terça-feira, 9 de junho de 2009

Qualidades do contador de estórias

The Storyteller - pintura em óleo de Tereza

O mestre Malba Tahan, no Capítulo III de "A arte de ler e contar histórias", enumera as qualidades que um contador de estórias deve ter:

1º) Sentir, ou melhor, viver a história; ter a expressão viva, ardente, sugestiva
2º) Narrar com naturalidade, sem afetação
3º) Conhecer, com absoluta segurança, o enredo
4º) Dominar o auditório
5º) Contar dramaticamente (sem caráter teatral exagerado)
6º) Falar com voz adequada, clara e agradável
7º) Evitar ou corrigir defeitos da dicção
8º) Ser comedido nos gestos
9º) Emocionar-se com a própria narrativa

Vamos olhar essas características, uma a uma:

1) Sentir a história
Como se dá isso? Quando você lê uma estória, você se permite viajar nas palavras, imaginar as cenas, consegue sentir os aromas, o calor do sol, a brisa? Se consegue, viva! Já é um passo adiante. Mas se tem dificuldade nesse particular, terá que aprender uma técnica chamada "visualização". É muito usada em meditação e nos ajuda a sair da realidade, soltar o espírito, entrar em contato com o nosso íntimo. Faça um pequeno exercício de imaginação. Pegue uma imagem de uma fruta, por exemplo. Examine-a bem, veja a beleza e a vivacidade de suas cores. Imagine a sensação dela em sua mão. Permita-se aspirar seu delicado aroma. Imagine-se dando-lhe uma dentada, sentindo seu suco doce em sua boca. Faça esse exercício tantas vezes quantas forem necessárias para tornar a imagem o mais vívida possível. Mude de imagem. Pegue uma cena, um quadro. Observe os elementos, veja as pessoas pintadas nele. O que será que estão pensando, conversando? Quem são? Como é a vida delas? Viaje no que vê. Esses exercícios são ótimos para aprendermos a soltar as amarras do concreto, do cotidiano, e embarcar no abstrato. O contador de estórias precisa "ver" a cena que está narrando, senão como vai conseguir passá-la com a emoção certa para seu público?

2) Narrar com naturalidade
Menos é mais, já se disse muito isso. O exagero nunca é bom. Como você já deve ter desenvolvido a habilidade de "ver" e "sentir" sua estória, já consegue saber que sentimentos permeiam cada cena. Sinta o que está acontecendo, passe para sua audiência, mas sem afetação, sem teatralidade em demasia para não soar canastrice, caricato. Outra, traga a estória para a linguagem do seu ouvinte. Nada de estilo rebuscado, discursos empolados, retórica, etc etc. Só vai ficar chato e você vai soar esnobe, metido, enjoado. Lembre-se: para contar bem uma estória, deve ser estabelecida uma boa conexão com o seu ouvinte. Palavras difíceis, floreios e latim são ótimos para aborrecidos compêndios científicos e para entediar plateias. Discurso simples, narrativa clara, em linguagem correta, sem rebuscados, nem palavras de baixo calão ou gírias vulgares. Contar estórias também é educar.

3) Conhecer o enredo
Básico. Antes de contar sua estória, você tem que conhecê-la muito bem. Claro, não precisa decorar, tem que aprender. Ver as linhas principais do enredo, o que chamamos de "esqueleto". É interessante, no entanto, decorar falas bem estruturadas, espirituosas, que dão o charme à estória. Como essa oração que um pescador fazia, no conto "Viva Deus e ninguém mais", recolhido por Câmara Cascudo (que vou colocar em outra postagem):

Viva Deus e ninguém mais!
Quando Deus não quer,
No mundo nada se faz!

De resto, aprenda bem sua estória. Ensaie em frente ao espelho, grave num gravador. Conte para si mesmo, depois para um amigo. Nada mais embaraçoso do que se deparar com aquele terrível "branco" bem na frente de uma enorme plateia... A estória tem que fluir. Hesitou, dançou. Por isso, não recomendo decorar a estória, mas aprendê-la. Ademais, quem conhece a estória é você, que a está contando. Se esquecer um detalhezinho, apenas você vai saber. Por isso, nada de pânico se se vir em uma situação dessa. Não pare, continue a contar sua estória. Lembre-se: "o show deve continuar"!

4)Dominar o auditório
Primeiro, verifique o local onde vai se apresentar. Veja se não há elementos que possam distrair sua plateia. Peça, se for o caso, que desliguem os celulares. Assegure-se que nada tirará o foco de sua apresentação, mas prepare-se também para imprevistos, especialmente se o seu público são crianças... Nesse caso, sugiro manter contato visual com as que puder, dirigindo-se a elas, enquanto desenvolve sua narrativa. Envolva-as na sua estória, seduza-as com as suas palavras. Se uma lá no fundo começar a conversar, não pare de contar a estória. Se parar, cortará a magia e sua estória estará estragada. Ignore o tagarela. Se sua estória e o seu desempenho forem bons o bastante, a audiência estará com você.

