sexta-feira, 12 de junho de 2009

Estudo: Tipos de contos populares - Ricardo Sérgio

Os contos do folclore brasileiro são um tesouro para o contador de estórias

Ricardo Sérgio

Existem várias classificações de contos populares. A mais conhecida é a de Aarne-Thompson (The types of the folktale), que distribui os contos populares em três grandes grupos:


1º. Contos de animais (1 a 299 tipos);
2º. Contos comuns (300-1199);
3º. Facécias/anedotas (1200-1999).


No entanto, vamos adotar a classificação efetuada pelo folclorista Luís da Câmara Cascudo, em seu Dicionário do Folclore Brasileiro, por ter o mérito de ater-se a aspectos intrínsecos da construção narrativa do conto popular e de buscar vincular as narrativas brasileiras a uma codificação internacional do imaginário humano. A classificação de Luís Câmara Cascudo é a seguinte:


Contos de Encantamento – Também é conhecido como conto maravilhoso ou conto de fadas. É um tipo de conto ambientado no sobrenatural e maravilhoso, onde príncipes, princesas enfrentam monstros e bruxas e conseguem superar as adversidades graças à intervenção de ajudantes mágicos. A história quase sempre tem um final feliz. Entre os contos de encantamentos há muitos que estão espalhados por todo o Brasil, mas que receberam um colorido especial de cada região, como Bicho de Palha (Gata Borralheira); sendo o conto que apresenta o maior número de versões (143) e o registro de três variantes (a mais tradicional é a que o ajudante mágico é uma vaca com a varinha de condão). Outros exemplos: A Princesa Jia, O Marido da Mãe d'água, O Filho da Burra, O Peixinho Encantado, Os Sete Sapatos da Princesa, A Filha do Diabo, Contos da Carochinha, Joãozinho e Maria, Branca de Neve, A Bela Adormecida, entre outros.


Contos de Animais - São contos em que os animais são dotados de qualidades, defeitos e sentimentos humanos. A esperteza e a astúcia são as únicas armas de que um animal, sempre de porte pequeno, dispõe para enfrentar seu inimigo mais forte. Estruturalmente assemelham-se à fábula, pois há na história uma intenção moralizante. Os tipos mais representativos integram os ciclos do macaco e a onça, do coelho e o sapo ou o cágado, da raposa e a onça. São exemplos: O gavião e o urubu, A raposa e as uvas, O pulo do gato, etc.


Contos de Exemplo - São aqueles estruturados pelo antagonismo Bem versus Mal, em que um delito contra uma norma de caráter social conduz o desfecho da intriga para uma lição de moral. Recorrendo à sagacidade para inverter a situação de desvantagem, o réu, transforma-se em herói. São exemplos: O Vaqueiro que não Mentia, O Compadre Rico e o Pobre, Os Dois Corcundas, A Menina dos Brincos de Ouro, entre outros.


Contos Religiosos - Caracterizam-se pela presença ou interferência divina. Mostram ao mesmo tempo a fé, a crendice, a superstição e o sentimento místico de nossa gente, numa singela aliança como se pode observar em Jesus e os lavradores, A Moça e a Vela, Os Rins da Ovelha, Como a Aranha Salvou o Menino Jesus, A Mãe de São Pedro etc.


Causos - São histórias cobertas de fantasia, nas quais se misturam elementos míticos e lendários, contadas, sobretudo por pescadores, tropeiros, vaqueiros, peões de fazenda e caçadores (extraordinários contadores de causos). Geralmente, o contador é o personagem principal, outras vezes, porém, apenas assistiu o fato.


Contos de Anedotas/Facécias - São narrativas curtas em tom de chacota leve e alegre. A trama é conduzida sob o foco de um herói malandro que troça de ricos e poderosos. Dentre os contos facciosos os do ciclo de Pedro Malasartes, de São Pedro e Jesus e de Bocage são os mais divulgados. Outros contos: A Mulher do Piolho, A Gulosa Disfarçada, O Menino Sabido e o Padre, A Sopa de Pedra, O Homem Que Pôs Um Ovo.


