quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Conto: "Dez anos de kest"

Essa é uma estória do mestre Malba Tahan, do livro "Lendas do Povo de Deus", muito divertida, que fez muito sucesso quando a contei.

Dez anos de Kest

Interessante seria, meu bom amigo, iniciar este conto à maneira dos escritores clássicos israelitas, citando cinco ou seis pensamentos admiráveis, colhidos nas páginas famosas do Talmude. Como recordar-me, porém, dos trechos mais belos da Sabedoria de Isreel, quando é tão fraca, incerta e claudicante a minha memória? Vem-me apenas à lembrança, neste momento, um velho provérbio muito citado pelos judeus russos: “Quando o homem é feliz, um dia lhe vale um ano”.
A verdade contida nesse aforismo é indiscutível. E a história, que a seguir vou narrar, poderá servir para ilustrar a minha asserção.
Vivia em Viena, há mais de meio século, um jovem chamado David Kirsch, filho de um milômed, homem prudente e sensato. Kirsch adornava o seu espírito com uma qualidade bastante apreciável: não ousava tomar resolução alguma de certa relevância sem se sentir esclarecido e orientado pelos conselhos dos mais velhos. Seu judicioso pai lhe dera a seguinte recomendação:
— Cabe-me dizer-te, meu filho, que deverás evitar qualquer casamento quando do consórcio resultar aproximação, por parentesco, com um judeu vermelho.
Com a prudência que a longa experiência da vida sói ensinar aos homens, o pai acrescentara:
— Se algum dia, porém, por triste fatalidade, caíres nas garras de um judeu vermelho, procura sem demora o auxílio de outro judeu vermelho.
Quis o jovem David conhecer, mais por curiosidade do que por outro motivo, a razão de ser daquele estranho conselho, mas o velho milômed recusara-se terminantemente a dar qualquer explicação, alegando que tinha, para assim proceder, motivos que de consciência não poderia revelar.
O jovem David Kirsch foi procurado por um agenciador de casamentos. Trocadas as saudações habituais, o agenciador assim falou, assumindo como sempre um ar de máxima reserva e discrição:
— Como sei que pretendes resolver do melhor modo possível o problema de teu futuro, com a escolha de uma companheira digna, quero informar-te que obtive para o teu caso uma solução admirável. A noiva que tenho em vista é formosa, de família honesta e, além do mais, muito culta e prendada.
— E o dote? — indagou David, grandemente interessado, procurando tocar com a máxima finura naquele assunto tão delicado.
— Quanto ao dote — aclarou logo o agenciador, com um sorriso que traduzia o orgulho de bom profissional — está combinado que será de mil coroas, e terás ainda dez anos de kest.
— Dez anos de kest! — repetiu David, numa sinceridade de veemente surpresa. — Mas isto é espantoso, inacreditável!
Sou forçado a interromper a presente narrativa para dar ao leitor não-judeu, isto é, ao meu bom amigo gohin, um esclarecimento que me parece indispensável.
O kest é costume tradicional entre os judeus. O pai da noiva, além do dote (que é de uso também entre os cristãos), concede ao genro, a título de auxílio para iniciar a vida, a permissão de viver durante algum tempo em sua casa, sem fazer a menor despesa, quer com a alimentação, quer mesmo com o vestuário. Esse período, durante o qual o pai da jovem toma a seu cargo a subsistência completa dos recém-casados, é denominado kest, e em geral varia de um a três anos. Para um jovem egoísta, sem ânimo para a vida, pouco inclinado ao trabalho, a oferta de um kest prolongado constitui uma isca irresistível. Era esse, precisamente, o caso de David Kirsch, indolente como um falso mendigo, amigo da boa-vida e do feriado permanente.
Dez anos de kest! Um judeu sensato não poderia hesitar. A cerimônia do noivado, com a clássica apresentação das famílias, foi marcada para alguns dias depois.
Quando David Kirsch foi levado à presença da sua noiva, ficou maravilhado. O agenciador não o havia iludido, pintando com as cores vivas do exagero os encantos da noiva prometida. A menina era uma judia realmente graciosa, esbelta, cheia de vida, e os dez anos de kest emprestavam-lhe ao olhar, ao sorriso e aos lábios todos os ímãs inconcebíveis da beleza. Rebla, a filha do rei de Gorner, não parecera mais sedutora aos olhos do grande Salomão. Dela diria certamente o poeta: “De longe parece uma estrela; de perto, uma flor”.
Dolorosa foi, porém, a surpresa do noivo judeu ao defrontar, pela primeira vez, com o seu futuro sogro. Pela cor fulva dos cabelos, pelas sardas que repintavam o carão avermelhado, era o velho um tipo perfeito e inconfundível de judeu vermelho.
Naquele momento, invadido por negrejante inquietação, recordou-se David do conselho que a prudência paterna lhe ditara: “Evitar qualquer aproximação, pelo casamento, com um judeu vermelho”. Mas que fazer, naquela dependura? A sua palavra estava dada. Ademais, acima de qualquer compromisso, esmagando dúvidas e receios, os dez anos de kest constituíam um argumento irrespondível, diante do qual desapareciam todos os motivos que militavam contra o consórcio que se lhe afigurava tão promissor.
Pouco tempo depois realizou-se o enlace nupcial, e o jovem passou a viver com sua adorada esposa o seu belo período de kest, em casa do rico judeu vermelho.
— Esse judeu vermelho — pensou David, altamente desconfiado com o caso — alguma peça desagradável prepara para mim. Custa-me acreditar que ele mantenha essa liberalíssima promessa dos dez anos de kest. Naturalmente terei, em sua casa, um tratamento tão vil e humilhante, que nem mesmo um cão seria capaz de aturar, e ao fim de dois ou três meses, é certo, serei forçado, pela situação, a procurar outro pouso e trabalho. Alguma perfídia o meu sogro já planejou contra mim!
