quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Conto: A fonte das três comadres

Esta versão é de Theobaldo Miranda Santos, mas há uma que adoro, adaptação que Monteiro Lobato fez do conto recolhido pelo mestre Silvio Romero.
A fonte das três comadres
Era uma vez um rei muito poderoso que teve uma enfermidade nos olhos e ficou completamente cego. Consultou então os melhores médicos do mundo, tomou todos os remédios aconselhados pela ciência, mas nada conseguiu. Sua cegueira parecia incurável. Um belo dia, apareceu no palácio uma velhinha pedindo esmola e, sabendo que o rei estava cego, pediu licença para dirigir-lhe a palavra, pois desejava ensinar-lhe um remédio maravilhoso. Conduzida à presença do rei, ela lhe disse: 
— Saiba Vossa Majestade que só existe uma coisa capaz de fazer voltar sua vista: é banhar seus olhos com água tirada da Fonte das Três Comadres. É muito difícil, porém, ir a essa fonte que fica num reino situado quase no fim do mundo. Quem for buscar a água deve entender-se com uma velha que mora perto da fonte. Ela conhece o dragão que guarda a fonte e sabe quando ele está acordado ou adormecido. 
O rei ficou muito satisfeito com a informação da velhinha e recompensou-a com uma bolsa cheia de dinheiro.
Mandou, em seguida, preparar uma esquadra para conduzir seu filho mais velho que deveria ir buscar a água da fonte milagrosa. Deu-lhe o prazo de um ano para cumprir sua missão, aconselhando-o a não saltar em nenhum porto para não se distrair do que devia fazer. O príncipe partiu, mas no meio da viagem, encontrou uma cidade onde havia muitas festas e lindas moças. Atraído pelos divertimentos, aí ficou gastando todo o dinheiro que levava e contraindo grandes dívidas. No fim do prazo que lhe fora marcado, não seguiu viagem nem voltou ao reino do seu pai, o que causou a este profundo desgosto.
Resolveu então o rei preparar outra esquadra a fim de que o seu segundo filho fosse buscar a água maravilhosa. O moço partiu, mas encontrou em seu caminho a mesma cidade onde se havia arruinado o seu irmão mais velho. Ficou também encantado pelas festas e pelas moças bonitas, e gastou tudo o que trazia, esquecendo-se da missão que seu pai lhe confiara. No fim de um ano, ainda se encontrava nessa cidade, pobre e endividado.
O rei, ao saber da notícia do que acontecera ao seu segundo filho, ficou muito triste e desanimado. E perdeu a esperança de curar sua cegueira. Mas seu filho mais moço, que era ainda um menino, não se conformou com os acontecimentos e disse-lhe: 
— Agora, meu pai, eu é que vou buscar a água. Garanto-lhe que hei de trazê-la! 
O rei procurou dissuadi-lo:
— Se seus irmãos, que eram homens nada conseguiram, que poderá você fazer, meu filho? 
Mas, o pequeno príncipe tanto insistiu e rogou que o pai acabou cedendo. E mandou preparar uma esquadra para sua viagem. O jovem partiu cheio de esperança. Depois de muito navegar, encontrou a famosa cidade onde seus irmãos já se achavam presos pelas dívidas que haviam contraído. O príncipe pagou as dívidas dos irmãos e conseguiu pô-los em liberdade. Estes tudo fizeram para dissuadir o rapaz de seguir viagem.
Mas o príncipe nada quis ouvir e continuou, resolutamente sua jornada.
Chegando à região onde se encontrava a Fonte das Três Comadres, desembarcou sozinho, levando apenas uma garrafa. Seguiu logo para a casa da velhinha, que residia perto da fonte. Esta, ao vê-lo, ficou muito admirada, dizendo: 
— Por que veio aqui, meu netinho? Está correndo um grande perigo! O monstro que vigia a fonte é uma princesa encantada que tudo devora. Se quiser, realmente, apanhar água da fonte, aproveite a ocasião em que o monstro estiver adormecido. Quando ele estiver com os olhos abertos, pode aproximar-se sem receio. É sinal de que está dormindo. Mas se o encontrar com os olhos fechados, fuja depressa, pois ele estará, na certa, acordado.
O príncipe prestou bastante atenção aos conselhos da velha e seguiu para a fonte. Quando lá chegou, viu que a fera estava com os olhos abertos. Verificando que ela estava dormindo, o príncipe aproveitou o momento para encher sua garrafa com a água milagrosa. Mas, quando se ia retirando cuidadosamente, o monstro acordou e lançou-se, com fúria, sobre o rapaz. Este puxou da espada e travou uma luta terrível com a fera. Depois de muito lutar, conseguiu ferir o horrendo bicho e fazer seu sangue correr. Nesse momento, o monstro se desencantou, transformando-se numa belíssima princesa. O príncipe ficou extasiado, pois nunca tinha visto uma moça tão formosa. Ela então lhe disse: 
— Prometi que havia de me casar com aquele que me desencantasse. Portanto, dentro de um ano, virás buscar-me. Se não o fizeres, irei à tua procura. 
E para que o jovem pudesse ser reconhecido quando fosse buscá-la, a princesa deu-lhe um pedaço do seu vestido.
Contente e feliz, o príncipe partiu de volta à sua terra. Passando pela cidade onde se encontravam seus irmãos, convidou-os para embarcar na sua esquadra, a fim de que pudessem regressar ao seu país. Os irmãos aceitaram o convite. O rapaz havia guardado a garrafa com a água milagrosa na sua mala. Seus irmãos armaram, então, um plano para roubar-lhe a garrafa e se apresentarem ao pai como seus salvadores. Para isso sugeriram, ao príncipe, dar um banquete na esquadra para comemorar o fato de ter ele conseguido o maravilhoso remédio. A festa foi realizada e os irmãos, aproveitando-se da boa fé do jovem príncipe, conseguiram que ele bebesse muito vinho e adormecesse profundamente. Tiraram então do seu bolso a chave da mala, abriram-na, tiraram a garrafa com o remédio e a substituíram por outra cheia de água do mar.
Quando a esquadra atracou no porto de sua terra, o príncipe foi recebido com grande alegria e muitas festas. Mas, quando ele colocou nos olhos do pai a água que supunha ser da fonte maravilhosa, o velho soltou um grito de dor, devido ao sal do mar, e continuou cego. Os dois irmãos traidores acusaram então o príncipe de impostor e declararam que eles é que haviam conseguido a água milagrosa. Dizendo isso, banharam com a mesma os olhos do rei que recobrou a visão. Houve então grandes festas e banquetes no palácio e o jovem príncipe foi condenado à morte. Mas os soldados encarregados de degolar o príncipe, ficaram com pena do rapaz e o deixaram na floresta. O príncipe ficou tão desgostoso que perdeu o amor à vida. Um lenhador malvado o encontrou, caminhando como um louco, no meio da mata. Vendo que ele não reagia, fez dele seu escravo, obrigando-o a trabalhar, sem descanso.
Um ano depois, chegou a ocasião em que o rapaz devia ir casar com a princesa, conforme havia combinado na Fonte das Três Comadres. Não tendo ele aparecido, a princesa ficou preocupada. Mandou então aparelhar uma poderosa esquadra e partiu para o reino do príncipe. Chegando lá, deu ordem ao comandante da esquadra para avisar ao rei de que ele devia enviar-lhe o filho que fora ao seu reino buscar um remédio e lhe prometera casamento. Caso o noivo não viesse ao seu encontro, ela ordenaria à esquadra para fazer fogo sobre a cidade. O rei ficou apavorado e mandou seu filho mais velho apresentar-se à princesa, supondo que ele fosse o noivo. Mas a princesa, ao vê-lo disse: 
— Grande mentiroso, onde está o sinal do nosso reconhecimento? 
Ele que nada possuía, ficou calado e voltou para a terra envergonhado.
Nova intimação e foi ter com a princesa o segundo filho do rei. Repetiu-se a pergunta anterior e o príncipe nada respondeu. A princesa mandou então que os canhões da sua esquadra fossem preparados para o bombardeio da cidade O rei ficou aflitíssimo, certo de que a capital do seu reino seria arrasada, pois havia mandado matar o filho mais moço. Nesse momento, surgiram os dois soldados encarregados de executar o jovem príncipe, que confessaram ao rei que não o tinham degolado. Saiu todo o mundo à procura do príncipe e foi prometido um grande prêmio a quem o encontrasse.
O lenhador que o tinha escravizado ficou mais morto do que vivo quando soube que ele era filho do rei. Mais do que depressa, colocou o rapaz nas costas e o levou ao palácio. O príncipe foi então lavado e vestido com lindas roupas. O prazo que a princesa tinha concedido já estava terminado e, quando os canhões iam começar a bombardear a cidade, o rapaz correu ao encontro da noiva, sendo logo reconhecido devido ao pedaço do vestido que levava na mão. A princesa abraçou-o chorando de alegria. Seguiram então para o reino da princesa onde se casaram no meio de festas que duraram seis meses. O rapaz tornou-se rei de um dos países mais belos e ricos do mundo. Seus irmãos traidores foram expulsos do reino de seu pai e condenados a pedir esmola até o fim de sua vida.
Fonte: Contos Maravilhosos – Theobaldo Miranda Santos, Editora Nacional (1966)
Imagem: Mundo da Luha