Contos Acumulativos - Também denominados “lengalenga”, são contos nos quais as seqüências narrativas se repetem e se encadeiam com acréscimos e recorrências de alguns elementos, sempre na mesma ordem, até o fim. Por isso são conhecidos como “contos de nunca mais acabar”. Eles têm característica de uma longa parlenda, contada e recontada para divertir as crianças.


Câmara Cascudo registra apenas dois contos cumulativos: O Menino e a Avó Gulosa e O Macaco Perdeu a Banana. Todavia, os pesquisadores da UFBA recolheram muitas versões. Pesquisadores outros encontraram 61 versões de contos desse gênero. No Brasil, os contos acumulativos são, na maioria, oriundos de Portugal. Os elementos locais são apenas acréscimos.
Contos Etiológicos – São contos inventados para explicar ou dar razão a origem de um aspecto, forma, hábito, disposição, propriedade, caráter de qualquer pessoa ou coisa. São exemplos: Porque o Negro é Preto, A Causa da Seca no Ceará, A Maçarapeba ficou com a boca torta por ter zombado de Nossa Senhora; A festa no céu, que explica porque o casco do cágado é todo em pedaços, para só citar esses.


Demônio Logrado - É a reunião de contos ou disputas em versos em que Demônio intervém; perdendo este uma aposta e sendo derrotado: Toca por Pauta, O Afilhado do Diabo, As Perguntas de Dom Lobo, Audiência do Capeta etc.


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Publicado no Recanto das Letras em 05/06/2009

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Credo do Contador

Creio no contador, como memória viva do amor e creio em seu filho, e no filho de seu filho, e no filho de seu filho, porque eles são a estirpe da voz, os criadores da terra e do céu das vozes: voz das vozes.
Creio no contador, concebido nos espelhos da água, nascido humilde, tantas vezes negado, tantas vezes crucificado, porém nunca morto, nunca sepultado, porque sempre ressuscitou dos vivos congregando-os a ser: xamã, fabulista, contador de histórias...

Creio na magia que, na entrada das cavernas, acendeu o primeiro fogo que reuniu como estrelas: o assombro, o tremor, a fé.


Creio no contador que, desde os tempos tribais, a todos antecedeu para alcançar-nos por que é.


Creio em suas mentiras fabulosas que escondem fabulosas certezas, no prodígio de sua invenção que vaticina realidades insuspeitas, e também creio na fantasia das verdades e nas verdades da fantasia, por isso creio nas sete léguas das botas, na serpente que antes foi inofensiva galinha, e no gato único no mundo, aquele gato que ao miar lançava moedas de ouro pela boca.


Creio nos contos de minha mãe, como minha mãe acreditou nos contos de minha avó, como minha avó acreditou nos contos de minha bisavó e recordo a voz que me contava para afastar a enfermidade e o medo, a voz que recordava os conselhos entesourados pela mãe para passá-los ao filho;


— Não te desvies do teu caminho.


— Nunca faças de noite o que possas te envergonhar pela manhã.


Creio no direito da criança escutar contos; e mais, creio no direito das crianças vivas dentro dos adultos de voltar a escutar os contos que povoaram sua infância; e mais, creio nos direitos dos adultos desde sempre e para sempre de escutar contos, outros novos contos.


Creio no gesto que conta, porque em sua mão desnuda, despojadamente desnuda, está o coelho.


Creio no tambor que redobra, porque o que haveria sido do mundo se não tivesse sido inventado o tambor, se a poesia não reinventasse o mundo dentro de nós, se o conto, ao improvisar o mundo, não o reordenasse, se o teatro não desvelasse a cerimônia secreta das máscaras e por isso...


Porque creio, narro oralmente.


Creio que contar é defender a pureza, defender a sabedoria da ingenuidade, defender a força da indagação.


Creio que contar é compartilhar a confiança, compartilhar a simplicidade como transparência da profundidade, compartilhar a linguagem comum da beleza.


Creio que contar É AMOR.


Garzón Céspedes


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Do site http://www.casadocontadordehistorias.org.br/

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Conto: "Viva Deus e ninguém mais"

"Viva Deus e ninguém mais!"


Era uma vez um casal de velhos muito unidos e religiosos. O velho, que era pescador, só falava dizendo um versinho assim:

Viva Deus e ninguém mais,
Quando Deus não quer,
No mundo nada se faz!

