quinta-feira, 18 de junho de 2009

Conto: "Nasrudin sempre escolhe errado"


Todos os dias Nasrudin ia esmolar na feira, e as pessoas adoravam vê-lo fazendo o papel de tolo, com o seguinte truque: mostravam duas moedas, uma valendo dez vezes mais que a outra. Nasrudin sempre escolhia a menor.
A história correu pelo condado. Dia após dia, grupos de homens e mulheres mostravam as duas moedas, e Nasrudin sempre ficava com a menor.
Até que apareceu um senhor generoso, cansado de ver Nasrudin sendo ridicularizado daquela maneira. Chamando-o num canto da praça, disse:
- Sempre que lhe oferecerem duas moedas, escolha a maior. Assim terá mais dinheiro, e não será considerado idiota pelos outros.
- O senhor parece ter razão - respondeu Nasrudin. - Mas se eu escolher a moeda maior, as pessoas vão deixar de me oferecer dinheiro, para provar que sou mais idiota que elas. O senhor não sabe quanto dinheiro já ganhei, usando este truque.

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Fonte: Histórias para pais, filhos e netos - Paulo Coelho

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Artigo: "Educar é contar histórias" - Claudio de Moura Castro

Saiu na Revista Veja do dia 10 de junho deste ano (ed. 2116), um excelente artigo do economista Claudio de Moura Castro, sobre como seria muito mais fácil o aprendizado se o professor soubesse contar histórias.
Leia abaixo:

Educar é contar histórias

"Bons professores eletrizam seus alunos com narrativas interessantes ou curiosas, carregando nas costas as lições que querem ensinar"

De que servem todos os conhecimentos do mundo, se não somos capazes de transmiti-los aos nossos alunos? A ciência e a arte de ensinar são ingredientes críticos no ensino, constituindo-se em processos chamados de pedagogia ou didática. Mas esses nomes ficaram poluídos por ideologias e ruídos semânticos. Perguntemos quem foram os grandes educadores da história. A maioria dos nomes decantados pelos nossos gurus faz apenas "pedagogia de astronauta". Do espaço sideral, apontam seus telescópios para a sala de aula. Pouco enxergam, pouco ensinam que sirva aqui na terra.
Tenho meus candidatos. Chamam-se Jesus Cristo e Walt Disney. Eles pareciam saber que educar é contar histórias. Esse é o verdadeiro ensino contextualizado, que galvaniza o imaginário dos discípulos fazendo-os viver o enredo e prestar atenção às palavras da narrativa. Dentro da história, suavemente, enleiam-se as mensagens. Jesus e seus discípulos mudaram as crenças de meio mundo. Narraram parábolas que culminavam com uma mensagem moral ou de fé. Walt Disney foi o maior contador de histórias do século XX. Inovou em todos os azimutes. Inventou o desenho animado, deu vida às histórias em quadrinhos, fez filmes de aventura e criou os parques temáticos, com seus autômatos e simulações digitais. Em tudo enfiava uma mensagem. Não precisamos concordar com elas (e, aliás, tendemos a não concordar). Mas precisamos aprender as suas técnicas de narrativa.