Com grande espanto, entretanto, o jovem David verificou que o pai de sua esposa era de um feitio que desmentia por completo seus temores e desconfianças. O judeu vermelho mostrava-se delicado e afetuoso, e dispensava ao seu novo genro um tratamento principesco. Fazia multiplicar os pratos saborosos nas refeições, proporcionava-lhe passeios agradabilíssimos, dava-lhe roupas finas e enchia-o de presentes valiosos.
— Meu pai não tinha razão — meditava o jovem, refletindo sobre a vida regalada e invejável que desfrutava em casa de seu sogro. — Que outro marido poderá ser mais feliz do que eu? Minha esposa é encantadora; por longo prazo, sem o menor trabalho, preocupação ou contrariedade, terei nesta casa mesa sempre lauta, agasalho, carinho e consideração!
Ao cabo de alguns dias o velho judeu vermelho chamou o indolente marido de sua filha e interpelou-o, muito sério:
— Dize-me, ó David: és, na verdade, feliz na tua nova situação de homem casado e chefe de família?
— Muito feliz, meu sogro — confirmou o jovem, num retraimento de espanto. — Sinto-me aqui incomparavelmente feliz.
— Se assim é, o teu kest está terminado!
— Terminado o meu kest? — protestou atônito o marido parasita. — Mas se eu estou casado há pouco mais de uma semana! Como pode ser isto?
— Como pode ser? Nada mais simples. Vou provar claramente. Estás casado com minha filha há dez dias. Bem sabes que no livro dos provérbios encontramos exarada esta sentença: “Quando um homem é feliz, um dia vale um ano”. Logo, de acordo com esse tradicional provérbio, estás casado há dez anos! Amanhã, portanto, levarás de minha casa tua esposa e irás para a tua residência. Creio que deverás também procurar um emprego, um meio qualquer de vida, pois de mim já recebeste o necessário auxílio, o dote e o kest prometidos.
Diante da imposição do sogro, David sentiu-se presa de grande furor. Quis apresentar argumentos que militavam em seu favor, mas o astucioso judeu vermelho manteve-se intransigente, e não houve como levá-lo a reconsiderar a resolução que havia tomado, insistindo em afirmar que nada mais fazia senão atender à verdade contida no provérbio: “Quando o homem é feliz, um dia vale um ano”.
Não se conformava o rapaz com a idéia de ser obrigado a trabalhar para viver; e a situação a que fora atirado envenenou-lhe o espírito com todas as toxinas do rancor. Tinha sido indigno, a seu ver, o proceder do sogro. Prometera-lhe, sob palavra, dez anos de kest, e depois, por evidente má-fé, baseando-se num idiota brocardo judeu, reduzira o prazo a dez dias. Que tratante! Um grande velhaco! Quando o interesse estava em jogo, sabia transformar um simples provérbio em lei social!
— Meu pai tinha razão — murmurou David, recalcando os seus rancorosos impulsos. — Toda razão tinha meu pai. Pratiquei uma imprudência muito séria, fazendo-me surdo aos conselhos daquele que melhor do que eu deve conhecer a vida e os filhos de Israel.
Resolvido a não incidir uma vez mais no erro, o jovem recordou-se da segunda parte do conselho paterno, e foi, nesse mesmo dia, procurar um conhecido seu chamado Elias Bloch, também judeu vermelho, e pediu-lhe indicasse um meio que lhe permitisse sair da situação crítica em que se encontrava.
O inteligente Elias Bloch atendeu com amabilidade o jovem David, e depois de ouvir o minucioso relato da burla do kest, expediu uma risadinha seca e maldosa, e respondeu com um relâmpago de inspiração no olhar:
— Não vejo dificuldade alguma em resolver o teu caso. Irás amanhã à casa de teu sogro, e se seguires as minhas instruções, sairás vencedor nesse litígio.
No dia seguinte, David Kirsch, tendo nas mãos um exemplar da Torá — que é o livro da lei, entre os hebreus — foi ter à rica vivenda do seu astucioso sogro.
Depois de saudá-lo com certa reserva e cerimônia, como se as relações entre ambos estivessem profundamente abaladas, assim falou com teatral entonação:
— Por motivos muito graves sou forçado a vir agora à sua presença. Vou divorciar-me!
Divórcio! Esta palavra, para a família judaica, representa uma desgraça só comparável às maiores calamidades.
— Estás louco, rapaz! — protestou o velho, empalidecendo ligeiramente. — Bem sabes que o divórcio só pode ser obtido segundo a lei de Moisés. Que motivo poderá ser aduzido para justificativa dessa nódoa infamante com que pretendes golpear a minha família?
— Tenho a lei a meu favor. Como o senhor mesmo declarou e provou, vivi em sua companhia os dez anos de kest. Os doutores e rabis não ignoram que o Livro da Lei de Moisés diz com a maior clareza: “Quando a mulher não concebe ao fim de dez anos, o marido pode requerer o divórcio”. Ora, estou casado há dez anos e não tenho filhos; cabe-me, portanto, segundo a lei, o direito de repudiar minha esposa.
— Que brincadeira é essa, meu filho! — retorquiu o judeu vermelho, emergindo da sua estupefação e abraçando amavelmente o genro. — Afastemos de nós as idéias tristes, pois já não foi pequeno o susto com que abalaste meu coração de pai. Fizeste mal em tomar a sério o meu gracejo sobre o tal provérbio dos dias felizes. E se assim é, fica o dito pelo não-dito. Se eu prometi dez anos de kest, é certo que poderás viver todo esse tempo em minha casa.
E concluiu, com um gesto convencido e superior, passando lentamente a mão pelos cabelos avermelhados:
— Jamais deixei, menino, como bom judeu, de cumprir a palavra dada.


