domingo, 31 de março de 2019

Conto "Uma sopa especial"

Este delicioso conto é uma versão sueca de "A sopa de pedra", tema muito recorrente no folclore brasileiro. Eu o encontrei no livro "Un mundo de cuentos - cuentos populares de los cinco continentes", de Anna Gasol e Teresa Blanch, com ilustrações de Mercè López. A tradução e adaptação são minhas.

"Era uma vez uma velha que morava em uma casinha no meio de uma densa floresta.

Um dia de primavera, no final do meio-dia, a mulher se deu conta de que estava com fome e foi até a despensa para ver o que podia cozinhar. Um pouco decepcionada, viu que só tinha um pedaço de carne e dois ovos, além de algumas poucas hortaliças.

- Não sei se preparo um cozido de carne com batatas ou um par de ovos fritos e pepinos em conserva -  ela disse em voz alta

Quando finalmente decidiu que o mais rápido era fazer ovos fritos, ao colocar manteiga na frigideira, viu pela janela da cozinha um mendigo procurando algo entre as árvores.

- Posso ajudar? ele perguntou, abrindo a janela.

- Espero não incomodar - respondeu o homem. - Estou à procura de frutos silvestres. Disseram-me que são abundantes nesta parte da floresta.

- Você já almoçou? - a velhinha perguntou a ele. - Você quer fazer uma torta?

- Oh, hoje só vou comer a sobremesa. Eu me conformo com pouco.

A velha ficou com pena.

Ela até gostaria de convidar o homem para comer, mas a despensa estava vazia e ainda faltavam dois dias para conseguir provisões do mercado. "Eu mal tenho para mim", ela pensou e se dirigindo ao homem, lamentou:

-Sinto muito, mas não posso te convidar.

- Não importa, obrigado mesmo assim, - disse o andarilho. - Embora eu tenha uma ideia. Se você me emprestar um recipiente e um pouco de água, posso fazer uma sopa muito especial.

Enquanto falava, começou a procurar dentro do surrão que levava pendurado no ombro.

- Olhe, - ele disse finalmente, e mostrou um pedaço de unha de porco, - Com isso eu posso preparar uma sopa deliciosa.

A mulher pensou que não perderia nada se o deixasse acender um fogo na frente da casa e ferver um pouco de água. Afinal, poucas eram as pessoas que vinham até ali e isso lhe proporcionaria um pouco de distração. Assim então, encheu uma panela com água enquanto o moço acendia o fogo. Quando a água começou a ferver, ele colocou na panela o pedaço de unha.

- Esta unha já foi fervida cinco vezes, - ele acrescentou. - Ainda faz uma boa sopa, mas se tivesse um pouco de sal, seria muito melhor.

- Isto não é um problema. Vou pegar o sal.

Pouco depois de colocar o sal, o homem disse:

-Estará pronta dentro de um instante. No entanto, lamento dizer que não será a sopa mais especial que já cozinhei. A unha foi cozida cinco vezes e pouca substância lhe restou. Se eu tivesse um pouco de farinha...

-Eu vou ver se sobrou alguma coisa - disse a velhinha.

Quase não tinha mais, porém o homem sacudiu o resto que havia no recipiente e depois mexeu o caldo com uma colher. A mulher achava que da mistura realmente saía um cheiro muito especial, embora tivesse dúvidas sobre seu sabor.

-Se eu pudesse adicionar um pouco de carne e algumas batatas... A verdade é que a sopa ficaria muito melhor, - disse o espertalhão. - Mas claro que se não pode ser, o que vamos fazer?

Na despensa havia a carne e as batatas para o ensopado. Ficaria sem o guisado, pensou a velha, mas a sopa estava quase pronta e se serviriam para melhorá-la...

O homem acrescentou os ingredientes e continuou mexendo o caldo que começava a cheirar muito bem.

- Vai ficar deliciosa, - disse ele, - mas se eu tivesse uma cebola, uma cenoura e um pouco de banha de porco... hummm...

Já com água na boca, a velhinha não hesitou. Entrou em casa, foi em busca dos ingredientes restantes e os adicionou à panela ela mesma.

- Pronta! - disse o homem depois de ferver um pouco mais. 
Ele provou o sabor e exclamou:  - Deliciosa!

A mulher, que não pôde resistir ao cheiro daquela sopa, de repente se lembrou que estava com fome. Foi na cozinha pegar pratos e colheres e convidou o homem para se sentar em sua mesa. Juntos, compartilharam a deliciosa sopa, os ovos fritos e os pepinos em conserva.

-Deliciosa! - exclamou a mulher quando terminaram de comer. - Eu nunca poderia imaginar que com um simples pedaço de unha de porco se pudesse cozinhar uma sopa tão deliciosa!"

In: Un mundo de cuentos, de Anna Gasol e Teresa Blanch (página 34)
2012, Editorial Juventud, Barcelona, Espanha
versão online em Muchos Cuentos