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Conto: Toalha de mesa

Os caminhos de Deus são misteriosos...

“Um novo pastor, recentemente formado, e sua esposa, que foram encarregados de reabrir uma igreja no bairro de Brooklyn, NY, chegaram no início de outubro, entusiasmados com a oportunidade.
Quando viram a igreja, observaram que havia muitos estragos e um grande trabalho a ser feito. Sem se deixar abater, estabeleceram como meta deixar tudo pronto para o primeiro serviço: o culto de Natal.
Trabalharam sem descanso, consertando o telhado... refazendo o piso... pintando... e, muito antes do Natal, em 18 de dezembro, tudo estava pronto!
Mas...  No dia seguinte, 19 de dezembro, desabou uma terrível tempestade que se alongou por dois dias.
No dia 21, o pastor foi até a igreja.  Seu coração doeu... viu que o telhado tinha quebrado e que uma grande área do revestimento de gesso decorado, da parede do santuário, logo atrás do púlpito, havia caído.
O pastor, enquanto limpava o chão, pensava em como resolver a situação.
No caminho de casa, pensando adiar o culto de Natal, observava as vitrines, enfeitadas para a época, quando notou um bazar beneficente e parou por instantes. Uma linda toalha de mesa, de crochê, na cor marfim, com um crucifixo delicadamente bordado no centro chamou-lhe a atenção.  Era do tamanho exato para cobrir o estrago atrás do púlpito. Comprou-a e voltou para a igreja.
Começou a nevar. Apressou seus passos e quando chegava à porta da igreja uma velha senhora vinha correndo em direção contrária tentando pegar o ônibus, o que não conseguiu.
O pastor convidou-a a entrar para esperar pelo próximo, abrigando-se do frio, que viria 45 minutos depois. Ela sentou-se num banco e nem prestava atenção no pastor que já providenciava a instalação da toalha de mesa na parede.
Ao terminar afastou-se e pôde admirar o quanto a toalha era linda e servia perfeitamente para esconder o estrago. Então, o pastor notou a velha encaminhando-se para ele. Seu rosto estava lívido e perguntou:
- Pastor, onde o senhor encontrou esta toalha de mesa?
O pastor contou a história. A mulher pediu-lhe que examinasse o canto direito inferior para encontrar as iniciais EBG bordadas. O pastor fez o que a mulher pediu e, intrigado, confirmou.
A mulher disse:
- Estas são as minhas iniciais.
E contou que fez esta toalha de mesa há 35 anos atrás, na Áustria. Contou que, antes da guerra, ela e seu marido eram bem de vida. Quando os nazistas invadiram seu país combinaram fugir; ela iria antes e seu marido a seguiria uma semana depois. Ela foi capturada, trancada numa prisão e nunca mais viu seu marido e sua casa.
O pastor ofereceu a toalha, mas, ela recusou, dizendo que estava num lugar muito apropriado. 
Insistindo, ofereceu-se para levá-la até sua casa; era o mínimo que poderia fazer. Ela morava em Staten Island e tinha passado o dia em Brooklin para um serviço de faxina.
No dia de Natal a igreja estava quase cheia. Foi um lindo trabalho.
Ao final, o pastor e sua esposa cumprimentaram os fiéis um a um à porta e muitos diziam que retornariam. Um velho homem, que o pastor reconheceu pela vizinhança, permaneceu sentado, atônito.  O pastor aproximou-se e, antes que dissesse palavra, o velho perguntou:
- Onde o senhor conseguiu a toalha de mesa da parede? Ela é idêntica à uma que minha mulher fez, muitos anos atrás, quando vivíamos na Áustria, antes da guerra. Como poderiam existir duas toalhas tão parecidas?
Imediatamente, o pastor entendeu o que tinha acontecido e disse:
- Venha... eu vou levá-lo a um lugar que o senhor vai gostar muito.
No caminho, o velho contou a mesma história da mulher. Ele, antes de poder fugir, também havia sido preso e nunca mais pôde ver sua mulher e sua casa, por 35 anos.
Ao chegar à mesma casa onde deixara a mulher, 3 dias antes, ajudou o velho a subir os 3 lances de escada e bateu na porta.
Creio que não há necessidade de se contar o resto da história. Quem disse que Deus não trabalha de maneira misteriosa?”

