quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Conto: "O que significa trabalho em equipe"

Eu já tinha lido esse conto antes, mas não tinha ainda registrado aqui. É muito bacana, perfeito para explicar que o que acontece com uma pessoa pode afetar todo o universo - contrariando aquela de dizer "o problema não é meu, não tenho nada a ver com isso". Como todos vivemos em um grande organismo vivo - o planeta Terra, Gaia - todos temos a ver. Uma pedra arremessada mesmo ao acaso em um lago vai criar ondas concêntricas que vão alcançar um raio muito mais amplo do que aquele pedacinho de água em que foi jogada. O que acontece no outro lado do mundo tem ecos aqui mesmo, onde moramos. Todos estamos ligados, conforme é contado nessa estorinha, cujo autor desconheço, coletada de um blog muito legal (vide créditos no final):
"Um rato, olhando pelo buraco na parede, vê o fazendeiro e sua esposa abrindo um pacote. Pensou logo no tipo de comida que poderia haver ali. Ao descobrir que era uma ratoeira, ficou aterrorizado.
Correu ao curral da fazenda advertindo a todos:
- Há uma ratoeira na casa! Há uma ratoeira na casa!
A galinha disse:
- Desculpe-me, Senhor Rato, eu entendo que isso seja um grande problema para o senhor, mas não me prejudica em nada, não me incomoda.
O rato foi então até o porco e lhe disse:
- Senhor Porco, há uma ratoeira na casa, uma ratoeira...
O porco disse:
- Desculpe-me, Senhor Rato, mas não há nada que eu possa fazer, a não ser rezar. Fique tranquilo que o senhor será lembrado nas minhas preces.
O rato dirigiu-se então à vaca.
A vaca lhe disse:
- O quê, Senhor Rato? Uma ratoeira? Por acaso estou em perigo?
- Acho que não, Senhora Vaca... - respondeu o rato.
Então ele voltou para seu canto, cabisbaixo e abatido, para encarar a ratoeira do fazendeiro sozinho.
Naquela noite, ouviu-se um barulho, como o de uma ratoeira pegando sua vítima.
A mulher do fazendeiro correu para ver o que havia pego. No escuro, ela não viu que a ratoeira havia pego a cauda de uma cobra venenosa.
E a cobra picou a mulher.
O fazendeiro a levou imediatamente ao hospital, era grave, porém, por um milagre, se recuperou e voltou para casa, mas com muitos cuidados.
Saúde abalada, nada melhor que uma canja de galinha.
O fazendeiro pegou seu cutelo e foi providenciar o ingrediente principal, a galinha.
Como a doença da mulher continuava, os parentes, amigos e vizinhos vieram visitá-la.
Para alimentá-los, o fazendeiro matou o porco.
A mulher se recuperou e o fazendeiro, feliz da vida, resolveu dar uma festa e matou a vaca para o churrasco..."

MORAL DA HISTÓRIA:
Na próxima vez que você ouvir dizer que alguém está diante de um problema e acreditar que o problema não lhe diz respeito, lembre-se que, quando existir uma ratoeira, todos correm risco.
***

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Conto: "A flor da honestidade"

Adorei esse conto, quando o li. Essa versão, chamada "A honestidade sempre vence", é da coleção Pequenas Lições, da Editora Soler, com ilustrações de Roberta Castro. É excelente para o público adulto ou o infanto-juvenil. É uma bela lição sobre a importância da honestidade, virtude que transformou uma moça humilde em uma princesa.
***
"Houve uma época, na China antiga, que um príncipe estava para ser coroado imperador, mas, de acordo com a lei, deveria se casar antes da coroação.


Sabendo disso, o príncipe resolveu fazer um concurso entre as moças da corte e anunciou que receberia, naquela noite, todas as pretendentes para lançar um desafio.


Uma velha senhora que trabalhava no palácio há muitos anos, ao ouvir o anúncio, se entristeceu, pois sabia que sua jovem filha tinha um profundo sentimento de amor pelo príncipe.

Ao chegar em casa e contar à filha sobre o concurso, espantou-se ao saber que ela pretendia participar e perguntou:

- Minha filha, o que você vai fazer lá? Estarão presentes as mais belas e ricas moças da corte. Tire essa ideia maluca da cabeça. Sei que você está sofrendo, mas não transforme o seu sofrimento numa dor ainda maior.