***
Fonte: Malba Tahan, Lendas do Povo de Deus – Ed. Conquista, Rio de Janeiro, 1964

Imagem: blog Pensando Alto

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Texto: "Formas de apresentação das histórias"

Passei um bom tempo sem escrever nem postar nada aqui no blog, envolvida com os preparativos da festinha de um ano da minha filha, Victoria, e com o planejamento do meu trabalho como contadora de estórias nesse segundo semestre. Já nesse mês de agosto, devo participar, novamente, da Feira de Livros da Livraria Estudantil, aqui em Caruaru. É um evento muito legal, com a participação de escritores e a visita de crianças de escolas da região. Da última vez em que participei, contei a estória da "Mulher que vivia numa garrafa de vinagre" (depois eu a coloco aqui) e a criançada da Escola Santa Clara gostou bastante. Difícil foi me deixarem ir embora, ficavam trazendo livrinhos, pedindo para eu contar as estórias... hehehe...
Este ano, estou ainda fazendo a seleção do que quero contar. Uma estória que fez bastante sucesso com a criançada foi a da "Rainha Rabo de Macaco", do Roberto Carlos Ramos, esse contador de estórias mineiro, cuja vida virou um filme que entrará em cadeia nacional de cinemas no dia 07 deste mês.
Bom, mas o tema que eu gostaria de trazer nesta postagem é a forma como as estórias podem ser apresentadas. Como meu personagem é uma cigana, que se movimenta bastante pelo espaço onde a contação está acontecendo, gosto muito mais de contar as estórias, sem recorrer a livros ou bonecos ou outros artifícios semelhantes. Não que eles não tenham seu valor. Têm sim, cada um tem sua proposta e sua função, como veremos adiante, nesse texto retirado de uma bela apostila preparada pelo setor de Evangelização Infanto-Juvenil do Centro Espírita Obreiros do Caminho.
FORMAS DE APRESENTAÇÃO DAS HISTÓRIAS

Estudar uma história é ainda escolher a melhor forma ou o recurso mais adequado para apresentá-la. Os recursos mais utilizados são:
1. A simples narrativa;
2. A narrativa com o auxílio do livro;
3. O uso de gravuras, de flanelógrafos, de desenhos;
4. Narrativa com interferência do narrador e dos ouvintes.

1- SIMPLES NARRATIVA
Mais fascinante de todas as formas, a mais antiga, mais tradicional e autêntica expressão do contador de histórias.
Não requer nenhum acessório e se processa por meio da voz do narrador, de sua postura. Este, por sua vez, com as mãos livres, concentra toda a sua força na expressão corporal. Lendas, fábulas e histórias recolhidas da tradição oral são melhor transmitidas sob a forma de simples narrativa e ainda é a maneira que mais contribui para estimular a criatividade. A utilização de material ilustrativo nos exemplos citados, poderia desviar a atenção do ouvinte, que deve estar fixa no narrador.

2 - COM O LIVRO
Há textos que requerem, indispensavelmente, apresentação do livro, pois a ilustração os complementa. Examinando-se livros onde se destaca a apresentação gráfica e a imagem é tão rica quanto o texto, verifica-se a propriedade do recurso.
Essa apresentação, além de incentivar o gosto pela leitura (mesmo no caso dos ainda não alfabetizados) contribui para resolver a sequência lógica do pensamento infantil.
Devemos mostrar o livro para as crianças virando lentamente as páginas com a mão direita, enquanto a esquerda sustenta a parte inferior do livro.
Narrar com o livro não é propriamente ler a história. O narrador a conhece, já a estudou e a vai contando com suas próprias palavras, sem titubeios, vacilações ou consultas ao texto, o que prejudicaria a integridade da narrativa.

3 - COM DESENHOS
É um recurso atraente no caso de histórias de poucos personagens e traços rápidos. Pode ser desenhado no quadro de giz ou papel de metro.
Aguça a curiosidade dos ouvintes.

