sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Conto: "Pequerrucha"

Minha sobrinha Camila adora essa estória. E é em homenagem ao seu aniversário de 7 anos, no próximo dia 21/02, que a publico como primeiro a li, há quase 30 anos, em um livrão maravilhoso - e pesado para uma criança - chamado O Grande Livro das Fábulas. Essa versão também foi publicada num lindo site, feito pela professora Vera Rossi, o Contando História. Recomendo a visita!
Pequerrucha
Era uma vez uma moça que gostava muito de flores. Chamava-se Vicentina. Passava todo o tempo livre cuidando do seu jardim, podando, adubando, regando as plantas. Mas vivia sozinha e triste, pois não tinha com quem conversar. Um dia, as flores, que ela tratava com tanto carinho, reuniram-se e decidiram ajudá-la. Então deixaram cair uma semente especial. Vicentina encontrou a sementinha e . . .
- Que semente estranha! Talvez dê uma linda flor . . . Vou plantá-la neste vaso.
A sementinha germinou. Devagarinho foram surgindo as folhas, primeiro uma depois outra e mais outra . . . Até que apareceu uma linda flor vermelha. Era uma tulipa, tão grande e bela que Vicentina ia admirá-la todos os dias. Quando a flor se abriu, no meio das pétalas apareceu uma menina loura e bem pequenina.
- Bom dia, ó Vicentina! Não fique tão espantada, por ser eu tão pequenina, Pequerrucha sou chamada. Se comigo for boazinha, sua filha eu serei. Junto de minha mãezinha para sempre ficarei.
- Oh! Como estou contente! - exclamou Vicentina. - Este é o mais belo presente que minhas flores poderiam me dar!
Vicentina levou Pequerrucha para casa. Com uma casca de noz fez um bercinho para ela e cobriu-a com uma pétala de rosa. O tempo foi passando, mas Pequerrucha não crescia nem um milímetro. Vicentina sentia-se feliz por ter em casa uma filha, embora pequenina. Pequerrucha tinha uma bela voz e sempre cantava para alegrar Vicentina.
Uma tarde, Pequerrucha estava cantando e um velho sapo a ouviu. Nessa mesma noite, o velho sapo entrou na casa de Vicentina. O vidro da janela estava quebrado e ele passou pelo buraco.
Parou um momento para olhar a menina, que dormia serenamente. Como era linda! O velho sapo não resistiu, raptou-a com berço e tudo. Quando o filho do sapo viu a menina, achou- a tão bonita que quis acordá-la imediatamente.
- Quero ver a cor dos olhos dela! - disse ele.
- Espere, meu filho. Não tenha pressa. Se você acordar já, ela pode se assustar e fugir correndo. Devemos fazer outra coisa:
Enquanto ela está dormindo, vamos colocar o berço, sobre uma folha bem grande, no meio do lago. Assim, ela não poderá escapar.
Quando Pequerrucha acordou, levou um susto enorme ao ver que estava no meio do lago, em cima de uma folha tão grande. O filho do sapo foi logo dizendo:
- Bom dia, menina. Amanhã você estará comigo.
- O que? Casar com um sapo? Nunca! - exclamou Pequerrucha aterrorizada. Depois, olhando ao redor, perguntou: - Onde estou? Onde está minha mãezinha?
- Não adianta gritar nem chorar! - disse o filho do sapo. - Está tudo decidido: você vai casar comigo.
Pequerrucha começou a chorar e os peixes do lago ficaram com pena dela. Resolveram salvá-la. Mas como? O único jeito era empurrar aquela folha para longe dos sapos. Assim, Pequerrucha afastou-se deles, mas também da casa de Vicentina.
A folha foi boiando sobre a água. Depois de muito tempo chegou à margem. Pequerrucha desceu e começou uma nova vida. Ela caminhava entre as plantas e flores. Era primavera, havia passarinhos cantando por perto. A menina sentia-se feliz.
Veio o verão, depois chegou o outono. As primeiras chuvas começaram a cair. Pequerrucha não tinha uma casa onde se abrigar. Procurava esconder-se embaixo das folhas maiores, mas acabava sempre ficando molhada. Choveu muito até que veio o inverno. Bastava um floco de neve para cobri-la inteirinha!
- Oh, como é duro ser tão pequenina e não ter onde morar! - pensava Pequerrucha, tremendo de frio.
Por isso resolveu deixar a floresta. Caminhou durante muito tempo. . .
Chegou a um campo onde havia umas hastes de capim e lá no meio uma estranha casinha. Pequerrucha bateu à porta.
- Entre! - disse o velho rato, dono da casa. - Oh, como você está gelada! Pode ficar morando comigo durante todo o inverno. Quero que me conte belas histórias!
- Não sei contar histórias, mas sei cantar - respondeu Pequerrucha. E começou:
Senhor rato hospitaleiro, desta casa cuidarei, sem descanso o dia inteiro. E cantigas cantarei.
Pequerrucha cantou várias canções para o velho rato. Sentado em sua cadeira, ele ouvia encantado. Pequerrucha ficou morando ali. O tempo passava depressa. Durante o dia tinha muito o que fazer: arrumava a casa, preparava o almoço, cuidava de tudo. De noite, alegrava o velho com suas canções. Ele estava tão contente com Pequerrucha, que não se cansava de elogiá-la:
- Você tem uma bela voz. Ficaria a vida ouvindo você cantar! Gosto tanto de música. . .
Uma noite, quando Pequerrucha parou de cantar, o rato falou:
- Tenho um vizinho que está procurando esposa. Ele é muito rico e de boa família. Seria um bom marido para você. Não quero forçá-la, mas é preciso pensar no futuro. Hoje ele virá me visitar.
Daí a pouco chegou o vizinho. Era uma toupeira elegante e distinto. Tinha o pelo negro e brilhante, mas detestava o sol. era tímido e não enxergava bem. Apesar disso, assim que viu Pequerrucha, achou-a linda e ficou apaixonado.
- Sou muito trabalhador - foi dizendo o toupeira - e tenho uma boa posição. Venha, vou mostrar-lhe minha casa, que é bem grande, cheia de galerias! Só é um pouco escura. . .
O toupeira prendeu na boca uma espécie de lanterna e entrou num buraco debaixo da terra. Foi mostrando a Pequerrucha os túneis que cavara, dizendo:
- Tudo isto é serviço meu, está vendo? Gosto de trabalhar. . .
- Não faço como esta andorinha - continuou o toupeira - que passou o verão voando e agora está aí, caída no chão, sem poder voar mais! Estragou o teto da minha galeria e não consegue sair daqui! Vai acabar morrendo de frio. Eu, ao contrário, sou previdente, estou sempre pensando no futuro.
Pequerrucha aproximou-se da andorinha e viu que ela ainda estava viva.
- Oh, pobrezinha! - exclamou. - Preciso fazer alguma coisa por você. Não posso deixá-la morrer de frio.
Pequerrucha acariciou a andorinha, pensando no que poderia fazer para salvá-la. Teve uma idéia e saiu depressa.
Logo Pequerrucha voltou, trazendo um grande punhado de algodão, o maior que pode carregar. Cobriu com ele o corpo da andorinha, dizendo:
- Assim, você não sentirá frio. Mais tarde voltarei para trazer comida.
- Muito obrigada! - disse a andorinha - Você está salvando a minha vida! Assim que eu recuperar as forças, vou levantar voo, em busca de lugares mais quentes, onde haja sol. . . Quando parti com minhas companheiras, para nossa longa viagem de outono, não sei o que aconteceu: caí ao solo e não pude mais voar! - Não consigo respirar, neste lugar sombrio - continuou a andorinha. - Falta-me o ar!
- Também não gosto daqui - disse Pequerrucha. - Mas o toupeira detesta a luz do sol. . .
- Assim que puder, sairei daqui - concluiu a andorinha, dormindo em seguida.
O inverno foi longo, mas quando chegou a primavera a andorinha estava pronta para partir.
- Venha comigo. Pequerrucha! Suba nas minhas costas, eu a levarei! - convidou a andorinha.
- Não fica bem - respondeu Pequerrucha. - O rato foi muito gentil comigo, abrigou-me durante todo o inverno. Agora, que é primavera, não posso abandoná-lo! Ele quer que eu me case com o toupeira. . .
- Tem razão, menina. . . Mas você não é como o toupeira. Não poderá viver sem tomar sol. Pense nisso!
E a andorinha levantou voo e partiu.
Pequerrucha pos-se a tecer seu vestido de noiva com os fios finíssimos que as aranhas faziam para ela. Passou o verão, veio o outono. Chegou o dia marcado para o casamento.
O toupeira, todo elegante, de botas e cartola, veio buscar a noiva.
- Bom dia, querida Pequerrucha. Hoje vamos nos casar. . . Este é um grande dia para mim! Se eu soubesse falar bem, faria um belo discurso!
- Oh, não é preciso! - respondeu Pequerrucha.
- Você está pronta? - perguntou o toupeira.
Pequerrucha ia responder, mas viu o sol, dourado e quente. . . Ficou parada, a admirá-lo.
- Você gosta do sol, não? - perguntou o toupeira. - Mas luz dele é forte demais, não a suporto! Prefiro viver no escuro, lá no fundo de minhas galerias. . . Vamos! Venha depressa. . .
Pequerrucha sentiu um aperto no coração. Não podia estar feliz, sabendo que ia morar a vida inteira debaixo da terra. . . Saiu correndo pelo campo para sentir o calor do sol pela última vez.
Mas, de repente, ouviu um bater de asas ali perto! Oh! Era a andorinha que ela salvara da morte no inverno! A andorinha pousou perto de pequerrucha e vendo que a menina estava chorando, perguntou o que era. Depois disse:
- Depressa, Pequerrucha, suba nas minhas costas. Ainda é tempo! Segure-se bem, eu a levarei para longe daqui!
Pequerrucha olhou ao redor. Disse adeus aos dois amigos, acenando com a mão. Depois, saltou para as costas da andorinha. . . e fez uma viagem maravilhosa para um país distante.
Era um lugar maravilhoso, onde cresciam muitas flores. Em cada uma delas morava um ser pequenino com asas. A andorinha colocou Pequerrucha na flor mais bela do jardim. Encantada com toda essa beleza que a rodeava, Pequerrucha começou a cantar:
"Mal acredito no que vejo e é tão grande a novidade, que outra vida não desejo, senão esta felicidade!"
Pouco depois, todos os habitantes dali rodearam Pequerrucha. O mais belo deles, o rei das flores, ofereceu-lhe uma coroa de ouro.
- Seja bem vinda! - disse ele. - Você será minha esposa. E como presente de casamento vou lhe dar duas asas transparentes, iguais às nossas. Eu tinha ouvido falar de você por uma fada, mas não sabia que cantava tão bem! Como é seu nome?
- Eu me chamo Pequerrucha, majestade.
- Vou lhe dar um novo nome. De hoje em diante você se chamará Maia e será a rainha das flores!
Pequerrucha, entre resplendores, como rainha foi coroada para reinar sobre as flores. Se numa noite enluarada ouvires canção que não sei, é ela que canta para o rei. . .