Tanto dizia que acabou chegando aos ouvidos do rei, que era orgulhoso por demais. Aborreceu-se muito e mandou chamar o velho pescador. Este, logo subindo a escadaria, e mesmo na presença dele, foi dizendo o versinho:
Viva Deus e ninguém mais,
Quando Deus não quer,
No mundo nada se faz!
Aí é que o rei ficava furioso com aquele atrevimento. Deu ao pescador um anel muito precioso e disse que voltasse quinze dias depois, trazendo a jóia.
O pescador entregou o anel à mulher, recomendando muito e continuou na sua vida ao mar. O rei mandou um criado de confiança comprar o anel. A velha não queria vender, mas o criado tanto dinheiro ofereceu que a velha ficou tonta e vendeu o anel. O criado entregou o anel ao rei e este, por segurança, atirou-o ao mar.
Quando o velho voltou e achou tanto dinheiro em casa e soube da verdade, botou as mãos na cabeça, vendo que estava morto. Não deixou de ir pescar na madrugada e, logo no primeiro lanço de tarrafa, trouxe um peixe grande e gordo que ele separou para sua ceia. Voltando, vendeu os peixes e mandou preparar o tal peixe.
Assim que a velha abriu a barriga do peixe encontrou o anel. Levou-o ao marido que não tinha deixado de dizer o seu "Viva Deus e ninguém mais..."
No dia marcado o pescador subiu as escadas do palácio e quando o rei pediu a jóia, o velho a entregou, limpinha como a tinha recebido. O rei ficou assombrado e disse:
- "O senhor tem toda a razão. Viva Deus e ninguém mais, quando Deus não quer, no mundo nada se faz".
Deu-lhe muito dinheiro e despediu-o.
O velho voltou e morreu com mais de cem anos, sempre cantando o verso:

Viva Deus e ninguém mais,
Quando Deus não quer,
No mundo nada se faz!
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Contado por Clotilde Caridade Gomes – Natal/RN, registrado por Luís da Câmara Cascudo, em "Contos tradicionais do Brasil".

terça-feira, 9 de junho de 2009

Qualidades do contador de estórias

The Storyteller - pintura em óleo de Tereza

O mestre Malba Tahan, no Capítulo III de "A arte de ler e contar histórias", enumera as qualidades que um contador de estórias deve ter:

1º) Sentir, ou melhor, viver a história; ter a expressão viva, ardente, sugestiva
2º) Narrar com naturalidade, sem afetação
3º) Conhecer, com absoluta segurança, o enredo
4º) Dominar o auditório
5º) Contar dramaticamente (sem caráter teatral exagerado)
6º) Falar com voz adequada, clara e agradável
7º) Evitar ou corrigir defeitos da dicção
8º) Ser comedido nos gestos
9º) Emocionar-se com a própria narrativa

Vamos olhar essas características, uma a uma:

1) Sentir a história
Como se dá isso? Quando você lê uma estória, você se permite viajar nas palavras, imaginar as cenas, consegue sentir os aromas, o calor do sol, a brisa? Se consegue, viva! Já é um passo adiante. Mas se tem dificuldade nesse particular, terá que aprender uma técnica chamada "visualização". É muito usada em meditação e nos ajuda a sair da realidade, soltar o espírito, entrar em contato com o nosso íntimo. Faça um pequeno exercício de imaginação. Pegue uma imagem de uma fruta, por exemplo. Examine-a bem, veja a beleza e a vivacidade de suas cores. Imagine a sensação dela em sua mão. Permita-se aspirar seu delicado aroma. Imagine-se dando-lhe uma dentada, sentindo seu suco doce em sua boca. Faça esse exercício tantas vezes quantas forem necessárias para tornar a imagem o mais vívida possível. Mude de imagem. Pegue uma cena, um quadro. Observe os elementos, veja as pessoas pintadas nele. O que será que estão pensando, conversando? Quem são? Como é a vida delas? Viaje no que vê. Esses exercícios são ótimos para aprendermos a soltar as amarras do concreto, do cotidiano, e embarcar no abstrato. O contador de estórias precisa "ver" a cena que está narrando, senão como vai conseguir passá-la com a emoção certa para seu público?

