quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Artigo: "Como escolher boa literatura para crianças?" - Yolanda Reyes

Estava procurando a página do projeto Ler Faz Crescer, da Fundação Itaú (eles estão com nova coleção!), quando vi a indicação desse artigo, da Yolanda Reyes:


"Yolanda Reyes nasceu na Colômbia, é educadora, fundadora e diretora doInstituto Espantapájaros, em Bogotá – um projeto cultural de formação de leitores, dirigido não apenas as crianças, mas também a mediadores e adultos. Especialista em fomento à leitura, consultora, autora de artigos e livros sobre o tema da leitura, é autora de A casa imaginária: leitura e literatura na primeira infância (Global, 2010). É colunista do diário El Tiempo, de Bogotá e também se destaca pela sua obra literária para crianças e jovens. Dentre seus livros publicados no Brasil, destacamos É terminantemente proibido, A pior hora do dia, Saber perder e Terça-feira: 5ª aula (FTD) e Um conto que não é reconto (Mercuryo Jovem)."


Leia o artigo na íntegra:


Revista Digital Emilia

Como escolher boa literatura para crianças?
Buscando critérios para a escolha de livros
POR YOLANDA REYES
Essa é a pergunta mais frequente que os pais me fazem e não gosto de respondê-la em abstrato, pois se cada criança é diferente, os pais também são, e cada pessoa tem seus gostos, suas perguntas, suas maneiras de ler... Isso sem falar nas idades, porque temos incluídos nesse rótulo que os adultos denominam, genericamente, "crianças", desde os bebês até os adolescentes.
Mas essas também são categorias abstratas, porque um bebê pode gostar dos animais, enquanto outro pode preferir flores, e uma menina de dez anos pode odiar poemas, que outra criança adora. O mesmo ocorre com os romances de aventura, ou os que falam da vida real. O mesmo com os monstros e com as fadas. Alguns gostam de contos, outros, de histórias em quadrinhos. Alguns querem muitas ilustrações, outros, letras pequenas. E isso sem falar dos momentos, porque há livros para ler à noite e outros para ler durante o dia. Há livros para chorar e outros para rir. Alguns são perfeitos para responder àquela pergunta que não sai da nossa cabeça, enquanto outros nos deixam um monte de novas perguntas. Às vezes, precisamos de uma resposta e, às vezes, precisamos de mais perguntas.
E por aí vai...
Então, não existe resposta?
Na verdade, não existe receita.
Ou talvez pudesse haver uma: para uma criança ler, só precisa saber ler.
Ler como? Ler o quê?

1. Ler para as crianças
Quem são e do que eles gostam. O que eles nos dizem todos os dias – e o mais importante: o que eles não nos dizem. O que os faz perder o sono e o que os faz sonhar. De que brincam e com que brincam, com que se divertem, o que os faz chorar. O que sentem com os livros que vêm em casa, na biblioteca, na livraria, ou na sala de aula. Quais eles preferem. Eles podem ser totalmente distintos mesmo sendo gêmeos ou sentados numa mesma carteira. Nenhum especialista sabe o que você sabe sobre essa criança concreta que espera aquele livro em particular, em um momento preciso de sua vida. Confie na sua sabedoria instintiva. Seus próprios filhos são o seu primeiro texto de leitura.