E a filha respondeu:

- Não, mãe, não estou sofrendo nem estou louca. Sei que jamais poderei ser a escolhida, mas é a minha oportunidade de ficar pelo menos alguns minutos perto do príncipe. Só isso já me tornará muito feliz.

À noite, a jovem chegou ao palácio e, de fato, lá estavam as mais belas moças, com lindas roupas e jóias caras.

Então, o príncipe anunciou as regras do concurso:

- Darei a cada uma de vocês uma semente. Aquela que, dentro de seis meses, me trouxer a mais bela flor será escolhida minha esposa e futura imperatriz da China.

O tempo passou e a doce jovem cuidava com muito cuidado e ternura da sua semente, pois sabia que, se a beleza da flor que brotasse fosse na mesma extensão do seu amor pelo príncipe, ela teria grandes chances de ser a escolhida.

Porém, passaram-se três meses e nada surgiu no pequeno vaso.

Dia após dia, ela ficava mais triste e sem esperanças, pois a sua semente não havia brotado.

Por fim, os seis meses se completaram e nenhuma flor nasceu no vaso da jovem menina. Chorando, ela disse para sua mãe que, assim mesmo, voltaria ao palácio no dia combinado, pois queria apenas mais alguns momentos perto do seu amado príncipe.

No dia e hora marcados pelo príncipe, lá estava a jovem, com o seu vaso vazio, e encontrou todas as outras moças pretendentes, cada uma com uma flor mais bela que a outra, das mais variadas cores.

A jovem estava assustada e envergonhada, pois todas tinham flores belíssimas e seu vaso não tinha flor.

Finalmente, chega o grande momento. O príncipe vai de uma em uma e observa todas as lindas moças e as suas lindas flores, com muito cuidado e atenção.

Após passar por todas as moças, ele anuncia o resultado e indica a jovem humilde, com o vaso sem flor, como a sua futura esposa.

As pessoas presentes tiveram as mais diversas reações. Como o príncipe pôde escolher alguém que não conseguira cultivar uma flor, ao contrário das outras moças, que trouxeram lindas flores?

Então, calmamente, o príncipe esclareceu:

- Esta moça foi a única que cultivou a flor que a tornou digna de ser a imperatriz: a flor da honestidade. Pois todas as sementes que entreguei eram estéreis e não poderiam brotar."

Lindo, né? Que lição para aquela gente...

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LEGRAND. A honestidade sempre vence. Belo Horizonte: Soler Editora, 2007.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Texto: "Quem hoje escreve já leu muuuito!" - Catarina Chagas

Encontrei essa matéria no site da Revista Ciência Hoje das Crianças e achei muito interessante. Fala de algo que defendo: a leitura é um hábito que deve ser incutido e estimulado desde cedo. Grandes autores foram leitores ávidos quando criança. Confira a matéria:

Quem hoje escreve já leu muuuito!
Autores das aventuras literárias que hoje te encantam também adoravam ler quando crianças
Catarina Chagas
(Ilustração de Mariana Massarani)

Você gosta de ler? Aposto que sim. E aposto, também, que vai adorar saber que os autores das aventuras literárias que hoje te encantam também adoravam ler quando crianças. Pois saiba que Pedro Bandeira, Ninfa Parreiras, Ana Maria Machado, Ricardo Azevedo, Fernando Vilela e João Carlos Marinho tiveram uma infância recheada de páginas ilustradas e cheias de histórias para contar. A CHC entrevistou esses escritores para saber por que eles escolheram essa carreira e o que eles gostavam de ler quando tinham a sua idade. Confira o depoimento de Pedro Bandeira a seguir e os demais, na CHC 206! Leitura companheira Em sua infância, Pedro Bandeira, autor de mais de 80 títulos, entre eles A marca de uma lágrima e O fantástico mistério de Feiurinha (os dois da Editora Moderna), encontrava nos livros grandes companheiros de aventura. “Meus irmãos eram mais velhos, então, eu ficava sozinho quando chegava da escola”, lembra. “Naquela época não tinha televisão e eram os livros que nos divertiam”.
Ele conta que ainda não existiam muitos livros infantis brasileiros, mas já lia as histórias de Monteiro Lobato (autor de Reinações de Narizinho). Lia, também, obras estrangeiras, como Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas, as aventuras de Tarzan e livros policiais como os do personagem Sherlock Holmes. “Eram livros para adultos, mas eu gostava, porque tinham aventura”, diz. E recorda como conheceu livros pra lá de famosos: “Na casa de um tio meu havia alguns livros grandes, com capas de couro, ilustrações bonitas a bico de pena. Lembro de um sobre cavalaria. Pedi o livro ao meu tio: era Dom Quixote, de Miguel de Cervantes”. Pedro é um apaixonado pela leitura, mas, quando jovem, não pensava em ser escritor, e, sim, ator. Começou a trabalhar como jornalista e só depois veio a oportunidade de escrever para crianças em revistas infantis. Os textos fizeram sucesso e, com 40 anos, Pedro publicou o seu primeiro livro, O dinossauro que fazia au-au.