***

Conto de Hans Christian Andersen

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Conto: "O mistério das três estatuetas de ouro"

Depois de dar à luz meu caçulinha, Lucas, na última sexta-feira, dia 29/01, estou voltando, pouco a pouco, às minhas tarefas diárias. A recuperação de uma cesariana é tranquila, desde que sejam seguidas as orientações médicas. Cinco dias depois da cirurgia, sinto-me muito bem, mas acredito, como disse antes, que ainda vou levar um tempo para voltar a me apresentar como contadora de estórias.


Nesse meio tempo, enquanto aguardava a chegada do meu filhinho, encontrei uma estória muito legal, que trago hoje. É um conto de origem persa e fala de um desafio real. Interessante para audiências mais maduras, que podem compreender as suas alusões, que lembra um pouco a estória dos "Três Macacos Sábios". A adaptação e tradução são minhas.


O mistério das três estatuetas de ouro
Um rei chamado Amar Singha queria testar a inteligência de um rei vizinho, Rana Roy, e o discernimento do povo dele. Amar Singha enviou ao rei três estatuetas de ouro com a mesma aparência e o mesmo peso. O rei deveria descobrir qual delas era a mais valiosa.

Junto com sua corte, Rana Roy olhou bem as estatuetas, mas foi incapaz de ver a mínima diferença entre elas. Mesmo o mais sábio do seu reino não conseguia distinguir diferença alguma. Era deprimente para o rei pensar na desgraça de ter um reino onde ninguém era inteligente o suficiente para perceber a diferença entre as estranhas imagens, iguais em tudo, na aparência, tamanho e peso. O reino inteiro tentou descobrir o mistério, mas ninguém conseguiu.

Justamente quando eles estavam prestes a desistir, um jovem chamado Brajesh mandou uma mensagem da prisão onde ele estava. Disse que ele poderia descobrir a diferença se ele pudesse ver as estatuetas. Rana Roy mandou que o trouxessem ao palácio e mostrou as imagens a ele. Brajesh olhou-as muito cuidadosamente;

Depois de um tempo, ele notou que todas as três estatuetas tinham um pequeno buraco na orelha. Ele inseriu uma linha de prata bem fininha e descobriu que, na primeira estatueta, a linha saía pela boca. Na segunda estatueta, a linha saía pela outra orelha e, na terceira, saía pelo umbigo. Brajesh ficou pensando, pensando. Olhava as estatuetas e os lugares por onde a linha saía. Da orelha para a boca, da orelha para a outra orelha, da orelha para o umbigo. Por fim, um sorriso iluminou seu rosto. Achara a solução do mistério.

- Majestade, disse ele, eu acho que a solução desse quebra-cabeças está diante de nós como um livro aberto. A nós apenas cabe ler esse livro. Vossa Majestade vê, como cada pessoa é diferente de todas as outras, assim também são cada uma dessas estatuetas. A primeira nos lembra das pessoas que ouvem algo e se apressam em ir contar o que acabaram de saber. A segunda estatueta é como a pessoa em que a notícia entra por uma orelha e sai pela outra. A terceira, no entanto, é muito semelhante à pessoa que guarda para si mesma o que ouviu. Baseado nisso, Vossa Majestade é capaz de julgar o valor das estatuetas. Qual a mais preciosa?

O rei ficou contente com a solução do enigma, que logo apresentou ao colega que o tinha desafiado. Como prêmio por sua inteligência, Brajesh foi libertado da prisão e as três estatuetas podem ser vistas em lugar de honra no palácio do rei Rana Roy. Só não me perguntem onde ele fica...