quinta-feira, 14 de março de 2019

Conto: "O dia em que o mar perdeu a cor" - Patricia Barbadillo


Esse lindo conto eu traduzi da estória da escritora espanhola Patricia Barbadillo publicada numa coletânea no livro "Cuentos azules", Ediciones SM. É perfeito para contar para crianças e adultos.
"Uma manhã, uma notícia correu pelo reino. O mar havia perdido sua cor. Em vez do azul turquesa, que mudava de intensidade ao longo do dia, agora só se via a cor amarela da areia ou o cinza das pedras. 
Os peixes assustados nadavam nervosos, provocando redemoinhos, achando que estavam em um aquário em vez de no mar.
Os polvos agitavam seus tentáculos soltando jatos de tinta, as merluzas abriam os olhos tentando entender o que estava acontecendo, e os caranguejos corriam para se enterrar na areia até que tudo tivesse passado.
Os cidadãos do reino se aglomeravam na praia com a boca aberta.
- Que terá acontecido? Já não podemos contemplar nosso mar tão azul... Quem terá roubado o azul do mar?
O rei, muito preocupado, mandou buscar os sábios.
- Quero que façam todos os estudos e experimentos necessários para que o mar volte a ser azul.
E os sábios passaram dias e dias na beira da praia, tomando mostras de água e anotando números enormes em seus cadernos.
No entanto, não conseguiram devolver ao mar a sua cor.
Os peixes, pouco a pouco, foram embora daquele mar tão esquisito, buscando outros mares e outros oceanos azuis e, com sua marcha, os pescadores não puderam tirar seus barcos de pesca, que ficaram empilhados na costa. 
Um dia, um daqueles sábios acreditou ter encontrado a solução.
- Não tem mais remédio, majestade. Terás que entregar vossa filha ao mar. Seu sangue azul devolverá a cor ao nosso mar.
- Que barbaridade! Como irei fazer tal coisa? - exclamou o rei. -  Mandarei emissários para outros reinos para que encontrem quem possa nos ajudar, mas não sacrificarei minha filha.
Uma manhã chegou à praia um jovem de aspecto extravagante. O cabelo muito longo e a barba comprida só deixavam ver uns olhos muito azuis.
Quando se aproximou da beira da água, todos lhe abriram caminho, assombrados pelo brilho do seu olhar.
 O jovem viajante ficou de frente para o mar, olhando intensamente para as ondas. Passaram-se os dias e assim continuou. Tanto fazia ser de noite ou dia, sem prestar atenção às perguntas que lhe faziam, ele continuava olhando para o mar sem falar, sem se mover, sem fazer o menor gesto.
E, pouco a pouco, o mar foi recuperando sua cor. Um azul muito pálido a princípio, logo mais parecido com o azul do céu e, por fim, com a cor turquesa.
Os peixes voltaram ao mar onde sempre haviam nadado, os cidadãos aplaudiram o jovem, o rei ofereceu-lhe os presentes mais maravilhosos e a princesa imediatamente se apaixonou por ele.
- Como você conseguiu devolver a cor ao mar? - O rei perguntou a ele.
- Por tanto tempo olhei para ele, com tanto esforço, e tão grande era o meu desejo de salvar a vida da princesa que, no final, as águas conseguiram pegar dos meus olhos a cor azul que lhes havia escapado.
- Que força! Que vontade!
- Tão somente um desejo poderoso - respondeu o jovem.
O rei, claro, despediu o sábio que quis entregar a princesa ao mar. O sangue dela é tão vermelho como o seu ou o meu. E aquele mar para sempre conservou sua cor azul-turquesa. Tão famoso se tornou que ainda hoje as pessoas viajam de lugares bem distantes para banharem-se em suas águas, sentindo com o azul envolve tudo..."

Ilustrações: Chata Lucini

sábado, 9 de março de 2019

Estórias em Barcelona


Conto adaptado da narração de Blai Senabre

"Era uma vez um rei que adorava queijos. Ele gostava tanto que os fabricava em seu próprio palácio e por todo o lado o que se via era queijos e mais queijos. Queijos de todos os tipos e tamanhos. Defumados, fundidos e fedidos. Com ervas, pimentas ou picles. Queijos por toda a parte. Apesar do belo e florido jardim, o aroma que imperava ali era de... adivinhe?... Exatamente isso: queijo.

Um dia particularmente quente, o odor estava insuportável. Até para o rei que gostava tanto de queijo. Ele mandou que abrissem as janelas para que entrasse um ventinho e amenizasse aquele futum horrível.

Péssima ideia.
Carregado pelo vento, o cheiro das montanhas de queijo estocadas no palácio chegou até uma toca onde viviam centenas de ratinhos. Todos sabem que a comida favorita do rato é... adivinhe?... Exatamente isso: queijo.
Enlouquecidos pelo odor daquela delícia, as centenas de ratinho se puseram a correr em direção ao palácio real. Os guardas nada puseram fazer para deter a invasão da massa de roedores que, em poucos minutos, já tinha se jogado contra tudo quanto era queijo que havia no palácio. O rei, coitado, subiu no trono e de lá gritou chamando os conselheiros. Eles acudiram pressurosos, alguns em cima de pernas de pau com medo dos ratos.
- Conselheiros, precisamos fazer algo para acabar com esses ratos, senão eles acabam com os meus preciosos queijos!
Pensa que pensa, um dos conselheiros teve a ideia: gatos!
O rei então mandou que trouxessem gatos para acabar com os ratos.
Em pouco tempo, os gatos chegaram - dezenas deles - e logo se puseram a perseguir os ratos. O rei ficou feliz e até bateu palmas. Logo o palácio ficou livre dos terríveis roedores.
Mas, depois de acabados os ratos, o que se iria fazer com os gatos? 
O palácio estava cheio deles. Havia gato em todos os aposentos, dentro de tudo quanto era cesto, armário, gaveta e guarda-roupa. Debaixo da cama, em cima da geladeira, pendurado nas cortinas. O rei já estava enlouquecendo com tanto miado, isso para não falar do fedido cocô que eles faziam em tudo quanto era vaso de planta.
Aborrecido, o rei gritou pelos conselheiros.
Eles vieram rapidinho ver o que estava chateando sua majestade.
- Conselheiros, precisamos fazer algo para acabar com esses gatos, senão eles acabam com os meus nervos!
Pensa que pensa, um dos conselheiros teve a ideia: cachorros!
O rei então mandou que trouxessem cachorros para expulsar os gatos.