Há alguns anos, professores americanos de inglês se reuniram para carpir as suas mágoas: apesar dos esplêndidos livros disponíveis, os alunos se recusavam a ler. Poucas semanas depois, foi lançado um dos volumes de Harry Potter, vendendo 9 milhões de exemplares, 24 horas após o lançamento! Se os alunos leem J.K. Rowling e não gostam de outros, é porque estes são chatos. Em um gesto de realismo, muitos professores passaram a usar Harry Potter para ensinar até física. De fato, educar é contar histórias. Bons professores estão sempre eletrizando seus alunos com narrativas interessantes ou curiosas, carregando nas costas as lições que querem ensinar. É preciso ignorar as teorias intergalácticas dos "pedagogos astronautas" e aprender com Jesus, Esopo, Disney, Monteiro Lobato e J.K. Row-ling. Eles é que sabem.
Poucos estudantes absorvem as abstrações, quando apresentadas a sangue-frio: "Seja X a largura de um retângulo...". De fato, não se aprende matemática sem contextualização em exemplos concretos. Mas o professor pode entrar na sala de aula e propor a seus alunos: "Vamos construir um novo quadro-negro. De quantos metros quadrados de compensado precisaremos? E de quantos metros lineares de moldura?". Aí está a narrativa para ensinar áreas e perímetros. Abundante pesquisa mostra que a maioria dos alunos só aprende quando o assunto é contextualizado. Quando falamos em analogias e metáforas, estamos explorando o mesmo filão. Histórias e casos reais ou imaginários podem ser usados na aula. Para quem vê uma equação pela primeira vez, compará-la a uma gangorra pode ser a melhor porta de entrada. Encontrando pela primeira vez a eletricidade, podemos falar de um cano com água. A pressão da coluna de água é a voltagem. O diâmetro do cano ilustra a amperagem, pois em um cano "grosso" flui mais água. Aprendidos esses conceitos básicos, tais analogias podem ser abandonadas.
É preciso garimpar as boas narrativas que permitam empacotar habilmente a mensagem. Um dos maiores absurdos da doutrina pedagógica vigente é mandar o professor "construir sua própria aula", em vez de selecionar as ideias que deram certo alhures. É irrealista e injusto querer que o professor seja um autor como Monteiro Lobato ou J.K. Rowling. É preciso oferecer a ele as melhores ferramentas – até que apareçam outras mais eficazes. Melhor ainda é fornecer isso tudo já articulado e sequenciado. Plágio? Lembremo-nos do que disse Picasso: "O bom artista copia, o grande artista rouba ideias". Se um dos maiores pintores do século XX achava isso, por que os professores não podem copiar? Preparar aulas é buscar as boas narrativas, exemplos e exercícios interessantes, reinterpretando e ajustando (é aí que entra a criatividade). Se "colando" dos melhores materiais disponíveis ele conseguir fazer brilhar os olhinhos de seus alunos, já merecerá todos os aplausos.


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Claudio de Moura Castro é economista
E-mail: claudio&moura&castro@cmcastro.com.br

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Matéria:" Contar histórias ajuda a formar inconsciente infantil"

" A criança que ouve histórias nunca mais se esquece de sua relação com o contador"


Contar histórias ajuda a formar inconsciente infantil
DÉBORA YURI - Revista da Folha de S.Paulo - 14/03/2004

Maria Eugênia, 8, cresceu convivendo todas as noites com seus amigos Come-come e Ninoca. Suas brincadeiras favoritas aconteciam no seu castelo mágico. Mas nenhum dos dois personagens existe, nem o castelo: tudo foi inventado pelo pai da garota.


"Na hora de colocá-la para dormir, comecei a contar histórias baseadas nos filmes da Disney. Percebi que ela ficava mais interessada quando eu a colocava dentro da narrativa", conta o consultor de marketing Carlos Eduardo de Moraes Lacerda, 50, o "inventor", do "castelo mágico da Maria Eugênia" e da "casinha da ratinha Ninoca".


Quando Pedro, hoje com dois anos, estava para nascer, Maria Eugênia começou a ouvir histórias cujo enredo já trazia o futuro irmão.


"Foi o melhor jeito que arrumamos para prepará-la", diz Lacerda, que compartilha a tarefa com a ex-mulher, a publicitária Juliana Geve, 35.


"Essa é a nossa divisão: ela lê livros, eu invento."Contar histórias, sejam de autores clássicos ou fruto da criatividade pessoal, é uma tradição fundamental para o crescimento.


"É o primeiro contato das crianças com o percurso de desenvolvimento humano. Elas vêem heróis e heroínas encarando obstáculos, vão aprendendo que é preciso enfrentar um problema e buscar solução", diz Regina Machado, 53, coordenadora do grupo de contadores de histórias do Núcleo de Arte e Educação da ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes).


Ela ressalta a importância das histórias na formação do inconsciente infantil.


"Personagens como a mãe boa e a bruxa malvada ajudam a elaborar certas relações nessa faixa etária, como a ligação da criança com sua família, além de transmitir conceitos sobre o bem e o mal, o certo e o errado.


