terça-feira, 14 de julho de 2009

Texto: "Contar com o coração" - Cléo Busatto

Antes de iniciar a segunda parte deste livro, a qual apresenta as técnicas que eu utilizo para a narrativa do conto, gostaria de lançar algumas perguntas que todo candidato a contador de histórias deveria se fazer:
- Por que contar histórias?
As respostas que encontrei para esta indagação foram diversas, e neste percurso procurei me situar numa progressão de diferentes níveis da realidade que passam do plano material ao espiritual, pois creio que contar histórias é uma atitude multidimensional. Ao contar histórias atingimos não apenas o plano prático, mas também o nível do pensamento, e, sobretudo, as dimensões do mítico-simbólico e do mistério. Assim, conto histórias para formar leitores; para fazer da diversidade cultural um fato; valorizar as etnias; manter a História viva; para se sentir vivo; para encantar e sensibilizar o ouvinte; para estimular o imaginário; articular o sensível; tocar o coração; alimentar o espírito; resgatar significados para nossa existência e reativar o sagrado.
- Para quem eu conto histórias?
Para quem deseja ouvir. Porém, devemos ter claro que há diferenças entre contar história para uma única pessoa, ou para um grupo. Narrar para uma criança em particular, seu filho por exemplo, num momento de disponibilidade de ambos, quando as energias do contador e do ouvinte estão voltadas para este ato, é uma experiência única, principalmente se conhecemos esta criança e sabemos quais são as suas necessidades naquele momento. Nesse caso é possível escolher o conto que mais convém às suas expectativas, atuando no sentido de chegar mais próxima à sua demanda. A narrativa se tornará personalizada, o volume de voz poderá ser menor e a performance mais contida.
Ouvir um conto antes de dormir, embalado por uma voz que traga referências confortantes, é um presente raro, como dormir embalado por vozes angelicais. Porém, quantas crianças têm este prazer satisfeito dentro da sua própria casa, ou melhor, quantos pais se dispõem a essa tarefa? Concordo que chegar em casa depois de um dia exaustivo tira o ânimo de qualquer um, então, como encontrar energias para ainda contar histórias? Mas quem disse que criar filhos é uma tarefa fácil.
Educar é também desfrutar o prazer de estar junto numa atividade gostosa. É descobrir que sempre há mais energia do que pensamos ter, e que ela poderá ser dirigida para preparar o sono do filho, por exemplo. Há que ter disponibilidade, e se lançar com o coração.
Outra situação: lá está você com um grupo de vinte, trinta crianças, cada uma com sua história de vida, expectativas diferentes, e muitas delas sem o hábito de ouvir – e não falo apenas em ouvir histórias, falo do ato voluntário e concentrador que permite entender os sons através do sentido da audição, e lhes atribuir sentidos.
Vamos imaginar: você está com todas as crianças à sua volta, as vinte, trinta. Logo, a técnica deverá atingir a todas, simultaneamente. Neste caso não será possível individualizar a narrativa, escolhendo um conto que caiba dentro da urgência de uma criança, mas, sim, perceber o que mobiliza o grupo, e trazer um conto que possa atuar no conjunto, deixando que cada uma delas retire do conto o que mais necessita naquele momento. Ou ainda, ir pela intuição, o que é mais eficiente. Não dá para esquecer que esta será uma experiência coletiva e que você terá de lançar mão de alguns recursos para que esta tarefa se realize satisfatoriamente.
Seja narrando para uma ou várias crianças é fundamental que se conte com o coração, e, se falo desse segredo como o primeiro da lista, é por considerá-lo a premissa máxima para que o narrador tenha sucesso na sua proposta.
Se quisermos que a narrativa atinja toda a sua potencialidade devemos, sim, narrar com o coração, o que implica em estar internamente disponível para isso, doando o que temos de mais genuíno, e entregando-se a esta tarefa com prazer e boa vontade.
Ao contar doamos o nosso afeto, a nossa experiência de vida, abrimos o peito e compactuamos com o que o conto quer dizer. Por isso torna-se fundamental que haja uma identificação entre o narrador e o conto narrado.
Antes de sensibilizar o ouvinte o conto precisa sensibilizar o contador. A maneira como enxergamos o conto será a mesma maneira com que o outro irá vê-lo. Se o considerarmos uma mera distração e entretenimento, será assim que ele irá soar; porém, se acreditarmos que ele pode ser uma pequena luz lançada no nosso caminho, ele será ouvido como tal. Não é por acaso que Lewis Carrol se referia aos contos de fada como presentes de amor.
O envolvimento afetivo com a história narrada permite maior flexibilidade ao narrador, pois ele poderá perceber como ela atua junto aos ouvintes, e assim conduzir a narrativa para que aquelas demandas sejam atendidas. Cada narrador imprime sua personalidade ao conto, priorizando passagens que mais lhe impressionam , reforçando alguma imagem que lhe toca de uma maneira especial, uma intenção que considera primordial, e isto é natural, se pensarmos na narrativa como uma atividade dinâmica que atua sobre os diferentes níveis de realidade.
