quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Conto: "Lençóis sujos"

Já estou na 38ª semana de gestação. Falta bem pouco agora para o meu bebê nascer. Estou enorme, cansada e ainda atarefada com os preparativos finais para a chegada dele. Meu segundo filho, Lucas, deve chegar entre o dia 3o deste mês e o dia 02 de fevereiro, dia de Yemanjá - Odo Iya!
Minha filha Victoria está cada vez mais fofa, repetindo tudo que lhe ensinam. Ontem ela completou 1 ano e meio. Está deixando de ser um bebê. O tempo passa tão depressa! Já está comendo sozinha. Tudo bem, fazendo a maior bagunça, mas já tem sua própria independência.

Vai demorar um pouco ainda para eu poder voltar a contar estórias. Primeiro, o resguardo. Provavelmente, vou passar por outra cesariana. A recuperação é um pouco mais lenta. Segundo, com dois filhos pequenos, vou ter que ver com quem vou poder deixá-los enquanto conto minhas estórias. Ainda serão muito bebês para me acompanharem. Vivi ainda mama, fica impaciente. E Luquinhas será muito, muito pequenininho...

Coisas da maternidade... Mas vale a pena, com certeza!

Bem, ontem eu li um texto muito bacana, cujo conteúdo já tinha, de certa forma, lido antes em outro conto. Versa sobre o nosso julgamento equivocado em relação aos outros. A nossa triste mania de apontar o dedo sujo para os outros, nos esquecendo de nossas próprias falhas.

"Lençóis sujos"


Um casal, recém-casados, mudou-se para um bairro muito tranquilo.
Na primeira manhã que passavam na casa, enquanto tomavam café, a mulher reparou, através da janela, em uma vizinha que pendurava lençóis no varal e comentou com o marido:

- Que lençóis sujos ela está pendurando no varal! Está precisando de um sabão novo. Se eu tivesse intimidade perguntaria se ela quer que eu a ensine a lavar as roupas!

O marido observou calado.
Alguns dias depois, novamente, durante o café da manhã, a vizinha pendurava lençóis no varal e a mulher comentou com o marido:

- Nossa vizinha continua pendurando os lençóis sujos! Se eu tivesse intimidade perguntaria se ela quer que eu a ensine a lavar as roupas!

E assim, a cada dois ou três dias, a mulher repetia seu discurso, enquanto a vizinha pendurava suas roupas no varal.
Passado um mês, a mulher se surpreendeu ao ver os lençóis muito brancos sendo estendidos e, empolgada, foi dizer ao marido:

- Veja, ela aprendeu a lavar as roupas, Será que a outra vizinha ensinou??? Porque eu não fiz nada.

O marido calmamente respondeu:

- Não, hoje eu levantei mais cedo e lavei os vidros da nossa janela!

***

Autoria desconhecida

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Conto: "A árvore de Natal na casa de Cristo"

Esse conto é de Dostoievski. Muito lindo, mas também muito triste. O cenário é uma gelada noite de Natal na velha capital russa, São Petersburgo, no século XIX. Eu não o conseguiria contar sem me emocionar, ainda mais sendo mãe de criança pequena... Li o conto e pensei na minha filhinha, de um ano e cinco meses, brincando perto de mim. Arrumadinha, com o seu vestidinho novo de Natal, sapatinhos combinando, perfumada com lavanda, barriguinha cheia. Fiquei imensamente triste. E as outras criancinhas? O Natal - e todos os outros dias, pensando bem - deveria ser para todos, especialmente para elas... Que mundo egoísta... E eu, no meio deles, me limitando a abanar a cabeça, penalizada, sem, no entanto, me mexer para a ação. Faz-me pensar...
Vi a fartura de minha mesa e pensei - como sou egoísta... Esqueci Dele!

"Havia num porão uma criança, um garotinho de seis anos de idade, ou menos ainda. Esse garotinho despertou certa manhã no porão úmido e frio. Tiritava, envolto nos seus pobres andrajos. Seu hálito formava, ao se exalar, uma espécie de vapor branco, e ele, sentado num canto em cima de um baú, por desfastio, ocupava-se em soprar esse vapor da boca, pelo prazer de vê-lo se esvolar. Mas bem que gostaria de comer alguma coisa. Diversas vezes, durante a manhã, tinha se aproximado do catre, onde num colchão de palha, chato como um pastelão, com um saco sob a cabeça à guisa de almofada, jazia a mãe enferma. Como se encontrava ela nesse lugar? Provavelmente tinha vindo de outra cidade e subitamente caíra doente. A patroa que alugava o porão tinha sido presa na antevéspera pela polícia; os locatários tinham se dispersado para se aproveitarem também da festa, e o único tapeceiro que tinha ficado cozinhava a bebedeira há dois dias: esse nem mesmo tinha esperado pela festa. No outro canto do quarto gemia uma velha octogenária, reumática, que outrora tinha sido babá e que morria agora sozinha, soltando suspiros, queixas e imprecações contra o garoto, de maneira que ele tinha medo de se aproximar da velha. No corredor ele tinha encontrado alguma coisa para beber, mas nem a menor migalha para comer, e mais de dez vezes tinha ido para junto da mãe para despertá-la. Por fim, a obscuridade lhe causou uma espécie de angústia: há muito tempo tinha caído a noite e ninguém acendia o fogo. Tendo apalpado o rosto de sua mãe, admirou-se muito: ela não se mexia mais e estava tão fria como as paredes. "Faz muito frio aqui", refletia ele, com a mão pousada inconscientemente no ombro da morta; depois, ao cabo de um instante, soprou os dedos para esquentá-los, pegou o seu gorrinho abandonado no leito e, sem fazer ruído, saiu do cômodo, tateando. Por sua vontade, teria saído mais cedo, se não tivesse medo de encontrar, no alto da escada, um canzarrão que latira o dia todo, nas soleiras das casas vizinhas. Mas o cão não se encontrava alí, e o menino já ganhava a rua.