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segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Conto: "Eu o amo mais do que ao sal"

O sal é um elemento primordial para a vida. Este conto, que trago hoje, fala dessa importância. Eu o li em alguns livros, mas essa versão, do folclore escocês, é da Shahrukh Husain, do seu "O Livro das Bruxas", uma excelente compilação de contos de magia. Shahrukh Husain é psicoterapeuta e escritora de origem paquistanesa, nascida em 28/04/1950, autora de livros como A Deusa: Poder, Sexualidade e o Divino Feminino (2003). Leia mais sobre ela em: http://www.shahrukhhusain.com//

Eu o amo mais do que ao sal

Há muitos anos atrás existiu um rei e sua rainha e eles tiveram três filhas.
O rei e a rainha amavam suas filhas com todo o coração, mas um dia a rainha ficou muito, muito doente. Ela foi definhando e morreu. O rei ficou muito triste por perder sua bela rainha, e suas filhas ficaram muito tristes por perderem a mãe.
Mas o rei reuniu as filhas, e disse-lhe:
- Escutem, crianças, sua mãe foi para um outro mundo e algum dia espero encontrar-me com ela outra vez. Mas o principal é que vocês devem ser felizes e entender que devo cuidar de vocês. E algum dia, quando eu morrer, uma de vocês será a rainha deste país.
Os anos se passaram e as três princesinhas cresceram. O rei gostava de caçar e de atirar, ele gostava de tudo; era um bom rei e seu povo, os súditos do país, o amavam muito. Mas uma noite o rei pensou consigo mesmo: "Os anos estão passando, estou ficando velho e não tenho um filho para suceder-me como rei. Uma de minhas filhas certamente deverá ser uma boa rainha. Mas qual? Qual será a melhor? sei que elas todas são carinhosas, amorosas, e muito boas. Mas terei de testá-las para ver qual é a mais apropriada para reinar depois de mim".
Então o rei, sendo um rei ocupado com todos os seus súditos e as coisas de seu país, não tinha muito tempo para passar com suas princesas. Ele as via todos os dias e jantava com elas e falava com elas, mas nunca teve uma conversa séria com elas. Então uma noite ele disse a seus cortesãos e a todos no palácio que queria ser deixado a sós, porque ele iria passar aquela noite com as filhas. Após o jantar, ele chamou as três princesas para se sentarem à sua volta.
- Agora, minhas jovens - disse ele - quero conversar com vocês. Sabem que já faz muito tempo que sua mãe morreu. E tenho feito o melhor, e todo mundo no palácio tem feito o melhor para criá-las e ensiná-las a fazer o que desejamos que sejam - jovens princesas deste reino. Realmente não tivemos uma conversa séria antes, mas hoje desejo saber qual de vocês será a rainha depois que eu morrer!
As princesas ficaram muito aborrecidas! Elas disseram:
- Papai, não desejamos ser rainhas, só queremos que você fique conosco para sempre!
Mas ele disse:
- É impossível ficar aqui para sempre, crianças. Algum dia terei de partir deste mundo. Encontrarei sua mãe num lugar muito distante e vocês ficarão sozinhas. Não quero discussão, disputa entre vocês três... Se pelo menos uma de vocês fosse diferente! Então - ele disse - amar a mim é amar a meu povo. Esta noite vou dar a vocês uma tarefa: quero que digam o quanto realmente me amam.
E perguntou primeiro à filha mais velha. E ela respondeu:
- Papai, eu amo você mais do que todos os diamantes, pérolas e jóias do mundo.
- Muito bem - disse ele - que ótimo!
Então ele perguntou à segunda filha:
- O quanto você me ama?
Ela disse:
- Eu o amo mais que todo ouro do mundo, eu o amo mais do que todo dinheiro que existe nesta terra.
Ele disse:
-Muito bem, isso é muito bom!
Chegou a vez da caçula, que era graciosa e bonita e só tinha quinze anos:
- Então - disse ele - caçulinha, o quanto você me ama?
- Bom, papai - ela respondeu - eu o amo mais do que ao sal.
- Você me ama mais do que ao sal? - ele repetiu.
- Sim, papai - ela disse - eu o amo mais do que ao sal.
E o rei ficou muito, muito aborrecido! Ele disse :
- Sua irmã me ama mais do que as jóias e diamantes, e sua outra irmã me ama mais do que todo o ouro deste mundo. Mas você - você me ama mais do que ao sal?! Bem, se é assim que você sente, eu não a amo! E amanhã cedo você vai embora, será banida daqui. eu não quero vê-la nunca mais! Você me desgraçou - a coisa mais baixa da terra é o sal!