Em pouco tempo, os cachorros chegaram - dezenas deles - e logo se puseram a perseguir os gatos. O rei ficou feliz e até bateu palmas. Logo o palácio ficou livre dos terríveis felinos.
Mas, depois de acabados os gatos, o que se iria fazer com os cachorros? 
O palácio estava cheio deles. Havia cachorro em todos os aposentos, debaixo da cama, da mesa, das cadeiras, até do trono. O rei já estava enlouquecendo com tanto latido, isso para não falar do monte de cocô e xixi que eles faziam em tudo quanto era canto, pé de cadeira, de mesa e até do relógio de pé.
Irritado, o rei gritou pelos conselheiros.
Eles vieram rapidinho ver o que estava incomodando sua majestade.
- Conselheiros, precisamos fazer algo para acabar com esses cachorros, senão eles acabam com o palácio!

Pensa que pensa, um dos conselheiros teve a ideia: leões!

O rei então mandou que trouxessem leões para expulsar os cachorros.
Em pouco tempo, os leões chegaram - vários deles - e logo se puseram a perseguir os cachorros. O rei ficou feliz e até bateu palmas. Logo o palácio ficou livre dos bagunceiros animais.
Mas, depois de acabados os cães, o que se iria fazer com os leões? 
O palácio estava cheio deles. Havia leões em todos os lugares, obrigando o rei, a rainha, as princesas, as damas e os nobres de sua corte a se trancarem em seus quartos. Ai aconteceu algo muito chato, que já deve ter acontecido com você. O rei ficou com vontade de fazer xixi. Mas muita vontade mesmo. O problema é que o banheiro ficava do outro lado do corredor. Como é que o rei ia sair do quarto com tanto leão do lado de fora?
Irritado e muito apertado, o rei gritou pelos conselheiros, que estavam trancados do lado de fora do palácio, todos com medo dos leões.
- Conselheiros, precisamos fazer algo para acabar com esses leões, senão eles acabam conosco!

Pensa que pensa, um dos conselheiros teve a ideia: elefantes!

O rei então mandou que trouxessem elefantes para expulsar os leões.
Em pouco tempo, os elefantes chegaram e logo se puseram a perseguir os leões. O rei ficou feliz e até bateu palmas. Logo o palácio ficou livre dos terríveis felinos.
Mas, depois de acabados os leões, o que se iria fazer com os elefantes? 
O palácio estava cheio deles. Tinha elefante até dentro da banheira do rei! Como são bichos muito grandes, logo não havia espaço para mais ninguém. O rei, a rainha, as princesas, as damas, os nobres de sua corte e seus conselheiros tiveram que ficar fora do palácio.
Não seria tão mal, porque os jardins reais eram muito belos. O problema foi que começou a chover. Logo, as penteadas perucas do rei, dos nobres e dos conselheiros e os lindos penteados de cachinhos da rainha, das princesas e das damas começaram a se desmilinguir, ficando todos com péssima figura.
Irritado e todo molhado, o rei gritou pelos conselheiros.
Eles nem precisar vir rapidinho porque já estavam lá, igualmente encharcados.
- Conselheiros, precisamos fazer algo para acabar com esses elefantes, senão teremos que nos mudar para outro palácio! 


Pensa que pensa, em meio a um espirro e outro, um dos conselheiros teve a ideia: ratos!

Epa, nós já não passamos por isso há alguns parágrafos? Mas se pensarmos com atenção, o único animal capaz de assustar o elefante é o rato. 
O rei teve que concordar, só que dessa vez ele foi esperto. Quando os ratos chegaram no palácio, antes de deixá-los entrar, o rei fez um acordo com eles: poderiam comer apenas uma quantidade que ele iria deixar para eles no salão. Celebraram o acordo com um aperto de mão e pata, no fio do bigode, como se dizia antigamente.
E foi assim que os ratinhos livraram o palácio - o rei, a rainha, as princesas, as damas, os nobres e os conselheiros - dos enormes paquidermes. E pelo sim, pelo não, o rei mandou construir enormes câmaras refrigeradas para guardar os seus preciosos queijos...
Não sei é verdade ou mentira mas esse conto se acabou!"

Esta estória - que aqui está em versão livremente adaptada por mim - me foi contada hoje na Biblioteca Central de Cerdanyola, na grande Barcelona, em catalão pelo grande narrador espanhol Blai Senabre. O tema de sua sessão era "Histórias de Palácio".
Mais tarde, ele me disse que era uma versão que ele tinha feito do conto árabe "O sultão e os ratinhos", publicado em catalão por Joan de Boher. 😊