São essas identificações entre narrador X conto narrado que fazem a diferença; ou existe essa integração, ou a narrativa deixa de ser uma experiência compartilhada, e passa a ser um simples repasse de informação, e nesse caso a história nem precisaria ser contada.
Compartilhar: tomar parte de alguma coisa, estar com – um verbo importante para se conjugar.
Compartilhar significa também acreditar naquilo que se está vivendo. O ato de compartilhar é tão poderoso que torna-se impossível dimensionar os seus efeitos sobre nós.
Lembro-me de uma situação onde eu narrava As três penas, dos Irmãos Grimm.
Ao acabar a narrativa um garoto de nove ou dez anos aproximou-se, e sem falar uma palavra me abraçou. Ficamos lá, grudados, sob o signo de kairós, num espaço onde cronos foi deixado de lado, compartilhando uma emoção única, depois do que ele me olhou nos olhos e disse: “Obrigado”, e foi embora.
É importante observar que a história que ele ouviu faz parte de um ciclo de contos de fadas cujo tema são os três irmãos, onde os dois primeiros são espertos, e o terceiro é aquele considerado tolo e inapto, porém é ele quem realiza as tarefas ordenadas pelo pai, e, assim, herda a sua coroa.
Apesar de não conhecer aquele menino concluí que em algum momento da sua história pessoal ele também foi considerado “o bobo”, e ouvir aquele conto lhe trouxe um alento, a esperança de que, também ele, poderia se sair bem nas suas tarefas e herdar, quem sabe, o sorriso e a aprovação de alguém que lhe fosse especial.
Isto me leva a citar outra vez Bettelheim, quando ele diz que “só a criança pode determinar e revelar pela força com que reage emocionalmente àquilo que um conto evoca na sua mente consciente” (Bettelheim, 1980: 26).
Por contar com o coração, quero dizer também que acredito numa educação onde está presente o afeto e não apenas o impulso profissional em repassar conhecimentos, visando a formação técnica do ser humano.
Penso que educar relaciona-se com este estar com, implicando numa troca de experiências que tem como base o respeito mútuo e o reconhecimento dos afetos.
Educar implica em amorosidade. Acredito que esta possa ser uma das vias de acesso não somente ao conhecimento formal, mas ao desenvolvimento do ser, objetivando torná-lo mais humano.
Somos carentes de experiências que dêem significados á nossa existência. Temos total domínio sobre o que nos rodeia numa dimensão prática, material. Assistimos aos noticiários da TV, lemos todos os jornais diários, mas pouco sabemos sobre a nossa verdadeira natureza. Nascemos e fomos desconectados da nossa origem, nos voltamos para o exterior, para a sobrevivência do corpo, e que sobrevivência! Entramos em viagens desvairadas, algumas vezes sem volta, através das drogas, bebidas, sexo e poder. Ficamos vagando, com o coração inquieto e pulsando de insatisfação.
A literatura para o espírito e os grandes pensadores foram banidos das prateleiras.
Os meios de comunicação nos oferecem uma avalanche de inutilidades que entorpecem os sentidos. O lazer se tornou uma indústria fértil, promissora e deseducadora, que causa mais ansiedade que prazer, e o barulho é a tônica da atualidade. Vivemos um tempo onde ter vem antes do ser, como em outros tempos pensar veio antes do existir.
Para onde ir? Este questionamento não é novo. Já não há instituições que se proponham à incômoda tarefa de oferecer ao espírito vivências que venham nutri-lo.
Correr para onde?
Aonde a criança vai encontrar um caminho que lhe assegure que a vida vale a pena ser bem vivida, mesmo não sendo cor-de-rosa, como querem muitos? Que vamos encontrar sim a dor, a frustração e muitos não pela frente, mas ao permitirmos que eles andem ao lado da alegria e dos sim seremos mais plenos. Onde buscar imagens significativas, símbolos referenciais que auxiliem um crescer íntegro, sob quaisquer circunstâncias?
O mito pode restabelecer este caminho rumo à inteireza do ser, conectar-nos com o sagrado em nós. O conto de fada pode reassegurar a esperança. Os contos de ensinamento podem indicar valores que estão caindo em desuso e reafirmar que ser bom não quer dizer ser bobo, e aceitar a tudo calado e sem discernimento.
Se formos tocados pelas mensagens dos contos e meditarmos a partir deles apreenderemos o que eles querem dizer, e talvez seja possível passarmos adiante com uma voz diferenciada, o que eles já disseram e continuam dizendo. É possível que também o nosso espírito seja alcançado, e isso é o que quero dizer com tornar-se mais humano, ser atingido, ter a consciência de que há outras necessidades a serem atendidas que as meramente materiais.
Estamos diante de um exercício de vida, e quanto mais cedo nos identificarmos com ele mais recursos internos iremos desenvolver e, quando nos deparamos com as situações inevitáveis insolúveis que a vida nos apresenta, como os mistérios do nascimento, vida e morte, talvez estaremos mais preparados para aceitá-los e vivê-los dignamente.
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Contar e encantar: Pequenos segredos da narrativa / Cléo Busatto. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003.
Páginas 45/51