2) Narrar com naturalidade
Menos é mais, já se disse muito isso. O exagero nunca é bom. Como você já deve ter desenvolvido a habilidade de "ver" e "sentir" sua estória, já consegue saber que sentimentos permeiam cada cena. Sinta o que está acontecendo, passe para sua audiência, mas sem afetação, sem teatralidade em demasia para não soar canastrice, caricato. Outra, traga a estória para a linguagem do seu ouvinte. Nada de estilo rebuscado, discursos empolados, retórica, etc etc. Só vai ficar chato e você vai soar esnobe, metido, enjoado. Lembre-se: para contar bem uma estória, deve ser estabelecida uma boa conexão com o seu ouvinte. Palavras difíceis, floreios e latim são ótimos para aborrecidos compêndios científicos e para entediar plateias. Discurso simples, narrativa clara, em linguagem correta, sem rebuscados, nem palavras de baixo calão ou gírias vulgares. Contar estórias também é educar.

3) Conhecer o enredo
Básico. Antes de contar sua estória, você tem que conhecê-la muito bem. Claro, não precisa decorar, tem que aprender. Ver as linhas principais do enredo, o que chamamos de "esqueleto". É interessante, no entanto, decorar falas bem estruturadas, espirituosas, que dão o charme à estória. Como essa oração que um pescador fazia, no conto "Viva Deus e ninguém mais", recolhido por Câmara Cascudo (que vou colocar em outra postagem):

Viva Deus e ninguém mais!
Quando Deus não quer,
No mundo nada se faz!

De resto, aprenda bem sua estória. Ensaie em frente ao espelho, grave num gravador. Conte para si mesmo, depois para um amigo. Nada mais embaraçoso do que se deparar com aquele terrível "branco" bem na frente de uma enorme plateia... A estória tem que fluir. Hesitou, dançou. Por isso, não recomendo decorar a estória, mas aprendê-la. Ademais, quem conhece a estória é você, que a está contando. Se esquecer um detalhezinho, apenas você vai saber. Por isso, nada de pânico se se vir em uma situação dessa. Não pare, continue a contar sua estória. Lembre-se: "o show deve continuar"!

4)Dominar o auditório
Primeiro, verifique o local onde vai se apresentar. Veja se não há elementos que possam distrair sua plateia. Peça, se for o caso, que desliguem os celulares. Assegure-se que nada tirará o foco de sua apresentação, mas prepare-se também para imprevistos, especialmente se o seu público são crianças... Nesse caso, sugiro manter contato visual com as que puder, dirigindo-se a elas, enquanto desenvolve sua narrativa. Envolva-as na sua estória, seduza-as com as suas palavras. Se uma lá no fundo começar a conversar, não pare de contar a estória. Se parar, cortará a magia e sua estória estará estragada. Ignore o tagarela. Se sua estória e o seu desempenho forem bons o bastante, a audiência estará com você.

5) Contar dramaticamente
Uma narrativa linear é maçante, entediante e desinteressante. Conte sua estória com a emoção certa, pinte a cena da forma mais vívida possível para que o seu público viaje com você, entre na estória, prenda a respiração nos momentos de tensão ou suspense. Guie-os nesse passeio. Mas, como disse antes, nada de exageros ou você pode perder sua estória. Observe o trabalho dos bons atores, principalmente os de teatro. Veja como se portam em cena.

6) Falar com voz adequada
Respire, nada de pânico para sua voz não soar gasguita ou estridente, o tempo é todo seu. Conte sua estória sem se apressar, delicie-se em cada passagem. Fale pausadamente, claramente, inspirando e exalando normalmente. O Prof. Silveira Bueno uma vez disse que "Uma fala correta e expressiva é, só por si mesma, agradável, representando, de antemão, dois terços do êxito a alcançar". Faça exercícios vocais, pegue um texto e pronuncie pausadamente cada sílaba, enunciando as vogais e as consoantes bem explicadas. Falar direito é importante para a compreensão da narrativa.
Em relação à altura da voz, é necessário saber o tamanho do local onde irá acontecer sua apresentação, pois é possível que você precise lançar mão de microfone. Prefira os de lapela ou aquele portátil, que se usa tanto em cursinhos. É preciso observar a acústica do lugar pois é um elemento muito importante no sucesso de sua apresentação. Nunca tente competir com os barulhos do lugar, senão você irá prejudicar sua voz, que é seu instrumento precioso de trabalho. Por isso, dê preferência a se apresentar em lugares calmos, longe de balbúrdia, telefones tocando, televisores ligados, etc etc.