4 - COM GRAVURAS
As gravuras favorecem, sobretudo, as crianças pequenas, permitem que elas observem detalhes e contribuem para a organização do pensamento. Isso lhes facilitará mais tarde a identificação da ideia central, fatos principais, fatos secundários, etc.
Antes da narrativa, empilham-se as gravuras em ordem viradas para baixo. À medida que vai contando, o narrador as coloca uma a uma no suporte próprio.

5 - COM O FLANELÓGRAFO
Este recurso é ideal para ser usado nas histórias em que a personagem principal entra e sai de cena, movimenta-se num vai e vem durante o enredo.
Na gravura reproduz-se a cena. No flanelógrafo, cada personagem é colocado, individualmente, ocupando seu lugar no quadro, o que dá a ideia de movimento.
O mais importante nessa técnica é a ação do personagem principal, num movimento constante.

6 - COM INTERFERÊNCIAS DO NARRADOR E DOS OUVINTES
Seja qual for a forma de apresentação, pode-se introduzir a interferência, se o texto a requer ou sugere.
A interferência resulta da criatividade do narrador, que a incorpora ao texto para tornar a narrativa mais atraente. É um excelente recurso quando se trata de público numeroso, em locais abertos, facilitando a concentração dos ouvintes. No entanto, é preciso cuidado para não transformá-la em programa de auditório, pois ela deve surgir em decorrência do enredo e ser mantida em equilíbrio sob o controle do narrador.
***
Imagem do blog Peregrina Cultural

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Filme "O contador de histórias"

A Warner Bros. divulgou semana passada o teaser da produção "O contador de histórias", baseada na vida de Roberto Carlos Ramos, um dos maiores contadores de histórias do país.
Leia a sinopse, divulgada pela assessoria de imprensa do filme:

“O Contador de Histórias”

Ele era considerado um menor irrecuperável - até encontrar afeto.

O surpreendente percurso do mineiro Roberto Carlos Ramos poderia ser mais uma das muitas histórias que ele inventava desde criança para driblar a realidade, como transformar a chegada a uma instituição para menores em uma ida ao circo, a movimentação de um assalto de rua em animado jogo de futebol ou a robusta professora de educação física em um hipopótamo de couro azul remendado.

No entanto, a história real do garoto ‘irrecuperável’, analfabeto até os 14 anos e com mais de uma centena de fugas no currículo, é ainda mais tocante: o encontro com a pedagoga francesa Margherit Duvas acrescentou elementos essenciais e até então inexistentes em sua vida ou em seus relatos tão inventivos, como afeto, confiança, esperança.

O Contador de Histórias, com direção de Luiz Villaça (Por Trás do Pano, Cristina Quer Casar), traz para o cinema com emoção, lirismo e humor, a história deste encontro que começou com duas expressões que Roberto, apesar do farto vocabulário aprendido na instituição e nas ruas, jamais ouvira: “com licença’ e ‘por favor’. Palavras que começaram a mudar a vida de um menino e, que hoje, 30 anos depois, continuam a mudar a vidas de muitos outros meninos.

A atriz franco-portuguesa Maria de Medeiros (Pulp Fiction – Tempo de Violência, Henry & June, Capitães de Abril) interpreta Margherit Duvas. Roberto Carlos é interpretado por Marco Ribeiro (6 anos), Paulinho Mendes (13 anos) e Clayton Santos (20 anos), escolhidos entre mais de 500 candidatos selecionados em escolas e projetos sociais de Minas Gerais, sob coordenação de Lais Corrêa, atriz e preparadora de elenco. Malu Galli, Jú Colombo e Chico Diaz também integram o elenco.

Roberto Carlos Ramos hoje é educador em Belo Horizonte, autor de livros e reconhecido como um dos melhores contadores de histórias do mundo. Ele também é o narrador do filme que conta sua própria história – uma história transformada pelo afeto.

Com roteiro de Mauricio Arruda, José Roberto Torero, Mariana Veríssimo e Luiz Villaça, o filme tem fotografia de Lauro Escorel e música de André Abujamra e Márcio Nigro.

Uma produção de Francisco Ramalho Jr. e Denise Fraga.

Com Distribuição da Warner Bros. e sob os auspícios da Unesco, O Contador de Histórias tem estreia nacional no dia 7 de agosto.


Alinhar ao centro

5O Contador de Histórias

LONGA-METRAGEM 35mm

Duração: 110 minutos

Ano Produção 2009

Produtora RAMALHO FILMES e NIA FILMES

Conto: "Nova chance"

"Ah , se eu tivesse uma nova chance..."