Fonte: Nova Era

terça-feira, 31 de julho de 2018

Conto: O leão e o homem



O leão e o homem
Folclore nordestino

O leão é o rei das fera. É o rei... é o que quer ser mais valente no mundo, é o leão. Encontrou-se com a onça e trataram uma palestra, dizendo:
- Camarada onça, eu sou o rei das fera! Sou o mais valente que pode existir.
Aí, a onça disse:
- Você tá muito enganado! O mais valente que existe é o bicho-homem!
Disse:
- Como é que ... eu tinha vontade de me topar com o bicho-homem. Como é que eu topo com o bicho-homem, pra experimentar se ele é valente?
Aí, a onça disse:
- Vai haver uma festa de casamento ... você vá pastorar lá na estrada que você encontra o bicho-homem.
Aí, o leão, foi, se escondeu no beco do caminho ... quando lá vinha uma veinha, muito carcunda. Quando a veinha ia passando, o leão saltou na frente:
- A senhora é o bicho-homem?
Disse:
- Não senhor. Sou a mãe do bicho-homem.
Disse:
- Então, só pode ser outro.
Quando deu fé lá vinha um veinho. Aí, ele saltou na frente:
- Você é o bicho-homem?
Disse:
- Não senhor. Eu já fui.
- Passe, vá embora.
Lá vinha um menino assobiando. Um menino muito esperto, contente! Aí, quando viu o menino, saltou na frente:
- Meu filho, você é o bicho-homem?
- Não senhor. É de ser ainda o bicho-homem.
Aí, ficou. Quando deu fé, lá vinha o homem: um caboclo com chapéu de couro, um bacamarte ... que vinha voando pedra pra todo canto. Quando foi empariando, foi dizendo:
- O senhor é o bicho-homem?
- Pronto, leão, sou o bicho-homem. Que é que o senhor deseja?
- Desejo lutar. Pra ver se você é o rei das fera e eu sou o rei das fera ... das montanhas, pra ver se nós entramos em luta.
Aí, o homem disse ao leão:
- Demore aí... Deixe eu dar um espirro primeiro, pra mode nós entrar em luta.
Aí, o leão disse:
- Pronto, pode dar o seu espirro.
Pense num "espirro"...
O homem disparou o bacamarte, quebrou o focinho do leão, a cara com tudo. O leão saiu na carreira. Adiante, encontrou a onça, disse:
- Camarada onça, eu não quero negócio com o bicho-homem! O bicho é a fera pior que existe no mundo! O espirro do bicho fez esse trabalho comigo ... e o bicho-homem. Como é que faz? Não quero negócio com o bicho-homem.
Aí, ficou sendo o homem a fera maior do Brasil.

Fonte: Severino Carreiro. Catolé do Rocha. 17.07.1980. Relato recolhido por Myrian Gurgel Maia. In: TRIGUEIRO, O.M. e PIMENTEL, A. A. Contos populares brasileiros - Paraíba. Recife: FUNDAJ, Massangana, 1996, p.54-5.

Imagem: "Bacamarteiro", por Feliciano dos Prazeres

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Conto: Como Ewá livrou Orunmilá de Iku, a morte