7) Evitar ou corrigir defeitos da dicção
Sua voz é seu instrumento, já disse antes. Trate-a com carinho e cuidado. Faça exercícios vocais, aprenda a pronunciar todas as sílabas das palavras, sem "comer" nenhuma vogal ou consoante. Fale "explicadinho". Não engula ou junte palavras: vambora! Como disse antes, o contador de estórias é também um professor. Não ensine errado.

8) Ser comedido nos gestos
O gesto é um recurso dramático. Usado inapropriada ou exageradamente fica caricato, vazio. Uma contação monótona, sem graça, oca, tem um efeito hipnótico sobre a plateia. Logo, o seu ouvinte vai perder o foco, bocejar, olhar o relógio, doido para ir embora. Portanto, saiba manter sua atenção, movimentando-se pelo espaço onde está se apresentando. Preencha o espaço, use seus olhos, seus ombros, seus braços, suas mãos. Nada de enfiá-las no bolso, cruzá-las ou colocá-nas costas. Elas são preciosas auxiliares do seu trabalho. Por outro lado, cuidado com a síndrome da mão nervosa, que passa pelo cabelo, enxuga um suor imaginário, coça uma orelha, etc. Fica muito feio e desvia a atenção. Todos os seus movimentos devem ter um propósito dramático. O exagero leva ao ridículo.

9) Emocionar-se com a própria narrativa
Se você consegue se emocionar, imagina quem lhe escuta? Entre na estória, mergulhe no drama, ria com os personagens, sofra com eles. Enxergue-os como reais, irmãos, primos, tios ou vizinhos seus. Só assim você vai conseguir passar a emoção da sua estória, cativar seus ouvintes, levando-os, junto com você, nessa viagem pela imaginação. Se você mesmo se emociona com sua estória, parabéns! Encontrou o caminho certo.

Pronto. Essas são algumas dicas para ajudar no trabalho como contador de estórias. Aos poucos, vou publicando aqui estudos que, tenho certeza, vão ser muito úteis para quem se interessa pelo assunto.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Conto: "O velho pai"

Num banco de jardim da casa estão sentados um homem idoso e um jovem. O jovem lê o jornal, com atenção. O idoso parece imerso em algo indefinível. Então, um pequeno pássaro pousa no arbusto próximo e canta. O homem parece despertar e indaga:
- O que é aquilo? – apontando com o dedo na direção da pequena ave.
O rapaz alça os olhos e diz, secamente:
- É um pardal.
A avezita saltita de um galho a outro e a pergunta se repete:
- O que é aquilo?
A resposta agora não é somente seca, mas também denota enfado:
- Já disse, é um pardal!
O pássaro voa do arbusto para a árvore, continuando na sua dança matinal.
- O que é aquilo? – soa de novo.
Agora, o rapaz se irrita e quase grita:
- É um pardal!
A ave, feliz, prossegue no seu bailar. Alça voo e parece desaparecer. Poucos segundos passados e retorna ao chão, bicando aqui, saltitando acolá.
O homem leva a mão aos olhos, como se desejasse ajustar a visão embaçada e, com natural curiosidade, pergunta:
- O que é aquilo?
O filho responde, em altos brados:
- É um pardal! Já disse: um pardal.
E soletra, aos gritos:
- P - a – r - d – a – l. Você não entende?
O homem se ergue, sobe os degraus, adentra a casa, lento e decidido. Pouco depois, retorna com um velho caderno nas mãos. A capa é bonita, denotando que foi guardado com cuidado, como se guardam preciosidades. Abre-o, procura algo, depois o entrega ao rapaz, ainda inquieto e raivoso.
- Leia! – ele pede.
E acrescenta:
- Em voz alta!
Há surpresa no moço, que lê pausada e cada vez com maior emoção:
- Hoje, meu filho caçula, que há uns dias completou 3 anos, estava sentado comigo, no parque, quando um pardal pousou na nossa frente. Meu filho me perguntou 21 vezes o que era aquilo e eu respondi em todas as 21 vezes que era um pardal. Eu o abracei todas as vezes que ele repetiu a pergunta, vez após vez, sem ficar bravo, sentindo afeição pelo meu inocente garotinho.
Então, o filho olha o pai. Há culpa e dor em sua alma.
Abraça-o, lacrimoso, beija-lhe a face, emoldurada pela barba por fazer.
Estreita-o, puxando-o para perto de si. E assim ficam: um coração ouvindo outro coração.
- Perdão, papai...