"O hábito ainda promove a interação entre pais e filhos. "Os dois lados compartilham um espaço diferente do dia-a-dia e trocam valores humanos básicos", diz Machado, que ministra cursos de contadores de histórias e lançará na Bienal o livro "Fundamentos Teórico-Poéticos da Arte de Contar Histórias" (editora DCL).


A ficção infantil, sobretudo o conto de fadas, é também a porta de entrada da criança no universo cultural. A literatura infantil é um caminho que pode levar a outras artes, como o cinema", diz Roxane Rojo, professora de lingüística aplicada da PUC-SP.


Ela sugere que o primeiro livro da vida seja dado como um presente de nascimento ao bebê. "Ele será usado um pouco mais tarde, mas é bom já ir deixando o quarto do filho cheio de livros", afirma.


Rojo faz um alerta: a escola tem papel fundamental na criação dos jovens leitores. "Os próprios pais têm de valorizar o livro, o que muitas vezes não acontece. Por isso é obrigação da escola inserir a leitura no programa desde a educação infantil."




Contadores




O interesse pela atividade fez pipocar cursos que pretendem ensinar como ser um bom "narrador", e grandes livrarias passaram a incluir em sua programação de final de semana oficinas com contadores de histórias. "Antes eu capacitava muitos professores, hoje o grosso do público são pais e mães", diz o arte-educador Giuliano Tierno, 26, que ministra cursos em todo o Estado.


Com o tempo, segundo Giuliano, o processo natural é que os papéis se invertam, e a criança comece a contar as histórias ouvidas. "Geralmente ela pede para o adulto contar várias vezes a mesma história, até decorá-la."


Carlos Lacerda conta que ficou emocionado há algumas semanas, quando levou a filha Maria Eugênia ao cinema. Juntos, eles assistiram "Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas", filme de Tim Burton que mostra a relação entre um pai contador de casos fabulosos e seu filho."


Acho que a criança que ouve histórias na cama nunca mais esquece a relação que estabelece com seu "contador'", diz.


Quer jeito mais gostoso de se tornar inesquecível?


Imagem: Ana Afonso (clique na ilustração para visitar o blog da ilustradora)

domingo, 14 de junho de 2009

Conto: "Os três leões" - novela Caminho das Índias

No capítulo do dia 13/06/09 da novela Caminho das Índias, o brâmane Shankar, esplendidamente vivido por Lima Duarte, contou uma estória a Hari, o pequeno dalit ("intocável", da casta mais baixa na Índia) que vive em sua casa, ao ver o menino entristecido por estar apaixonado por uma menina de uma casta superior e ter sido enxotado do portão da casa dela. Ele chamou o menino e disse-lhe que este tinha um problema, mas que iria lhe contar uma estória que poderia ajudá-lo a saber como enfrentar esse problema. Começou assim... "Na cordilheira do Himalaia, havia três leões..."
Apenas um poderia ser o rei, mas qual deles? Um dia, o macaco, representante eleito dos animais súditos, fez uma reunião com toda a bicharada e disse:
- Nós, os animais, sabemos que o leão é o rei dos animais, mas há uma dúvida no ar: existem 3 leões fortes. Ora, a qual deles nós devemos prestar homenagem? Quem, dentre eles, deverá ser o nosso rei?

Os 3 leões souberam da reunião e comentaram entre si:

- É verdade, a preocupação da bicharada faz sentido, aqui não pode haver 3 reis, precisamos saber qual de nós será o escolhido.

Mas como descobrir ?

Essa era a grande questão: lutar entre si eles não queriam, pois eram muito amigos. O impasse estava formado.

De novo, todos os animais se reuniram para discutir uma solução para o caso e acabaram tendo uma ideia excelente.

O macaco se encontrou com os 3 felinos e contou o que eles decidiram:

- Bem, senhores leões, encontramos uma solução desafiadora para o problema.

A solução está na Montanha Difícil.


- Montanha Difícil ? Como assim ?

- É simples, ponderou o macaco. Decidimos que vocês 3 deverão escalar a Montanha Difícil. O que atingir o pico primeiro será consagrado o rei dos reis.