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Conto: "O nariz do elefante"

Ouvi essa estorinha contada por Ilana Kaplan no dvd "Lá vem história", uma série da TV Cultura, que foi ao ar entre 1995 e 1996, com a participação também da Bia Bedran. O dvd é comercializado pela Cultura Marcas e é muito interessante, traz 20 estorinhas do folclore mundial. Vale ter em casa, até como material de aprendizado para o contador de estórias.

A Ilana é uma atriz gaúcha, que usa recursos simples para contar as estorinhas, como essa do elefantinho, onde ela lança mão de artigos de escritório, como um porta-durex para ser o elefantinho, um grampeador para ser o crocodilo, um furador para ser o amigo, etc.

O nariz do elefantinho

Há muito, muito tempo, os elefantes tinham o nariz pouco maior do que um sapato. Até que um pequeno elefante, muito curioso, resolveu começar a fazer demasiadas perguntas.
Um dia, foi ter com a tia girafa e perguntou-lhe:
- Ó tia, porque tens um pescoço tão grande?
E a tia, de resposta, deu-lhe uma sapatada.
Depois o pequeno elefante foi ter com a tia avestruz e perguntou-lhe:
- Tia, porque tens plumas tão grandes na tua cauda?
Também esta lhe deu uma sapatada de resposta.
Mas a pergunta mais atrevida que o pequeno elefante fez foi no dia do grande encontro dos animais, quando, diante de todos, teve a audácia de perguntar:
- O que comem os crocodilos ao jantar?
A resposta foi a maior e mais sonora sapatada de sempre.
Triste e dolorido, o pequeno elefante foi refugiar-se junto ao seu primo, o passarinho.
- Meu amigo, por favor, sabes-me dizer o que comem os crocodilos ao jantar?, perguntou-lhe.
- Eu não sei, mas se fores ao rio esverdeado e lamacento, descobrirás!
O pequeno elefante levou consigo um farnel de bananas e melões e encaminhou-se para o rio.
Passados alguns dias, avistou o rio e, para o ver melhor, trepou para cima de uma coisa que lhe pareceu ser um tronco de árvore.
Só quando o tronco se mexeu é que percebeu que estava a pisar o dorso de um animal.
Logo, logo saiu dali e disse:
- Oh! Peço imensa desculpa! Por acaso já viu algum crocodilo? Sabe o que os crocodilos comem ao jantar?
O estranho animal era mesmo um crocodilo e não ficou nada contente por ter sido pisado, ou melhor, quase esmagado!
Por isso, respondeu:
- Venha para mais perto para eu te dizer ao ouvido o que comem os crocodilos!
O elefantinho, na sua inocência, chegou mais perto, e zaz! O crocodilo deu-lhe uma dentada no nariz.
- Ai, ai, ai! Estás me machucando!, choramingava o pequeno elefante. E para libertar o nariz começou a puxá-lo, enquanto o crocodilo puxava para o lado contrário. Assim, o nariz esticava cada vez mais.
Mais um esforço e... puf!, o pequeno elefante conseguiu finalmente libertar-se.
Mas o seu nariz tinha crescido muito. No início, ele morria de vergonha, mas, com o tempo, foi-se apercebendo que, com aquele nariz, podia fazer imensas coisas novas, como apanhar fruta dos ramos altos das árvores e beber sem se abaixar...
E o melhor é que servia para bater naqueles que o tratavam mal!
Voltou, então, para casa todo contente e sempre que alguém o gozava por causa do nariz levava uma boa sacudidela.
Foi assim que os outros elefantes, cheios de inveja, decidiram ir ao rio esverdeado e lamacento para esticar o nariz no crocodilo!