O rei ordenou que na manhã seguinte ela fosse embora, encontrar seu próprio caminho no mundo, e nunca regressasse ao palácio. Ele estava tão aborrecido! Então a pobre princesinha ficou muito triste e de coração partido. Ela juntou uns poucos pertences... e suas irmãs riram e caçoaram dela. E ela foi mandada embora por ter desgraçado o pai.
A princesa andou, viajou, não tinha para onde ir. Ela viajou e viajou. E chegou a uma grande floresta e encontrou um pequeno caminho. Seguiu o caminho e pensou:
- Provavelmente esse caminho me levará a uma pequena aldeia ou a um pequeno povoado onde eu possa encontrar algum lugar para abrigar-me.
Mas o caminho a levou para o meio da floresta, a muitas e muitas milhas do palácio. Ali, ela viu uma pequena cabana. E a princesa pensou: "Provavelmente encontrarei abrigo aqui"
Ela aproximou-se da cabana e bateu na porta. E quando a porta se abriu, surgiu uma velha de cabelos brancos compridos e com um vestido todo rasgado. Ela disse:
- O que você está fazendo aqui, queridinha?
E a princesa disse:
- Bem, é uma longa história. Estou procurando abrigo para a noite.
- Mas para onde você vai depois? - perguntou a velha.
E a princesinha respondeu:
- Não vou para lugar nenhum. Vou... fui banida pelo meu pai.
- Seu pai? - perguntou a mulher.
- Sim - disse ela - meu pai, o rei!
- Seu pai, o rei... ele a expulsou? Conte-me essa história.
Então a velha acolheu a princesinha na cabana na floresta e deu-lhe algo para comer. E sentou-a perto do fogo. E sentadinho perto do fogo estava um grande gato preto. E o grande gato preto aproximou-se e pôs a cabeça no joelho da mocinha. Ela acariciou-o. Ele ronronou como um gatinho. A velha, quando viu isso, ficou surpresa e disse:
- Sabe, embora as visitas aqui sejam poucas, nunca ninguém que tenha estado aqui foi amigo do meu gato. Por isso, como ele distingue o bem do mal... você é boa! Conte-me a sua história.
Então a princesa contou-lhe a história sobre quando sua mãe morreu e ela foi criada pelo pai e passou a vida toda no palácio e então um dia seu pai chamou as filhas... E contou-lhe a história toda que já contei a vocês.
- Que tristeza. Seu pai está precisando de uma lição.
- Mas - ela retrucou- eu não posso voltar. Fui banida do palácio, meu pai nunca mais vai querer ver-me de novo.
A velha respondeu:
- Quem sabe, talvez algum dia ele ficará feliz em ver você!
Agora, voltando ao palácio, o rei vivia com suas duas filhas; a terceira tinha ido embora. E naturalmente o rei tinha suas refeições trazidas a ele. Trouxeram-lhe carne de vaca e de carneiro, e o rei adorava sua comida salgada.
Mas um dia, quando uma carne foi colocada na frente do rei, ele provou e de repente gritou:
- Tragam-me sal! - ordenou ao chefe e ao cozinheiro. - tragam-me sal!
Eles vieram tremendo:
- Meu senhor, não há sal - eles disseram.
O rei disse:
- Tire isso daqui, não posso comer sem sal! Traga-me outra coisa!
Então trouxeram-lhe coisas doces para comer. E trouxeram coisas doces no dia seguinte, no outro e no outro.
Mas o rei já estava cansado daquilo tudo. Ele disse:
- Tragam-me alguma carne, tragam-me um assado, um porco, algo que eu possa comer! Tragam-me comida, comida gostosa!
Os cozinheiros e os chefes trouxeram-lhe comidas gostosas, mas sem sal. O rei enviou mensageiros, enviou soldados, mandou todo mundo pelo país inteiro... Para as princesas estavam bem, elas adoravam comidas doces. Mas seu pai, o rei, não conseguia um grão de sal em todo o seu reino.
Na pequena cabana na floresta a princesa ficou com a velha, e tornaram-se amigas. Ela cozinhava e limpava para a velha, e o gato era seu melhor amigo. A velha amava a princesinha como nunca amara nada na vida. Mas um dia a velha voltou da floresta com uma cesta de ervas, que ela passara uma grande parte do dia a colher. Ela disse à princesa:
- Sabe, vou ficar triste amanhã.
E a princesa perguntou:
- Por que, avozinha, você vai ficar triste amanhã?
- Porque você vai deixar-me.