2. Ler o livro, panoramicamente
Como você lê o descritivo das vitaminas numa caixa de cereal? Usando seus critérios. Você não compra a caixa de cereais apenas porque é mais colorida ou se tiver um personagem de Walt Disney. Tampouco compra um disco sem olhar a capa e as músicas que ele contém e, muitas vezes, inclusive, pede para ouvir.
Isso que é feito na loja de discos, ou na livraria antes de comprar um livro, para você, deve ser feito quando se trata dos livros para as crianças. Não compre o primeiro que lhe oferecem. Antes de olhar se tem capa dura ou adesivos, pergunte ao livro:
a) Quem assina? 
Você não compra um livro anônimo, a menos que seja a Canção do Mio Cid. Nem é a mesma coisa comprar um romance de Saramago ou de um "escritor fantasma". O mercado está cheio de livros infantis assinados por multinacionais. Como em qualquer literatura, um verdadeiro escritor de livros para crianças garante o que escreve com a sua assinatura.
b) Quem é o ilustrador? 
Nos álbuns ou livros de imagens, a ilustração é uma linguagem tão válida quanto o texto. Aprenda a diferenciar"desenhos" de uma ilustração com caráter e estilo próprios. (Aqui também, a assinatura de um ilustrador é uma garantia de que alguém está por trás desse trabalho.) Você está educando o olhar de uma criança. Cuidado com os estereótipos: o sol com rosto feliz ou a típica casinha triangular. Olhe mais longe: peça a ilustração que não se limite a repetir o que dizem as palavras, que as amplie, que brinque com elas; que proponha novas leituras; que deixe um espaço para a imaginação. Os bons livros de imagem podem ser o museu de uma criança.
c) É versão original ou adaptação? 
No caso dos contos de fadas, das histórias de tradição oral ou dos clássicos, o livro deve dizer se é uma adaptação ou uma versão original. É diferente ler o Chapeuzinho vermelho de Perrault ou dos irmãos Grimm a ler uma adaptação, onde pode ter se perdido a força da linguagem e a carga simbólica das imagens. Cuidado, também com os romances simplificados. Alice no país das maravilhas, de Carroll,Pinóquio, de Collodi, Peter Pan e Wendy, de Barrie são novelas complexas e muito lindas e devem ser lidas no seu devido tempo. Ler essas obras resumidas em continhos de poucas páginas é como ler A Odisseia em um resumo de escola. É melhor que a criança possa desfrutar de toda a riqueza da obra quando crescer um pouco mais. Desconfie, também, dos clássicos para adultos em versões infantilizadas. Virá, no devido tempo, o momento de desfrutar a verdadeira voz de Shakespeare ou Cervantes.
d) Qual é a idade sugerida? 
A maioria dos editores oferece sugestões de idade. Leve em conta essas recomendações, porém enriqueça-as com os seus critérios. Existem livros para todas as idades; há outros sem idade. Além disso, nem todos os processos leitores são os mesmos. A idade cronológica de um leitor é apenas uma das variáveis. Coteje a sugestão da editora com o seu conhecimento e o dessa criança de verdade que vai receber o livro.
e) Que editora publica esse livro? 
Além do nome, verifique a cidade, o ano da publicação, o nome do tradutor etc. Desconfie se essas informações não estiverem explícitas. Vire as páginas; leia a capa e a contra capa. Você vai encontrar dados sobre o livro e seu autor que lhe darão as primeiras pistas.

3. Envolva as crianças na pesquisa
Leve as crianças a bibliotecas públicas e livrarias. Leia com elas e companhe-as em seu processo de crescimento como leitores. Acredite na palavra da criança, mas ao mesmo tempo, ofereça ferramentas para que possa ir educando os seus critérios. Na medida em que uma criança tem contato com literatura de qualidade, ela irá refinando a sua sensibilidade e tornando-se cada vez mais exigente. Nem sempre o que é fácil, o que está na moda ou o que está no topo da lista dos "mais vendidos" é o melhor. Não se deixe, tampouco, tentar pelas coleções completas que não garantem, por si só, a qualidade de cada título. Dê liberdade de escolha, mas ofereça, também, a riqueza de sua experiência como leitor adulto. E não queira acertar sempre. Ler é também equivocar-se.

4. Busque assessoria
O campo da literatura infantil é enorme. Muitos autores, ilustradores, gêneros e tendências que não conhecemos quando éramos crianças têm enriquecido enormemente as opções de leitura. Não fique limitado ao que você leu na infância. Aproveite as crianças para descobrir novas obras e não pretenda conhecer tudo. Busque um livreiro ou um bibliotecário que conheça literatura infantil. Consulte as listas de livros recomendados, as publicações sobre o assunto e as instituições que promovem a leitura. Você vai se surpreender com as descobertas e encontrará livros, não só para ler com seus filhos, mas também para você.