Senhor! que grande cidade! Nunca tinha visto nada parecido, De lá, de onde vinha, era tão negra a noite! Uma única lanterna para iluminar toda a rua. As casinhas de madeira são baixas e fechadas por trás dos postigos; desde o cair da noite, não se encontra mais ninguém fora, toda gente permanece bem enfunada em casa, e só os cães,às centenas e aos milhares,uivam, latem, durante a noite. Mas, em compensação, lá era tão quente; davam-lhe de comer... ao passo que ali... Meu Deus! se ele ao menos tivesse alguma coisa para comer! E que desordem, que grande algazarra ali, que claridade, quanta gente, cavalos, carruagens... e o frio, ah! este frio! O nevoeiro gela em filamentos nas ventas dos cavalos que galopam; através da neve friável o ferro dos cascos tine contra a calçada;toda gente se apressa e se acotovela, e, meu Deus! como gostaria de comer qualquer coisa, e como de repente seus dedinhos lhe doem! Um agente de policia passa ao lado da criança e se volta, para fingir que não vê.

Eis uma rua ainda: como é larga! Esmaga-lo-ão ali, seguramente; como todo mundo grita, vai, vem e corre, e como está claro, como é claro! Que é aquilo ali? Ah! uma grande vidraça, e atrás dessa vidraça um quarto, com uma árvore que sobe até o teto; é um pinheiro, uma árvore de Natal onde há muitas luzes, muitos objetos pequenos, frutas douradas, e em torno bonecas e cavalinhos. No quarto há crianças que correm; estão bem vestidas e muito limpas, riem e brincam, comem e bebem alguma coisa. Eis ali uma menina que se pôs a dançar com um rapazinho. Que bonita menina! Ouve-se música através da vidraça. A criança olha, surpresa; logo sorri, enquanto os dedos dos seus pobres pezinhos doem e os das mãos se tornaram tão roxos, que não podem se dobrar nem mesmo se mover. De repente o menino se lembrou de que seus dedos doem muito; põe-se a chorar, corre para mais longe, e eis que, através de uma vidraça, avista ainda um quarto, e neste outra árvore, mas sobre as mesas há bolos de todas as qualidades, bolos de amêndoa, vermelhos, amarelos, e eis sentadas quatro formosas damas que distribuem bolos a todos os que se apresentem. A cada instante, a porta se abre para um senhor que entra. Na ponta dos pés, o menino se aproximou, abriu a porta e bruscamente entrou. Hu! com que gritos e gestos o repeliram! Uma senhora se aproximou logo, meteu-lhe furtivamente uma moeda na mão, abrindo-lhe ela mesma a porta da rua. Como ele teve medo! Mas a moeda rolou pelos degraus com um tilintar sonoro: ele não tinha podido fechar os dedinhos para segurá-la. O menino apertou o passo para ir mais longe - nem ele mesmo sabe aonde. Tem vontade de chorar; mas dessa vez tem medo e corre. Corre soprando os dedos. Uma angústia o domina, por se sentir tão só e abandonado, quando, de repente: Senhor! Que poderá ser ainda? Uma multidão que se detém, que olha com curiosidade. Em uma janela, através da vidraça, há três grandes bonecos vestidos com roupas vermelhas e verdes e que parecem vivos! Um velho sentado parece tocar violino, dois outros estão em pé junto de e tocam violinos menores, e todos maneiam em cadência as delicadas cabeças, olham uns para os outros, enquanto seus lábios se mexem; falam, devem falar - de verdade - e, se não se ouve nada, é por causa da vidraça. O menino julgou, a princípio, que eram pessoas vivas, e, quando finalmente compreendeu que eram bonecos, pôs-se de súbito a rir. Nunca tinha visto bonecos assim, nem mesmo suspeitava que existissem! Certamente, desejaria chorar, mas era tão cômico, tão engraçado ver esses bonecos! De repente pareceu-lhe que alguém o puxava por trás. Um moleque grande, malvado, que estava ao lado dele, deu-lhe de repente um tapa na cabeça, derrubou o seu gorrinho e passou-lhe uma rasteira. O menino rolou pelo chão, algumas pessoas se puseram a gritar: aterrorizado, ele se levantou para fugir depressa e correu com quantas pernas tinha, sem saber para onde. Atravessou o portão de uma cocheira, penetrou num pátio e sentou-se atrás de um monte de lenha. "Aqui, pelo menos", refletiu ele, "não me acharão: está muito escuro."