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Do site Momento Espírita

domingo, 7 de junho de 2009

Um pouco sobre os contos de fadas

Não há, na realidade, algo que identifique a literatura infantil como tal, a não ser justamente a faixa etária à qual é direcionada. Aliás, nem isso serviria de referência, pois não são só as crianças que lêem esse gênero.
Segundo Roger Sale, da Enciclopédia Grolier, a literatura infantil surgiu com o advento da classe média, da burguesia mais atuante, do século XVII. Antes disso, as crianças eram vistas como adultos em miniatura - vide as roupas que costumavam usar - com atribuições semelhantes aos dos adultos. Portanto, sua educação, costumes, entretenimentos e papel na sociedade não diferiam muito da dos pais.
Não havia esse conceito que temos hoje de que são seres delicados, que precisam de uma educação especial, baseada em conceitos pedagógicos, etc, etc. Naquela época, crianças eram apenas isso: adultos em menor escala. E como tal, seus divertimentos eram os mesmos de todos. Música, canto, esportes, estórias. O que os adultos faziam, as crianças também podiam fazer.
Os contos que hoje chamamos de fadas, na realidade, não foram imaginados para crianças. Eram contados para adultos, tanto em elegantes salões quanto nas rodas suburbanas. E as estórias nada tinham de inocente; elementos como bárbaros assassinatos, adultério, incesto, pactos com demônios não seriam particularmente indicados para ouvidos infantis, pelo menos não do modo como hoje encaramos essas doces criaturinhas...
As Fábulas, publicadas entre 1668-94, de Jean de la Fontaine, por exemplo, eram mais anedotas, com as quais ele costumava deliciar os freqüentadores dos mais célebres salões parisienses, como o do ministro do Tesouro de Luís XIV, Nicolas Fouquet, onde as falhas de caráter, vícios e maldades humanas eram transportadas para personagens do reino animal, do que precisamente contos direcionados ao público infantil.
Aliás, muitas das fábulas de La Fontaine foram inspiradas no trabalho de Esopo, um escravo nascido na Frígia em 620 AC, célebre pelos contos bem-humorados, sobre valores como honestidade, trabalho e lealdade, de narrativa simples e que sempre deixavam uma moral – a “moral da estória”. Entre os contos mais famosos dele estão "A Raposa e as Uvas", "A Lebre e a Tartaruga" e "A Cigarra e a Formiga".
A tradição dos contos narrados por babás ou carinhosas avozinhas, no entanto, só surgiu em 1697, com a publicação dos Contos dos Tempos Passados, do francês Charles Perrault, cujo subtítulo Contos da Mamãe Gansa se tornou mais conhecido entre nós. Este era uma coletânea de oito contos que ganhou mais três numa edição posterior. Os contos que faziam parte desse que é considerado o primeiro livro de contos de fadas foram: A Bela Adormecida no Bosque, Chapeuzinho Vermelho, O Barba-Azul, O Gato de Botas, As Fadas, A Gata Borralheira (Cinderela), Rique, o Topetudo, O Pequeno Polegar. Os contos que foram incluídos depois foram: Pele de Asno, Os Desejos Ridículos e Grisélidis.
Muitas das estórias de Perrault, no entanto, já eram conhecidas mas sob outras versões. Algumas já haviam até figurado em outras coletâneas como a dos italianos Giovanni Straparola e a de Giambattista Basile. E isso é quase uma regra: dificilmente se consegue identificar o verdadeiro autor de cada estória...
A publicação dos contos, antes transmitidos de forma oral, foi um dos grandes responsáveis pelo declínio dessa arte. Todos podiam lê-los, de modo que o interesse em contá-los e em ouvi-los foi pouco a pouco diminuindo. Hoje, por exemplo, é difícil termos o hábito de contar estorinhas para nossas crianças. O máximo que fazemos - quando o fazemos - é ler para elas. Parece que ninguém mais tem tempo para isso, infelizmente.
O primeiro livro realmente direcionado a elas foi uma coletânea de cantigas infantis, publicado por Mary Cooper em 1744, cujo sugestivo título era Para Todos os Pequenos Senhores e Senhoritas; para ser cantado para eles por suas babás até que possam cantar sozinhos.