Ewá, de Felipe Caprini

Conta a lenda que Ewá era esposa de Omolu, e era estéril, não podendo dar um filho ao seu grande amado e rei, sofrendo muito por isso.
Em uma bela tarde, a dona dos horizontes estava-se a deleitar às margens de um rio, juntamente com suas serviçais que lavavam vários alás (panos brancos). De repente, surge de dentro da floresta um jovem que corria muito assustado.
- Como ousas interromper o deleite da rainha Ewá? Quem és tu? - indagou a bela dama, irritada com a impertinência do rapaz.
- Minha rainha, não era minha intenção interromper tão sagrado ato, oh esposa de Omolu! Porém Ikú (a morte) persegue-me há vários dias e preciso escapar dela, pois tenho ainda um grande destino a seguir. Peço sua ajuda, Ewá, peço que me escondas para que Ikú não me pegue!
- Gostei de você e vou ajudá-lo, respondeu a rainha. - Esconda-se nos alás que minhas serviçais estão a lavar e eu despistarei Ikú de seu caminho.
E assim foi feito. O jovem rapaz se escondeu debaixo dos panos brancos. Pouco depois eis que aparece Ikú, a morte!
- Como ousas adentrar aos domínios de minha morada, quem és tu? - perguntou Ewá com ar de indignada.
- Sou Ikú e entro onde as pessoas menos esperam. Entro e carrego comigo dezenas, centenas e até milhares de pessoas! Porém hoje estou a procurar um jovem rapaz, que está a me escapar há dias, você o viu passar por aqui? - perguntou Ikú para Ewá.
- Eu o vi sim, Ikú, ele foi naquela direção. - Ewa apontou para um direção totalmente oposta ao das suas serviçais, que estavam escondendo o rapaz.
Ikú agradeceu e seguiu pelo caminho indicado. O rapaz saiu de seu esconderijo, aliviado.
- Ewá, agradeço sua ajuda, terei tempo agora de prosseguir meu caminho. Sou um grande adivinho, e em sinal de minha gratidão, a partir de hoje presenteio-lhe com o dom da adivinhação.
Ewá agradeceu o presente dado pelo rapaz, que já havia se virado para ir embora, quando ele retornou e falou a Ewá.
- Sim, eu sei, você não pode ter filhos, pois lhe concedo a fertilidade também. A partir de hoje você poderá ter filhos e alegrar ao seu marido.
Então Ewá agradeceu novamente muito contente e perguntou ao jovem rapaz.
- Qual é seu nome?
E o rapaz respondeu...
- Meu nome é Orunmilá Ifá!

* Ifá é o orixá da adivinhação e do destino.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Conto: "A Goela e o Rabo da Baleia" - Luís da Câmara Cascudo


A Baleia era o bicho do mar mais veloz e mais comilão. Nadava mais do que todos os outros peixes e comia por peste. Nosso Senhor torceu o rabo da Baleia. Por isso ela nada mais devagar e é o único peixe que tem a barbatana do rabo virada para baixo, batendo água de baixo para cima, em vez de ser da direita para a esquerda como todos os viventes d’água.
Também a Baleia comia tudo. 
Uma feita uma moça devota de Santo Antônio ia rezando com uma imagem desse Santo, pedindo que o navio entrasse logo na barra, quando o Sant’Antônio escapuliu e t’xim bum! caiu no mar. A Baleia, vendo o clarear, veio em cima e, sem reconhecer, engoliu a imagem. Sant’Antônio, para castigar a gulodice, fez a Baleia ficar engasgada e tanto se engasgava mais a goela ia ficando estreita. Sant’Antônio desapareceu e a Baleia ficou, até hoje, só engolindo peixe pichititinho.

A Baleia é peixe nobre,
Não come senão sardinha!
Abre a boca, pega miles,
Engole a mais miudinha!...

Francisco Ildefonso (Chico Preto), Areia Preta, Natal, Rio G. do Norte.

Nota – “A expressão conto etiológico é técnica entre os folcloristas; quer dizer que o conto foi sugerido e inventado para explicar e dar a razão de ser de um aspecto, propriedade, caráter de qualquer ente natural. Assim há contos para explicar o pescoço longo da girafa, o porquê da cauda dos macacos, etc.” João Ribeiro, O Folk-Lore, p. 20, Rio de Janeiro, 1919. A história acima é um conto etiológico, em toda sua legitimidade.

In "Contos Tradicionais do Brasil", Luís da Câmara Cascudo.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Conto: "Fiapo de Trapo" - Ana Maria Machado




Espantalho tão bonito e elegante nunca se tinha visto por aquelas redondezas. Nem por outras, que ele era mesmo carregado de belezas. Precisava só ouvir a conversinha do Dito Ferreira enquanto montava o espantalho, todo orgulhoso do seu trabalho:
- Nunca vi coisa igual. O patrão caprichou de verdade. Vai botar no campo um espantalho com roupa de gente ir à festa na cidade. 
 E era mesmo. Tudo roupa velha, claro, como convém a um espantalho que se preza. Mas da melhor qualidade, roupa de se ir à igreja em dia de procissão e reza. 
Dito Ferreira mostrava todo prosa: 
- Esse chapéu é de um tal de veludo. E vejam que beleza essa camisa cor-de-rosa. Tem até coração bordado... O patrãozinho pensou em tudo. Com uma gravata de seda, fez esse cinto estampado. Até a palha do recheio é toda macia e cheirosa. Não é que era mesmo, a danada? Tinha um perfume forte, que ajudava a espancar a passarada. 
Ah, porque é preciso também dizer que aquilo tudo dava certo, funcionava tanto... O espantalho elegante era mesmo um espanto. Passarinho nem chegava perto. E lá ficava sozinho, espetado no milharal deserto. 
O patrão ficava feliz com um defensor tão eficiente. Dito Ferreira se alegrava com aquela figura imponente. Que espantalho diferente! Só que eles nem sabiam que diferença era essa.
Como todo espantalho, esse não andava nem falava, mas tinha o dom de poder sentir as coisas ao seu jeito --- para um boneco de palha, isso era um grande defeito. 
E era só por causa de desenho que tinha bordado no peito. Linhas de cor em forma de coração --- e pronto, lá estava o pobre espantalho sofrendo com a solidão! Ninguém se aproximava dele, ninguém fazia um carinho, e ele ficava tão triste, só, espantando passarinho... 
De longe via uma passarada, de todo tipo e feição. Pintassilgo e saíra, cambaxirra e corruíra, rolinha e corrupião. Pássaro de toda cor, de todo canto e tamanho, de todo a-e-i-o-u --- sabiá, tié, bem-te-vi, curió e nhambu. Vontade de chamar: 
- Vem cá me ver, bem-te-vi! 
Vontade de mostrar: 
- Tico-tico, olha lá o teco-teco! 
 Mas não adiantava. Ninguém chegava perto. E o tempo passava. Horas e dias, dias e semanas, semanas e meses, meses e anos. 
E o espantalho ficava no tempo. No bom tempo e no mau tempo. No sol que queimava e na chuva que molhava. No mormaço que fervia e no vento que zunia. 
E seu cheiro se gastava, sua cor se desbotava, sua seda desfiava, seu veludo se puía. 
Até que um dia... 
No tempo tem sempre um dia. Um dia em que muda o tempo e um tempo novo se inicia.
Pois foi o que aconteceu. Houve um dia em que choveu. Mas não foi chuva miúda, foi pra valer, de verdade, foi mesmo um deus-nos-acuda, uma imensa tempestade, de granizo, raio, vendaval, com aguaceiro e temporal, chuva de muito trovão que virou inundação. 
Quando a chuvarada passou e o sol voltou, um arco-íris no céu se formou. E na beleza do dia novo, azul lavado, vieram os pássaros, em bando assanhado, ocupando todo o campo, ciscando no milharal. Livres, soltos, à vontade, numa alegria sem igual. 
 Foi aí que Dito Ferreira reparou: 
- Cadê o espantalho velho? 
Saiu todo mundo procurando. Não acharam. Nem podiam achar. Ele tinha desmanchado, tinha sido carregado, pelo vento espalhado, pela chuva semeado, com a terra misturado, plantado naquele chão, sua palha adubando muito pé de solidão. 
Do que sobrou por aí, foi tudo virando ninho, protegendo com carinho filhotes que iam nascer. Veludo em trapos, seda em farrapos, coração bordado em fiapos, maciezas boas de se aquecer. 
E hoje em dia, sua palha misturada na terra ajuda a plantação a crescer.
Os trapos de sua seda, o seu forro de bom cheiro, farrapos de seu veludo se espalham desde o galinheiro até a mais alta árvore que tenha um ninho barbudo. 
E em cada ovo que nasce ali por aquele lugar, cada ninhada que se achega à procura de calor, em cada vida a brotar, em cada marca de amor, seu coração sobrevive num fiapinho de cor. 