Havia um homem muito rico, possuía muitos bens, uma grande fazenda, muito gado e vários empregados a seu serviço. Tinha ele um único filho, um único herdeiro, que, ao contrário do pai, não gostava de trabalho nem de compromissos. O que ele mais gostava era de festas, estar com seus amigos e de ser bajulado por eles.
Seu pai sempre o advertia que seus amigos só estavam ao seu lado enquanto ele tivesse o que lhes oferecer, depois o abandonariam. Os insistentes conselhos do pai lhe retiniam os ouvidos e logo se ausentava sem dar o mínimo de atenção.
Um dia o velho pai, já avançado na idade, disse aos seus empregados para construírem um pequeno celeiro e dentro do celeiro ele mesmo fez uma forca, e junto a ela, uma placa com os dizeres: "Para você nunca mais desprezar as palavras de seu pai".
Mais tarde chamou o filho, o levou até o celeiro e disse:
" - Meu filho, eu já estou velho e quando eu partir, você tomará conta de tudo o que é meu, e sei qual será o seu futuro. Você vai deixar a fazenda nas mãos dos empregados e irá gastar todo o dinheiro com seus amigos, irá vender os animais e os bens para se sustentar, e quando não tiver mais dinheiro, seus amigos vão se afastar de você. E quando você não tiver mais nada, vai se arrepender amargamente de não ter me dado ouvidos.
É por isso que eu construí esta forca, sim, ela é para você, e quero que você me prometa que se acontecer o que eu disse, você se enforcará nela. "
O jovem riu, achou absurdo, mas, para não contrariar o pai, prometeu e pensou que jamais isso pudesse ocorrer.
O tempo passou, o pai morreu e seu filho tomou conta de tudo, mas assim como se havia previsto, o jovem gastou tudo, vendeu os bens, perdeu os amigos e a própria dignidade.
Desesperado e aflito, começou a refletir sobre a sua vida e viu que havia sido um tolo, lembrou-se do pai e começou a chorar e dizer:
- Ah, meu pai, se eu tivesse ouvido os teus conselhos, mas agora é tarde, é tarde demais.
Pesaroso, o jovem levantou os olhos e longe avistou o pequeno celeiro, era a única coisa que lhe restava.
A passos lentos se dirigiu até lá e, entrando, viu a forca e a placa empoeirada e disse:
- Eu nunca segui as palavras do meu pai, não pude alegrá-lo quando estava vivo, mas pelo menos esta vez vou fazer a vontade dele, vou cumprir minha promessa, não me resta mais nada.
Então subiu os degraus, colocou a corda no pescoço, e disse:
- Ah , se eu tivesse uma nova chance...
Então pulou, sentiu por um instante a corda apertar sua garganta, mas o braço da forca era oco e quebrou-se facilmente. O rapaz caiu no chão, e sobre ele caíam jóias, esmeraldas, pérolas, diamantes; a forca estava cheia de pedras preciosas, e um bilhete que dizia:
"Essa é a sua nova chance, eu o amo muito. Seu pai."
***
Do livro "Criando filhos", de Legrand. Ed. Sodiler, 2006.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Conto: "De pouco se faz muito"

Esse conto eu recebi na comunidade Contadores de Histórias, do Orkut, uma comunidade muito legal.
Quando Davi era um bebê, o avô dele fez um lindo cobertor, para mantê-lo quentinho e confortável e para espantar os sonhos ruins.
Mas, conforme Davi foi crescendo, o lindo cobertor foi ficando mais velho também.
Um dia, a mamãe disse para ele:
-Davi, olhe só para o seu cobertor. Ele está todo esfarrapado, gasto, feio e rasgado. Acho que está na hora de jogá-lo fora.
-Ah, o vovô pode arrumar isso. -Davi disse.
O avô dele então pegou o cobertor e ficou olhando e olhando e olhando.
-Hummm-ele disse enquanto sua tesoura fazia rec, rec, rec e a agulha entrava e saía , entrava e saía. - Com isso aqui eu posso fazer... um lindo casaquinho!
Davi colocou o lindo casaco e saiu para brincar.
Mas, conforme Davi foi crescendo, o lindo casaquinho foi ficando mais velho também.
Um dia, a mamãe disse para ele:
-Davi, olhe só para o seu casaco. Ele encolheu e está pequenininho. Não serve mais em você. Acho que está na hora de jogá-lo fora!
- Ah, o vovô pode arrumar isso-Davi disse.
O avô dele então pegou o casaquinho e ficou olhando e olhando e olhando.
-Hummm-ele disse enquanto sua tesoura fazia rec, rec, rec e a agulha entrava e saía. – Com isso aqui eu posso fazer... um lindo coletinho!
Davi usou o lindo colete para ir à escola logo no dia seguinte.
Mas, conforme Davi foi crescendo, o lindo coletinho foi ficando pequeno e sujo.
Um dia, a mamãe disse para ele:
-Davi, olhe só para o seu colete! Ele está sujo de cola e de tinta. Acho que está na hora de jogá-lo fora!
-Ah, o vovô pode arrumar isso-Davi disse.
O avô dele então pegou o coletinho e ficou olhando e olhando e olhando.
-Hummmm-ele disse enquanto sua tesoura fazia rec, rec, rec e a agulha entrava e saía, entrava e saía. - Com isso aqui eu posso fazer...uma linda gravatinha!
Davi usou a linda gravata para visitar os avós todas as sextas-feiras.
Mas, conforme Davi foi crescendo, a linda gravatinha foi ficando manchada.
Um dia, a mamãe disse para ele:
-Davi, olhe só para a sua gravata! Essa enorme mancha de sopa fez a ponta dela ficar deformada! Acho que está na hora de jogá-la fora!
- Ah, o vovô pode arrumar isso-Davi disse.
O avô dele então pegou a gravatinha e ficou olhando e olhando e olhando.
-Hummm-ele disse enquanto sua tesoura fazia rec, rec, rec, e a agulha entrava e saía , entrava e saía. - Com isso aqui eu posso fazer... um lindo lencinho!
Davi usou o lindo lenço para guardar sua coleção de pedrinhas.
Mas, conforme Davi foi crescendo, o lindo lencinho foi ficando velho.
Um dia, a mamãe disse para ele:
-Davi, olhe só para o seu lenço. Você o usou tanto que ele está parecendo um trapinho, cheio de marcas e desgastado. Acho que está na hora de JOGÁ-LO FORA!
-Ah, o vovô pode arrumar isso-Davi disse.
O avô dele então pegou o lencinho e ficou olhando e olhando e olhando.
- Hummm-ele disse enquanto sua tesoura fazia rec, rec, rec, e a agulha entrava e saía, entrava e saía-Com isso aqui eu posso fazer... um lindo botão!
Davi usou o lindo botão para prender o seu suspensório.
Um dia, a mamãe perguntou para ele:
-Davi, onde está o seu botão?
Davi olhou para o suspensório.
O botão tinha desaparecido!
Ele procurou em toda parte, mas não conseguiu encontrá-lo.
Davi correu para a casa do avô.
-O meu botão! Eu perdi o meu lindo botão!
A mamãe correu atrás dele.
-Davi, escute-me... o botão se foi. Acabou. Nem o seu avô pode fazer alguma coisa a partir de nada.
O avô de Davi balançou a cabeça, triste.
-Eu acho que a sua mãe tem razão-ele disse
No dia seguinte Davi foi para a escola.
-Hummm-ele disse enquanto sua caneta fazia risc, risc, risc no papel. - Com isso eu posso fazer... uma linda história!!!
***
O conto pode ser lido no livro "De pouco se faz muito: um conto adaptado da tradição judaica", de Phoebe Gilman.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Texto: "Contar com o coração" - Cléo Busatto