5) Contar dramaticamente
Uma narrativa linear é maçante, entediante e desinteressante. Conte sua estória com a emoção certa, pinte a cena da forma mais vívida possível para que o seu público viaje com você, entre na estória, prenda a respiração nos momentos de tensão ou suspense. Guie-os nesse passeio. Mas, como disse antes, nada de exageros ou você pode perder sua estória. Observe o trabalho dos bons atores, principalmente os de teatro. Veja como se portam em cena.

6) Falar com voz adequada
Respire, nada de pânico para sua voz não soar gasguita ou estridente, o tempo é todo seu. Conte sua estória sem se apressar, delicie-se em cada passagem. Fale pausadamente, claramente, inspirando e exalando normalmente. O Prof. Silveira Bueno uma vez disse que "Uma fala correta e expressiva é, só por si mesma, agradável, representando, de antemão, dois terços do êxito a alcançar". Faça exercícios vocais, pegue um texto e pronuncie pausadamente cada sílaba, enunciando as vogais e as consoantes bem explicadas. Falar direito é importante para a compreensão da narrativa.
Em relação à altura da voz, é necessário saber o tamanho do local onde irá acontecer sua apresentação, pois é possível que você precise lançar mão de microfone. Prefira os de lapela ou aquele portátil, que se usa tanto em cursinhos. É preciso observar a acústica do lugar pois é um elemento muito importante no sucesso de sua apresentação. Nunca tente competir com os barulhos do lugar, senão você irá prejudicar sua voz, que é seu instrumento precioso de trabalho. Por isso, dê preferência a se apresentar em lugares calmos, longe de balbúrdia, telefones tocando, televisores ligados, etc etc.

7) Evitar ou corrigir defeitos da dicção
Sua voz é seu instrumento, já disse antes. Trate-a com carinho e cuidado. Faça exercícios vocais, aprenda a pronunciar todas as sílabas das palavras, sem "comer" nenhuma vogal ou consoante. Fale "explicadinho". Não engula ou junte palavras: vambora! Como disse antes, o contador de estórias é também um professor. Não ensine errado.

8) Ser comedido nos gestos
O gesto é um recurso dramático. Usado inapropriada ou exageradamente fica caricato, vazio. Uma contação monótona, sem graça, oca, tem um efeito hipnótico sobre a plateia. Logo, o seu ouvinte vai perder o foco, bocejar, olhar o relógio, doido para ir embora. Portanto, saiba manter sua atenção, movimentando-se pelo espaço onde está se apresentando. Preencha o espaço, use seus olhos, seus ombros, seus braços, suas mãos. Nada de enfiá-las no bolso, cruzá-las ou colocá-nas costas. Elas são preciosas auxiliares do seu trabalho. Por outro lado, cuidado com a síndrome da mão nervosa, que passa pelo cabelo, enxuga um suor imaginário, coça uma orelha, etc. Fica muito feio e desvia a atenção. Todos os seus movimentos devem ter um propósito dramático. O exagero leva ao ridículo.

9) Emocionar-se com a própria narrativa
Se você consegue se emocionar, imagina quem lhe escuta? Entre na estória, mergulhe no drama, ria com os personagens, sofra com eles. Enxergue-os como reais, irmãos, primos, tios ou vizinhos seus. Só assim você vai conseguir passar a emoção da sua estória, cativar seus ouvintes, levando-os, junto com você, nessa viagem pela imaginação. Se você mesmo se emociona com sua estória, parabéns! Encontrou o caminho certo.

Pronto. Essas são algumas dicas para ajudar no trabalho como contador de estórias. Aos poucos, vou publicando aqui estudos que, tenho certeza, vão ser muito úteis para quem se interessa pelo assunto.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Conto: "O velho pai"