MACHADO, Ana Maria. Quem perde ganha. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994.

Fonte: Armazém de Textos

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Viva o Dia Mundial da Literatura Infantojuvenil!

Viva o Dia Mundial da Literatura Infantojuvenil!
Gabriela Kopinits*

O pequeno se torna grande num livro”. Este é o tema da campanha deste ano do International Board on Books for Young People (uma espécie de comitê mundial do livro infantojuvenil com sede na Suíça) em homenagem ao Dia Mundial da Literatura Infantil, comemorado neste 2 de abril. E já veremos o porquê dessa data.
Quem lê sabe que a leitura é uma das poucas coisas que nos possibilita viajar pelo Universo inteiro - e além - sem que saiamos do lugar. Ler um livro nos permite conhecer outras culturas, outras gentes, outras formas de pensar. Ler instrui, ensina, distrai, diverte, emociona e consola. 
Para as crianças, então, a leitura abre um mundo de sonhos e de fantasia, um mundo onde tudo é possível, inclusive aprender a se conhecer e a lidar com seus medos, a entender que não se está sozinho: há outros como nós.
Agora sim chegamos ao motivo da comemoração do dia mundial da literatura dedicada a elas num 2 de abril. Como toda boa história começa com três palavrinhas mágicas: era uma vez, em 1805, um bebê recém-nascido no seio de uma família dinamarquesa muito pobre formada pela lavadeira Anne Marie Andersdatter e pelo sapateiro Hans Andersen.
O menino ganhou o nome de Hans Christian e era adorado pelo pai, que apesar de não saber ler nem escrever, lhe contava muitas estórias chegando a lhe fazer um teatro de marionetes, despertando no pequeno a imaginação e a criatividade, dons que lhe permitiram sobreviver à rude realidade de pobreza e privação em que a família vivia.
Fã de Napoleão Bonaparte e querendo mais da vida do que ser simples sapateiro, o pai decidiu se juntar às tropas do imperador francês nas suas campanhas militares pela Europa e acabou sendo ferido, vindo a falecer em 1816 e deixando o filho órfão aos 11 anos. O menino então teve que abandonar os estudos para ajudar nas despesas de casa. Tornou-se aprendiz de tecelão e chegou a trabalhar para um alfaiate, mas o que ele queria mesmo era ser ator e cantor.
Aos 14 anos, Andersen decidiu ir para a capital dinamarquesa, Copenhague, tentar a sorte na carreira artística. Dizem que ele tinha uma bela voz, apesar de feioso e desajeitado. Juntou-se ao Teatro Real da Dinamarca, mas não fez muito sucesso.
Aos 17 anos publicou seu primeiro conto, "O fantasma da tumba de Palnatoke", e duas de suas peças acabaram chegando às mãos de um conselheiro real que lhe ofereceu uma bolsa de estudos.
Durante seis anos, Andersen frequentou a escola de Slagelse mas se sentia deslocado em meio aos colegas, mais jovens e menores que ele. Em 1828 começou a frequentar a Universidade de Copenhague e passou a se dedicar mais à literatura. Foi nessa época que a fama de excêntrico se consolidou entre os colegas.
Para ganhar uns trocados resolveu escrever algumas estórias infantis baseadas no folclore dinamarquês. Os contos fizeram sucesso e assim começou uma prolífica carreira, que durou quase 30 anos.
Antes de falecer em 4 de agosto de 1875, aos 70 anos de idade, Andersen deixou uma obra extensa: só de contos infantis foram 156, a maioria conhecidos por crianças do mundo inteiro, como "O soldadinho de chumbo", "A roupa nova do Imperador", "A pequena sereia”, e “O patinho feio", que dizem ter sido baseado na sua própria infância.
Apesar de não ter sido o primeiro a escrever para crianças - esse posto pertence a Charles Perrault, considerado o pai da literatura infantil - foi o primeiro a adaptar estórias já existentes para uma linguagem mais acessível a esse público, inserindo nelas valores morais e sociais, como em "A pequena vendedora de fósforos", conto que retrata de maneira tocante o drama da pobreza extrema.
Então, agora você já sabe. Foi graças à enorme contribuição do Andersen para a literatura infantojuvenil que a data do seu nascimento virou o Dia Internacional da Literatura Infantojuvenil, efeméride criada em 1967 por aquele comitê de que falamos no início desse artigo - o InternationalBoard on Books for Young People (IBBY). O IBBY criou ainda a Medalha Hans Christian Andersen para premiar os maiores nomes da literatura infantojuvenil mundial. No Brasil, a escritora Lygia Bojunga Nunes foi a primeira a receber essa medalha. Isso foi em 1982. De lá para cá, outros brasileiros também receberam essa distinção como a escritora Ana Maria Machado.
Viva, pois, o Dia Mundial da Literatura Infantojuvenil! Que tal comemorar com uma visita à biblioteca?