Antes de iniciar a segunda parte deste livro, a qual apresenta as técnicas que eu utilizo para a narrativa do conto, gostaria de lançar algumas perguntas que todo candidato a contador de histórias deveria se fazer:
- Por que contar histórias?
As respostas que encontrei para esta indagação foram diversas, e neste percurso procurei me situar numa progressão de diferentes níveis da realidade que passam do plano material ao espiritual, pois creio que contar histórias é uma atitude multidimensional. Ao contar histórias atingimos não apenas o plano prático, mas também o nível do pensamento, e, sobretudo, as dimensões do mítico-simbólico e do mistério. Assim, conto histórias para formar leitores; para fazer da diversidade cultural um fato; valorizar as etnias; manter a História viva; para se sentir vivo; para encantar e sensibilizar o ouvinte; para estimular o imaginário; articular o sensível; tocar o coração; alimentar o espírito; resgatar significados para nossa existência e reativar o sagrado.
- Para quem eu conto histórias?
Para quem deseja ouvir. Porém, devemos ter claro que há diferenças entre contar história para uma única pessoa, ou para um grupo. Narrar para uma criança em particular, seu filho por exemplo, num momento de disponibilidade de ambos, quando as energias do contador e do ouvinte estão voltadas para este ato, é uma experiência única, principalmente se conhecemos esta criança e sabemos quais são as suas necessidades naquele momento. Nesse caso é possível escolher o conto que mais convém às suas expectativas, atuando no sentido de chegar mais próxima à sua demanda. A narrativa se tornará personalizada, o volume de voz poderá ser menor e a performance mais contida.
Ouvir um conto antes de dormir, embalado por uma voz que traga referências confortantes, é um presente raro, como dormir embalado por vozes angelicais. Porém, quantas crianças têm este prazer satisfeito dentro da sua própria casa, ou melhor, quantos pais se dispõem a essa tarefa? Concordo que chegar em casa depois de um dia exaustivo tira o ânimo de qualquer um, então, como encontrar energias para ainda contar histórias? Mas quem disse que criar filhos é uma tarefa fácil.
Educar é também desfrutar o prazer de estar junto numa atividade gostosa. É descobrir que sempre há mais energia do que pensamos ter, e que ela poderá ser dirigida para preparar o sono do filho, por exemplo. Há que ter disponibilidade, e se lançar com o coração.
Outra situação: lá está você com um grupo de vinte, trinta crianças, cada uma com sua história de vida, expectativas diferentes, e muitas delas sem o hábito de ouvir – e não falo apenas em ouvir histórias, falo do ato voluntário e concentrador que permite entender os sons através do sentido da audição, e lhes atribuir sentidos.
Vamos imaginar: você está com todas as crianças à sua volta, as vinte, trinta. Logo, a técnica deverá atingir a todas, simultaneamente. Neste caso não será possível individualizar a narrativa, escolhendo um conto que caiba dentro da urgência de uma criança, mas, sim, perceber o que mobiliza o grupo, e trazer um conto que possa atuar no conjunto, deixando que cada uma delas retire do conto o que mais necessita naquele momento. Ou ainda, ir pela intuição, o que é mais eficiente. Não dá para esquecer que esta será uma experiência coletiva e que você terá de lançar mão de alguns recursos para que esta tarefa se realize satisfatoriamente.
Seja narrando para uma ou várias crianças é fundamental que se conte com o coração, e, se falo desse segredo como o primeiro da lista, é por considerá-lo a premissa máxima para que o narrador tenha sucesso na sua proposta.
Se quisermos que a narrativa atinja toda a sua potencialidade devemos, sim, narrar com o coração, o que implica em estar internamente disponível para isso, doando o que temos de mais genuíno, e entregando-se a esta tarefa com prazer e boa vontade.
Ao contar doamos o nosso afeto, a nossa experiência de vida, abrimos o peito e compactuamos com o que o conto quer dizer. Por isso torna-se fundamental que haja uma identificação entre o narrador e o conto narrado.
Antes de sensibilizar o ouvinte o conto precisa sensibilizar o contador. A maneira como enxergamos o conto será a mesma maneira com que o outro irá vê-lo. Se o considerarmos uma mera distração e entretenimento, será assim que ele irá soar; porém, se acreditarmos que ele pode ser uma pequena luz lançada no nosso caminho, ele será ouvido como tal. Não é por acaso que Lewis Carrol se referia aos contos de fada como presentes de amor.
O envolvimento afetivo com a história narrada permite maior flexibilidade ao narrador, pois ele poderá perceber como ela atua junto aos ouvintes, e assim conduzir a narrativa para que aquelas demandas sejam atendidas. Cada narrador imprime sua personalidade ao conto, priorizando passagens que mais lhe impressionam , reforçando alguma imagem que lhe toca de uma maneira especial, uma intenção que considera primordial, e isto é natural, se pensarmos na narrativa como uma atividade dinâmica que atua sobre os diferentes níveis de realidade.