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Conto: Presentes de Natal

Este lindo conto veio do site Bedtime Stories, de Pedro Pablo Sacristán, e eu o traduzi, adaptei e contei para um mundo de crianças e adultos, inclusive na Seresta Natalina do Alto do Moura, um lindo bairro de artesãos de Caruaru, conhecida como a Capital do Forró, famosa pela sua feira, pela sua arte no barro e, claro, pelas festas de São João. Aprovado por todos, compartilho aqui com o coração cheio de alegria pela linda data. Feliz Natal para todos!
OS maiores fabricantes de brinquedos do mundo reunidos na Conferência de Natal
(ilustração de Jaime Espinar Muñoz.)
"Naquele ano, a Conferência de Presentes de Natal estava cheia de transbordar. Na plateia estavam todos os fabricantes de brinquedos no mundo, e muitos outros que não eram fabricantes de brinquedos, mas que ultimamente vieram a ser participantes regulares. Houve também aqueles que, é claro, nunca poderiam perder a conferência; os distribuidores: Papai Noel e os Reis Magos.
Como todos os anos, as discussões lidavam com o tipo de brinquedos mais educativos ou divertidos. Outro tópico comum de conversa era o tamanho em que os brinquedos deveriam ser feitos. Sim, isso era algo sobre que eles frequentemente não se entendiam, porque os Reis Magos e o Papai Noel queixaram-se de que todos os anos os brinquedos estavam ficando maiores e isso estava causando sérios problemas de transporte.
No entanto, algo aconteceu para tornar esta conferência diferente de todas as anteriores. Um menino esgueirou-se e entrou no salão. Nunca criança alguma havia assistido a uma dessas reuniões e quando perceberam que havia um menino sentado ao lado dos Três Reis, ninguém soube dizer realmente há quanto tempo ele estava lá.
Quando Papai Noel estava falando com um importante fabricante de brinquedos sobre o tamanho de uma boneca muito procurada, o homem berrou:
- "Do que você está falando, gorducho?! Se você fosse um pouco mais magro, poderia encaixar mais brinquedos no trenó!"
O menino viu isso, levantou-se e disse:
- "Está tudo bem, não discutam. Eu entregarei tudo o que os Reis Magos e o Papai Noel não puderem carregar."
Os participantes caíram em estrondosa gargalhada e descartaram a sugestão do menino. Enquanto eles ainda estavam rindo, o menino se levantou, uma lágrima caiu do canto do seu olho, e ele saiu do salão cabisbaixo...
Esse Natal foi como a maioria dos outros, um pouco mais frio talvez. Na rua, todos continuavam com suas vidas e nem contavam as histórias e eventos maravilhosos daquela época. E quando as crianças receberam seus presentes, elas nem se ligaram. Parecia que o Natal perdera toda a importância.
Na próxima Conferência de Presentes de Natal, todos estavam preocupados sobre como o Natal parecia estar perdendo sua magia. As discussões começaram mais uma vez, até que de repente apareceu, na porta, o menino de que eles tinham caçoado tanto no ano anterior. Desta vez ele estava com sua mãe, uma linda mulher. Ao vê-la, os Três Reis saltaram de emoção:
-"Maria!"
Eles correram e a abraçaram. Então ela se aproximou do palco, pediu a palavra e disse:
- "Todo ano, meu filho celebrava seu aniversário dando uma grande festa - a maior do mundo - e ele a enchia com seus melhores presentes para crianças e velhos. Agora ele me diz que não quer mais comemorar, que nenhum de vocês realmente gosta de sua festa, que vocês estão mais interessado em outras coisas... Alguém pode me dizer o que foi que fizeram com ele?"
A maioria dos presentes começou a perceber o que eles tinham feito, e onde eles ficaram tão confusos. Um velho fabricante de brinquedos - alguém que nunca tinha falado naquelas reuniões - aproximou-se do menino, ajoelhou-se e disse:
- "Perdoe-me, Senhor. Eu não quero nenhum outro presente além daqueles que você oferece. Embora eu nunca tivesse percebido isso, você estava sempre entregando aquilo que nem os Reis, nem o Papai Noel, nem ninguém, poderia nos dar: amor, paz e alegria. E no ano passado fizeram uma falta tremenda ... me perdoe... ".
Um após o outro, todos foram lá pediram perdão ao menino, admitindo que seus presentes eram os melhores disponíveis em qualquer época festiva; presentes que preenchem os corações das pessoas boas, presentes que tornam cada Natal um pouco melhor...".





quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Conto: "Bula, o viajante"

Bula, o viajante - ilustração de Jaime Espinar
Muitos anos atrás, um grande senhor chamado Bula reconheceu sinais nos céus; sinais que nunca haviam sido vistos antes. Esses presságios anunciaram a chegada do maior rei que o mundo jamais conhecera. Espantado com a perspectiva de tal poder, o rico senhor decidiu partir em busca deste rei, com a intenção de se colocar a seu serviço e assim alcançar uma posição de importância em seu futuro reino.
Reunindo todas as suas riquezas, ele formou uma grande caravana e foi para onde os sinais indicavam. Mas o poderoso senhor não havia se dado conta de quão dura e longa seria a jornada.
Muitos de seus servos adoeceram e o bom senhor cuidou deles, gastando grande fortuna em curandeiros e médicos. Eles atravessaram um país tão seco que os habitantes estavam morrendo de fome às dúzias. O senhor permitiu que essas pessoas se juntassem ao comboio e lhes forneceu alimentos e roupas.
Eles se encontraram com grupos de escravos que eram tão horrivelmente maltratados que o senhor decidiu comprar sua liberdade, o que lhe custou grandes quantidades de ouro e joias. Os escravos, agradecidos, se juntaram ao grupo de Bula.
Tão longa foi a jornada e tantas pessoas acabaram se juntando ao comboio, que quando eles finalmente chegaram ao seu destino, havia restado apenas uma pequena parte das joias; joias que o senhor quis guardar como um presente para o grande rei. Bula então descobriu o último sinal: uma grande estrela brilhante, erguendo-se de trás de algumas colinas, e ele se dirigiu a ela com o que restou de suas riquezas.
"Bula viu o último sinal: uma grande estrela brilhante"
Ele caminhou em direção ao palácio do grande rei e encontrou muitos viajantes mas, contra suas expectativas, poucos deles eram pessoas nobres e poderosas; a maioria deles eram pastores, lavradores e mendigos. Vendo seus pés descalços e pensando no pouco uso que um rei tão poderoso teria para suas poucas riquezas, Bula acabou compartilhando o pouco que restou de suas joias com essas pessoas pobres.
Sem dúvida, seus planos deram errado. Agora ele não podia nem pedir uma posição no novo reino. Bula pensou em se virar e voltar para casa, mas ele tinha passado por tanta coisa para chegar lá que não queria sair sem pelo menos ver o novo Rei do Mundo.
Então ele continuou andando e viu que depois de uma curva a estrada chegava ao fim. Não havia sinal de palácios, soldados ou cavalos. Tudo o que ele podia ver era um pequeno estábulo ao lado da estrada, onde uma família pobre estava tentando se proteger do frio. Bula ficou desapontado por ter se perdido de novo, e ele se aproximou do estábulo, com a intenção de perguntar a essas pessoas se elas sabiam o caminho para o palácio do novo rei.
"Eu trago uma mensagem para ele", explicou ele, mostrando-lhes um pergaminho, "Eu gostaria de servi-lo e ter uma posição importante em seu reino."
Ao ouvir isso, todos sorriram, especialmente um bebê recém-nascido que estava deitado em uma manjedoura. A senhora no estábulo estendeu a mão e pegou o pergaminho, dizendo:
"Dê-me a mensagem, eu o conheço e darei a ele pessoalmente."
E ela entregou o pergaminho à criança que, ao som da risada de todos, apertou-o com as mãozinhas e o mordiscou, deixando-o todo estragado.
Bula não achou isso engraçado. Percebendo que agora ele não tinha praticamente nada, ele caiu no chão, chorando amargamente. Enquanto ele chorava, a mão do bebê tocou seu cabelo. O senhor levantou a cabeça e olhou para a criança. Ele estava sorrindo silenciosamente, e era um bebê tão adorável que Bula logo esqueceu seus problemas e começou a brincar com ele.
E lá ficou ele, quase a noite toda, na presença da pobre família, contando-lhes sobre suas viagens e aventuras e compartilhando com eles o pouco que lhe restava. Quando amanheceu, Bula se preparou para sair, se despedindo de todos e beijando o bebê. A criança, sorrindo como ele havia feito a noite inteira, pegou o pergaminho encharcado e enfiou-o no rosto de Bula, fazendo todos rirem. Bula pegou o pergaminho e o guardou como lembrança daquela encantadora família.
Naquele dia ele começou sua jornada para casa.
Vários dias depois, lembrando-se de sua noite no estábulo, encontrou o pergaminho entre as roupas e abriu-o. A saliva do bebê não deixara rastros da mensagem original. Mas naquele exato momento, enquanto olhava para o papel vazio, gotas de água e ouro enchiam o ar em volta do pergaminho e lentamente pousaram nele. E com lágrimas de felicidade rolando por suas bochechas, Bula leu:

"Eu recebi sua mensagem.
Obrigado por ter vindo e por todos os presentes que você trouxe para meus amigos, que você conheceu no caminho. Eu lhe garanto que você já tem uma ótima posição no meu reino.
Assinado: Jesus, Rei dos Reis"


Fonte: Pedro Pablo Sacristán (Bedtime Stories )
Imagem: Jaime Espinar Muñoz
Tradução: Gabriela Kopinits

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Conto: "O que o Velhinho faz está sempre certo" - Hans Christian Andersen

Em homenagem ao Dia de Ação de Graças, celebrado neste 22 de novembro, trago um lindo conto do mestre Hans Christian Andersen sobre o coração puro e leve de quem sempre reconhece as bênçãos que a vida traz, traduzido da versão em inglês publicada no Centro Hans Christian Andersen, do Departamento para o Estudo da Cultura da University of Southern Denmark, devotada ao estudo e resgate da extensa obra do escritor.
Ilustração do dinamarquês Hans Tegner (1872)
"Agora vou contar uma história que ouvi quando eu era um garotinho e que gosto mais e mais cada vez que penso nela. Pois é o mesmo com histórias que com muitas pessoas; quanto mais velhos eles ficam, mais agradáveis ​​eles se tornam, e isso é maravilhoso.

Você esteve no campo, é claro. Lá você deve ter visto uma antiga casa de fazenda com telhado de palha, onde musgo e mato se plantaram; um ninho de cegonha decora a chaminé (você nunca pode ficar sem a cegonha); as paredes são inclinadas; as janelas são baixas (na verdade, apenas uma delas foi feita para abrir); o forno se sobressai como um estômago pequeno e gordo; e um sabugueiro se inclina sobre o portão, onde você pode ver um pequeno lago com um pato ou patinhos, debaixo de um salgueiro retorcido. Sim, e depois, claro, há um cão de guarda que late a todos e a tudo.

Bem, havia uma fazenda exatamente assim no campo, e nela moravam duas pessoas, um fazendeiro e sua esposa. Eles tinham poucas posses , mas ainda havia algo de que eles poderiam abrir mão, e isso era um cavalo, que pastava ao longo da vala ao lado da estrada. O velho fazendeiro usava-o para ir à cidade e emprestá-lo aos seus vizinhos, recebendo alguns serviços leves em troca, mas ainda assim seria muito mais lucrativo vender o cavalo, ou pelo menos trocá-lo por algo que fosse mais útil para eles.

Mas o que eles deveriam fazer, vender ou trocar?

"Você saberá o que é melhor, Pai", disse a esposa. "É dia de mercado. Vamos lá, vá para a cidade e ganhe dinheiro para o cavalo, ou faça um bom negócio com ele. O que quer que você faça está certo; então, saia para o mercado!"

Então ela amarrou seu lenço de pescoço - pois era algo que ela entendia muito melhor do que ele - amarrou-o com um laço duplo e o fez parecer bem elegante. Escovou o chapéu com a palma da mão e beijou-o na boca e, em seguida, lá se foi ele, montando o cavalo que seria vendido ou trocado. Claro, ele saberia a coisa certa a fazer.

O sol estava abrasador e não havia uma nuvem no céu. A estrada estava empoeirada e cheia de pessoas a caminho do mercado, algumas em carroças, algumas a cavalo e outras em suas próprias duas pernas. Sim, era um sol forte, sem sombra durante todo o caminho.