A Montanha Difícil era a mais alta entre todas naquela imensa e gelada cordilheira.

O desafio foi aceito.

No dia combinado, milhares de animais cercaram a Montanha para assistir a grande escalada.

O primeiro tentou. Não conseguiu. Foi derrotado.

O segundo tentou. Não conseguiu. Foi derrotado.

O terceiro tentou. Não conseguiu. Foi derrotado.

Os animais estavam curiosos e impacientes, afinal, qual deles seria o rei, uma vez que os 3 foram derrotados?

Foi nesse momento que uma águia sábia, idosa na idade e grande em sabedoria, pediu a palavra:

- Eu sei quem deve ser o rei!!!

Todos os animais fizeram um silêncio de grande expectativa.

- A senhora sabe, mas como? todos gritaram para a Águia.

- É simples, disse a sábia águia, - eu estava voando entre eles, bem de perto e, quando eles voltaram fracassados para o vale, eu escutei o que cada um deles disse para a montanha.

O primeiro leão disse:

- Montanha, você me venceu!

O segundo leão disse:

- Montanha, você me venceu!

O terceiro leão também disse:

- Montanha, você me venceu, mas por enquanto! Você, montanha, já atingiu seu tamanho final, e eu ainda estou crescendo.

- A diferença, - completou a águia, - é que o terceiro leão teve uma atitude de vencedor diante da derrota e quem pensa assim é maior que seu problema: É rei de si mesmo.

Os animais da floresta aplaudiram entusiasticamente ao terceiro leão que foi coroado rei entre os reis.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Estudo: Tipos de contos populares - Ricardo Sérgio

Os contos do folclore brasileiro são um tesouro para o contador de estórias

Ricardo Sérgio

Existem várias classificações de contos populares. A mais conhecida é a de Aarne-Thompson (The types of the folktale), que distribui os contos populares em três grandes grupos:


1º. Contos de animais (1 a 299 tipos);
2º. Contos comuns (300-1199);
3º. Facécias/anedotas (1200-1999).


No entanto, vamos adotar a classificação efetuada pelo folclorista Luís da Câmara Cascudo, em seu Dicionário do Folclore Brasileiro, por ter o mérito de ater-se a aspectos intrínsecos da construção narrativa do conto popular e de buscar vincular as narrativas brasileiras a uma codificação internacional do imaginário humano. A classificação de Luís Câmara Cascudo é a seguinte:


Contos de Encantamento – Também é conhecido como conto maravilhoso ou conto de fadas. É um tipo de conto ambientado no sobrenatural e maravilhoso, onde príncipes, princesas enfrentam monstros e bruxas e conseguem superar as adversidades graças à intervenção de ajudantes mágicos. A história quase sempre tem um final feliz. Entre os contos de encantamentos há muitos que estão espalhados por todo o Brasil, mas que receberam um colorido especial de cada região, como Bicho de Palha (Gata Borralheira); sendo o conto que apresenta o maior número de versões (143) e o registro de três variantes (a mais tradicional é a que o ajudante mágico é uma vaca com a varinha de condão). Outros exemplos: A Princesa Jia, O Marido da Mãe d'água, O Filho da Burra, O Peixinho Encantado, Os Sete Sapatos da Princesa, A Filha do Diabo, Contos da Carochinha, Joãozinho e Maria, Branca de Neve, A Bela Adormecida, entre outros.


Contos de Animais - São contos em que os animais são dotados de qualidades, defeitos e sentimentos humanos. A esperteza e a astúcia são as únicas armas de que um animal, sempre de porte pequeno, dispõe para enfrentar seu inimigo mais forte. Estruturalmente assemelham-se à fábula, pois há na história uma intenção moralizante. Os tipos mais representativos integram os ciclos do macaco e a onça, do coelho e o sapo ou o cágado, da raposa e a onça. São exemplos: O gavião e o urubu, A raposa e as uvas, O pulo do gato, etc.


Contos de Exemplo - São aqueles estruturados pelo antagonismo Bem versus Mal, em que um delito contra uma norma de caráter social conduz o desfecho da intriga para uma lição de moral. Recorrendo à sagacidade para inverter a situação de desvantagem, o réu, transforma-se em herói. São exemplos: O Vaqueiro que não Mentia, O Compadre Rico e o Pobre, Os Dois Corcundas, A Menina dos Brincos de Ouro, entre outros.


