e mais outra . . . Até que apareceu uma linda flor vermelha. Era uma tulipa, tão grande e bela que Vicentina ia admirá-la todos os dias. Quando a flor se abriu, no meio das pétalas apareceu uma menina loura e bem pequenina.
- Bom dia, ó Vicentina! Não fique tão espantada, por ser eu tão pequenina, Pequerrucha sou chamada. Se comigo for boazinha, sua filha eu serei. Junto de minha mãezinha para sempre ficarei.
- Oh! Como estou contente! - exclamou Vicentina. - Este é o mais belo presente que minhas flores poderiam me dar!
Vicentina levou Pequerrucha para casa. Com uma casca de noz fez um bercinho para ela e cobriu-a com uma pétala de rosa. O tempo foi passando, mas Pequerrucha não crescia nem um milímetro. Vicentina sentia-se feliz por ter em casa uma filha, embora pequenina. Pequerrucha tinha uma bela voz e sempre cantava para alegrar Vicentina.
Uma tarde, Pequerrucha estava cantando e um velho sapo a ouviu. Nessa mesma noite, o velho sapo entrou na casa de Vicentina. O vidro da janela estava quebrado e ele passou pelo buraco.
Parou um momento para olhar a menina, que dormia serenamente. Como era linda! O velho sapo não resistiu, raptou-a com berço e tudo. Quando o filho do sapo viu a menina, achou- a tão bonita que quis acordá-la imediatamente.
- Quero ver a cor dos olhos dela! - disse ele.
- Espere, meu filho. Não tenha pressa. Se você acordar já, ela pode se assustar e fugir correndo. Devemos fazer outra coisa:
Enquanto ela está dormindo, vamos colocar o berço, sobre uma folha bem grande, no meio do lago. Assim, ela não poderá escapar.
Quando Pequerrucha acordou, levou um susto enorme ao ver que estava no meio do lago, em cima de uma folha tão grande. O filho do sapo foi logo dizendo:
- Bom dia, menina. Amanhã você estará comigo.
- O que? Casar com um sapo? Nunca! - exclamou Pequerrucha aterrorizada. Depois, olhando ao redor, perguntou: - Onde estou? Onde está minha mãezinha?
- Não adianta gritar nem chorar! - disse o filho do sapo. - Está tudo decidido: você vai casar comigo.
Pequerrucha começou a chorar e os peixes do lago ficaram com pena dela. Resolveram salvá-la. Mas como? O único jeito era empurrar aquela folha para longe dos sapos. Assim, Pequerrucha afastou-se deles, mas também da casa de Vicentina.
A folha foi boiando sobre a água. Depois de muito tempo chegou à margem. Pequerrucha desceu e começou uma nova vida. Ela caminhava entre as plantas e flores. Era primavera, havia passarinhos cantando por perto. A menina sentia-se feliz.
Veio o verão, depois chegou o outono. As primeiras chuvas começaram a cair. Pequerrucha não tinha uma casa onde se abrigar. Procurava esconder-se embaixo das folhas maiores, mas acabava sempre ficando molhada. Choveu muito até que veio o inverno. Bastava um floco de neve para cobri-la inteirinha!
- Oh, como é duro ser tão pequenina e não ter onde morar! - pensava Pequerrucha, tremendo de frio.
Por isso resolveu deixar a floresta. Caminhou durante muito tempo. . .
Chegou a um campo onde havia umas hastes de capim e lá no meio uma estranha casinha. Pequerrucha bateu à porta.
- Entre! - disse o velho rato, dono da casa. - Oh, como você está gelada! Pode ficar morando comigo durante todo o inverno. Quero que me conte belas histórias!
- Não sei contar histórias, mas sei cantar - respondeu Pequerrucha. E começou:
Senhor rato hospitaleiro, desta casa cuidarei, sem descanso o dia inteiro. E cantigas cantarei.
Pequerrucha cantou várias canções para o velho rato. Sentado em sua cadeira, ele ouvia encantado. Pequerrucha ficou morando ali. O tempo passava depressa. Durante o dia tinha muito o que fazer: arrumava a casa, preparava o almoço, cuidava de tudo. De noite, alegrava o velho com suas canções. Ele estava tão contente com Pequerrucha, que não se cansava de elogiá-la:
- Você tem uma bela voz. Ficaria a vida ouvindo você cantar! Gosto tanto de música. . .
Uma noite, quando Pequerrucha parou de cantar, o rato falou:
- Tenho um vizinho que está procurando esposa. Ele é muito rico e de boa família. Seria um bom marido para você. Não quero forçá-la, mas é preciso pensar no futuro. Hoje ele virá me visitar.
Daí a pouco chegou o vizinho. Era uma toupeira elegante e distinto. Tinha o pelo negro e brilhante, mas detestava o sol. era tímido e não enxergava bem. Apesar disso, assim que viu Pequerrucha, achou-a linda e ficou apaixonado.
- Sou muito trabalhador - foi dizendo o toupeira - e tenho uma boa posição. Venha, vou mostrar-lhe minha casa, que é bem grande, cheia de galerias! Só é um pouco escura. . .
O toupeira prendeu na boca uma espécie de lanterna e entrou num buraco debaixo da terra. Foi mostrando a Pequerrucha os túneis que cavara, dizendo:
- Tudo isto é serviço meu, está vendo? Gosto de trabalhar. . .
- Não faço como esta andorinha - continuou o toupeira - que passou o verão voando e agora está aí, caída no chão, sem poder voar mais! Estragou o teto da minha galeria e não consegue sair daqui! Vai acabar morrendo de frio. Eu, ao contrário, sou previdente, estou sempre pensando no futuro.
Pequerrucha aproximou-se da andorinha e viu que ela ainda estava viva.
- Oh, pobrezinha! - exclamou. - Preciso fazer alguma coisa por você. Não posso deixá-la morrer de frio.
Pequerrucha acariciou a andorinha, pensando no que poderia fazer para salvá-la. Teve uma idéia e saiu depressa.
Logo Pequerrucha voltou, trazendo um grande punhado de algodão, o maior que pode carregar. Cobriu com ele o corpo da andorinha, dizendo:
- Assim, você não sentirá frio. Mais tarde voltarei para trazer comida.
- Muito obrigada! - disse a andorinha - Você está salvando a minha vida! Assim que eu recuperar as forças, vou levantar voo, em busca de lugares mais quentes, onde haja sol. . . Quando parti com minhas companheiras, para nossa longa viagem de outono, não sei o que aconteceu: caí ao solo e não pude mais voar! - Não consigo respirar, neste lugar sombrio - continuou a andorinha. - Falta-me o ar!
- Também não gosto daqui - disse Pequerrucha. - Mas o toupeira detesta a luz do sol. . .
- Assim que puder, sairei daqui - concluiu a andorinha, dormindo em seguida.
O inverno foi longo, mas quando chegou a primavera a andorinha estava pronta para partir.
- Venha comigo. Pequerrucha! Suba nas minhas costas, eu a levarei! - convidou a andorinha.
- Não fica bem - respondeu Pequerrucha. - O rato foi muito gentil comigo, abrigou-me durante todo o inverno. Agora, que é primavera, não posso abandoná-lo! Ele quer que eu me case com o toupeira. . .
- Tem razão, menina. . . Mas você não é como o toupeira. Não poderá viver sem tomar sol. Pense nisso!
E a andorinha levantou voo e partiu.
Pequerrucha pos-se a tecer seu vestido de noiva com os fios finíssimos que as aranhas faziam para ela. Passou o verão, veio o outono. Chegou o dia marcado para o casamento.
O toupeira, todo elegante, de botas e cartola, veio buscar a noiva.
- Bom dia, querida Pequerrucha. Hoje vamos nos casar. . . Este é um grande dia para mim! Se eu soubesse falar bem, faria um belo discurso!
- Oh, não é preciso! - respondeu Pequerrucha.
- Você está pronta? - perguntou o toupeira.
Pequerrucha ia responder, mas viu o sol, dourado e quente. . . Ficou parada, a admirá-lo.
- Você gosta do sol, não? - perguntou o toupeira. - Mas luz dele é forte demais, não a suporto! Prefiro viver no escuro, lá no fundo de minhas galerias. . . Vamos! Venha depressa. . .
Pequerrucha sentiu um aperto no coração. Não podia estar feliz, sabendo que ia morar a vida inteira debaixo da terra. . . Saiu correndo pelo campo para sentir o calor do sol pela última vez.
Mas, de repente, ouviu um bater de asas ali perto! Oh! Era a andorinha que ela salvara da morte no inverno! A andorinha pousou perto de pequerrucha e vendo que a menina estava chorando, perguntou o que era. Depois disse:
- Depressa, Pequerrucha, suba nas minhas costas. Ainda é tempo! Segure-se bem, eu a levarei para longe daqui!
Pequerrucha olhou ao redor. Disse adeus aos dois amigos, acenando com a mão. Depois, saltou para as costas da andorinha. . . e fez uma viagem maravilhosa para um país distante.
Era um lugar maravilhoso, onde cresciam muitas flores. Em cada uma delas morava um ser pequenino com asas. A andorinha colocou Pequerrucha na flor mais bela do jardim. Encantada com toda essa beleza que a rodeava, Pequerrucha começou a cantar:
"Mal acredito no que vejo e é tão grande a novidade, que outra vida não desejo, senão esta felicidade!"
Pouco depois, todos os habitantes dali rodearam Pequerrucha. O mais belo deles, o rei das flores, ofereceu-lhe uma coroa de ouro.
- Seja bem vinda! - disse ele. - Você será minha esposa. E como presente de casamento vou lhe dar duas asas transparentes, iguais às nossas. Eu tinha ouvido falar de você por uma fada, mas não sabia que cantava tão bem! Como é seu nome?
- Eu me chamo Pequerrucha, majestade.
- Vou lhe dar um novo nome. De hoje em diante você se chamará Maia e será a rainha das flores!
Pequerrucha, entre resplendores, como rainha foi coroada para reinar sobre as flores. Se numa noite enluarada ouvires canção que não sei, é ela que canta para o rei. . .


***

Conto de Hans Christian Andersen

Conto: "A mulher que colecionava domingos", de Cristina Porcaro

  Ela se chamava Isadora, mas poderia se chamar Flora, Ana ou mesmo Sossego e tinha o hábito de, estranhamente, colecionar domingos. Não em ...