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Fonte: Cool Kids

domingo, 28 de junho de 2009

Conto: "O homem sem sorte"

Vi a dica desse conto na comunidade Contadores de Histórias, do Orkut, e acessei o vídeo da Clara Haddad contando-o. Achei tão interessante que trouxe para você. Se quiser assistir ao vídeo, acesse: http://www.youtube.com/watch?v=frsD1osW02k

O homem sem sorte

Vivia perto de uma aldeia um homem, um homem que era completamente sem sorte. Nada do que ele fazia dava certo. Muitas vezes ele plantava sementes e o vento vinha e as levava, outras vezes, era a chuva, que vinha tão violenta que carregava as sementes. Outras vezes ainda, as sementes permaneciam sob a terra, mas o sol era tão quente que as cozinhava. E ele se queixava com as pessoas e as pessoas escutavam suas queixas, da primeira vez com simpatia, depois com um certo desconforto e enfim, quando o viam mudavam de caminho ou entravam para suas casas fechando portas e janelas, evitando-o. Então, além de sem sorte, o homem se tornou chato e muito só.

Ele então começou a procurar um culpado para o que lhe acontecia. Analisando a situação de sua família, percebeu que seu pai era um homem de sorte, sua mãe tinha tido sorte por ter se casado com seu pai e seus irmãos eram muito bem sucedidos. Pois então, se não era um caso genético, só poderia ser coisa do Criador. E depois de muito pensar, resolveu tomar uma atitude e ir até o fim do mundo falar com o Criador, que, como Criador de tudo, deveria ter uma resposta.

Arrumou sua malinha, algum alimento e partiu rumo ao fim do mundo. Andou um dia, um mês, um ano e um dia, e pouco antes de entrar numa grande floresta ouviu uma voz:

- Moço, me ajude!

Ele olhou para os lados procurando alguém. Até que se deparou com um lobo, magro, quase sem pelos; era pele e osso o infeliz. Dava para contar suas costelas . E o lobo falou:

- Há três meses estou nesta situação. Não sei o que está acontecendo comigo. Não tenho forças para me levantar daqui.


O homem refeito do susto respondeu:

- Você está se queixando à toa ...Eu tive azar a vida inteira. O que são três meses? Mas faça como eu. Procure uma resposta. Eu estou indo procurar o Criador para resolver o meu problema.

- Se eu não tenho forças nem para ir ao rio beber água... Faça este favor para mim . Você está indo vê-lo, pergunte o que está acontecendo comigo.

O homem fez um sinal de insatisfação e disse que estava muito preocupado com seu problema, mas se lembrasse, perguntaria. Virando as costas, continuou seu caminho. Andou um dia, um mês, um ano e um dia e de repente, ao tropeçar numa raiz, ouviu:

- Moço, cuidado!

E quando olhou, viu uma folhinha que vinha caindo, caindo. Olhando para cima, viu uma árvore com apenas duas folhinhas. Levantou-se e, observando suas raízes desenterradas, seus galhos retorcidos, sua casca soltando-se do tronco, falou:

- Você não se envergonha ? Olhe as outras árvores a sua volta e diga se você pode ser chamada de árvore? Conserte sua postura.