Agora veio um homem levando uma vaca, uma vaca tão bonita quanto você gostaria de ver. "Tenho certeza de que ela deve dar um bom leite", pensou o camponês. "Seria uma boa pechincha se eu a pegasse. Ei, você com a vaca!" ele disse. "Vamos conversar um pouco. Olhe aqui, acredito que um cavalo custa mais do que uma vaca, mas isso não importa para mim, já que tenho mais utilidade para uma vaca. Vamos fazer uma troca?"

"De acordo", disse o homem com a vaca; e então eles trocaram.

Agora o fazendeiro poderia ter voltado para casa novamente, pois ele havia concluído o seu negócio. Mas ele planejava ir ao mercado, então, para o mercado ele iria, mesmo que apenas para olhar; portanto, com sua vaca, ele continuou seu caminho. Ele andava depressa, assim como a vaca, e logo alcançaram um homem que conduzia uma ovelha; Era uma ovelha de boa aparência, em bom estado e bem fornida de lã.

"Eu certamente gostaria de ter isso", pensou o camponês. "Ela teria muito pasto ao lado de nossa vala, e no inverno poderíamos mantê-lo em nosso próprio quarto. Seria realmente muito mais sensato mantermos uma ovelha do que uma vaca. Podemos trocar?"

Sim, o dono da ovelha estava bem disposto, então a troca foi feita e agora o fazendeiro continuava pela estrada com sua ovelha. Perto de um portão da estrada ele encontrou um homem - o guarda do pedágio - com um grande ganso debaixo do braço.

"Bem, você tem um belo companheiro pesado aí!" disse o fazendeiro. "Tem muitas penas e gordura! Como seria bom amarrá-la perto de nosso pequeno lago e, além disso, seria algo para quem a Mamãe guardaria os restos de comida. Ela costuma dizer: 'Ah, se tivéssemos um ganso...' Agora ela pode ter um - e ela terá! Você vai trocar? Eu te darei minha ovelha pelo seu ganso, e meus agradecimentos também. "

O outro não tinha objeção, então eles trocaram e o fazendeiro pegou o ganso. Agora ele estava perto da cidade; a estrada estava ficando cada vez mais cheia, pessoas e gado passando por ele, aglomerando-se na estrada, na vala e até a plantação de batata do moleiro, onde sua galinha estava amarrada, para o caso de ficar assustada e se perder. Era uma galinha que piscava com um olho e parecia em boas condições.

"Cluck, cluck", disse ela; o que isso significava, eu não saberia; mas o que o camponês pensou quando a viu foi: "Ela é a galinha mais bonita que eu já vi - muito mais bonita do que qualquer das galinhas chocas de nosso pastor. Eu certamente gostaria de tê-la. Uma galinha sempre pode encontrar um grão de milho e ela quase pode se sustentar sozinha. Eu estou pensando que seria uma boa ideia levá-la em vez do ganso. Vamos trocar? ele perguntou.

"Trocar?" disse o outro. "Bem, não é uma má ideia!" E assim eles trocaram. O guarda do pedágio pegou o ganso e o fazendeiro pegou a galinha.

Ele fizera muitos negócios desde que saíra de casa para a cidade; estava quente e ele estava cansado. O que ele precisava era de uma bebida e algo para comer.

Ele havia chegado a uma estalagem e estava pronto para entrar, quando o ajudante do estalajadeiro o encontrou na porta, carregando um saco cheio de alguma coisa.

"O que você tem aí?" perguntou o fazendeiro.

"Maçãs podres", foi a resposta. "Um saco inteiro para os porcos."

"Que quantidade! Mamãe gostaria de ver tantos! Porque, no ano passado, tínhamos apenas uma única maçã na velha árvore perto do galpão de turfa. Essa maçã devia ser guardada, e ficava na cômoda até que se desmanchasse."Isso é sempre um sinal de prosperidade", Mãe disse. Aqui ela poderia ver bastante prosperidade! Sim, eu queria que ela pudesse ter esse saco todo de maçãs podres!

"Bem, o que você vai me dar por elas?" perguntou o ajudante do estalajadeiro.

"Dar por elas? Oras, eu vou te dar minha galinha!" Então ele passou-lhe a galinha, pegou as maçãs e foi para a estalagem, direto para o bar; Ele colocou o saco em pé apoiado no forno aquecedor, sem perceber que havia fogo nele. Havia um número de estranhos presentes, negociantes de cavalos, negociantes de gado e dois ingleses tão ricos que seus bolsos estavam cheios de moedas de ouro. Eles gostavam de fazer apostas, como os ingleses nas histórias sempre o fazem.

"Suss! Suss! Suss!" O que foi aquele barulho no fogão? Foram as maçãs que começaram a assar!

"O que é isso?" Todos disseram, e eles logo descobriram. Eles estavam ouvindo toda a história do cavalo que havia sido trocado primeiro por uma vaca e, finalmente, por um saco de maçãs podres.

"Bem, você vai ganhar uma boa surra da sua mulher quando voltar para casa!" disseram os ingleses. "Você vai se dar mal."

"Vou receber beijos, não pancadas", disse o fazendeiro. "Mãe dirá: 'O que o velho fizer, está certo'. "

"Vamos apostar nisso?" disseram os ingleses. "Temos ouro pela tampa! Cem libras esterlinas para cem libras de peso?"

"Vamos dizer um alqueire cheio", respondeu o camponês. "Só posso apostar meu alqueire de maçãs e a mim mesmo e a velha, mas acho que isso será mais do que uma medida completa."

"Aceitamos a aposta!" os ingleses exclamaram e a aposta foi feita! Então a carroça do estalajadeiro foi trazida para fora, os ingleses entraram nela, o fazendeiro entrou nela, as maçãs podres entraram nela e foram se embora para a cabana do velho.

"Boa tarde, Mãe."

"O mesmo para você, Pai."

"Bem, eu fiz a barganha."