Sentou-se e encolheu-se, sem poder retomar fôlego, de tanto medo, e bruscamente, pois foi muito rápido, sentiu um grande bem-estar, as mãos e os pés tinham deixado de doer, e sentia calor, muito calor, como ao pé de uma estufa. Subitamente se mexeu: um pouco mais e ia dormir! Como seria bom dormir nesse lugar! "mais um instante e irei ver outra vez os bonecos", pensou o menino, que sorriu à sua lembrança: "Podia jurar que eram vivos!"... E de repente pareceu-lhe que sua mãe lhe cantava uma canção. "Mamãe, vou dormir; ah! como é bom dormir aqui!"

- Venha comigo, vamos ver a árvore de Natal, meu menino - murmurou repentinamente uma voz cheia de doçura.

Ele ainda pensava que era a mãe, mas não, não era ela. Quem então acabava de chamá-lo? Não vê quem, mas alguém está inclinado sobre ele e o abraça no escuro, estende-lhe os braços e... logo... Que claridade! A maravilhosa árvore de Natal! E agora não é um pinheiro, nunca tinha visto árvores semelhantes! Onde se encontra então nesse momento? Tudo brilha, tudo resplandece, e em torno, por toda parte, bonecos - mas não, são meninos e meninas, só que muito luminosos! Todos o cercam, como nas brincadeiras de roda, abraçam-no em seu vôo, tomam-no, levam-no com eles, e ele mesmo voa e vê: distingue sua mãe e lhe sorrir com ar feliz.
- Mamãe! mamãe! Como é bom aqui, mamãe! - exclama a criança. De novo abraça seus companheiros, e gostaria de lhes contar bem depressa a história dos bonecos da vidraça... - Quem são vocês então, meninos? E vocês, meninas, quem são? - pergunta ele, sorrindo-lhes e mandando-lhes beijos.

- Isto... é a árvore de Natal de Cristo - respondem-lhe. - Todos os anos, neste dia, há, na casa de Cristo, uma árvore de Natal, para os meninos que não tiveram sua árvore na terra...

E soube assim que todos aqueles meninos e meninas tinham sido outrora crianças como ele, mas alguns tinham morrido, gelados nos cestos, onde tinham sido abandonados nos degraus das escadas dos palácios de Petersburgo; outros tinham morrido junto às amas, em algum dispensário finlandês; uns sobre o seio exaurido de suas mães, no tempo em que grassava, cruel, a fome de Samara; outros, ainda, sufocados pelo ar mefítico de um vagão de terceira classe. Mas todos estão ali nesse momento, todos são agora como anjos, todos juntos a Cristo, e Ele, no meio das crianças, estende as mãos para abençoá-las e às pobres mães... E as mães dessas crianças estão ali, todas, num lugar separado, e choram; cada uma reconhece seu filhinho ou filhinha que acorrem voando para elas, abraçam-nas, e com suas mãozinhas enxugam-lhes as lágrimas, recomendando-lhes que não chorem mais, que eles estão muito bem ali...

E nesse lugar, pela manhã, os porteiros descobriram o cadaverzinho de uma criança gelada junto de um monte de lenha. Procurou-se a mãe... Estava morta um pouco adiante; os dois se encontraram no céu, junto ao bom Deus.

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Extraído do site Para ler e pensar

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Conto: "Os três carneirinhos"

Já estou na 29ª semana da minha gestação. Pesada demais e sem fôlego para minhas apresentações. Principalmente porque gosto muito de me mover pelo espaço onde conto minhas estórias. Gosto de mexer com o público, afinal eu sou uma cigana, pois não? Depois que meu bebê nascer, se Deus quiser no final de janeiro, eu ainda terei um tempo de resguardo para me recuperar, mas quero logo voltar a contar as minhas estorinhas. Sinto falta disso. Tenho tanta coisa planejada! E fiquei ainda mais contente quando recebi a correspondência da Biblioteca Nacional confirmando o registro do meu primeiro livrinho infantil, "Galo rouco? Tem rato no sino!" Meu primo, Arthurzinho (que assina Art Kopinits), é quem está fazendo as ilustrações. A estória é bem legal, acho que as crianças vão gostar muito.

Bem, nesse meio tempo, em que estou meio que retirada da vida externa, tenho acompanhado a TV Brasil. Excelente programação. Ontem, ao colocar minha filha, Victoria, que completou 1 ano e 4 meses, para dormir, assisti à contação da estória dos três carneirinhos. Parece que é uma versão de um conto do folclore norueguês, "Three Billy Goats Gruff", coletado por Peter Christen Asbjørnsen e Jørgen Moe em sua coletânea Norske Folkeeventyr. Pesquisando na internet, vi que a Xuxa cantou uma versão musicada. Aqui vai, em minha tradução e adaptação:

"Há muito tempo atrás havia três carneirinhos que gostavam de subir a colina para encher as barriguinhas, e o nome de todos os três era "Gruff".

No caminho para a colina, havia uma ponte sobre um riacho que eles tinham que atravessar. E debaixo da ponte morava um troll horroroso, com olhos grandes como pratos e um nariz tão longo quanto um graveto.

Então, primeiro de todos, veio o carneiro mais novinho para cruzar a ponte.