5. Não confunda uma obra literária com um livro didático
Assim como você procura muito mais que ensinamentos explícitos quando lê um romance de García Márquez, seu filho busca na literatura muito mais que um ensinamento moral. A literatura se move na esfera do simbólico e apela à experiência profunda dos seres humanos. Desconfie das mensagens explícitas e das morais óbvias. O mercado está cheio de livros infantis que "disfarçam" – sob o título de "conto" – as intenções didáticas dos adultos. Aprenda a diferenciar os manuais de autoajuda das obras literárias. A literatura não pretende explicar valores, letras do alfabeto, regras de polidez ou mensagens ambientais. Leia nas entrelinhas e não escolha um livro só pelo seu tema, mas pela sua forma e pela maneira como um autor constrói uma voz e um mundo próprios. Desconfie dessa linguagem pseudoinfantil, cheia de diminutivos e de histórias light, onde os protagonistas são tão perfeitos como ursos de pelúcia. (Seu filho vai ser o primeiro a "não engolir a história".) Os livros infantis podem ser atrevidos, transgressores, irreverentes, sutis, inteligentes, tristes... Todas essas nuances, que constituem a infinita variedade da experiência de um ser humano, alimentarão o mundo interior das crianças e lhes darão as chaves secretas para descriptografar muito sobre sua própria vida e sobre as emoções, sonhos e pesadelos sobre fantasia e realidade.
Quando você for ler literatura para uma criança, deixe-se tocar pela linguagem cifrada e misteriosa dos livros. Todo o resto virá depois.

TRADUÇÃO: DOLORES PRADES

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Ler faz crescer

"Ler faz crescer" é a nova campanha da Fundação Itaú Cultural para incentivar a leitura através da contação de estórias. A fundação está distribuindo milhares de kits com 4 livros super legais, de graça. A única exigência é que as estórias sejam contadas e depois os livros sejam passados para outra pessoa contá-las a outras crianças. A proposta é nobre e eu já me inscrevi. Recebi os quatro livrinhos, todos maravilhosos - um até de poesias e um de jogo de parlendas. Quem se interessar, é só visitar o site do projeto - www.lerfazcrescer.com.br - preencher os dados e esperar o pacote com os livrinhos. Pode demorar um pouco a chegar, mais de 40 dias, mas se ainda tiverem no estoque, com certeza vão chegar na sua casa.
No pacote, vem ainda um encarte muito útil, com dicas para contadores de estórias. Leia o texto publicado no site do projeto:



Por que ler histórias para crianças?

Em primeiro lugar, porque isso lhes dá prazer. Elas também aprendem com as histórias outras culturas, conhecem seus valores, modos de ser e viver. E, quando uma criança pede repetidamente que lhe contem uma história, provavelmente, encontre, nos fatos narrados, acontecimentos que se relacionam com sua vida, seus medos e seus desejos. Na escuta das histórias e “causos”, as crianças também aprendem a separar o que faz parte da realidade e o que é da ordem do imaginário. E, nesse sentido, desenvolvem a imaginação, inventam e sabem que no mundo do “faz de conta” tudo é possível. Com isso vão entendendo, ainda que de forma sutil, a passagem do tempo, a idéia de passado e de memória.
Muitos estudos mostram que o adulto tem papel fundamental para que a criança coloque a leitura e a escrita como foco de atenção. É a companhia do adulto que a atrai para folhear um livrinho, imaginar cenas de uma história, perguntar o que está escrito ou prestar atenção na narrativa lida.
Por isso, é importante que as crianças possam vivenciar a escuta de histórias interagindo com um adulto. Nesses momentos, o adulto lê alguns trechos, conta outros, dramatiza a voz de alguns personagens, chama a atenção para a ilustração. Nessa situação faz vários jogos verbais: cadê o porquinho? Quem é esse aqui? O que a menina está fazendo? Como a mãe faz quando está brava?
Essa prática possibilita que a criança passe do papel de ouvinte participante para o de leitor. Aos poucos será capaz de ocupar esse lugar, apoiando-se na ilustração, na memória e na colaboração de alguém mais experiente.