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Conto: "Lençóis sujos"

Já estou na 38ª semana de gestação. Falta bem pouco agora para o meu bebê nascer. Estou enorme, cansada e ainda atarefada com os preparativos finais para a chegada dele. Meu segundo filho, Lucas, deve chegar entre o dia 3o deste mês e o dia 02 de fevereiro, dia de Yemanjá - Odo Iya!
Minha filha Victoria está cada vez mais fofa, repetindo tudo que lhe ensinam. Ontem ela completou 1 ano e meio. Está deixando de ser um bebê. O tempo passa tão depressa! Já está comendo sozinha. Tudo bem, fazendo a maior bagunça, mas já tem sua própria independência.

Vai demorar um pouco ainda para eu poder voltar a contar estórias. Primeiro, o resguardo. Provavelmente, vou passar por outra cesariana. A recuperação é um pouco mais lenta. Segundo, com dois filhos pequenos, vou ter que ver com quem vou poder deixá-los enquanto conto minhas estórias. Ainda serão muito bebês para me acompanharem. Vivi ainda mama, fica impaciente. E Luquinhas será muito, muito pequenininho...

Coisas da maternidade... Mas vale a pena, com certeza!

Bem, ontem eu li um texto muito bacana, cujo conteúdo já tinha, de certa forma, lido antes em outro conto. Versa sobre o nosso julgamento equivocado em relação aos outros. A nossa triste mania de apontar o dedo sujo para os outros, nos esquecendo de nossas próprias falhas.

"Lençóis sujos"


Um casal, recém-casados, mudou-se para um bairro muito tranquilo.
Na primeira manhã que passavam na casa, enquanto tomavam café, a mulher reparou, através da janela, em uma vizinha que pendurava lençóis no varal e comentou com o marido:

- Que lençóis sujos ela está pendurando no varal! Está precisando de um sabão novo. Se eu tivesse intimidade perguntaria se ela quer que eu a ensine a lavar as roupas!

O marido observou calado.
Alguns dias depois, novamente, durante o café da manhã, a vizinha pendurava lençóis no varal e a mulher comentou com o marido:

- Nossa vizinha continua pendurando os lençóis sujos! Se eu tivesse intimidade perguntaria se ela quer que eu a ensine a lavar as roupas!

E assim, a cada dois ou três dias, a mulher repetia seu discurso, enquanto a vizinha pendurava suas roupas no varal.
Passado um mês, a mulher se surpreendeu ao ver os lençóis muito brancos sendo estendidos e, empolgada, foi dizer ao marido:

- Veja, ela aprendeu a lavar as roupas, Será que a outra vizinha ensinou??? Porque eu não fiz nada.

O marido calmamente respondeu:

- Não, hoje eu levantei mais cedo e lavei os vidros da nossa janela!

***

Autoria desconhecida

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Conto: "A árvore de Natal na casa de Cristo"

Esse conto é de Dostoievski. Muito lindo, mas também muito triste. O cenário é uma gelada noite de Natal na velha capital russa, São Petersburgo, no século XIX. Eu não o conseguiria contar sem me emocionar, ainda mais sendo mãe de criança pequena... Li o conto e pensei na minha filhinha, de um ano e cinco meses, brincando perto de mim. Arrumadinha, com o seu vestidinho novo de Natal, sapatinhos combinando, perfumada com lavanda, barriguinha cheia. Fiquei imensamente triste. E as outras criancinhas? O Natal - e todos os outros dias, pensando bem - deveria ser para todos, especialmente para elas... Que mundo egoísta... E eu, no meio deles, me limitando a abanar a cabeça, penalizada, sem, no entanto, me mexer para a ação. Faz-me pensar...
Vi a fartura de minha mesa e pensei - como sou egoísta... Esqueci Dele!

"Havia num porão uma criança, um garotinho de seis anos de idade, ou menos ainda. Esse garotinho despertou certa manhã no porão úmido e frio. Tiritava, envolto nos seus pobres andrajos. Seu hálito formava, ao se exalar, uma espécie de vapor branco, e ele, sentado num canto em cima de um baú, por desfastio, ocupava-se em soprar esse vapor da boca, pelo prazer de vê-lo se esvolar. Mas bem que gostaria de comer alguma coisa. Diversas vezes, durante a manhã, tinha se aproximado do catre, onde num colchão de palha, chato como um pastelão, com um saco sob a cabeça à guisa de almofada, jazia a mãe enferma. Como se encontrava ela nesse lugar? Provavelmente tinha vindo de outra cidade e subitamente caíra doente. A patroa que alugava o porão tinha sido presa na antevéspera pela polícia; os locatários tinham se dispersado para se aproveitarem também da festa, e o único tapeceiro que tinha ficado cozinhava a bebedeira há dois dias: esse nem mesmo tinha esperado pela festa. No outro canto do quarto gemia uma velha octogenária, reumática, que outrora tinha sido babá e que morria agora sozinha, soltando suspiros, queixas e imprecações contra o garoto, de maneira que ele tinha medo de se aproximar da velha. No corredor ele tinha encontrado alguma coisa para beber, mas nem a menor migalha para comer, e mais de dez vezes tinha ido para junto da mãe para despertá-la. Por fim, a obscuridade lhe causou uma espécie de angústia: há muito tempo tinha caído a noite e ninguém acendia o fogo. Tendo apalpado o rosto de sua mãe, admirou-se muito: ela não se mexia mais e estava tão fria como as paredes. "Faz muito frio aqui", refletia ele, com a mão pousada inconscientemente no ombro da morta; depois, ao cabo de um instante, soprou os dedos para esquentá-los, pegou o seu gorrinho abandonado no leito e, sem fazer ruído, saiu do cômodo, tateando. Por sua vontade, teria saído mais cedo, se não tivesse medo de encontrar, no alto da escada, um canzarrão que latira o dia todo, nas soleiras das casas vizinhas. Mas o cão não se encontrava alí, e o menino já ganhava a rua.