*Gabriela Kopinits é jornalista, escritora e contadora de estórias
PS: Em 2003 foi lançado o filme "A vida num conto de fadas" (no original "Hans Christian Andersen: my life as a fairytale"), contando um pouco da vida do escritor e das suas estórias e quem quiser conhecer mais sobre a vida e a obra dele também pode visitar o site do Instituto Andersen.


segunda-feira, 19 de março de 2018

Conto: "O duende esperto"


Esta é uma outra versão do conto que postei anteriormente, sobre o Tom esperto. A diferença é que ele usa sua gravata para marcar a flor que está em cima do ouro.

"Um jovem rapaz chamado Tom estava caminhando por uma trilha. Ele ouviu um barulho atrás dos arbustos e parou para ver o que era. Ele ficou surpreso ao ver um homem pequenino sentado na sombra do arbusto. Tom havia encontrado um duende. Em toda a sua vida, Tom havia ouvido estórias sobre os homenzinhos que viviam na florestas. As pessoas diziam que os duendes possuíam potes de ouro enterrados por toda a terra.
Tom decidiu tentar capturar o homenzinho e fazê-lo levá-lo até um pote de ouro.
Muito rapidamente, Tom segurou o duende pela gola. Tom sabia que os duendes são muito espertos e rápidos. Se ele soltasse a gola, o homenzinho poderia desaparecer num piscar de olhos. Mas o homenzinho estava tão assustado que concordou em mostrar a Tom onde poderia encontrar o seu tesouro.
O duende levou Tom por um caminho muito longo. Eles andaram e andaram, até que finalmente chegaram a um campo cheio de lindas flores. O duende apontou para uma planta e disse a Tom que o pote de ouro estava enterrado bem ali.
Tom ficou maluco, começou a pular de tão animado. Mas aí ele lembrou que não havia trazido sua pá para cavar o local onde o tesouro estava.
Tom então tirou a gravata e a amarrou na flor para que pudesse encontrá-la quando voltasse com a pá. Ele fez o duende prometer que não iria tocar em sua gravata enquanto ele estivesse fora. Muito solene, o duende prometeu, não iria tocar a gravata.
Enquanto Tom estava fora, como era de se esperar, o duende fez sua mágica. Estalou os dedos e de repente apareceram 50 gravatas exatamente como a de Tom. Rapidamente, o homenzinho amarrou-as em todas as flores que estavam ao redor daquela que estava sobre o tesouro.
Quando Tom voltou, ele não conseguia dizer qual era a preciosa flor. O duende esperto havia salvo seu tesouro sem quebrar a promessa feita."

É como se diz por aqui: Tom foi buscar lã e saiu tosquiado 😄

*Fonte: Folktales, by Remedia Publications (tradução desta contadora de estórias)

sexta-feira, 9 de março de 2018

Conto: "Tom esperto e o duende"

Estamos no mês de São Patrício, o padroeiro da Irlanda, o país mais verde do mundo, lindo demais. Para comemorar o dia do santo - 17 de março - publico aqui uma das várias estórias do rico folclore irlandês, esta proveniente de Ballincollig, cidade pertencente ao condado de Cork. A tradução é desta Cigana Contadora de Estórias 😊
Imagem do site Kids Gen
"Tom Fitzpatrick era o filho mais velho de um rico fazendeiro que morava em Ballincollig. Tom tinha acabado de completar vinte e nove anos, e era um rapaz tão inteligente, limpo e de boa aparência como qualquer outro em todo o condado de Cork.

Um bom dia na colheita, Tom foi passear pelo lado ensolarado de uma cerca. De repente, ouviu um ruído um pouco antes dele, na cerca. Então, Tom andou na pontapés, tentando ver se ele conseguia descobrir o que era que estava fazendo aquele barulho.

O barulho parou, mas quando Tom olhou através dos arbustos, viu um cântaro em que poderia caber cerca de um galão e meio de bebida. Ao lado, estava sentado um velhinho, com um chapeuzinho armado preso no topo da cabeça e um avental de couro.

O homenzinho puxou um pequeno banco de madeira, subiu nele e mergulhou uma caneca no cântaro. Desceu do banco, colocou a caneca cheia ao seu lado, se sentou e começou a colocar a sola em um minúsculo sapato.

"Incrível!", disse Tom para si mesmo, "Este deve ser um duende! Sou um homem rico. Mas dizem que você nunca deve tirar seus olhos deles, ou eles vão escapar. "

Tom se aproximou um pouco, com o olho fixo no homenzinho. Ele se aproximou dele e disse: "Deus abençoe seu trabalho, vizinho".

O duende levantou a cabeça e disse: "Obrigado, gentilmente".

"Trabalhando em dia sagrado?", perguntou Tom.

"Esse é o meu negócio, não o seu", foi a resposta.

"Talvez você me diga o que você tem no jarro?", disse Tom.

"Com prazer", disse o homenzinho, "é uma boa cerveja".

"Você me daria um pouco para provar?", perguntou Tom.

"Seria melhor para você se cuidasse da propriedade do seu pai em vez de estar incomodando pessoas decentes e quietas com suas perguntas tolas. Enquanto você está gastando seu tempo aqui, as vacas invadiram o celeiro e estão derrubando o milho ".

Tom tomou um susto e quase se virou quando se conteve, lembrando da esperteza dos duendes. Com medo de caísse de novo na conversa do duende, ele o segurou na mão, mas na pressa bateu no jarro e derramou toda a cerveja, de modo que não conseguiu provar nem um pouco da bebida encantada.