- Mas vovozinha, não quero deixá-la. Não tenho para onde ir.
A velha disse:
- Você precisa voltar para o seu pai.
A princesa retrucou:
- Mas não posso voltar ao palácio, porque meu pai me baniu.
- Já não mais. Olhe, dê-me seu vestido - e a princesa tirou o vestido.
A velha foi ao quarto e voltou em poucos minutos. Mas quando voltou, o vestido da princesa estava cheio de remendos e todo esfarrapado.
- Agora - disse ela à princesa - tire os sapatos.
A princesa tirou os sapatos. E a velha pegou uma tesoura e cortou o cabelo da princesa. A seguir ela foi perto do fogo e juntou um punhado de fuligem. E esfregou as cinzas no rosto da princesa.
- Agora - ela disse - você pode voltar para o seu pai.
- Fui banida, eu não... não posso voltar ao palácio!
- Você deve - disse a velha - porque você vai ser a próxima rainha!
- Eu, a próxima rainha? Uma de minhas irmãs é quem vai ser a próxima rainha; elas amam meu pai como ao ouro, elas amam meu pai como a diamantes.
- Mas - disse a velha - você ama seu pai mais do que ao sal! - e foi à cozinha e tirou uma pequena sacola de pano e encheu-a de sal.
- Agora - disse ela - tome isto e volte ao palácio. Tenho certeza de que será bem-vinda.
Então a princesa sabia que a velha estava falando a verdade, sabia que a velha tinha sido boa para ela. E disse:
- Lembre-se, eu voltarei!
- Volte - disse a velha - quando você for rainha! Vá para o palácio pelo mesmo caminho em que chegou aqui.
A princesa despediu-se da velha. Sabia que ela era uma bruxa. E que tinha destruído cada partícula de sal do país porque a princesa havia lhe contado sua história... e mesmo se alguém tivesse trazido sal de qualquer distância do palácio, o sal desapareceria, porque a velha bruxa havia posto um feitiço no palácio: nenhum sal poderia entrar ali.
A essa altura o rei estava ficando louco, ele não conseguia sentir gosto em nada - daria o seu reinado, por um grão de sal. Então, dois dias depois, quando ele estava clamando por sal e dizia que iria morrer se não comesse sal... chegou uma mendiga descalça no palácio. E o guarda parou-a e perguntou-lhe o que queria.
Ela disse:
- Quero ver o rei.
- Por que você quer ver o rei? - o guarda indagou.
- Bem - disse ela - eu trouxe um presente para o rei.
- O que poderia uma mendiga descalça trazer para o rei?
Ela respondeu:
- Eu trouxe uma sacola de sal.
E quando ele ouviu isso, rapidamente - ele não queria perder tempo - levou-a até o rei. E o guarda disse:
- Majestade, eu trouxe alguém para vê-lo.
Ela estava diante do rei, com o cabelo cortado, o rosto sujo de cinzas, descalça. E na mão trazia uma sacola.
O rei disse:
- Quem é essa mendiga esfarrapada que você trouxe aqui?
E os guardas, os cozinheiros, e todos estavam ansiosos; eles disseram:
- Majestade, o senhor não pode imaginar o que essa mendiga trouxe... ela trouxe algo muito especial!
- O que ela poderia trazer-me? - disse o rei. - Nada no mundo eu desejo: tenho ouro, tenho diamantes, tenho tudo...Mas se pelo menos eu pudesse ter um pouco de sal...
O guarda disse:
- Majestade, a mendiga trouxe-lhe uma sacola de sal.
- Oh, oh - disse o rei - ela trouxe... ela... traga-a aqui!
A princesinha aproximou-se do rei e disse:
- Aqui está...
O rei olhou dentro da sacola, colocou um dedo dentro da sacola e provou.
-Até que enfim - ele disse - Saaaal! A coisa mais maravilhosa do mundo! Melhor do que diamantes ou pérolas ou ouro ou qualquer coisa no meu reino! Por fim, posso comer.
Ele dirigiu-se à mendiga, e disse:
- O que você deseja? Você me trouxe a coisa mais preciosa deste mundo... O que você quer? Que tipo de recompensa deseja?
Ela voltou-se e disse:
- Pai, não quero nada!
E o rei disse:
- O quê?
Ela disse ao rei:
-Pai, não quero nada. Porque o amo mais do que amo ao sal.
Então o rei soube que a moça era sua filha mais jovem. Ele abraçou-a e beijou-a, e a fez mais do que bem-vinda. Ele descobriu a verdade: o sal era mais importante para ele do que qualquer coisa do mundo. E ela foi acolhida por todos no palácio. Quando o velho rei morreu ela tornou-se rainha e reinou sobre o país por muitos anos, e nunca se esqueceu de sua amiga, a velha da floresta. E assim termina minha história.