Senhor! que grande cidade! Nunca tinha visto nada parecido, De lá, de onde vinha, era tão negra a noite! Uma única lanterna para iluminar toda a rua. As casinhas de madeira são baixas e fechadas por trás dos postigos; desde o cair da noite, não se encontra mais ninguém fora, toda gente permanece bem enfunada em casa, e só os cães,às centenas e aos milhares,uivam, latem, durante a noite. Mas, em compensação, lá era tão quente; davam-lhe de comer... ao passo que ali... Meu Deus! se ele ao menos tivesse alguma coisa para comer! E que desordem, que grande algazarra ali, que claridade, quanta gente, cavalos, carruagens... e o frio, ah! este frio! O nevoeiro gela em filamentos nas ventas dos cavalos que galopam; através da neve friável o ferro dos cascos tine contra a calçada;toda gente se apressa e se acotovela, e, meu Deus! como gostaria de comer qualquer coisa, e como de repente seus dedinhos lhe doem! Um agente de policia passa ao lado da criança e se volta, para fingir que não vê.

Eis uma rua ainda: como é larga! Esmaga-lo-ão ali, seguramente; como todo mundo grita, vai, vem e corre, e como está claro, como é claro! Que é aquilo ali? Ah! uma grande vidraça, e atrás dessa vidraça um quarto, com uma árvore que sobe até o teto; é um pinheiro, uma árvore de Natal onde há muitas luzes, muitos objetos pequenos, frutas douradas, e em torno bonecas e cavalinhos. No quarto há crianças que correm; estão bem vestidas e muito limpas, riem e brincam, comem e bebem alguma coisa. Eis ali uma menina que se pôs a dançar com um rapazinho. Que bonita menina! Ouve-se música através da vidraça. A criança olha, surpresa; logo sorri, enquanto os dedos dos seus pobres pezinhos doem e os das mãos se tornaram tão roxos, que não podem se dobrar nem mesmo se mover. De repente o menino se lembrou de que seus dedos doem muito; põe-se a chorar, corre para mais longe, e eis que, através de uma vidraça, avista ainda um quarto, e neste outra árvore, mas sobre as mesas há bolos de todas as qualidades, bolos de amêndoa, vermelhos, amarelos, e eis sentadas quatro formosas damas que distribuem bolos a todos os que se apresentem. A cada instante, a porta se abre para um senhor que entra. Na ponta dos pés, o menino se aproximou, abriu a porta e bruscamente entrou. Hu! com que gritos e gestos o repeliram! Uma senhora se aproximou logo, meteu-lhe furtivamente uma moeda na mão, abrindo-lhe ela mesma a porta da rua. Como ele teve medo! Mas a moeda rolou pelos degraus com um tilintar sonoro: ele não tinha podido fechar os dedinhos para segurá-la. O menino apertou o passo para ir mais longe - nem ele mesmo sabe aonde. Tem vontade de chorar; mas dessa vez tem medo e corre. Corre soprando os dedos. Uma angústia o domina, por se sentir tão só e abandonado, quando, de repente: Senhor! Que poderá ser ainda? Uma multidão que se detém, que olha com curiosidade. Em uma janela, através da vidraça, há três grandes bonecos vestidos com roupas vermelhas e verdes e que parecem vivos! Um velho sentado parece tocar violino, dois outros estão em pé junto de e tocam violinos menores, e todos maneiam em cadência as delicadas cabeças, olham uns para os outros, enquanto seus lábios se mexem; falam, devem falar - de verdade - e, se não se ouve nada, é por causa da vidraça. O menino julgou, a princípio, que eram pessoas vivas, e, quando finalmente compreendeu que eram bonecos, pôs-se de súbito a rir. Nunca tinha visto bonecos assim, nem mesmo suspeitava que existissem! Certamente, desejaria chorar, mas era tão cômico, tão engraçado ver esses bonecos! De repente pareceu-lhe que alguém o puxava por trás. Um moleque grande, malvado, que estava ao lado dele, deu-lhe de repente um tapa na cabeça, derrubou o seu gorrinho e passou-lhe uma rasteira. O menino rolou pelo chão, algumas pessoas se puseram a gritar: aterrorizado, ele se levantou para fugir depressa e correu com quantas pernas tinha, sem saber para onde. Atravessou o portão de uma cocheira, penetrou num pátio e sentou-se atrás de um monte de lenha. "Aqui, pelo menos", refletiu ele, "não me acharão: está muito escuro."