- Trip, trap, trip, trap! - fez a ponte.

- Quem está trotando na minha ponte? - berrou o troll.

- Oh, sou eu, o menor dos carneirinhos Gruff, e eu estou subindo a colina para encher a minha barriguinha. - disse o carneiro, com uma voz bem baixinha.

- Ah, então agora eu vou encher a minha barriguinha com você! - disse o troll.

- Oh, não, por favor, não me devore! Eu sou muito pequenininho! - disse o carneiro. - Espere até que o segundo de nós venha. Ele é muito maior.

- Ah, está certo. - disse o troll - Pode ir embora!

Um pouco depois, chegou o segundo carneiro para cruzar a ponte.

- Trip, trap, trip, trap, trip, trap! - fez a ponte.

- Quem está trotando na minha ponte? - berrou o troll.

- Oh, sou eu, o segundo dos carneirinhos Gruff, e eu estou subindo a colina para encher a minha barriguinha. - disse o carneiro, com uma voz que não era tão baixinha como a do irmão caçula.

- Ah, então agora eu vou encher a minha barriguinha com você! - disse o troll.

- Oh, não, por favor, não me devore! - disse o carneiro. - Espere até que o mais velho de nós venha. Ele é muito maior.

- Ah, está certo. - disse o troll - Pode ir embora!

O maior carneiro de todos estava chegando bem naquela hora.

- Trip, trap, trip, trap, trip, trap! - fez a ponte, e o o carneiro era tão pesado que a ponte estalou debaixo dele.

- Quem está trotando na minha ponte? - berrou o troll.

- Sou eu, o grande carneiro Gruff, e eu estou subindo a colina para encher a minha barriga! - respondeu o maior de todos os carneirinhos, em uma voz que nada tinha de baixinha.

- Ah, então agora eu vou encher a minha barriguinha com você! - disse o troll.

- Pode vir! - respondeu o carneiro - Eu tenho dois chifres enormes e vou furar seus olhos, vou segurar e levantar você e jogar bem longe!

Aquilo foi o que o carneiro, que era o maior de todos, disse. E bem dito, bem feito. Ele correu até o troll, o agarrou com seus chifres e o jogou bem longe, lá embaixo no riacho. E depois disso, muito calmamente, atravessou a ponte e subiu para a colina, onde se juntou aos seus dois irmãos e encheu a barriga com a grama bem verdinha.

E o troll? Ah, ninguém nunca mais ouviu falar dele..."

***

Ilustração da capa do livro "The Three Billy-Goats Gruff", de Val Biro - Editora Star Bright Books, 1998 - ISBN 1887734465, 9781887734462 - 32 páginas

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Conto: "O que significa trabalho em equipe"

Eu já tinha lido esse conto antes, mas não tinha ainda registrado aqui. É muito bacana, perfeito para explicar que o que acontece com uma pessoa pode afetar todo o universo - contrariando aquela de dizer "o problema não é meu, não tenho nada a ver com isso". Como todos vivemos em um grande organismo vivo - o planeta Terra, Gaia - todos temos a ver. Uma pedra arremessada mesmo ao acaso em um lago vai criar ondas concêntricas que vão alcançar um raio muito mais amplo do que aquele pedacinho de água em que foi jogada. O que acontece no outro lado do mundo tem ecos aqui mesmo, onde moramos. Todos estamos ligados, conforme é contado nessa estorinha, cujo autor desconheço, coletada de um blog muito legal (vide créditos no final):
"Um rato, olhando pelo buraco na parede, vê o fazendeiro e sua esposa abrindo um pacote. Pensou logo no tipo de comida que poderia haver ali. Ao descobrir que era uma ratoeira, ficou aterrorizado.
Correu ao curral da fazenda advertindo a todos:
- Há uma ratoeira na casa! Há uma ratoeira na casa!
A galinha disse:
- Desculpe-me, Senhor Rato, eu entendo que isso seja um grande problema para o senhor, mas não me prejudica em nada, não me incomoda.
O rato foi então até o porco e lhe disse:
- Senhor Porco, há uma ratoeira na casa, uma ratoeira...
O porco disse:
- Desculpe-me, Senhor Rato, mas não há nada que eu possa fazer, a não ser rezar. Fique tranquilo que o senhor será lembrado nas minhas preces.
O rato dirigiu-se então à vaca.
A vaca lhe disse:
- O quê, Senhor Rato? Uma ratoeira? Por acaso estou em perigo?
- Acho que não, Senhora Vaca... - respondeu o rato.
Então ele voltou para seu canto, cabisbaixo e abatido, para encarar a ratoeira do fazendeiro sozinho.
Naquela noite, ouviu-se um barulho, como o de uma ratoeira pegando sua vítima.
A mulher do fazendeiro correu para ver o que havia pego. No escuro, ela não viu que a ratoeira havia pego a cauda de uma cobra venenosa.
E a cobra picou a mulher.
O fazendeiro a levou imediatamente ao hospital, era grave, porém, por um milagre, se recuperou e voltou para casa, mas com muitos cuidados.
Saúde abalada, nada melhor que uma canja de galinha.
O fazendeiro pegou seu cutelo e foi providenciar o ingrediente principal, a galinha.
Como a doença da mulher continuava, os parentes, amigos e vizinhos vieram visitá-la.
Para alimentá-los, o fazendeiro matou o porco.
A mulher se recuperou e o fazendeiro, feliz da vida, resolveu dar uma festa e matou a vaca para o churrasco..."