A árvore, com uma voz de muita dor, disse:

- Não sei o que está acontecendo comigo. Estou me sentindo tão doente. Há seis meses que minhas folhas estão caindo, e agora, como vê, só restam duas...


E, no fim da conversa, pediu ao homem que procurasse uma solução com o Criador.

Contrariado, o homem virou as costas com mais uma incumbência. Andou um dia, um mês, um ano e um dia e chegou a um vale muito florido , com flores de todas as cores e perfumes. Mas o homem não reparou nisto. Chegou até uma casa e, na frente da casa, estava uma moça muito bonita que o convidou a entrar. Eles conversaram longamente e quando o homem deu por si já era madrugada. Ele se levantou dizendo que não podia perder tempo e quando já estava saindo ela lhe pediu um favor:

- Você que vai procurar o Criador, podia perguntar uma coisa para mim? É que, de vez em quando, sinto um vazio no peito, que não tem motivo, nem explicação. Gostaria de saber o que é e o que posso fazer por isto.


O homem prometeu que perguntaria e virou as costas e andou um dia, um mês, um ano e um dia e chegou, por fim, ao fim do mundo. Sentou-se e ficou esperando até que ouviu uma voz. E uma voz no fim do mundo só poderia ser a voz do Criador.

- Tenho muitos nomes. Chamam-me também de Criador... - a voz falou.


E o homem contou então toda a sua triste vida. Conversou longamente com a voz até que se levantou e, virando as costas, foi saindo, quando a voz lhe perguntou:

- Você não está se esquecendo de nada ? Não ficou de saber respostas para uma árvore, para um lobo e para uma jovem ?

- Tem razão...


E voltou-se para ouvir o que tinha que ser dito. Depois, virou-se e correu mais rápido que o vento, até que chegou à casa da jovem. Como ela estava em frente à casa, vendo-o passar chamou:

- Ei!!! Você conseguiu encontrar o Criador? Teve as respostas que queria?

- Sim!!! Claro! O Criador disse que minha sorte está toda no mundo. Basta eu ficar alerta para perceber a hora de apanhá-la!

- E quanto a mim, você teve a chance de fazer a minha pergunta?

- Ah! O Criador disse que o que você sente é solidão. Assim que encontrar um companheiro, vai ser completamente feliz, e mais feliz ainda vai ser o seu companheiro.

A jovem então abriu um sorriso e perguntou ao homem se ele queria ser este companheiro.

- Claro que não... Já trouxe a sua resposta... Não posso ficar aqui perdendo tempo com você. Não foi para ficar aqui que fiz toda esta jornada. Adeus!!!

E virando as costas correu, mais rápido do que a água, até a floresta onde estava a árvore. Ele nem se lembrava mais dela. Mas quando novamente tropeçou em sua raiz, viu caindo uma última folhinha. Ela perguntou se ele tinha uma resposta, ao que o homem respondeu:

- Tenho muita pressa e vou ser breve, pois estou indo em busca de minha sorte e ela está no mundo. O Criador disse que você tem embaixo de suas raízes uma caixa de ferro cheia de moedas de ouro. O ferro desta caixa está corroendo suas raízes. Se você cavar e tirar este tesouro daí, vai terminar todo o seu sofrimento e você vai poder virar uma árvore saudável novamente.

- Por favor!!!Faça isto por mim!!! Eu não tenho como fazê-lo. Você pode ficar com o tesouro. Ele não serve para mim. Eu só quero de novo minha força e energia.


O homem deu um pulo e falou indignado:

- Você está me achando com cara de quê? Já trouxe a resposta para você. Agora resolva o seu problema. O Criador falou que minha sorte está no mundo e eu não posso perder tempo aqui conversando com você, muito menos sujando minhas mãos na terra.


E virando as costas, correu, mais rápido do que a luz, atravessou a floresta e chegou onde estava o lobo, mais magro ainda e mais fraco. O homem se dirigiu a ele apressadamente e disse:

- O Criador mandou lhe falar que você não está doente. O que você tem é fome. Está a morrer de inanição, e como não tem forças mais para sair e caçar, vai morrer ai mesmo. A não ser que passe por aqui uma criatura bastante estúpida e você consiga comê-la.