Sentou-se e encolheu-se, sem poder retomar fôlego, de tanto medo, e bruscamente, pois foi muito rápido, sentiu um grande bem-estar, as mãos e os pés tinham deixado de doer, e sentia calor, muito calor, como ao pé de uma estufa. Subitamente se mexeu: um pouco mais e ia dormir! Como seria bom dormir nesse lugar! "mais um instante e irei ver outra vez os bonecos", pensou o menino, que sorriu à sua lembrança: "Podia jurar que eram vivos!"... E de repente pareceu-lhe que sua mãe lhe cantava uma canção. "Mamãe, vou dormir; ah! como é bom dormir aqui!"

- Venha comigo, vamos ver a árvore de Natal, meu menino - murmurou repentinamente uma voz cheia de doçura.

Ele ainda pensava que era a mãe, mas não, não era ela. Quem então acabava de chamá-lo? Não vê quem, mas alguém está inclinado sobre ele e o abraça no escuro, estende-lhe os braços e... logo... Que claridade! A maravilhosa árvore de Natal! E agora não é um pinheiro, nunca tinha visto árvores semelhantes! Onde se encontra então nesse momento? Tudo brilha, tudo resplandece, e em torno, por toda parte, bonecos - mas não, são meninos e meninas, só que muito luminosos! Todos o cercam, como nas brincadeiras de roda, abraçam-no em seu vôo, tomam-no, levam-no com eles, e ele mesmo voa e vê: distingue sua mãe e lhe sorrir com ar feliz.
- Mamãe! mamãe! Como é bom aqui, mamãe! - exclama a criança. De novo abraça seus companheiros, e gostaria de lhes contar bem depressa a história dos bonecos da vidraça... - Quem são vocês então, meninos? E vocês, meninas, quem são? - pergunta ele, sorrindo-lhes e mandando-lhes beijos.

- Isto... é a árvore de Natal de Cristo - respondem-lhe. - Todos os anos, neste dia, há, na casa de Cristo, uma árvore de Natal, para os meninos que não tiveram sua árvore na terra...

E soube assim que todos aqueles meninos e meninas tinham sido outrora crianças como ele, mas alguns tinham morrido, gelados nos cestos, onde tinham sido abandonados nos degraus das escadas dos palácios de Petersburgo; outros tinham morrido junto às amas, em algum dispensário finlandês; uns sobre o seio exaurido de suas mães, no tempo em que grassava, cruel, a fome de Samara; outros, ainda, sufocados pelo ar mefítico de um vagão de terceira classe. Mas todos estão ali nesse momento, todos são agora como anjos, todos juntos a Cristo, e Ele, no meio das crianças, estende as mãos para abençoá-las e às pobres mães... E as mães dessas crianças estão ali, todas, num lugar separado, e choram; cada uma reconhece seu filhinho ou filhinha que acorrem voando para elas, abraçam-nas, e com suas mãozinhas enxugam-lhes as lágrimas, recomendando-lhes que não chorem mais, que eles estão muito bem ali...

E nesse lugar, pela manhã, os porteiros descobriram o cadaverzinho de uma criança gelada junto de um monte de lenha. Procurou-se a mãe... Estava morta um pouco adiante; os dois se encontraram no céu, junto ao bom Deus.

***
Extraído do site Para ler e pensar

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Conto: "Os três carneirinhos"

Já estou na 29ª semana da minha gestação. Pesada demais e sem fôlego para minhas apresentações. Principalmente porque gosto muito de me mover pelo espaço onde conto minhas estórias. Gosto de mexer com o público, afinal eu sou uma cigana, pois não? Depois que meu bebê nascer, se Deus quiser no final de janeiro, eu ainda terei um tempo de resguardo para me recuperar, mas quero logo voltar a contar as minhas estorinhas. Sinto falta disso. Tenho tanta coisa planejada! E fiquei ainda mais contente quando recebi a correspondência da Biblioteca Nacional confirmando o registro do meu primeiro livrinho infantil, "Galo rouco? Tem rato no sino!" Meu primo, Arthurzinho (que assina Art Kopinits), é quem está fazendo as ilustrações. A estória é bem legal, acho que as crianças vão gostar muito.

Bem, nesse meio tempo, em que estou meio que retirada da vida externa, tenho acompanhado a TV Brasil. Excelente programação. Ontem, ao colocar minha filha, Victoria, que completou 1 ano e 4 meses, para dormir, assisti à contação da estória dos três carneirinhos. Parece que é uma versão de um conto do folclore norueguês, "Three Billy Goats Gruff", coletado por Peter Christen Asbjørnsen e Jørgen Moe em sua coletânea Norske Folkeeventyr. Pesquisando na internet, vi que a Xuxa cantou uma versão musicada. Aqui vai, em minha tradução e adaptação:

"Há muito tempo atrás havia três carneirinhos que gostavam de subir a colina para encher as barriguinhas, e o nome de todos os três era "Gruff".