"Sim, você sabe como fazer negócio", disse a esposa, e deu-lhe um grande abraço, esquecendo tanto o saco quanto os estranhos.

"Eu troquei o cavalo por uma vaca."

"Graças a Deus pelo leite!" disse a esposa. "Agora podemos ter leite, manteiga e queijo na nossa mesa! Que troca esplêndida!"

"Sim, mas eu troquei a vaca por uma ovelha."

"Isso é ainda melhor!" gritou a esposa. "Você é sempre tão atencioso. Temos bastante capim para uma ovelha. Agora nós vamos ter leite de ovelha, queijo de ovelha, e meias de lã, sim, e uma camisola de lã também. Uma vaca não poderia nos dar isso, ela perde todo o seu pelo, mas você é sempre um marido tão atencioso ".

"Mas então eu troquei a ovelha por um ganso."

"O quê? Será que realmente teremos ganso para a festa de São Miguel este ano, querido Pai? Você sempre pensa no que iria me agradar, e isso foi um pensamento lindo! Podemos amarrar o ganso, e vai ficar ainda mais gordo no dia de São Miguel. "

"Mas aí eu troquei o ganso por uma galinha", continuou o camponês.

"Uma galinha? Bem, isso foi um bom negócio!" respondeu sua esposa. "Uma galinha põe ovos e os choca e nós teremos galinhas. Imagine, um galinheiro! Exatamente a coisa que eu sempre mais quis!"

Sim, mas eu troquei a galinha por um saco de maçãs podres ".

"Então eu certamente devo te dar um beijo!" disse a esposa. "Obrigada, meu querido marido. E agora eu tenho algo para lhe dizer. Quando você saiu, decidi preparar um bom jantar para você - omelete com cebolinha. Agora eu tinha os ovos, mas sem cebolinha. Então eu fui até a escola, porque eu sei que eles têm cebolinha, mas aquela doce mulher é tão mesquinha que ela queria algo em troca O que eu poderia dar a ela? Nada cresce em nosso jardim, nem mesmo uma maçã podre; Eu não tinha nem isso para ela. Mas agora eu posso dar a ela dez maçãs ou mesmo um saco inteiro! Não é engraçado, Pai? ela disse e o beijou bem na boca.

"Eu gosto disso!" exclamaram os dois ingleses. "Sempre na pior, mas sempre feliz. Só isso já vale o dinheiro!" Então, eles ficaram muito contentes em pagar o alqueire de moedas de ouro para o camponês, que ganhou beijos em vez de pancadas por suas barganhas.

Sim, sempre compensa quando a esposa acredita e admite que seu marido é o homem mais sábio do mundo e que tudo o que ele faz está certo.

Bem, esta é a história. Eu ouvi quando era jovem, e agora você já ouviu, então você sabe que o que o velho faz está sempre certo."
Selo dinamarquês em homenagem a Andersen baseado nesse conto
Imagem: Fairy tales and stories (1900). Andersen, H. C. (Hans Christian), 1805-1875; Tegner, Hans, b. 1853, ill; Brækstad, H. L. (Hans Lien), 1845-1915 New York: The Century Co. Original em inglês na New York Public Library aqui.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Conto: "Era um menino muito tristinho e um velho sem nome"

Essa estória eu escrevi há alguns anos para falar sobre os direitos da criança e do adolescente no Colégio Interativo, aqui em Caruaru. Sempre que a conto, fico muito emocionada. Devo contá-la novamente na conferência municipal do Conselho de Direitos da Criança e do Adolescente de Caruaru, como introdução para a história do Estatuto da Criança e do Adolescente 😊

Era menino muito tristinho e um velho que não tinha nome
Gabriela Kopinits - a Cigana Contadora de Estórias


Era um menino muito tristinho
Vivia sujo, muito magrinho
Não tinha casa, não tinha nada
Papai e mamãe não tinha não...

(Melodia de “Era uma casa muito engraçada”)