***
HUSAIN, Shahrukh. O Livro das Bruxas. Rio de Janeiro: Objetiva, 1993.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Matéria: "Hábito da leitura vem de berço"

Saiu na Revista do JC - Jornal do Commercio - deste final de semana, um dos maiores jornais em circulação em Pernambuco, uma matéria bem interessante sobre a importância de incutir o gosto pelos livros entre os pequenos. É um hábito que vem de berço mesmo. Pais leitores geram filhos leitores. Leia a matéria na íntegra:


Hábito da leitura vem de berço
Publicado em 11.10.2009

A melhor forma de despertar nos pequenos o gosto pelo mundo da literatura é mergulhar nele: filhos que crescem vendo os pais curtirem os livros, viram leitores ávidos

Bruna Cabral

bruna@jc.com.br

Era uma vez um menino que, desde cedo, descobriu nas letras sua brincadeira favorita. A princípio, o abecedário não fazia mais que aparar suas quedas. Era um tapete macio que decorava o quarto e aguçava a curiosidade do pequeno brincalhão. Depois, vieram os livrinhos de plástico para o banho e os de papel para todas as horas. Não demorou muito e os gibis viraram a companhia mais requisitada do menino que crescia cercado de letrinhas. Com uma forcinha da mãe e da avó, ele alfabetizou-se cedo. Aos 4 anos, já lia de tudo. E nunca mais parou. Seis anos depois, o menino já tem uma coleção enorme de livros na prateleira. E outra maior ainda no juízo.

Essa história é real e seu protagonista é Vinícius, filho da estilista Carol Azevedo, que lê, em média, sete livros por mês, das aventuras do bruxinho Harry Potter aos clássicos policiais estrelados por Sherlock Holmes. “Ele gosta de ser CDF. Dorme de óculos e já acorda lendo”, comemora a mãe, certa de que livros são escadas que Vinícius já começou a subir na vida. Aliás, certíssima. Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada entre novembro e dezembro de 2007 e divulgada no ano passado pelo Ibope Inteligência, um em cada três leitores adquire o hábito com os pais. Com 5 anos de idade em diante, 49% dos 5.012 entrevistados admitiram ter sido sua mãe a maior incentivadora da leitura por prazer.

Um papel que a pesquisadora Patrícia Bandeira de Melo, mãe de Pedro Antero, 8, assumiu sem economizar esforços. “Para mim, era essencial que ele gostasse de ler”, conta Patrícia, que apelou para o arsenal completo dedicado a iniciantes: dos tapetes com letras de plástico aos gibis.

“Também fiz questão de contar muitas histórias para ele dormir, das mais bobinhas a clássicos como O mágico de Oz.” O resultado não tardou a aparecer. Corujices maternas à parte, Pedro Antero é a criatividade ambulante. Vive encarnando os mais diversos personagens nas festinhas familiares e até já montou em casa uma verdadeira editora de gibis, na qual assume, sem reclamar das extenuantes jornadas de trabalho, os postos de editor, desenhista e roteirista. “De livro em livro, brincadeira em brincadeira, tenho certeza de que ele será um profissional diferenciado, seja lá qual for a carreira que escolher”, prevê a mãe.