Tom ficou brabo e ameaçou o homenzinho, exigindo saber onde estava o ouro que todo duende guarda. Ele parecia tão perverso que o duende ficou bastante assustado.

"Há um pote de ouro escondido apenas um par de campos ali", disse o homenzinho.

Tom segurou o duende rápido na mão e não tirou os olhos dele, apesar de terem que cruzar sebes e valas, e um pedaço de pântano. O duende pareceu, por pura maquinação, escolher o caminho mais difícil. Finalmente, chegaram a um campo cheio de flores chamadas boliauns, assemelhadas a margaridas amarelas.

O duende apontou para a maior delas e disse: "Cave sobre essa flor e você encontrará um grande pote cheio de moedas".

Tom não trouxe uma pá, então tirou uma de suas ligas vermelhas e amarrou-a em torno da flor, para que ele pudesse encontrar o lugar novamente mais tarde.

"Suponho que você não precisa mais de mim?", perguntou o duende.

"Você pode ir", disse Tom, libertando o homenzinho.

"Tchau, Tom Fitzpatrick, que o que você ache faça bem a você".

Tom correu para casa, pegou uma pá, e então correu de volta para o campo de flores, tão rápido quanto ele poderia ir. Mas, quando ele chegou lá, cada flor no campo tinha uma liga vermelha, idêntica à sua, amarrada em torno dela.

Escavar todo o campo teria sido bobagem; Eram quarenta bons acres irlandeses. Então, Tom voltou para casa novamente com a pá no ombro. Muitas pragas ele jogou no duende a cada vez que lembrava da peça que ele tinha pregado em si."

A estória original em inglês você encontra no site Folkli - Folktale Library, uma bela coleção de estórias ("Online folklore magazine dedicated to preserving and promoting the tales of past generations".) Espero que tenha gostado! Ah, se achar um duende, fique esperto 😉

domingo, 14 de janeiro de 2018

Conto: A rainha de um dia


Como pesquisadora da literatura infantojuvenil, sempre me deparo com preciosidades, como esse almanaque, O Tico-Tico, primeira revista em quadrinhos publicada no Brasil, aliás primeira publicação nacional destinada às nossas crianças, antes mesmo das estórias de Monteiro Lobato. Foi lançada pelo jornalista Luís Bartolomeu de Souza e Silva (1866-1932) no dia 11 de outubro de 1905, tinha periodicidade semanal e sobreviveu até a década de 60. Seu nome veio das "escolas de tico-tico”, que era como eram chamados os jardins de infância. Seu conteúdo é um primor. A respeito da relevância dessa obra para a formação da criançada, o grande poeta Carlos Drummond de Andrade disse: "O Tico-Tico é pai e avô de muita gente importante". Se está curioso para conhecer O Tico-Tico, a Biblioteca Nacional disponibilizou um grande acervo. Vale a leitura, o encantamento é garantido, principalmente pelas fotos das crianças do século passado, suas vestimentas e cortes de cabelo, os anúncios comerciais e mesmo os textos. Uma belezura!
De lá, da edição de 1911, cuja capa você confere acima, pincei o conto "A rainha de um dia - conto do Dia de Reis", já inserido no meu banco de estórias para contar 😊