MORAL DA HISTÓRIA:
Na próxima vez que você ouvir dizer que alguém está diante de um problema e acreditar que o problema não lhe diz respeito, lembre-se que, quando existir uma ratoeira, todos correm risco.
***

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Conto: "A flor da honestidade"

Adorei esse conto, quando o li. Essa versão, chamada "A honestidade sempre vence", é da coleção Pequenas Lições, da Editora Soler, com ilustrações de Roberta Castro. É excelente para o público adulto ou o infanto-juvenil. É uma bela lição sobre a importância da honestidade, virtude que transformou uma moça humilde em uma princesa.
***
"Houve uma época, na China antiga, que um príncipe estava para ser coroado imperador, mas, de acordo com a lei, deveria se casar antes da coroação.


Sabendo disso, o príncipe resolveu fazer um concurso entre as moças da corte e anunciou que receberia, naquela noite, todas as pretendentes para lançar um desafio.


Uma velha senhora que trabalhava no palácio há muitos anos, ao ouvir o anúncio, se entristeceu, pois sabia que sua jovem filha tinha um profundo sentimento de amor pelo príncipe.

Ao chegar em casa e contar à filha sobre o concurso, espantou-se ao saber que ela pretendia participar e perguntou:

- Minha filha, o que você vai fazer lá? Estarão presentes as mais belas e ricas moças da corte. Tire essa ideia maluca da cabeça. Sei que você está sofrendo, mas não transforme o seu sofrimento numa dor ainda maior.

E a filha respondeu:

- Não, mãe, não estou sofrendo nem estou louca. Sei que jamais poderei ser a escolhida, mas é a minha oportunidade de ficar pelo menos alguns minutos perto do príncipe. Só isso já me tornará muito feliz.

À noite, a jovem chegou ao palácio e, de fato, lá estavam as mais belas moças, com lindas roupas e jóias caras.

Então, o príncipe anunciou as regras do concurso:

- Darei a cada uma de vocês uma semente. Aquela que, dentro de seis meses, me trouxer a mais bela flor será escolhida minha esposa e futura imperatriz da China.

O tempo passou e a doce jovem cuidava com muito cuidado e ternura da sua semente, pois sabia que, se a beleza da flor que brotasse fosse na mesma extensão do seu amor pelo príncipe, ela teria grandes chances de ser a escolhida.

Porém, passaram-se três meses e nada surgiu no pequeno vaso.

Dia após dia, ela ficava mais triste e sem esperanças, pois a sua semente não havia brotado.

Por fim, os seis meses se completaram e nenhuma flor nasceu no vaso da jovem menina. Chorando, ela disse para sua mãe que, assim mesmo, voltaria ao palácio no dia combinado, pois queria apenas mais alguns momentos perto do seu amado príncipe.

No dia e hora marcados pelo príncipe, lá estava a jovem, com o seu vaso vazio, e encontrou todas as outras moças pretendentes, cada uma com uma flor mais bela que a outra, das mais variadas cores.

A jovem estava assustada e envergonhada, pois todas tinham flores belíssimas e seu vaso não tinha flor.

Finalmente, chega o grande momento. O príncipe vai de uma em uma e observa todas as lindas moças e as suas lindas flores, com muito cuidado e atenção.

Após passar por todas as moças, ele anuncia o resultado e indica a jovem humilde, com o vaso sem flor, como a sua futura esposa.

As pessoas presentes tiveram as mais diversas reações. Como o príncipe pôde escolher alguém que não conseguira cultivar uma flor, ao contrário das outras moças, que trouxeram lindas flores?

Então, calmamente, o príncipe esclareceu:

- Esta moça foi a única que cultivou a flor que a tornou digna de ser a imperatriz: a flor da honestidade. Pois todas as sementes que entreguei eram estéreis e não poderiam brotar."

Lindo, né? Que lição para aquela gente...

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LEGRAND. A honestidade sempre vence. Belo Horizonte: Soler Editora, 2007.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Texto: "Quem hoje escreve já leu muuuito!" - Catarina Chagas

Encontrei essa matéria no site da Revista Ciência Hoje das Crianças e achei muito interessante. Fala de algo que defendo: a leitura é um hábito que deve ser incutido e estimulado desde cedo. Grandes autores foram leitores ávidos quando criança. Confira a matéria:

Quem hoje escreve já leu muuuito!
Autores das aventuras literárias que hoje te encantam também adoravam ler quando crianças
Catarina Chagas
(Ilustração de Mariana Massarani)