Para Tomás Manzi, 10, a vida sem livros também seria inviável. Na verdade, pouquíssimo prazerosa. Leitor voraz, ele é do tipo que esquece até de tomar banho e comer quanto está no meio de uma boa história. “Às vezes, inventa de sair de casa com o livro debaixo do braço e, se eu não cuidar, ele atravessa a rua sem tirar o olho do texto”, conta a mãe Cristiane Gueiros, advogada e, não por acaso, fã incondicional dos mais diversos tipos de literatura. “Aqui em casa, quem leu primeiro a coleção inteira de Harry Potter fui eu”, conta Cristiane, que virou atração na escola dos filhos. “Até hoje as crianças ficam me perguntando coisas sobre os livros, tirando dúvidas. Elas acham o máximo um adulto gostar de Harry Potter.” A coleção, diga-se de passagem, já deixou de ser de Cristiane faz tempo. Tanto Tomás, quanto o irmão, Samuel, 7, já se renderam aos encantos do pequeno, aliás, ex-pequeno bruxo.

Mais que algumas histórias, o que Cristiane quer compartilhar com os filhos é um hábito. “Ficaria complicado dizer a Tomás e Samuel que eles precisam ler, se ninguém em casa tivesse o hábito.” O melhor exemplo, garante, é a prática.

E isso vale tanto para a leitura offline quanto para a online. “Eles navegam à vontade, mas estou sempre orientando. Digo que internet é como um martelo, que pode ser usado para bater um prego e pendurar um quadro na parede ou para meter na cabeça do colega e fazer um estrago enorme.” O valor de toda ferramenta, diz a mãe zelosa, depende do uso que a gente faz dela.

Um mérito inquestionável da internet, segundo a coordenadora pedagógica da escola Apoio, é fazer circular uma quantidade enorme de informações no mundo inteiro. “Nunca se teve tanto conhecimento à disposição como hoje”, diz. Melhor para as crianças, que têm a faca e o queijo na mão desde muito cedo, aliás, lazer e aprendizado. “A leitura desenvolve senso crítico, forma cidadãos mais pensantes, mais atuantes, além de ser um acesso para o que há de mais belo na humanidade”, diz Rejane, que, com a equipe de professores da escola, se desdobra em projetos para estimular a leitura.

Para os mais novos, são realizadas as rodas de leitura, em que são lidos e discutidos clássicos de Manuel Bandeira, Olavo Bilac e até Ítalo Calvino. “Engana-se quem pensa que criança digere só coisa boba.” Para os mais velhos, as professoras mandam livros para serem lidos e depois traduzidos em desenhos ou textos em casa. “Sem falar nas aulas de literatura”. Tudo culmina numa publicação com textos e ilustrações dos próprios alunos, editado ao final de cada ano.

Na escola Exponente, a leitura também é tão valorizada, que todos os estudantes têm aula na biblioteca a cada 15 dias. Uma das atividades prediletas de Luca Leitão, 5, e Frederico dos Santos, 4, que, apesar da pouca idade, já têm a foto estampada nos corredores do colégio como os leitores mais assíduos do mês. Dedicadíssimos aos livros, eles vivem na biblioteca e consideram os livros uma brincadeira das mais divertidas. De livro em livro, Luca já aprendeu a escrever o nome inteiro, antes mesmo de chegar à alfabetização. Seu predileto? “Todos de dinossauro”, diz, sem nem tirar os olhos de uma dessas publicações jurássicas. Com a ajuda dos livros, diz uma das coordenadora da instituição, Liane Niceas, a aquisição de conhecimento torna-se um processo mais prazeroso, que não fica restrito aos muros da escola.

É por isso que as professoras Patrícia Pompílio, Estela Santos e os filhos das duas não perdem uma edição que seja da Bienal do Livro de Pernambuco. A feira, que acaba amanhã, no Centro de Convenções, está repleta de atrações para a criançada em todos os estandes. E, principalmente, no primeiro andar, onde fica a Cidade do Livro, com contação de histórias e oficina de produção de publicações.

Este ano, a caravana dos Pompílios e dos Santos visitou a feira logo na abertura. “Ler é um hábito que precisa ser estimulado desde cedo”, disse Patrícia. E fez: só na bienal, cada um dos três filhos ganhou dois livros. O difícil foi escolher.