A segunda coletânea foi Melodia de Mamãe Gansa, atribuída ao livreiro John Newbery, em 1760, considerado o primeiro a descobrir e explorar o mercado de livros para crianças. Os contos deste trabalho nada mais eram do que estórias de livros para adultos encurtadas, adaptadas, ilustradas e postas num livro menor e menos pesado para que as crianças pudessem manuseá-lo sem dificuldade.
Os próximos cem anos não produziram nada de muito significativo exceto a coletânea dos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm: Contos de Fadas para Crianças e Adultos, publicada em alemão entre 1812 e 1815 e traduzida para o inglês em 1823. Os contos desse livro, muitos de escritores anteriores como Perrault, tinham o propósito de ensinar valores morais e acabaram por se tornar os mais populares em todo o mundo.
Em 1835 foi a vez do dinamarquês Hans Christian Andersen maravilhar o mundo com o seu Contos para Crianças. Entre os contos que figuravam nessa obra estavam:
O Pequeno Claus e o Grande Claus, A Princesa e a Ervilha (Uma Verdadeira Princesa) e As Flores da Pequena Ida.
Mais tarde, Andersen publicou vários outros contos como: As Roupas Novas do Imperador, O Patinho Feio , A Rainha da Neve, O Rouxinol, Sapatinhos Vermelhos, A Pequena Vendedora de Fósforos, O Soldadinho de Chumbo e A Pequena Sereia.
Andersen é considerado o precursor da literatura infantil mundial. Tanto que a data do seu nascimento, 2 de abril, tornou-se o Dia Internacional do Livro Infanto-Juvenil e a medalha Hans Christian Andersen é concedida aos melhores da categoria pelo Conselho Internacional de Livros para Jovens - a IBBY. A primeira brasileira a ganhar essa medalha foi Lygia Bojunga Nunes, em 1982, premiada pelo conjunto de sua obra.
Andrew Lang publicou, em 1889, The Blue Fairy Book, mais uma coletânea de contos de fadas, só que devidamente "purificados". Portanto, quem for ler qualquer um dos contos de fadas dos vários livros de Lang vai perceber que houve ali uma discreta censura vitoriana. Mas os contos, em suas versões menos inocentes, podem ser conferidos nos trabalhos dos Grimm, por exemplo.
Lang publicou ainda The Yellow Fairy Book, The Red Fairy Book, The Green Fairy Book, The Violet Fairy Book e The Crimson Fairy Book.
E no Brasil?
No Brasil, o maior autor infantil é, sem dúvida alguma, Monteiro Lobato, mas antes dele, já tivéramos bons trabalhos na nossa língua como a comédia infantil O Gorro de Papai, escrita em 1880 pelo conde Afonso Celso de Assis Figueiredo Júnior, filho do visconde de Ouro Preto, que foi inclusive um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.
Monteiro Lobato é considerado o pai da literatura infantil brasileira moderna, com a publicação na Revista do Brasil, em 1920, dos primeiros fragmentos da estória de Lúcia ou a Menina do Narizinho Arrebitado. O primeiro volume sobra as aventuras de Narizinho (como a conhecemos hoje) foi publicado, na íntegra, nesse mesmo ano pela Editora Monteiro Lobato.
Entre 1918 e 1944, Lobato publicou 30 livros, a grande maioria dedicada às crianças e jovens.
Os brilhantes personagens de Monteiro Lobato, como a boneca Emília, o visconde de Sabugosa, a tia Nastácia, a dona Benta, o Pedrinho, Pedro Malasartes, a Cuca, o Saci-Pererê, foram levados para a televisão em fins da década de 70/início de 80, no seriado Sítio do Picapau Amarelo, apresentado pela TV Globo.
Depois de Lobato, vieram muitos outros cujos trabalhos que podem ser conferidos em séries como a Vaga-Lume, da Editora Moderna, autores maravilhosos como Tatiana Belinky, Ruth Rocha, Ana Maria Machado e tantos outros...
Pena que os pais não têm mais tempo nem disposição para contar estorinhas e os livrinhos permanecem empoeirados, jogados num canto qualquer, esperando para um dia, mais uma vez, trazerem sorrisos sonhadores em rostinhos infantis...