E nesse momento, os olhos do lobo se encheram de um brilho estranho, e reunindo o restante de suas forças, o lobo deu um pulo e comeu o homem sem sorte.
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sábado, 27 de junho de 2009

Artigo: "Contar histórias: uma arte imortal" - Ana Lúcia Merege

Música, tradição oral e encantamento são ferramentas do contador de estórias
Contar histórias: uma arte imortal
Ana Lúcia Merege

Nos últimos anos, a arte de contar histórias vem sendo retomada não apenas por terapeutas e educadores, mas por pessoas de todas as formações, de várias camadas da sociedade, que se reúnem para partilhar sabedoria, afeto e energia através das narrativas. Para fazê-lo, não há regras: o melhor é usar o coração e a intuição, além da experiência que só se adquire através do tempo. No entanto, uma discussão acerca do que significa contar histórias e do que é necessário para isso pode nos levar a alguns pontos interessantes.

Em primeiro lugar, é preciso saber que contar histórias é uma arte popular. Uma aproximação excessivamente acadêmica e/ou sofisticada pode esvaziar o conteúdo emocional da narrativa, deixando o público pouco à vontade. Da mesma forma, deve-se ter em mente que, embora o ato de contar histórias possa se inserir numa proposta terapêutica ou num projeto pedagógico, não se pode agir de forma mecânica, apenas para cumprir um dever ou para ensinar o que quer que seja, de regras gramaticais a valores doutrinários. As histórias devem ser contadas por e com prazer. Se não, nem vale a pena começar.

O background cultural do narrador e a sua familiaridade com as histórias também são importantes. Ao narrar um conto maravilhoso, por exemplo, é muito mais importante conhecer e ser capaz de visualizar o cenário em que ele se desenvolve do que saber as palavras exatas. Saber de onde vem a versão que se está narrando é bom, mas melhor ainda é saber trabalhar, criativamente, com os elementos fornecidos pela narrativa, e ser capaz de levar o público a se identificar e se interessar por ela.

A escolha do repertório é fundamental para um contador de histórias. Segundo SAWYER, mesmo os contadores mais experientes encontram dificuldades com alguns textos e mais facilidade com outros, sugerindo que se trabalhe com três tipos básicos de material: literatura popular (onde se incluem os contos de fadas), contos literários e trechos de livros (SAWYER, 1990, p. 153). Para ela, a literatura popular é a mais fácil de trabalhar, pois tem uma linguagem universal e uma estrutura narrativa simples.

A opinião é partilhada por RIBEIRO, segundo o qual “por mais que os requintes e lançamentos literários sofram um constante aperfeiçoamento (...) a literatura infanto-juvenil continuará tendo a sua faceta mais atraente na literatura de tradição oral e mais propriamente nos contos de fadas (RIBEIRO, 2002, p. 14-15). Mesmo para um público de adultos (ou misto), essas histórias jamais perdem o seu encanto, sendo no entanto aconselhável que o narrador as estudem previamente, conhecendo-as bem, a fim de ser capaz de transmitir todas as nuances contidas em cada trecho e em cada elemento da narrativa.

A propósito desse assunto, é preciso esclarecer que existem diferenças entre contar, ler e representar histórias, embora todas elas envolvam uma preparação e uma performance mais ou menos elaborada. A forma como se vai trabalhar depende de nossos gostos, de nosso estilo, de nosso objetivo... e, antes de tudo, de nossa sensibilidade.

De qualquer forma, o narrador se beneficiará do domínio de algumas técnicas de voz e expressão corporal, bem como – mais uma vez – do conhecimento profundo da história e dos personagens. A sutileza é sempre preferível ao exagero. Como diz BUSATTO, “o Lobo Mau não precisa falar grosso para demonstrar sua ferocidade (...). O que podemos carregar do teatro é justamente a intenção que carrega um ritmo preciso” (BUSATTO, 2003, p. 76). A partir daí tudo se torna uma questão de tempo, de paciência, de experimentação e, porque não dizer, de ousadia por parte do narrador, que irá acertar e errar muitas vezes ao longo de sua trajetória. No entanto, se for essa a sua vocação, ele irá persistir... uma vez que, para o verdadeiro contador de histórias, o ato de narrar é parte inseparável da vida.