Contos Religiosos - Caracterizam-se pela presença ou interferência divina. Mostram ao mesmo tempo a fé, a crendice, a superstição e o sentimento místico de nossa gente, numa singela aliança como se pode observar em Jesus e os lavradores, A Moça e a Vela, Os Rins da Ovelha, Como a Aranha Salvou o Menino Jesus, A Mãe de São Pedro etc.


Causos - São histórias cobertas de fantasia, nas quais se misturam elementos míticos e lendários, contadas, sobretudo por pescadores, tropeiros, vaqueiros, peões de fazenda e caçadores (extraordinários contadores de causos). Geralmente, o contador é o personagem principal, outras vezes, porém, apenas assistiu o fato.


Contos de Anedotas/Facécias - São narrativas curtas em tom de chacota leve e alegre. A trama é conduzida sob o foco de um herói malandro que troça de ricos e poderosos. Dentre os contos facciosos os do ciclo de Pedro Malasartes, de São Pedro e Jesus e de Bocage são os mais divulgados. Outros contos: A Mulher do Piolho, A Gulosa Disfarçada, O Menino Sabido e o Padre, A Sopa de Pedra, O Homem Que Pôs Um Ovo.


Contos Acumulativos - Também denominados “lengalenga”, são contos nos quais as seqüências narrativas se repetem e se encadeiam com acréscimos e recorrências de alguns elementos, sempre na mesma ordem, até o fim. Por isso são conhecidos como “contos de nunca mais acabar”. Eles têm característica de uma longa parlenda, contada e recontada para divertir as crianças.


Câmara Cascudo registra apenas dois contos cumulativos: O Menino e a Avó Gulosa e O Macaco Perdeu a Banana. Todavia, os pesquisadores da UFBA recolheram muitas versões. Pesquisadores outros encontraram 61 versões de contos desse gênero. No Brasil, os contos acumulativos são, na maioria, oriundos de Portugal. Os elementos locais são apenas acréscimos.
Contos Etiológicos – São contos inventados para explicar ou dar razão a origem de um aspecto, forma, hábito, disposição, propriedade, caráter de qualquer pessoa ou coisa. São exemplos: Porque o Negro é Preto, A Causa da Seca no Ceará, A Maçarapeba ficou com a boca torta por ter zombado de Nossa Senhora; A festa no céu, que explica porque o casco do cágado é todo em pedaços, para só citar esses.


Demônio Logrado - É a reunião de contos ou disputas em versos em que Demônio intervém; perdendo este uma aposta e sendo derrotado: Toca por Pauta, O Afilhado do Diabo, As Perguntas de Dom Lobo, Audiência do Capeta etc.


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Publicado no Recanto das Letras em 05/06/2009

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Credo do Contador

Creio no contador, como memória viva do amor e creio em seu filho, e no filho de seu filho, e no filho de seu filho, porque eles são a estirpe da voz, os criadores da terra e do céu das vozes: voz das vozes.
Creio no contador, concebido nos espelhos da água, nascido humilde, tantas vezes negado, tantas vezes crucificado, porém nunca morto, nunca sepultado, porque sempre ressuscitou dos vivos congregando-os a ser: xamã, fabulista, contador de histórias...

Creio na magia que, na entrada das cavernas, acendeu o primeiro fogo que reuniu como estrelas: o assombro, o tremor, a fé.


Creio no contador que, desde os tempos tribais, a todos antecedeu para alcançar-nos por que é.


Creio em suas mentiras fabulosas que escondem fabulosas certezas, no prodígio de sua invenção que vaticina realidades insuspeitas, e também creio na fantasia das verdades e nas verdades da fantasia, por isso creio nas sete léguas das botas, na serpente que antes foi inofensiva galinha, e no gato único no mundo, aquele gato que ao miar lançava moedas de ouro pela boca.