E é aí que entramos nós, os contadores de estórias! Percebe a importância do que fazemos? Resgatamos sonhos, moldamos espíritos e ofertamos esperança. E isso não é pouco, principalmente num século tão pesado, cheio de tristezas e decepções, onde há pouco espaço para a ilusão. Mas, como disse o poeta, sonhar é preciso!
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Fontes:
1. Dicionário Crítico da Literatura Infantil e Juvenil Brasileira - Nelly Novaes Coelho - Ed USP
2. Enciclopédia Grolier
3. De Tudo um Pouco - homepage de Cristiane Madanêlo, mestra em literatura brasileira e especialista em literatura infantil e juvenil.

Imagens:
Internet, créditos desconhecidos

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Conto: "O macaco juiz"

Dois gatos, um branco e um malhado, depois de muita manha e trabalho, conseguiram roubar um belo queijo do reino de uma despensa e, uma vez postos a salvo, trataram de dividir a presa entre si.

A partilha deu lugar a um sério desentendimento entre ambos pois cada um queria o maior pedaço para si. O gato branco, não querendo ser roubado, propôs logo que o queijo - e a pendenga - fosse levado à presença de um macaco conhecido por toda a bicharada como justo e sábio.

Partiram ambos e, chegando à presença do juiz, o gato branco disse:

- Amigo Macaco, reconhecendo sua justiça e finura, propus ao meu amigo malhado que você fosse o juiz na questão da partilha deste queijo.

O gato malhado ajuntou:

- Aceitei logo e já digo, de antemão, que qualquer que seja a sua decisão, sábio amigo, eu irei aceitá-la, tal é a confiança que deposito em sua sabedoria.

- Bem, - disse o macaco, com ar sério - aceito a nobre missão, que me parece de fácil solução.

Dizendo isto, sentou-se diante de uma pequena banca, onde havia uma balança, e, tomando uma faca, partiu o queijo ao meio. Colocou cada parte do queijo em um do pratos da balança e viu que a da direita pesava mais do que a esquerda.

Pegando a parte mais pesada, deu-lhe uma dentada, tirando um bom naco para ver se assim equilibrava os pedaços. Porém, tal não aconteceu: o da esquerda agora é que ficou mais pesado. O macaco juiz não teve dúvida. Pegou o pedaço da esquerda e também aplicou-lhe uma boa dentada. Colocando os pedaços na balança, viu que ainda não estavam iguais e ele não teve remédio a não ser continuar mordendo um e outro até que ficassem com o mesmo peso.

Ao ver que os pedaços estavam diminuindo com uma rapidez espantosa, o gato malhado exclamou:

- Com mil raios e trovões! Se o senhor juiz continuar tentando equilibrar as partes, não vai sobrar mais nada!

- Basta! - exclamou por sua vez o gato branco. - Pode me dar a menor parte, que ficarei satisfeito.

- Ah, isso não! - respondeu o macaco. - Antes de tudo a justiça! Procuro dar a cada um quinhão igual...

E continou tranquilamente tirando um naco de cada um dos pedaços até que, restando apenas dois pedacinhos, mostrou-os aos gatos, dizendo-lhes:

- Isso agora também não vale equiparar! Vou comê-los também, como paga do trabalho que tive no julgamento dessa questão!

Bestinha esse juiz, não? :)

***

Adaptado da versão de Viriato Padilha - Histórias do Arco da Velha

Ouça a estória "O galo rouco e o rato esperto", da Cigana Contadora de Estórias!

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