São essas identificações entre narrador X conto narrado que fazem a diferença; ou existe essa integração, ou a narrativa deixa de ser uma experiência compartilhada, e passa a ser um simples repasse de informação, e nesse caso a história nem precisaria ser contada.
Compartilhar: tomar parte de alguma coisa, estar com – um verbo importante para se conjugar.
Compartilhar significa também acreditar naquilo que se está vivendo. O ato de compartilhar é tão poderoso que torna-se impossível dimensionar os seus efeitos sobre nós.
Lembro-me de uma situação onde eu narrava As três penas, dos Irmãos Grimm.
Ao acabar a narrativa um garoto de nove ou dez anos aproximou-se, e sem falar uma palavra me abraçou. Ficamos lá, grudados, sob o signo de kairós, num espaço onde cronos foi deixado de lado, compartilhando uma emoção única, depois do que ele me olhou nos olhos e disse: “Obrigado”, e foi embora.
É importante observar que a história que ele ouviu faz parte de um ciclo de contos de fadas cujo tema são os três irmãos, onde os dois primeiros são espertos, e o terceiro é aquele considerado tolo e inapto, porém é ele quem realiza as tarefas ordenadas pelo pai, e, assim, herda a sua coroa.
Apesar de não conhecer aquele menino concluí que em algum momento da sua história pessoal ele também foi considerado “o bobo”, e ouvir aquele conto lhe trouxe um alento, a esperança de que, também ele, poderia se sair bem nas suas tarefas e herdar, quem sabe, o sorriso e a aprovação de alguém que lhe fosse especial.
Isto me leva a citar outra vez Bettelheim, quando ele diz que “só a criança pode determinar e revelar pela força com que reage emocionalmente àquilo que um conto evoca na sua mente consciente” (Bettelheim, 1980: 26).
Por contar com o coração, quero dizer também que acredito numa educação onde está presente o afeto e não apenas o impulso profissional em repassar conhecimentos, visando a formação técnica do ser humano.
Penso que educar relaciona-se com este estar com, implicando numa troca de experiências que tem como base o respeito mútuo e o reconhecimento dos afetos.
Educar implica em amorosidade. Acredito que esta possa ser uma das vias de acesso não somente ao conhecimento formal, mas ao desenvolvimento do ser, objetivando torná-lo mais humano.
Somos carentes de experiências que dêem significados á nossa existência. Temos total domínio sobre o que nos rodeia numa dimensão prática, material. Assistimos aos noticiários da TV, lemos todos os jornais diários, mas pouco sabemos sobre a nossa verdadeira natureza. Nascemos e fomos desconectados da nossa origem, nos voltamos para o exterior, para a sobrevivência do corpo, e que sobrevivência! Entramos em viagens desvairadas, algumas vezes sem volta, através das drogas, bebidas, sexo e poder. Ficamos vagando, com o coração inquieto e pulsando de insatisfação.
A literatura para o espírito e os grandes pensadores foram banidos das prateleiras.
Os meios de comunicação nos oferecem uma avalanche de inutilidades que entorpecem os sentidos. O lazer se tornou uma indústria fértil, promissora e deseducadora, que causa mais ansiedade que prazer, e o barulho é a tônica da atualidade. Vivemos um tempo onde ter vem antes do ser, como em outros tempos pensar veio antes do existir.
Para onde ir? Este questionamento não é novo. Já não há instituições que se proponham à incômoda tarefa de oferecer ao espírito vivências que venham nutri-lo.
Correr para onde?
Aonde a criança vai encontrar um caminho que lhe assegure que a vida vale a pena ser bem vivida, mesmo não sendo cor-de-rosa, como querem muitos? Que vamos encontrar sim a dor, a frustração e muitos não pela frente, mas ao permitirmos que eles andem ao lado da alegria e dos sim seremos mais plenos. Onde buscar imagens significativas, símbolos referenciais que auxiliem um crescer íntegro, sob quaisquer circunstâncias?
O mito pode restabelecer este caminho rumo à inteireza do ser, conectar-nos com o sagrado em nós. O conto de fada pode reassegurar a esperança. Os contos de ensinamento podem indicar valores que estão caindo em desuso e reafirmar que ser bom não quer dizer ser bobo, e aceitar a tudo calado e sem discernimento.
Se formos tocados pelas mensagens dos contos e meditarmos a partir deles apreenderemos o que eles querem dizer, e talvez seja possível passarmos adiante com uma voz diferenciada, o que eles já disseram e continuam dizendo. É possível que também o nosso espírito seja alcançado, e isso é o que quero dizer com tornar-se mais humano, ser atingido, ter a consciência de que há outras necessidades a serem atendidas que as meramente materiais.
Estamos diante de um exercício de vida, e quanto mais cedo nos identificarmos com ele mais recursos internos iremos desenvolver e, quando nos deparamos com as situações inevitáveis insolúveis que a vida nos apresenta, como os mistérios do nascimento, vida e morte, talvez estaremos mais preparados para aceitá-los e vivê-los dignamente.
***
Contar e encantar: Pequenos segredos da narrativa / Cléo Busatto. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003.
Páginas 45/51