Contar histórias não é um ato apenas intelectual, mas espiritual e afetivo. Por isso, as melhores histórias são as que contamos espontaneamente, a partir do que carregamos em nossa bagagem de cultura e de experiência de vida.

Independente de qualquer sentido, contar histórias pressupõe, antes de tudo, a vontade de falar do que se sabe, de doar sabedoria e conhecimento, de passar adiante aquilo que se aprendeu. Mais simplesmente ainda: contar histórias é aumentar o círculo. E, mesmo na falta de uma fogueira ou das lareiras de nossas avós, podemos fazê-lo aqui e agora, partilhando nossas histórias, lançando fios invisíveis que nos unem numa só rede.


LEITURAS SUGERIDAS:

BUSATTO, Cléo. Contar e encantar. Petrópolis: Vozes, 2003.

FITZPATRICK, Jean Grasso. Era uma vez uma família. Rio de Janeiro: Objetiva, 1998.
MACHADO, Ana Maria. Como e por que ler os clássicos universais desde cedo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.

RIBEIRO, Jonas. Ouvidos dourados. São Paulo: Ave-Maria, 2002.

SAWYER, Ruth. The way of the storyteller. New York: Penguin Books, 1990.

SIMPKINSON, Charles e Anna (org.). Histórias sagradas. Rio de Janeiro: Rocco, 2002


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Ana Lúcia Merege


quinta-feira, 25 de junho de 2009

Conto: "Pagamento justo"

Quando o dono do restaurante disse que o mendigo teria que pagar a fumaça da carne, Nasrudin pegou um saco de moedas de ouro, sacudiu-o perto da orelha do homem e perguntou:
- O que você está escutando?
- O tilintar das moedas.
- Muito bem - disse Nasrudin. - Esse é o seu pagamento. O som das moedas é um ótimo pagamento para o cheiro da carne. Caso encerrado.

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Retirado do livro “NASRUDIN” de Regina Machado, Editora Companhia das Letrinhas – 1994

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Conto: "Nasrudin sempre escolhe errado"


Todos os dias Nasrudin ia esmolar na feira, e as pessoas adoravam vê-lo fazendo o papel de tolo, com o seguinte truque: mostravam duas moedas, uma valendo dez vezes mais que a outra. Nasrudin sempre escolhia a menor.
A história correu pelo condado. Dia após dia, grupos de homens e mulheres mostravam as duas moedas, e Nasrudin sempre ficava com a menor.
Até que apareceu um senhor generoso, cansado de ver Nasrudin sendo ridicularizado daquela maneira. Chamando-o num canto da praça, disse:
- Sempre que lhe oferecerem duas moedas, escolha a maior. Assim terá mais dinheiro, e não será considerado idiota pelos outros.
- O senhor parece ter razão - respondeu Nasrudin. - Mas se eu escolher a moeda maior, as pessoas vão deixar de me oferecer dinheiro, para provar que sou mais idiota que elas. O senhor não sabe quanto dinheiro já ganhei, usando este truque.

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Fonte: Histórias para pais, filhos e netos - Paulo Coelho

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Artigo: "Educar é contar histórias" - Claudio de Moura Castro

Saiu na Revista Veja do dia 10 de junho deste ano (ed. 2116), um excelente artigo do economista Claudio de Moura Castro, sobre como seria muito mais fácil o aprendizado se o professor soubesse contar histórias.
Leia abaixo:

Educar é contar histórias

"Bons professores eletrizam seus alunos com narrativas interessantes ou curiosas, carregando nas costas as lições que querem ensinar"