Você gosta de ler? Aposto que sim. E aposto, também, que vai adorar saber que os autores das aventuras literárias que hoje te encantam também adoravam ler quando crianças. Pois saiba que Pedro Bandeira, Ninfa Parreiras, Ana Maria Machado, Ricardo Azevedo, Fernando Vilela e João Carlos Marinho tiveram uma infância recheada de páginas ilustradas e cheias de histórias para contar. A CHC entrevistou esses escritores para saber por que eles escolheram essa carreira e o que eles gostavam de ler quando tinham a sua idade. Confira o depoimento de Pedro Bandeira a seguir e os demais, na CHC 206! Leitura companheira Em sua infância, Pedro Bandeira, autor de mais de 80 títulos, entre eles A marca de uma lágrima e O fantástico mistério de Feiurinha (os dois da Editora Moderna), encontrava nos livros grandes companheiros de aventura. “Meus irmãos eram mais velhos, então, eu ficava sozinho quando chegava da escola”, lembra. “Naquela época não tinha televisão e eram os livros que nos divertiam”.
Ele conta que ainda não existiam muitos livros infantis brasileiros, mas já lia as histórias de Monteiro Lobato (autor de Reinações de Narizinho). Lia, também, obras estrangeiras, como Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas, as aventuras de Tarzan e livros policiais como os do personagem Sherlock Holmes. “Eram livros para adultos, mas eu gostava, porque tinham aventura”, diz. E recorda como conheceu livros pra lá de famosos: “Na casa de um tio meu havia alguns livros grandes, com capas de couro, ilustrações bonitas a bico de pena. Lembro de um sobre cavalaria. Pedi o livro ao meu tio: era Dom Quixote, de Miguel de Cervantes”. Pedro é um apaixonado pela leitura, mas, quando jovem, não pensava em ser escritor, e, sim, ator. Começou a trabalhar como jornalista e só depois veio a oportunidade de escrever para crianças em revistas infantis. Os textos fizeram sucesso e, com 40 anos, Pedro publicou o seu primeiro livro, O dinossauro que fazia au-au.

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segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Conto: "Eu o amo mais do que ao sal"

O sal é um elemento primordial para a vida. Este conto, que trago hoje, fala dessa importância. Eu o li em alguns livros, mas essa versão, do folclore escocês, é da Shahrukh Husain, do seu "O Livro das Bruxas", uma excelente compilação de contos de magia. Shahrukh Husain é psicoterapeuta e escritora de origem paquistanesa, nascida em 28/04/1950, autora de livros como A Deusa: Poder, Sexualidade e o Divino Feminino (2003). Leia mais sobre ela em: http://www.shahrukhhusain.com//