Creio nos contos de minha mãe, como minha mãe acreditou nos contos de minha avó, como minha avó acreditou nos contos de minha bisavó e recordo a voz que me contava para afastar a enfermidade e o medo, a voz que recordava os conselhos entesourados pela mãe para passá-los ao filho;


— Não te desvies do teu caminho.


— Nunca faças de noite o que possas te envergonhar pela manhã.


Creio no direito da criança escutar contos; e mais, creio no direito das crianças vivas dentro dos adultos de voltar a escutar os contos que povoaram sua infância; e mais, creio nos direitos dos adultos desde sempre e para sempre de escutar contos, outros novos contos.


Creio no gesto que conta, porque em sua mão desnuda, despojadamente desnuda, está o coelho.


Creio no tambor que redobra, porque o que haveria sido do mundo se não tivesse sido inventado o tambor, se a poesia não reinventasse o mundo dentro de nós, se o conto, ao improvisar o mundo, não o reordenasse, se o teatro não desvelasse a cerimônia secreta das máscaras e por isso...


Porque creio, narro oralmente.


Creio que contar é defender a pureza, defender a sabedoria da ingenuidade, defender a força da indagação.


Creio que contar é compartilhar a confiança, compartilhar a simplicidade como transparência da profundidade, compartilhar a linguagem comum da beleza.


Creio que contar É AMOR.


Garzón Céspedes


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Do site http://www.casadocontadordehistorias.org.br/

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Conto: "Viva Deus e ninguém mais"

"Viva Deus e ninguém mais!"


Era uma vez um casal de velhos muito unidos e religiosos. O velho, que era pescador, só falava dizendo um versinho assim:

Viva Deus e ninguém mais,
Quando Deus não quer,
No mundo nada se faz!

Tanto dizia que acabou chegando aos ouvidos do rei, que era orgulhoso por demais. Aborreceu-se muito e mandou chamar o velho pescador. Este, logo subindo a escadaria, e mesmo na presença dele, foi dizendo o versinho:
Viva Deus e ninguém mais,
Quando Deus não quer,
No mundo nada se faz!
Aí é que o rei ficava furioso com aquele atrevimento. Deu ao pescador um anel muito precioso e disse que voltasse quinze dias depois, trazendo a jóia.
O pescador entregou o anel à mulher, recomendando muito e continuou na sua vida ao mar. O rei mandou um criado de confiança comprar o anel. A velha não queria vender, mas o criado tanto dinheiro ofereceu que a velha ficou tonta e vendeu o anel. O criado entregou o anel ao rei e este, por segurança, atirou-o ao mar.
Quando o velho voltou e achou tanto dinheiro em casa e soube da verdade, botou as mãos na cabeça, vendo que estava morto. Não deixou de ir pescar na madrugada e, logo no primeiro lanço de tarrafa, trouxe um peixe grande e gordo que ele separou para sua ceia. Voltando, vendeu os peixes e mandou preparar o tal peixe.
Assim que a velha abriu a barriga do peixe encontrou o anel. Levou-o ao marido que não tinha deixado de dizer o seu "Viva Deus e ninguém mais..."
No dia marcado o pescador subiu as escadas do palácio e quando o rei pediu a jóia, o velho a entregou, limpinha como a tinha recebido. O rei ficou assombrado e disse:
- "O senhor tem toda a razão. Viva Deus e ninguém mais, quando Deus não quer, no mundo nada se faz".
Deu-lhe muito dinheiro e despediu-o.
O velho voltou e morreu com mais de cem anos, sempre cantando o verso:

Viva Deus e ninguém mais,
Quando Deus não quer,
No mundo nada se faz!
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Contado por Clotilde Caridade Gomes – Natal/RN, registrado por Luís da Câmara Cascudo, em "Contos tradicionais do Brasil".

Ouça a estória "O galo rouco e o rato esperto", da Cigana Contadora de Estórias!

Quer saber quando tem estória nova no blog?

Apresentações de contadores de estórias

Palavra Cantada - O rato
Clara Haddad - O coelho e o baobá

Cia Ópera na Mala - A sopa de pedras do Pedro

Cia Ópera na Mala - Pedro Malazartes e o pássaro raro

Eventos & Cursos

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