Dicas para tornar-se um grande contador de histórias:

  1. Escolha as histórias que você gosta ou gostava de ouvir. É preciso gostar do que se lê, para contagiar o ouvinte.
  2. Encontre um lugar inusitado. Um sofá, a sombra de uma árvore, um pequeno tapete, os primeiros degraus de uma escada.
  3. Dê vida aos personagens. Capriche no ritmo, na entonação e use todo seu corpo para dar vida ao enredo.
  4. Aposte na memória das crianças. Experimente, aos poucos, ir dividindo com elas a narrativa e as falas da história.
  5. Lembre-se de que a experiência com a escuta deve começar e terminar com a própria narrativa. Não busque explicações, justificativas, pretextos. A história precisa se bastar: a experiência se conclui com o desfecho do enredo.
  6. Fisgue pelo olhar. Convide a criança par mergulhar na aventura, se surpreender e tentar adivinhar o que está por vir.
  7. Tenha em mente que a leitura de um texto não se esgota em uma primeira leitura. Cada vez que você lê a história, a criança descobre mais detalhes, novas possibilidades e outros entendimentos.
Fonte: Fundação Itaú Social - Projeto Ler Faz Crescer

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Começa hoje a Fliporto - Festa Literária Internacional de Pernambuco

Puxa, faz um bom tempo que não escrevia nada... Estou ocupada até as orelhas fazendo o BTTC - Basic Teachers Training Course da Cultura Inglesa e cuidando dos meus dois filhos pequenos, de modo que me sobra quase tempo nenhum para o restante dos meus projetos.

Hoje, por exemplo, começa a 6ª Fliporto e a 1ª Feira do Livro de Pernambuco, que acontecem, este ano, pela primeira vez, na Praça do Carmo, em Olinda. Gostaria tanto de ir! Foram convidados 40 escritores e vai haver um monte de mesas-redondas, palestras e debates.
"Entre os artistas participantes da festa, pela primeira vez este ano em Olinda --que sucede Porto de Galinhas--, estão o italiano radicado no Brasil Contardo Calligaris e o brasileiro Moacyr Scliar - vencedor do Prêmio Jabuti de 2009 -, o norte-americano Mark Dery e o argentino Ricardo Piglia, além dos biógrafos da escritora Clarice Lispector, o norte-americano Benjamin Moser e a brasileira Nádia Gotlib", informa a Redação do UOL. Para as crianças, também haverá um espaço especial, segundo a matéria do UOL: "Extensão infantil do evento literário, a Fliporto Criança prevê a realização de oficinas de gastronomia, desenho, reciclagem de lixo, pintura e artesanato; oferece espaço recreativo --também chamado de Praça Clarice Lispector--, tendas de apresentações e contação de histórias da vida judaica por meio de uma carroça itinerante".
Paralelo ao evento, que vai até o dia 15, haverá uma feira de livros, oficinas e apresentações.
Para mais informações, visite o site da Fliporto 2010.

Serviço:

6ª FLIPORTO (FESTA LITERÁRIA INTERNACIONAL DE PERNAMBUCO)
Onde: Praça do Carmo, Olinda-PE
Quando: de 12 a 15 de novembro de 2010
Quanto: passaporte geral a R$ 80 (R$ 40 meia)
Informações: 0/xx/81/3269-6134.

domingo, 18 de julho de 2010

Palavra Cantada

Sandra Peres e Paulo Tatit

Faz pouco tempo que conheci esse grupo maravilhoso, formado pela Sandra Peres e pelo Paulo Tatit. É uma dupla de músicos extremamente talentosa, formada em 1994 com a proposta de apresentar músicas infantis - resultado de composições próprias e de pesquisas - de uma forma lúdica, bem arranjada, produzida e cuidada. A Sandra Peres parece uma bruxinha encantada, daqueles que mexem seu caldeirão só para produzir poções mágicas e espalhar o bem. Tem uma voz macia e uma performance muito bacana. O Paulo Tatit é um músico muito talentoso, formando com a Sandra uma dupla fantástica, que já produziu dezenas de cd's  e clipes que recomendo com entusiasmo a pais e a educadores:

Discografia e DVD's: “Canções de Ninar” (1994); “Canções de Brincar” (1996); “Cantigas de Roda” (1998); “Canções Curiosas” (1998); “MilPássaros”(1999); “Noite Feliz” (1999); “Canções do Brasil” (2001); “Meu Neném” (2003); CD e DVD “Palavra Cantada 10 anos” (2004); DVD “Clipes da TV Cultura”; “Pé com Pé” (2005); DVD "Canções do Brasil" (2006); DVD "Pé com Pé"(2007); CD "Carnaval Palavra Cantada"(2008); "Palavra Cantada Tocada"(2008); "Canciones Curiosas - palabra cantada en español"(2008).

Ah, o grupo se apresentou ontem, no Caldeirão do Huck, com "Mamãe Água", a música vencedora do concurso promovido pela Natura para destacar a importância da água. Foi lindo...

Conheça mais um pouco do Palavra Cantada aqui e veja na seção "Apresentação de contadores" o vídeo da música "O rato", que dá uma bela  estória para ser cantada e contada.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Conto: "A agulha e a linha" - Machado de Assis

Estava assistindo hoje ao programa Mundo da Leitura, no Futura, quando apresentaram um conto que eu já tinha lido há muito tempo: "A agulha e a linha", de Machado de Assis. É muito interessante e serve para ilustrar um duelo entre o orgulho e a humildade.

"A agulha e a linha"
Machado de Assis

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
- Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma coisa neste mundo?
- Deixe-me, senhora.
- Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável?
- Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
- Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça.
- Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
- Mas você é orgulhosa.
- Decerto que sou.
- Mas por quê?
- É boa ! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
- Você?! Esta agora é melhor. Você que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?
- Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...
- Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando...
- Também os batedores vão adiante do imperador.
- Você, imperador?
- Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...
Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em  casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela.
Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser.
Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana - para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
-Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco?  Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...
A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas.
A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura para o dia seguinte; continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.
Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:
- Ora, e agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:
- Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.

Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanado a cabeça:
- Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária.

Fazendo bonecas de papel e colorindo desenhos

Bonecas de papel para recortar e brincar
Hoje eu voltei ao passado. Estava procurando desenhos para imprimir para minha filha colorir quando encontrei um blog sobre bonecas de papel. Gente, que delícia! Revi as bonecas da minha infância, lembrei de como eu era, ainda tão tenra, criança cheia de sonhos, risonha, encantada com o mundo dos livros, do faz-de-conta... Eita, que coisa mais gostosa! E eu queria partilhar isso com você, que está lendo esta postagem agora. Talvez também lhe traga boas recordações. O blog é o Bonecas de Papel. Vale a pena visitar!

Ah, hoje estava no banheiro, em uma atividade rotineira, quando minha filha, que vai fazer 2 anos no mês que vem, entrou e sentou-se em sua cadeirinha-penico. Ela queria conversar e eu tentei argumentar que estava fazendo "aquilo", que não era um bom momento para ela ficar comigo... hehehe... mas ela nem quis saber. Queria ficar "boigo", que é como ela fala "comigo". Pois bem, pensei e logo tive uma ideia. Peguei um livro que estava lendo, da Betty Coelho sobre a Arte de Contar Histórias (excelente, recomendo), e comecei a contar a estória da menina bailarina que estava na capa. Gente, ficou uma estória tão legal, a menina ganhou um par de sapatilhas encantadas que acabaram virando um pesadelo (tipo aquela estória dos sapatinhos vermelhos), mas foi salva pela mãe (resumindo muito, que depois posto aqui a estória completa, do jeito como contei para Vivi), que senti vontade de correr pro computador e digitá-la antes que eu me esquecesse dela... Pois é, criatividade é que nem músculo, tem que exercitar sempre!