Eu o amo mais do que ao sal

Há muitos anos atrás existiu um rei e sua rainha e eles tiveram três filhas.
O rei e a rainha amavam suas filhas com todo o coração, mas um dia a rainha ficou muito, muito doente. Ela foi definhando e morreu. O rei ficou muito triste por perder sua bela rainha, e suas filhas ficaram muito tristes por perderem a mãe.
Mas o rei reuniu as filhas, e disse-lhe:
- Escutem, crianças, sua mãe foi para um outro mundo e algum dia espero encontrar-me com ela outra vez. Mas o principal é que vocês devem ser felizes e entender que devo cuidar de vocês. E algum dia, quando eu morrer, uma de vocês será a rainha deste país.
Os anos se passaram e as três princesinhas cresceram. O rei gostava de caçar e de atirar, ele gostava de tudo; era um bom rei e seu povo, os súditos do país, o amavam muito. Mas uma noite o rei pensou consigo mesmo: "Os anos estão passando, estou ficando velho e não tenho um filho para suceder-me como rei. Uma de minhas filhas certamente deverá ser uma boa rainha. Mas qual? Qual será a melhor? sei que elas todas são carinhosas, amorosas, e muito boas. Mas terei de testá-las para ver qual é a mais apropriada para reinar depois de mim".
Então o rei, sendo um rei ocupado com todos os seus súditos e as coisas de seu país, não tinha muito tempo para passar com suas princesas. Ele as via todos os dias e jantava com elas e falava com elas, mas nunca teve uma conversa séria com elas. Então uma noite ele disse a seus cortesãos e a todos no palácio que queria ser deixado a sós, porque ele iria passar aquela noite com as filhas. Após o jantar, ele chamou as três princesas para se sentarem à sua volta.
- Agora, minhas jovens - disse ele - quero conversar com vocês. Sabem que já faz muito tempo que sua mãe morreu. E tenho feito o melhor, e todo mundo no palácio tem feito o melhor para criá-las e ensiná-las a fazer o que desejamos que sejam - jovens princesas deste reino. Realmente não tivemos uma conversa séria antes, mas hoje desejo saber qual de vocês será a rainha depois que eu morrer!
As princesas ficaram muito aborrecidas! Elas disseram:
- Papai, não desejamos ser rainhas, só queremos que você fique conosco para sempre!
Mas ele disse:
- É impossível ficar aqui para sempre, crianças. Algum dia terei de partir deste mundo. Encontrarei sua mãe num lugar muito distante e vocês ficarão sozinhas. Não quero discussão, disputa entre vocês três... Se pelo menos uma de vocês fosse diferente! Então - ele disse - amar a mim é amar a meu povo. Esta noite vou dar a vocês uma tarefa: quero que digam o quanto realmente me amam.
E perguntou primeiro à filha mais velha. E ela respondeu:
- Papai, eu amo você mais do que todos os diamantes, pérolas e jóias do mundo.
- Muito bem - disse ele - que ótimo!
Então ele perguntou à segunda filha:
- O quanto você me ama?
Ela disse:
- Eu o amo mais que todo ouro do mundo, eu o amo mais do que todo dinheiro que existe nesta terra.
Ele disse:
-Muito bem, isso é muito bom!
Chegou a vez da caçula, que era graciosa e bonita e só tinha quinze anos:
- Então - disse ele - caçulinha, o quanto você me ama?
- Bom, papai - ela respondeu - eu o amo mais do que ao sal.
- Você me ama mais do que ao sal? - ele repetiu.
- Sim, papai - ela disse - eu o amo mais do que ao sal.
E o rei ficou muito, muito aborrecido! Ele disse :
- Sua irmã me ama mais do que as jóias e diamantes, e sua outra irmã me ama mais do que todo o ouro deste mundo. Mas você - você me ama mais do que ao sal?! Bem, se é assim que você sente, eu não a amo! E amanhã cedo você vai embora, será banida daqui. eu não quero vê-la nunca mais! Você me desgraçou - a coisa mais baixa da terra é o sal!
O rei ordenou que na manhã seguinte ela fosse embora, encontrar seu próprio caminho no mundo, e nunca regressasse ao palácio. Ele estava tão aborrecido! Então a pobre princesinha ficou muito triste e de coração partido. Ela juntou uns poucos pertences... e suas irmãs riram e caçoaram dela. E ela foi mandada embora por ter desgraçado o pai.
A princesa andou, viajou, não tinha para onde ir. Ela viajou e viajou. E chegou a uma grande floresta e encontrou um pequeno caminho. Seguiu o caminho e pensou:
- Provavelmente esse caminho me levará a uma pequena aldeia ou a um pequeno povoado onde eu possa encontrar algum lugar para abrigar-me.
Mas o caminho a levou para o meio da floresta, a muitas e muitas milhas do palácio. Ali, ela viu uma pequena cabana. E a princesa pensou: "Provavelmente encontrarei abrigo aqui"
Ela aproximou-se da cabana e bateu na porta. E quando a porta se abriu, surgiu uma velha de cabelos brancos compridos e com um vestido todo rasgado. Ela disse:
- O que você está fazendo aqui, queridinha?
E a princesa disse:
- Bem, é uma longa história. Estou procurando abrigo para a noite.
- Mas para onde você vai depois? - perguntou a velha.
E a princesinha respondeu:
- Não vou para lugar nenhum. Vou... fui banida pelo meu pai.
- Seu pai? - perguntou a mulher.
- Sim - disse ela - meu pai, o rei!
- Seu pai, o rei... ele a expulsou? Conte-me essa história.
Então a velha acolheu a princesinha na cabana na floresta e deu-lhe algo para comer. E sentou-a perto do fogo. E sentadinho perto do fogo estava um grande gato preto. E o grande gato preto aproximou-se e pôs a cabeça no joelho da mocinha. Ela acariciou-o. Ele ronronou como um gatinho. A velha, quando viu isso, ficou surpresa e disse:
- Sabe, embora as visitas aqui sejam poucas, nunca ninguém que tenha estado aqui foi amigo do meu gato. Por isso, como ele distingue o bem do mal... você é boa! Conte-me a sua história.
Então a princesa contou-lhe a história sobre quando sua mãe morreu e ela foi criada pelo pai e passou a vida toda no palácio e então um dia seu pai chamou as filhas... E contou-lhe a história toda que já contei a vocês.
- Que tristeza. Seu pai está precisando de uma lição.
- Mas - ela retrucou- eu não posso voltar. Fui banida do palácio, meu pai nunca mais vai querer ver-me de novo.