A RAINHA DE UM DIA
Conto do Dia de Reis
            Isto passou-se há muito tempo, num antigo castelo construído à margem de um rio. O senhor dessa magnífica vivenda havia já bastante tempo que não ria, muito triste por haver perdido, de uma só vez, seus três filhos numa guerra. Destes só lhe restava uma lembrança – uma menina, filha do filho mais velho.
Tal legado ainda mais acabrunhava o velho castelão.
Nessa época festejavam-se os Reis, isto é, dividia-se entre as pessoas da família e amigos um grande bolo onde se ocultava uma fava. Aquele em cujo pedaço fosse encontrada a fava era rei considerado por um dia e podia escolher quem quisesse para compartilhar seu trono. Era senhor absoluto durante todo o tempo do seu reinado.
Ora, apesar das suas tristezas o castelão consentiu que se festejasse também o dia dos Reis no castelo afim de divertir sua neta, a pequena Lúcia.
Mas só deu consentimento depois da seguinte recomendação:
- Se a fava cair por sorte a uma moça ou senhora, previno que não quero ser escolhido para rei. Com esta condição, permito que se divirtam e assistirei à festa. Quero que todos brinquem muito e para isso não tomo parte com a minha tristeza. Como sabem, para mim não há mais diversões na terra. Os velhos são velhos e os moços, folgazões; portanto, tristezas para uns e alegrias para outros.
À noite, sentaram-se todos à mesa: o castelão na cabeceira, depois crianças, amigos e servidores. O bolo foi carregado numa espécie de andor coberto por uma toalha alvíssima de linho e inteiramente bordada com ramos e rosas do Natal.
Dividiram-se entre todos, reservando a parte do pobre. A fava caiu por sorte a Lúcia que, com toda a majestade que lhe investia a cerimônia, deixou-se paramentar e cingir a fronte com uma belíssima coroa. Diante dela foi colocada outra coroa ainda mais linda.
Lúcia lançou os olhos pelas pessoas presentes e estava muito triste por não ter encontrado uma ao seu agrado para rei, quando bateram à porta.
Vinham reclamar a parte do pobre. E a pessoa que assim fazia era um velho andrajosamente vestido, tendo um gorro na cabeça. Sob o gorro apareciam mechas de cabelo em desalinho. Ao pedir a sua parte, o pobre tremia.
Lúcia levantou-se e correu até ele com a coroa na mão, como era de costume.
- Pobre como és, – disse ela – faço-te rei: manda e serás servido.
Ele pediu então, com voz mais calma:
- Gentil rainha, peço-te um lugar à tua direita e para meu companheiro, que ficou da parte de fora do castelo, outro lugar à tua esquerda.
O castelão, indignado com a escolha feita por Lúcia e com a audácia do pobre, exclamou:
- Olá, que pensas então? Achas que...
Mas Lúcia lhe disse:
- Lembre-se que neste instante és um servo desse pobre.
Ela sorria; e é preciso acrescentar que tinha o rir mais bonito dentre os risos mais bonitos, que emolduravam de vez em quando o rosto de uma santa.
De seu barrete de seda azul, bordado de prata escapavam-se duas compridas tranças de pareciam feitas de ouro; suas faces róseas pareciam duas auroras; seus olhos, estrelas e flores, brilhavam numa suave luz azul.
O castelão, no entanto, adorava esta criança, não devido à sua beleza, rara e soberana, mas porque parecia feita de graça e de sorriso.
E só ela conseguia por vezes diverti-lo.
Não ousou magoá-la e sentidíssimo murmurou:
- Pois bem, pobre de ontem e pobre de amanhã, sê rei por hoje e mostra-nos, se tens bastante audácia para isso, como se deve sustentar um cetro!
O pobre levantou-se, sacudindo a cabeça; a barba cobria-lhe por completo o peito. Sua voz agora, cheia e vibrante, ocupava toda a sala quando dava uma ordem.
- Vão buscar meu companheiro; encontrá-lo-ão sentado no primeiro degrau do castelo.
Deram-se pressa em cumprir as ordens do novo rei, e uma criada conduziu pela mão um segundo pobre, também mal vestido e coberto por uma capa em frangalhos.
- Este tipo parece que nunca lavou o rosto, - disse o castelão zombando.
Mas o primeiro pobre acudiu:
- Não, porque ele jurou não lavá-lo até que houvesse beijado aqueles a quem ama na terra. Vamos, pois, jantar!
- Pois não – atalhou a pequena rainha – És rei, mandas, não pedes.
Serviram-lhe o que restava, um quarto de javali.
O rei de um dia cortou um soberbo pedaço, depois outro, outro ainda sem neles tocar. Então, o castelão, não pode conter uma gargalhada. Todos o acompanharam.
- Pena é que não tenhamos um outro quarto. Esse pobre acharia lugar para guardá-lo. Seu companheiro não faz senão regar seu primeiro pedaço. Teria jurado comer de tal forma?
O primeiro pobre estendeu seu copo e exclamou:
- Que todos aqui bebam quando o rei beba. Bebe, linda rainha de olhos azuis, bebe senhor Hugo, bebe tu também, senhor dos oceanos! Copos ao alto! E tu, nobre avó de minha rainha, se quiseres alguma coisa é só pedir, pobre como sou, tenho algum poder...
Mas o velho castelão passou a mão sobre a fronte como para afastar um mau pensamento.
- Cala-te – disse-lhe – rei de mentira! Esse nome, Hugo, que dás a teu companheiro é um nome de nobreza. Onde o obtiveste? Não é dado a qualquer mendigo usá-lo. Ah, meu filho mais velho assim se chamava, e há dez anos que morreu. Rei coroado de papel e ouro falso, acabou-se a festa. Irão encher teu saco para que possas saciar a fome, que é grande. Tenho piedade de ti e não levo a mal tuas brincadeiras. Se eu tivesse que pedir alguma coisa, seria tornar a ver meu filho Hugo, que ninguém me pode trazer. O imperador, ele próprio, com todo o seu poder, não conseguiria ressuscitá-lo. Portanto, não me perguntes se quero alguma coisa.
O pobre pôs-se de pé altivamente, colocou a mão sobre a cabeça do seu companheiro, e disse:
- Hugo, levanta-te. Permito agora que fale. Homem, aqui está o teu filho: só dez anos de cativeiro não o desfiguraram completamente, reconhece-o.
O companheiro do pobre, tirando a capa, ajoelhou-se aos pés do seu pai. Este, semi-louco de alegria, reconhecia-o entre lágrimas. Depois, o filho, desprendendo-se dos braços do pai, que o enlaçava, dirigiu-se ao pobre dizendo:
- Meu pai, esse pobre que aí vês está habituado a coroas. É chamado em toda parte o Grande. Sim, é o imperador Othon, nosso chefe. Foi ele quem me resgatou do cativeiro e aqui me trouxe.
Todos os que aí se encontravam, confusos e mudos, conservaram-se de pé pois o imperador Othon o Grande inspirava respeito pela sua valentia e saber.
O velho castelão estendeu a mão ao imperador, que não havia reconhecido sob os andrajos, e disse:
- Imperador, minha vida te pertence, bem como a de todos os meus e como a do meu filho, que acabas de trazer. Agora possa morrer, tenho alguém que me sucederá.
Hugo tomou a filha e a mulher nos braços, apertando-as contra o coração.
O imperador depositou sobre a fronte da menina um terno beijo.
- Pequena rainha – disse ele – serei teu pobre e o rei de tua escolha. Dentro de oito anos, se eu ainda viver, leva-me a fava, que ficou em meu copo, e a coroa, que me destes. Ordeno. Parto deixando todos felizes. Proíbo que me sigam.
Detendo com um gesto aqueles que queriam lhe agradecer, deixou a sala, desceu a grande escada e tocou uma campainha de prata, que trazia escondida no cinto. Então, ouviu-se uma cavalgada, e viu-se pelas janelas do castelo os homens de armas que vinham buscar o imperador Othon.
Oito anos mais tarde, a filha do conde Hugo levou a fava e a coroa; o imperador, em troco desses objetos, deu-lhe um saco com ouro para o seu dote e, em troca da coroa, outra de conde, dando-lhe um lindo rapaz para esposo.
Até o fim de sua vida, teve muita honra em ser seu ‘pobre’ e cultivar sua amizade. Chamava-a ‘a pequena rainha’ e fez guardar a fava em seu tesouro, ao lado das pérolas raras.
Tinha garbo em dizer:
- Aqueles que me fizeram imperador, escolheram-me em meu poder. Mas aquela que me fez rei, escolheu-me na pobreza. Esta será para sempre a minha rainha.


ALMANACH O TICO-TICO, 1911

Ouça a estória "O galo rouco e o rato esperto", da Cigana Contadora de Estórias!

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