Sim, antes que eu me esqueça de outra coisa: estava falando dos desenhos para colorir. Imprimi muitos para minha filha, de princesas, Turma da Mônica, Barbie e tal, desse site - http://www.desenhosparaimprimir.org/. Montei a mesinha dela, com os lápis de cor e de cera, canetinhas, borrachas e tudo o mais e coloquei os papéis para ela pintar. Ela a-d-o-r-o-u!!!

E falando em desenhos para colorir, achei um artigo interessantíssimo, que achei legal publicar aqui:


"Por que atividades de colorir são importantes?


Colorir desenhos é uma atividade tão natural para as crianças como dormir e chorar. Muito mais do que formas aleatórias, colorações monocromáticas ou rabiscos quase ilegíveis, o ato de colorir é extremamente importante nos artistas de palmo e meio, incentivando o desenvolvimento de várias e essenciais capacidades.

Expressão pessoal - Desenhar e colorir são formas de expressão pessoal por excelência das crianças, que nem sempre conseguem exprimir-se adequadamente através da fala ou da escrita. Vários estudos já comprovaram que é bastante fácil perceber o que alguém está a sentir através das imagens que desenha ou das cores que utiliza para colorir. Por exemplo, uma criança que desenha facas, pistolas, caveiras ou outros objetos perturbantes pode estar a pedir ajuda. Por outro lado, uma criança que desenha o sol, passarinhos, corações ou outros objetos alegres, pode estar a expressar o seu contentamento,a sua forma feliz de ver a vida. É um exercício excelente para desenvolver personalidades e deixar a criatividade fluir!

Identificação das cores - A maioria das crianças tem a sua primeira (e muitas vezes única!) exposição à roda das cores e ao conceito de arte, graças às brincadeiras infantis com lápis de cor, de cera e marcadores. Aprender a distinguir as diferentes cores bem cedo, é meio caminho andado para perceber as suas várias e corretas aplicações, bem como possíveis misturas entre cores primárias e secundárias, mais tarde.

Uma forma de terapia - O simples ato de colorir pode ser terapêutico para muitas crianças e é uma atividade utilizada em muitos hospitais, centros de aprendizagem e instituições para possibilitar o descarregar de emoções, sentimentos e frustrações. Uma criança zangada pode perfeitamente pintar o seu desenho de uma árvore toda preta, a tal ponto que a própria figura deixe de ser visível. De outra perspectiva, uma criança organizada, que gosta das coisas à sua maneira, pode colorir o seu desenho meticulosamente, sem ultrapassar qualquer linha do mesmo. Independentemente da forma como vai colorir ou desenhar, esta é uma excelente forma de acalmar as crianças.

Aprender a segurar e a controlar - Um lápis de cera é, para muitas crianças, o primeiro objeto que aprendem a segurar, para o poderem controlar. Dominar um lápis de cera é a rampa de lançamento para conseguirem dominar as restantes ferramentas de colorir lápis de cor, marcadores, pincéis e, mais tarde, os de escrita caneta e lápis. Quanto mais bem desenvolvidas estiverem as suas capacidades de segurar e de controlar um lápis de cera, mais facilitada será a sua aprendizagem mais tarde, quando começarem a escrever.

Coordenar para pintar - O desenvolvimento da coordenação olho-mão é outra grande lição que as crianças retiram das suas sessões de colorir. Desde segurar firmemente o lápis de cera, a reconhecer as cores que devem ser utilizadas, até ao ato de afiar os lápis, a verdade é que colorir desenhos implica uma enorme coordenação entre os olhos e as mãos. Quanto mais praticarem, mais vão desenvolver esta aptidão tão básica para a vida.

Aperfeiçoamento das capacidades motoras - Colorir é divertido, não é? Pois é! Mas também é muito mais do que isso enquanto as crianças se entretêm a colorir, interagindo com marcadores, tintas, lápis de cor, de cera e papel, estão a trabalhar e a fortalecer os músculos das mãos. Colorir exige uma coordenação básica e um esforço conjunto entre os músculos dos braços e os das mãos que, uma vez desenvolvidos, permitirão às crianças executar atividades mais exigentes, mas com dificuldade mínima.