De que servem todos os conhecimentos do mundo, se não somos capazes de transmiti-los aos nossos alunos? A ciência e a arte de ensinar são ingredientes críticos no ensino, constituindo-se em processos chamados de pedagogia ou didática. Mas esses nomes ficaram poluídos por ideologias e ruídos semânticos. Perguntemos quem foram os grandes educadores da história. A maioria dos nomes decantados pelos nossos gurus faz apenas "pedagogia de astronauta". Do espaço sideral, apontam seus telescópios para a sala de aula. Pouco enxergam, pouco ensinam que sirva aqui na terra.
Tenho meus candidatos. Chamam-se Jesus Cristo e Walt Disney. Eles pareciam saber que educar é contar histórias. Esse é o verdadeiro ensino contextualizado, que galvaniza o imaginário dos discípulos fazendo-os viver o enredo e prestar atenção às palavras da narrativa. Dentro da história, suavemente, enleiam-se as mensagens. Jesus e seus discípulos mudaram as crenças de meio mundo. Narraram parábolas que culminavam com uma mensagem moral ou de fé. Walt Disney foi o maior contador de histórias do século XX. Inovou em todos os azimutes. Inventou o desenho animado, deu vida às histórias em quadrinhos, fez filmes de aventura e criou os parques temáticos, com seus autômatos e simulações digitais. Em tudo enfiava uma mensagem. Não precisamos concordar com elas (e, aliás, tendemos a não concordar). Mas precisamos aprender as suas técnicas de narrativa.

Há alguns anos, professores americanos de inglês se reuniram para carpir as suas mágoas: apesar dos esplêndidos livros disponíveis, os alunos se recusavam a ler. Poucas semanas depois, foi lançado um dos volumes de Harry Potter, vendendo 9 milhões de exemplares, 24 horas após o lançamento! Se os alunos leem J.K. Rowling e não gostam de outros, é porque estes são chatos. Em um gesto de realismo, muitos professores passaram a usar Harry Potter para ensinar até física. De fato, educar é contar histórias. Bons professores estão sempre eletrizando seus alunos com narrativas interessantes ou curiosas, carregando nas costas as lições que querem ensinar. É preciso ignorar as teorias intergalácticas dos "pedagogos astronautas" e aprender com Jesus, Esopo, Disney, Monteiro Lobato e J.K. Row-ling. Eles é que sabem.
Poucos estudantes absorvem as abstrações, quando apresentadas a sangue-frio: "Seja X a largura de um retângulo...". De fato, não se aprende matemática sem contextualização em exemplos concretos. Mas o professor pode entrar na sala de aula e propor a seus alunos: "Vamos construir um novo quadro-negro. De quantos metros quadrados de compensado precisaremos? E de quantos metros lineares de moldura?". Aí está a narrativa para ensinar áreas e perímetros. Abundante pesquisa mostra que a maioria dos alunos só aprende quando o assunto é contextualizado. Quando falamos em analogias e metáforas, estamos explorando o mesmo filão. Histórias e casos reais ou imaginários podem ser usados na aula. Para quem vê uma equação pela primeira vez, compará-la a uma gangorra pode ser a melhor porta de entrada. Encontrando pela primeira vez a eletricidade, podemos falar de um cano com água. A pressão da coluna de água é a voltagem. O diâmetro do cano ilustra a amperagem, pois em um cano "grosso" flui mais água. Aprendidos esses conceitos básicos, tais analogias podem ser abandonadas.
É preciso garimpar as boas narrativas que permitam empacotar habilmente a mensagem. Um dos maiores absurdos da doutrina pedagógica vigente é mandar o professor "construir sua própria aula", em vez de selecionar as ideias que deram certo alhures. É irrealista e injusto querer que o professor seja um autor como Monteiro Lobato ou J.K. Rowling. É preciso oferecer a ele as melhores ferramentas – até que apareçam outras mais eficazes. Melhor ainda é fornecer isso tudo já articulado e sequenciado. Plágio? Lembremo-nos do que disse Picasso: "O bom artista copia, o grande artista rouba ideias". Se um dos maiores pintores do século XX achava isso, por que os professores não podem copiar? Preparar aulas é buscar as boas narrativas, exemplos e exercícios interessantes, reinterpretando e ajustando (é aí que entra a criatividade). Se "colando" dos melhores materiais disponíveis ele conseguir fazer brilhar os olhinhos de seus alunos, já merecerá todos os aplausos.


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Claudio de Moura Castro é economista
E-mail: claudio&moura&castro@cmcastro.com.br

Ouça a estória "O galo rouco e o rato esperto", da Cigana Contadora de Estórias!

Quer saber quando tem estória nova no blog?

Apresentações de contadores de estórias

Palavra Cantada - O rato
Clara Haddad - O coelho e o baobá

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