Era uma vez um menininho. Pobre, sujo, magrinho. Vivia numa casinha que ele mesmo inventou, com paredes feitas de tábuas e tijolos que encontrou por aí. Dormia no chão, em cima de uma pilha de jornais velhos. Não tinha travesseiro, nem coberta. Não tinha banheiro, nem cozinha. Não tinha nome, não tinha pai, nem tinha mãe. Não sabia nem quantos anos tinha. Nunca comemorava aniversário. Aliás, aquele menino nem sabia o que era festa. A vida dele era uma vida muito dura.
Todo dia ele levantava bem cedo, antes mesmo do sol sair ou do galo cantar. Mas não era para ir à escola, não. Aliás, ele nunca tinha ido à escola. Nem sabia como era. Ele acordava assim, bem cedinho, para ir trabalhar. Sabe onde esse menininho trabalhava? No lixão, separando coisas que as pessoas tinham jogado fora mas que ainda pudessem prestar. Coisas que pudessem ser recicladas ou, se tivesse sorte, uma roupinha, um sapato ou mesmo um brinquedo velho e quebrado que servisse para ele, que nunca tinha ganhado um presente sequer.
Lá no lixão a vida era muito difícil. Todos os dias um monte de crianças e adultos disputavam cada chegada de caminhão, remexendo no lixo, rasgando as bolsas de plástico, as caixas de papelão, procurando algo que desse algum dinheiro, qualquer trocadinho valia a pena. Além da disputa, no meio do fedor danado daquelas montanhas de lixo, o menininho ainda tinha que enfrentar os bichos que andavam por ali. Tinha urubu, rato e barata e teve até quem tivesse visto uma cobra. Mas o pior de tudo eram os bichos que a gente não via: os micróbios e bactérias que vinham junto com aquela sujeira toda.
Mas o menininho era corajoso. Seguia arrastando seu carrinho de mão, feito de caixote de feira, sempre em busca de algum tesouro: jornal, garrafa PET ou latinhas de alumínio, que era o que dava mais dinheiro.
Nesse dia ele teve sorte. Achou um monte de jornal e de revista, limpinhos. Pegou um monte, encheu seu carrinho e já ia se afastando quando encontrou um objeto que chamou a sua atenção. Era um livro! A capa toda colorida, mostrava um menino e sua família – deviam ser os seus pais – todos sorrindo contentes. O coração dele se encheu de um sentimento bom, que lhe aqueceu por dentro e fez esquecer até da fome que sentia.
Mas que pena que ele não sabia ler... Aquele livro devia contar a estória do menino da capa. Ele o abriu e folheou com cuidado para não rasgar, nem sujar o papel, ainda branquinho.  O livro era cheio de figuras mostrando o menino em várias situações: em casa, na rua brincando com os amiguinhos, na escola (pelo menos ele imaginava que aquilo era a escola).
Ele bem que gostaria de saber ler para poder ver como era a vida daquele outro menino, como era viver numa casa de verdade, de tijolo e alvenaria, com comida na mesa, com o carinho e a proteção de pai e mãe.
Ele nunca tinha conhecido nada daquilo e ansiava por saber como era viver outra vida. Um suspiro saiu de seu peito. Desde que se entendia por gente vivia sozinho. Não sabia como tinha nascido, nem onde. Sempre tinha pensado que era feito uma plantinha, que um dia brotou ali e ali mesmo cresceu.
O sol já estava forte e ele resolveu se apressar para levar seus achados para vender. Quem fazia esse meio de campo era o Velho, que tinha uma espécie de escritório perto do lixão. O menino foi empurrando o carrinho até lá. O Velho estava só.
- Bom dia! – cumprimentou respeitoso o menino. O Velho lhe inspirava um pouco de medo, sempre sério, de cara amarrada.
O homem ignorou o cumprimento:
- O que você tem aí?
- Jornais e revistas quase novos. – Respondeu o menino orgulhoso.
- Passe pra cá! – ordenou seco.
O menino obedeceu e descarregou o carrinho. O livro colorido, do menino feliz, ficou lá no fundo. O Velho notou.
- E esse aí?
O menino meneou a cabeça.
- Esse é meu.
O Velho soltou uma risada.
- E você sabe ler, moleque?
O menino levantou para ele os mansos olhos castanhos.
- Sei não, senhor!
- Então pra que quer um livro? – a pergunta foi num tom mais manso, mas cheio de curiosidade.
O menino pegou o livro e mostrou-lhe a capa.
- É que este livro deve contar uma estória muito boa, a estória desse menino aqui. Veja como ele está feliz, com a família dele.
Estendeu o livro para o Velho, que o pegou.
- Sim, ele parece mesmo muito feliz. Você gostaria de aprender a ler? – perguntou, surpreendendo o menino.
Os olhinhos se iluminaram.
- Oh, sim, eu queria muito, mais que tudo no mundo!
- Se é assim, vou lhe ensinar.
E daquele dia em diante a vida do menininho mudou bastante. Continuava acordando cedo, mas não era mais para ir ao lixão. Ia direto para o escritório do velho que passou a ensinar-lhe as letras e a cuidar dele. O menininho, que era corajoso, mostrou que também era muito dedicado. Aplicado, logo aprendeu todo o alfabeto, a juntar vogais e consoantes em sílabas, a construir suas primeiras palavrinhas. Um dia, o velho veio com um embrulho. Deu-o ao menino, que o abriu curioso. Era aquele livro que ele tinha encontrado no lixão e que o velho tinha guardado. Na capa, em cima da ilustração do menino sorridente com os pais, o menininho conteve a respiração. Devagar, soletrando as letras, uma por uma, e juntando as sílabas, conseguiu ler: “Direitos e deveres da criança”.
Emocionado, o velho pediu:
- Leia o nome do autor.
Estava escrito logo abaixo da ilustração. O menininho leu vagarosamente:
- Jota-O-A-O til – João – A-Ele-Vê-E-Esse – Alves. João Alves!
O velho fechou os olhos e o menininho viu que ele chorava calado.
- Por que o senhor está chorando? – ele perguntou.
O velho abriu os olhos, fixando-os na criança.
- É que todos temos um nome. O meu não é “Velho”.
- E qual é o seu nome? – perguntou o menininho.
- Eu havia me esquecido dele até que você entrou por aquela porta com esse livro. Leia de novo o nome do autor.
O menino obedeceu.
- João Alves.
- Pois é, esse é o meu nome. Fui eu quem escreveu esse livro. Há muito tempo atrás, em outra vida. Se quiser, posso lhe contar essa estória.
O menino aquiesceu.
- Sente-se aqui – disse o velho, mostrando um banquinho. - A estória é longa.
O menininho se sentou e esperou.
- Há muito tempo atrás...
Ele nunca soube se o outro, o menino da capa - era mesmo feliz ou não. A estória que ele ouviu naquele dia valia mais que mil livros juntos. Era a estória de um homem que tinha passado a vida ensinando crianças, mas que, um dia, por um capricho do destino, perdeu a fé e deixou a tristeza habitar em seu coração. Desistiu de tudo, perdeu tudo, inclusive seu nome. Até que um dia apareceu em sua porta um menino muito tristinho, que vivia sujo, muito magrinho, que não tinha casa, não tinha nada, apenas muito vontade de aprender a ler.
Caruaru, 09/10/2016

Conto: "A mulher que colecionava domingos", de Cristina Porcaro

  Ela se chamava Isadora, mas poderia se chamar Flora, Ana ou mesmo Sossego e tinha o hábito de, estranhamente, colecionar domingos. Não em ...