Concentração máxima - As crianças que se dedicam a 100% à coloração dos seus desenhos fazem-no na perfeição: não há espaço que fique por preencher, nem linha que tenha sido cruzada! E isto por quê? O simples ato de colorir tem a capacidade de prender a atenção de uma criança, estimulando a sua concentração máxima, mesmo face a um ambiente barulhento como uma sala de aula ou na cozinha antes da hora de jantar. Com o passar do tempo, os seus níveis de concentração vão continuar a melhorar.

Estabelecer limites - Uma criança mais nova não saberá respeitar as linhas do seu desenho tão bem como uma criança mais velha que já faz um esforço enorme para colorir dentro das mesmas mas depressa ela chega lá! E ainda bem! Reconhecer e respeitar estes limites (mesmo que sejam os de um desenho!) é uma excelente experiência e método de aprendizagem para aquilo que se segue: escrever letras e números nas linhas de um caderno!
Missão cumprida!

A satisfação e o sorriso na cara de qualquer criança que consegue colorir um desenho inteiro dentro das linhas, é uma vitória muito importante para os artistas de palmo e meio! O sentido de cumprimento, de que tudo é possível, é fundamental para as crianças porque dá-lhes motivos para se sentirem orgulhosos, capazes, confiantes e, claro, para ser congratulado pela sua comunidade mais imediata. Para além disso, é um sentimento de missão cumprida que dificilmente esquecerão."

sábado, 5 de junho de 2010

O barulho que se faz quando se joga estrelas para o céu

Fogos de artifício são estrelas que o homem joga lá para o céu!

Estava dando banho no meu filho caçula, de 4 meses, quando começaram a espocar os foguetes e fogos de artifício pois hoje, aqui em Caruaru, é a Noite dos Fogueteiros, festa tradicional do nosso São João, tido como o Maior e Melhor do Mundo (que os paraibanos me perdoem a falta de modéstia... hehehe). Minha filha, de 1 ano e 10 meses, tem medo de barulho e fugiu, acuada, para o cantinho atrás da banheira. Eu tinha que tirar aquele medo de barulho dela, ou ela iria sofrer. Já não gostava quando usamos o liquidificador, a batedeira ou a furadeira... Era hora de acabar com aquilo.
Pensei rápido e tive uma ideia.
- Filha, não precisa ter medo desse barulho. São só os moços acendendo foguetes de estrelas para que o céu não fique sem elas. O céu não é cheinho delas? Então, são esses moços que jogam mais, lá para cima, quando as estrelinhas de lá do céu estão se acabando. E esse barulhão todo é porque o céu é muito longe, muito alto, e tem que ter muita força para jogar a estrela até lá.
Ela me olhou meio desconfiada.
- Vivi tem medo... – balbuciou.
- Precisa ter medo não, filha. Veja, depois que mamãe der banho no seu irmãozinho e colocá-lo para dormir no bercinho, mamãe vai te levar lá fora no quintal para você ver quanta estrelinha nova tem hoje lá no céu! Tem estrelinhas cor-de-rosa, vermelhas, azuis, verdes, amarelinhas, douradas e até prateadas! Você pode até escolher uma e dar um nome a ela. Ela será sua amiguinha e você poderá vê-la sempre brilhando lá no céu!
Ela pareceu gostar da ideia, pois saiu do seu esconderijo e ficou me esperando terminar o banho do irmãozinho. Nossa secretária entrou no quarto e eu expliquei a ela que Vivi queria ver as estrelas novas que os moços que soltam foguetes estavam jogando para o céu.
Ela entendeu o artifício e chamou Vivi.
E lá se foram as duas, minha filha com os olhinhos brilhando de curiosidade para ver as novas estrelinhas que os moços daqui da terra tinham jogado para o céu.
Essa estorinha me inspirou... pode até virar outro livrinho da Cigana Contadora de Estórias, quem sabe?

Conto: "A mulher que colecionava domingos", de Cristina Porcaro

  Ela se chamava Isadora, mas poderia se chamar Flora, Ana ou mesmo Sossego e tinha o hábito de, estranhamente, colecionar domingos. Não em ...