No caminho para a colina, havia uma ponte sobre um riacho que eles tinham que atravessar. E debaixo da ponte morava um troll horroroso, com olhos grandes como pratos e um nariz tão longo quanto um graveto.

Então, primeiro de todos, veio o carneiro mais novinho para cruzar a ponte.

- Trip, trap, trip, trap! - fez a ponte.

- Quem está trotando na minha ponte? - berrou o troll.

- Oh, sou eu, o menor dos carneirinhos Gruff, e eu estou subindo a colina para encher a minha barriguinha. - disse o carneiro, com uma voz bem baixinha.

- Ah, então agora eu vou encher a minha barriguinha com você! - disse o troll.

- Oh, não, por favor, não me devore! Eu sou muito pequenininho! - disse o carneiro. - Espere até que o segundo de nós venha. Ele é muito maior.

- Ah, está certo. - disse o troll - Pode ir embora!

Um pouco depois, chegou o segundo carneiro para cruzar a ponte.

- Trip, trap, trip, trap, trip, trap! - fez a ponte.

- Quem está trotando na minha ponte? - berrou o troll.

- Oh, sou eu, o segundo dos carneirinhos Gruff, e eu estou subindo a colina para encher a minha barriguinha. - disse o carneiro, com uma voz que não era tão baixinha como a do irmão caçula.

- Ah, então agora eu vou encher a minha barriguinha com você! - disse o troll.

- Oh, não, por favor, não me devore! - disse o carneiro. - Espere até que o mais velho de nós venha. Ele é muito maior.

- Ah, está certo. - disse o troll - Pode ir embora!

O maior carneiro de todos estava chegando bem naquela hora.

- Trip, trap, trip, trap, trip, trap! - fez a ponte, e o o carneiro era tão pesado que a ponte estalou debaixo dele.

- Quem está trotando na minha ponte? - berrou o troll.

- Sou eu, o grande carneiro Gruff, e eu estou subindo a colina para encher a minha barriga! - respondeu o maior de todos os carneirinhos, em uma voz que nada tinha de baixinha.

- Ah, então agora eu vou encher a minha barriguinha com você! - disse o troll.

- Pode vir! - respondeu o carneiro - Eu tenho dois chifres enormes e vou furar seus olhos, vou segurar e levantar você e jogar bem longe!

Aquilo foi o que o carneiro, que era o maior de todos, disse. E bem dito, bem feito. Ele correu até o troll, o agarrou com seus chifres e o jogou bem longe, lá embaixo no riacho. E depois disso, muito calmamente, atravessou a ponte e subiu para a colina, onde se juntou aos seus dois irmãos e encheu a barriga com a grama bem verdinha.

E o troll? Ah, ninguém nunca mais ouviu falar dele..."

***

Ilustração da capa do livro "The Three Billy-Goats Gruff", de Val Biro - Editora Star Bright Books, 1998 - ISBN 1887734465, 9781887734462 - 32 páginas

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Conto: "O que significa trabalho em equipe"

Eu já tinha lido esse conto antes, mas não tinha ainda registrado aqui. É muito bacana, perfeito para explicar que o que acontece com uma pessoa pode afetar todo o universo - contrariando aquela de dizer "o problema não é meu, não tenho nada a ver com isso". Como todos vivemos em um grande organismo vivo - o planeta Terra, Gaia - todos temos a ver. Uma pedra arremessada mesmo ao acaso em um lago vai criar ondas concêntricas que vão alcançar um raio muito mais amplo do que aquele pedacinho de água em que foi jogada. O que acontece no outro lado do mundo tem ecos aqui mesmo, onde moramos. Todos estamos ligados, conforme é contado nessa estorinha, cujo autor desconheço, coletada de um blog muito legal (vide créditos no final):
"Um rato, olhando pelo buraco na parede, vê o fazendeiro e sua esposa abrindo um pacote. Pensou logo no tipo de comida que poderia haver ali. Ao descobrir que era uma ratoeira, ficou aterrorizado.
Correu ao curral da fazenda advertindo a todos:
- Há uma ratoeira na casa! Há uma ratoeira na casa!
A galinha disse:
- Desculpe-me, Senhor Rato, eu entendo que isso seja um grande problema para o senhor, mas não me prejudica em nada, não me incomoda.
O rato foi então até o porco e lhe disse:
- Senhor Porco, há uma ratoeira na casa, uma ratoeira...
O porco disse:
- Desculpe-me, Senhor Rato, mas não há nada que eu possa fazer, a não ser rezar. Fique tranquilo que o senhor será lembrado nas minhas preces.
O rato dirigiu-se então à vaca.
A vaca lhe disse:
- O quê, Senhor Rato? Uma ratoeira? Por acaso estou em perigo?
- Acho que não, Senhora Vaca... - respondeu o rato.
Então ele voltou para seu canto, cabisbaixo e abatido, para encarar a ratoeira do fazendeiro sozinho.
Naquela noite, ouviu-se um barulho, como o de uma ratoeira pegando sua vítima.
A mulher do fazendeiro correu para ver o que havia pego. No escuro, ela não viu que a ratoeira havia pego a cauda de uma cobra venenosa.
E a cobra picou a mulher.
O fazendeiro a levou imediatamente ao hospital, era grave, porém, por um milagre, se recuperou e voltou para casa, mas com muitos cuidados.
Saúde abalada, nada melhor que uma canja de galinha.
O fazendeiro pegou seu cutelo e foi providenciar o ingrediente principal, a galinha.
Como a doença da mulher continuava, os parentes, amigos e vizinhos vieram visitá-la.
Para alimentá-los, o fazendeiro matou o porco.
A mulher se recuperou e o fazendeiro, feliz da vida, resolveu dar uma festa e matou a vaca para o churrasco..."