Para criar futuros leitores
Publicado em 11.10.2009

Sem estímulo, não há leitores. Para despertar nos pequenos o prazer que os livros podem proporcionar, o mais importante, garantem os pedagogos, é respeitar o ritmo da criançada. Os mais novos gostam de livros cheios de figuras e, de preferência, interativos. Já para os mais velhos, as ilustrações vão perdendo, gradativamente, a importância. O melhor, para não desencorajar leitores iniciantes, é atender a pedidos quando for à livraria. Assim se equilibra interesse e aprendizado. Confira algumas opções fofas de livros lançados recentemente.J

1 A publicação é ilustrada em scanimation, que garante movimento às figuras. Ed. Sextante Infantil. Preço sugerido: R$ 24,90

2 De Valéria Belém, Feita de pano mostra que a vida é a costura de pequenos momentos. Da Companhia Editora Nacional. Preço sugerido: R$ 23

3 Conta a história de um lugar onde tudo é exagerado, o livro é ilustrado por Marcos Garutti. Editora Lazuli. Preço sugerido: R$ 16

4 Escritora Rosa Amanda Strausz, em Nico, fala de vaidade na infância. Editora Larousse. Preço sugerido: R$ 21,50

5 Primeira obra de Ziraldo, o livro foi relançado com capa nova. Editora Melhoramentos. R$ 59

6 Em pop up, a publicação conta – e monta – a história da arca de Noé. Da Sociedade Bíblica do Brasil. Preço sugerido: R$ 29,80

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Link: http://jc3.uol.com.br/jornal/2009/10/11/not_350370.php

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Prêmio SESC de Literatura



Inscrições até 30 de setembro de 2009!!!

O PRÊMIO
Revelar novos talentos e promover a literatura nacional são propósitos do Prêmio SESC de Literatura. Lançado pelo SESC em 2003, o concurso identifica escritores inéditos, cujas obras possuam qualidade literária para edição e circulação nacional. Além da divulgação das obras, o Prêmio SESC também abre uma porta do mercado editorial aos estreantes: os livros vencedores são publicados pela editora Record e distribuídos para toda a rede de bibliotecas e salas de leitura do SESC e SENAC em todo o país. Mais do que oferecer uma oportunidade a novos escritores, o Prêmio SESC de Literatura cumpre um importante papel na área de cultura, proporcionando uma renovação no panorama editorial brasileiro.

PARTICIPE
Aos autores iniciantes, que ainda não tiveram chance de mostrar ao público suas idéias e sua criação, este é o caminho. As inscrições para o Prêmio SESC de Literatura são gratuitas e aceitas em todo o Brasil. Basta procurar a unidade mais próxima do SESC na sua cidade. Cada concorrente pode participar com uma obra, nas categorias conto e romance. O vencedor terá seu livro publicado e distribuído pela editora Record. Participe! Esta pode ser a chance de sua obra chegar às principais livrarias do país. Confira as regras do concurso no edital.

Informações:
http://www.sesc.com.br/premiosesc/index.html

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Conto: "O sermão de Nasrudin"

Certo dia, os moradores do vilarejo quiseram pregar uma peça em Nasrudin. Já que era considerado uma espécie meio indefinível de homem santo, pediram-lhe para fazer um sermão na mesquita. Ele concordou. Chegado o tal dia, Nasrudin subiu ao púlpito e falou:
"Ó fiéis! Sabem o que vou lhes dizer?"
"Não, não sabemos", responderam em uníssono.
"Enquanto não saibam, não poderei falar nada. Gente muito ignorante, isso é o que vocês são. Assim não dá para começarmos o que quer que seja", disse o mullá, profundamente indignado por aquele povo ignorante fazê-lo perder seu tempo. Desceu do púlpito e foi para casa.
Um tanto vexados, seguiram em comissão para, mais uma vez, pedir a Nasrudin para fazer um sermão na sexta feira seguinte, dia de oração.
Nasrudin começou a pregação com a mesma pergunta de antes.
Desta vez, a congregação respondeu numa única voz: "Sim, sabemos."
"Neste caso", disse o mullá, "não há porque prendê-los aqui por mais tempo. Podem ir embora." E voltou para casa.
Por fim, conseguiram persuadi-lo a realizar o sermão de sexta feira seguinte, que começou com a mesma pergunta de antes.
"Sabem ou não sabem?"
A congregação estava preparada.
"Alguns sabem, outros não."
"Excelente", disse Nasrudin, "então, aqueles que sabem transmitam seus conhecimentos àqueles que não sabem."
E foi para casa.
***
Extraído do livro "Histórias de Nasrudin"

Ouça a estória "O galo rouco e o rato esperto", da Cigana Contadora de Estórias!

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