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Conto: "O nariz do elefante"

Ouvi essa estorinha contada por Ilana Kaplan no dvd "Lá vem história", uma série da TV Cultura, que foi ao ar entre 1995 e 1996, com a participação também da Bia Bedran. O dvd é comercializado pela Cultura Marcas e é muito interessante, traz 20 estorinhas do folclore mundial. Vale ter em casa, até como material de aprendizado para o contador de estórias.

A Ilana é uma atriz gaúcha, que usa recursos simples para contar as estorinhas, como essa do elefantinho, onde ela lança mão de artigos de escritório, como um porta-durex para ser o elefantinho, um grampeador para ser o crocodilo, um furador para ser o amigo, etc.

O nariz do elefantinho

Há muito, muito tempo, os elefantes tinham o nariz pouco maior do que um sapato. Até que um pequeno elefante, muito curioso, resolveu começar a fazer demasiadas perguntas.
Um dia, foi ter com a tia girafa e perguntou-lhe:
- Ó tia, porque tens um pescoço tão grande?
E a tia, de resposta, deu-lhe uma sapatada.
Depois o pequeno elefante foi ter com a tia avestruz e perguntou-lhe:
- Tia, porque tens plumas tão grandes na tua cauda?
Também esta lhe deu uma sapatada de resposta.
Mas a pergunta mais atrevida que o pequeno elefante fez foi no dia do grande encontro dos animais, quando, diante de todos, teve a audácia de perguntar:
- O que comem os crocodilos ao jantar?
A resposta foi a maior e mais sonora sapatada de sempre.
Triste e dolorido, o pequeno elefante foi refugiar-se junto ao seu primo, o passarinho.
- Meu amigo, por favor, sabes-me dizer o que comem os crocodilos ao jantar?, perguntou-lhe.
- Eu não sei, mas se fores ao rio esverdeado e lamacento, descobrirás!
O pequeno elefante levou consigo um farnel de bananas e melões e encaminhou-se para o rio.
Passados alguns dias, avistou o rio e, para o ver melhor, trepou para cima de uma coisa que lhe pareceu ser um tronco de árvore.
Só quando o tronco se mexeu é que percebeu que estava a pisar o dorso de um animal.
Logo, logo saiu dali e disse:
- Oh! Peço imensa desculpa! Por acaso já viu algum crocodilo? Sabe o que os crocodilos comem ao jantar?
O estranho animal era mesmo um crocodilo e não ficou nada contente por ter sido pisado, ou melhor, quase esmagado!
Por isso, respondeu:
- Venha para mais perto para eu te dizer ao ouvido o que comem os crocodilos!
O elefantinho, na sua inocência, chegou mais perto, e zaz! O crocodilo deu-lhe uma dentada no nariz.
- Ai, ai, ai! Estás me machucando!, choramingava o pequeno elefante. E para libertar o nariz começou a puxá-lo, enquanto o crocodilo puxava para o lado contrário. Assim, o nariz esticava cada vez mais.
Mais um esforço e... puf!, o pequeno elefante conseguiu finalmente libertar-se.
Mas o seu nariz tinha crescido muito. No início, ele morria de vergonha, mas, com o tempo, foi-se apercebendo que, com aquele nariz, podia fazer imensas coisas novas, como apanhar fruta dos ramos altos das árvores e beber sem se abaixar...
E o melhor é que servia para bater naqueles que o tratavam mal!
Voltou, então, para casa todo contente e sempre que alguém o gozava por causa do nariz levava uma boa sacudidela.
Foi assim que os outros elefantes, cheios de inveja, decidiram ir ao rio esverdeado e lamacento para esticar o nariz no crocodilo!

***
Fonte: Cool Kids

Ouça a estória "O galo rouco e o rato esperto", da Cigana Contadora de Estórias!

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