MORAL DA HISTÓRIA:
Na próxima vez que você ouvir dizer que alguém está diante de um problema e acreditar que o problema não lhe diz respeito, lembre-se que, quando existir uma ratoeira, todos correm risco.
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quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Conto: "A flor da honestidade"

Adorei esse conto, quando o li. Essa versão, chamada "A honestidade sempre vence", é da coleção Pequenas Lições, da Editora Soler, com ilustrações de Roberta Castro. É excelente para o público adulto ou o infanto-juvenil. É uma bela lição sobre a importância da honestidade, virtude que transformou uma moça humilde em uma princesa.
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"Houve uma época, na China antiga, que um príncipe estava para ser coroado imperador, mas, de acordo com a lei, deveria se casar antes da coroação.


Sabendo disso, o príncipe resolveu fazer um concurso entre as moças da corte e anunciou que receberia, naquela noite, todas as pretendentes para lançar um desafio.


Uma velha senhora que trabalhava no palácio há muitos anos, ao ouvir o anúncio, se entristeceu, pois sabia que sua jovem filha tinha um profundo sentimento de amor pelo príncipe.

Ao chegar em casa e contar à filha sobre o concurso, espantou-se ao saber que ela pretendia participar e perguntou:

- Minha filha, o que você vai fazer lá? Estarão presentes as mais belas e ricas moças da corte. Tire essa ideia maluca da cabeça. Sei que você está sofrendo, mas não transforme o seu sofrimento numa dor ainda maior.

E a filha respondeu:

- Não, mãe, não estou sofrendo nem estou louca. Sei que jamais poderei ser a escolhida, mas é a minha oportunidade de ficar pelo menos alguns minutos perto do príncipe. Só isso já me tornará muito feliz.

À noite, a jovem chegou ao palácio e, de fato, lá estavam as mais belas moças, com lindas roupas e jóias caras.

Então, o príncipe anunciou as regras do concurso:

- Darei a cada uma de vocês uma semente. Aquela que, dentro de seis meses, me trouxer a mais bela flor será escolhida minha esposa e futura imperatriz da China.

O tempo passou e a doce jovem cuidava com muito cuidado e ternura da sua semente, pois sabia que, se a beleza da flor que brotasse fosse na mesma extensão do seu amor pelo príncipe, ela teria grandes chances de ser a escolhida.

Porém, passaram-se três meses e nada surgiu no pequeno vaso.

Dia após dia, ela ficava mais triste e sem esperanças, pois a sua semente não havia brotado.

Por fim, os seis meses se completaram e nenhuma flor nasceu no vaso da jovem menina. Chorando, ela disse para sua mãe que, assim mesmo, voltaria ao palácio no dia combinado, pois queria apenas mais alguns momentos perto do seu amado príncipe.

No dia e hora marcados pelo príncipe, lá estava a jovem, com o seu vaso vazio, e encontrou todas as outras moças pretendentes, cada uma com uma flor mais bela que a outra, das mais variadas cores.

A jovem estava assustada e envergonhada, pois todas tinham flores belíssimas e seu vaso não tinha flor.

Finalmente, chega o grande momento. O príncipe vai de uma em uma e observa todas as lindas moças e as suas lindas flores, com muito cuidado e atenção.

Após passar por todas as moças, ele anuncia o resultado e indica a jovem humilde, com o vaso sem flor, como a sua futura esposa.

As pessoas presentes tiveram as mais diversas reações. Como o príncipe pôde escolher alguém que não conseguira cultivar uma flor, ao contrário das outras moças, que trouxeram lindas flores?

Então, calmamente, o príncipe esclareceu:

- Esta moça foi a única que cultivou a flor que a tornou digna de ser a imperatriz: a flor da honestidade. Pois todas as sementes que entreguei eram estéreis e não poderiam brotar."

Lindo, né? Que lição para aquela gente...

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LEGRAND. A honestidade sempre vence. Belo Horizonte: Soler Editora, 2007.

Ouça a estória "O galo rouco e o rato esperto", da Cigana Contadora de Estórias!

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