A velha respondeu:
- Quem sabe, talvez algum dia ele ficará feliz em ver você!
Agora, voltando ao palácio, o rei vivia com suas duas filhas; a terceira tinha ido embora. E naturalmente o rei tinha suas refeições trazidas a ele. Trouxeram-lhe carne de vaca e de carneiro, e o rei adorava sua comida salgada.
Mas um dia, quando uma carne foi colocada na frente do rei, ele provou e de repente gritou:
- Tragam-me sal! - ordenou ao chefe e ao cozinheiro. - tragam-me sal!
Eles vieram tremendo:
- Meu senhor, não há sal - eles disseram.
O rei disse:
- Tire isso daqui, não posso comer sem sal! Traga-me outra coisa!
Então trouxeram-lhe coisas doces para comer. E trouxeram coisas doces no dia seguinte, no outro e no outro.
Mas o rei já estava cansado daquilo tudo. Ele disse:
- Tragam-me alguma carne, tragam-me um assado, um porco, algo que eu possa comer! Tragam-me comida, comida gostosa!
Os cozinheiros e os chefes trouxeram-lhe comidas gostosas, mas sem sal. O rei enviou mensageiros, enviou soldados, mandou todo mundo pelo país inteiro... Para as princesas estavam bem, elas adoravam comidas doces. Mas seu pai, o rei, não conseguia um grão de sal em todo o seu reino.
Na pequena cabana na floresta a princesa ficou com a velha, e tornaram-se amigas. Ela cozinhava e limpava para a velha, e o gato era seu melhor amigo. A velha amava a princesinha como nunca amara nada na vida. Mas um dia a velha voltou da floresta com uma cesta de ervas, que ela passara uma grande parte do dia a colher. Ela disse à princesa:
- Sabe, vou ficar triste amanhã.
E a princesa perguntou:
- Por que, avozinha, você vai ficar triste amanhã?
- Porque você vai deixar-me.
- Mas vovozinha, não quero deixá-la. Não tenho para onde ir.
A velha disse:
- Você precisa voltar para o seu pai.
A princesa retrucou:
- Mas não posso voltar ao palácio, porque meu pai me baniu.
- Já não mais. Olhe, dê-me seu vestido - e a princesa tirou o vestido.
A velha foi ao quarto e voltou em poucos minutos. Mas quando voltou, o vestido da princesa estava cheio de remendos e todo esfarrapado.
- Agora - disse ela à princesa - tire os sapatos.
A princesa tirou os sapatos. E a velha pegou uma tesoura e cortou o cabelo da princesa. A seguir ela foi perto do fogo e juntou um punhado de fuligem. E esfregou as cinzas no rosto da princesa.
- Agora - ela disse - você pode voltar para o seu pai.
- Fui banida, eu não... não posso voltar ao palácio!
- Você deve - disse a velha - porque você vai ser a próxima rainha!
- Eu, a próxima rainha? Uma de minhas irmãs é quem vai ser a próxima rainha; elas amam meu pai como ao ouro, elas amam meu pai como a diamantes.
- Mas - disse a velha - você ama seu pai mais do que ao sal! - e foi à cozinha e tirou uma pequena sacola de pano e encheu-a de sal.
- Agora - disse ela - tome isto e volte ao palácio. Tenho certeza de que será bem-vinda.
Então a princesa sabia que a velha estava falando a verdade, sabia que a velha tinha sido boa para ela. E disse:
- Lembre-se, eu voltarei!
- Volte - disse a velha - quando você for rainha! Vá para o palácio pelo mesmo caminho em que chegou aqui.
A princesa despediu-se da velha. Sabia que ela era uma bruxa. E que tinha destruído cada partícula de sal do país porque a princesa havia lhe contado sua história... e mesmo se alguém tivesse trazido sal de qualquer distância do palácio, o sal desapareceria, porque a velha bruxa havia posto um feitiço no palácio: nenhum sal poderia entrar ali.
A essa altura o rei estava ficando louco, ele não conseguia sentir gosto em nada - daria o seu reinado, por um grão de sal. Então, dois dias depois, quando ele estava clamando por sal e dizia que iria morrer se não comesse sal... chegou uma mendiga descalça no palácio. E o guarda parou-a e perguntou-lhe o que queria.
Ela disse:
- Quero ver o rei.
- Por que você quer ver o rei? - o guarda indagou.
- Bem - disse ela - eu trouxe um presente para o rei.
- O que poderia uma mendiga descalça trazer para o rei?
Ela respondeu:
- Eu trouxe uma sacola de sal.
E quando ele ouviu isso, rapidamente - ele não queria perder tempo - levou-a até o rei. E o guarda disse:
- Majestade, eu trouxe alguém para vê-lo.
Ela estava diante do rei, com o cabelo cortado, o rosto sujo de cinzas, descalça. E na mão trazia uma sacola.
O rei disse:
- Quem é essa mendiga esfarrapada que você trouxe aqui?
E os guardas, os cozinheiros, e todos estavam ansiosos; eles disseram:
- Majestade, o senhor não pode imaginar o que essa mendiga trouxe... ela trouxe algo muito especial!
- O que ela poderia trazer-me? - disse o rei. - Nada no mundo eu desejo: tenho ouro, tenho diamantes, tenho tudo...Mas se pelo menos eu pudesse ter um pouco de sal...
O guarda disse:
- Majestade, a mendiga trouxe-lhe uma sacola de sal.
- Oh, oh - disse o rei - ela trouxe... ela... traga-a aqui!
A princesinha aproximou-se do rei e disse:
- Aqui está...
O rei olhou dentro da sacola, colocou um dedo dentro da sacola e provou.
-Até que enfim - ele disse - Saaaal! A coisa mais maravilhosa do mundo! Melhor do que diamantes ou pérolas ou ouro ou qualquer coisa no meu reino! Por fim, posso comer.
Ele dirigiu-se à mendiga, e disse:
- O que você deseja? Você me trouxe a coisa mais preciosa deste mundo... O que você quer? Que tipo de recompensa deseja?
Ela voltou-se e disse:
- Pai, não quero nada!
E o rei disse:
- O quê?
Ela disse ao rei:
-Pai, não quero nada. Porque o amo mais do que amo ao sal.
Então o rei soube que a moça era sua filha mais jovem. Ele abraçou-a e beijou-a, e a fez mais do que bem-vinda. Ele descobriu a verdade: o sal era mais importante para ele do que qualquer coisa do mundo. E ela foi acolhida por todos no palácio. Quando o velho rei morreu ela tornou-se rainha e reinou sobre o país por muitos anos, e nunca se esqueceu de sua amiga, a velha da floresta. E assim termina minha história.

***
HUSAIN, Shahrukh. O Livro das Bruxas. Rio de Janeiro: Objetiva, 1993.

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