Num banco de jardim da casa estão sentados um homem idoso e um jovem. O jovem lê o jornal, com atenção. O idoso parece imerso em algo indefinível. Então, um pequeno pássaro pousa no arbusto próximo e canta. O homem parece despertar e indaga:
- O que é aquilo? – apontando com o dedo na direção da pequena ave.
O rapaz alça os olhos e diz, secamente:
- É um pardal.
A avezita saltita de um galho a outro e a pergunta se repete:
- O que é aquilo?
A resposta agora não é somente seca, mas também denota enfado:
- Já disse, é um pardal!
O pássaro voa do arbusto para a árvore, continuando na sua dança matinal.
- O que é aquilo? – soa de novo.
Agora, o rapaz se irrita e quase grita:
- É um pardal!
A ave, feliz, prossegue no seu bailar. Alça voo e parece desaparecer. Poucos segundos passados e retorna ao chão, bicando aqui, saltitando acolá.
O homem leva a mão aos olhos, como se desejasse ajustar a visão embaçada e, com natural curiosidade, pergunta:
- O que é aquilo?
O filho responde, em altos brados:
- É um pardal! Já disse: um pardal.
E soletra, aos gritos:
- P - a – r - d – a – l. Você não entende?
O homem se ergue, sobe os degraus, adentra a casa, lento e decidido. Pouco depois, retorna com um velho caderno nas mãos. A capa é bonita, denotando que foi guardado com cuidado, como se guardam preciosidades. Abre-o, procura algo, depois o entrega ao rapaz, ainda inquieto e raivoso.
- Leia! – ele pede.
E acrescenta:
- Em voz alta!
Há surpresa no moço, que lê pausada e cada vez com maior emoção:
- Hoje, meu filho caçula, que há uns dias completou 3 anos, estava sentado comigo, no parque, quando um pardal pousou na nossa frente. Meu filho me perguntou 21 vezes o que era aquilo e eu respondi em todas as 21 vezes que era um pardal. Eu o abracei todas as vezes que ele repetiu a pergunta, vez após vez, sem ficar bravo, sentindo afeição pelo meu inocente garotinho.
Então, o filho olha o pai. Há culpa e dor em sua alma.
Abraça-o, lacrimoso, beija-lhe a face, emoldurada pela barba por fazer.
Estreita-o, puxando-o para perto de si. E assim ficam: um coração ouvindo outro coração.
- Perdão, papai...

***
Do site Momento Espírita

domingo, 7 de junho de 2009

Um pouco sobre os contos de fadas

Não há, na realidade, algo que identifique a literatura infantil como tal, a não ser justamente a faixa etária à qual é direcionada. Aliás, nem isso serviria de referência, pois não são só as crianças que lêem esse gênero.
Segundo Roger Sale, da Enciclopédia Grolier, a literatura infantil surgiu com o advento da classe média, da burguesia mais atuante, do século XVII. Antes disso, as crianças eram vistas como adultos em miniatura - vide as roupas que costumavam usar - com atribuições semelhantes aos dos adultos. Portanto, sua educação, costumes, entretenimentos e papel na sociedade não diferiam muito da dos pais.
Não havia esse conceito que temos hoje de que são seres delicados, que precisam de uma educação especial, baseada em conceitos pedagógicos, etc, etc. Naquela época, crianças eram apenas isso: adultos em menor escala. E como tal, seus divertimentos eram os mesmos de todos. Música, canto, esportes, estórias. O que os adultos faziam, as crianças também podiam fazer.
Os contos que hoje chamamos de fadas, na realidade, não foram imaginados para crianças. Eram contados para adultos, tanto em elegantes salões quanto nas rodas suburbanas. E as estórias nada tinham de inocente; elementos como bárbaros assassinatos, adultério, incesto, pactos com demônios não seriam particularmente indicados para ouvidos infantis, pelo menos não do modo como hoje encaramos essas doces criaturinhas...
As Fábulas, publicadas entre 1668-94, de Jean de la Fontaine, por exemplo, eram mais anedotas, com as quais ele costumava deliciar os freqüentadores dos mais célebres salões parisienses, como o do ministro do Tesouro de Luís XIV, Nicolas Fouquet, onde as falhas de caráter, vícios e maldades humanas eram transportadas para personagens do reino animal, do que precisamente contos direcionados ao público infantil.
Aliás, muitas das fábulas de La Fontaine foram inspiradas no trabalho de Esopo, um escravo nascido na Frígia em 620 AC, célebre pelos contos bem-humorados, sobre valores como honestidade, trabalho e lealdade, de narrativa simples e que sempre deixavam uma moral – a “moral da estória”. Entre os contos mais famosos dele estão "A Raposa e as Uvas", "A Lebre e a Tartaruga" e "A Cigarra e a Formiga".
A tradição dos contos narrados por babás ou carinhosas avozinhas, no entanto, só surgiu em 1697, com a publicação dos Contos dos Tempos Passados, do francês Charles Perrault, cujo subtítulo Contos da Mamãe Gansa se tornou mais conhecido entre nós. Este era uma coletânea de oito contos que ganhou mais três numa edição posterior. Os contos que faziam parte desse que é considerado o primeiro livro de contos de fadas foram: A Bela Adormecida no Bosque, Chapeuzinho Vermelho, O Barba-Azul, O Gato de Botas, As Fadas, A Gata Borralheira (Cinderela), Rique, o Topetudo, O Pequeno Polegar. Os contos que foram incluídos depois foram: Pele de Asno, Os Desejos Ridículos e Grisélidis.
Muitas das estórias de Perrault, no entanto, já eram conhecidas mas sob outras versões. Algumas já haviam até figurado em outras coletâneas como a dos italianos Giovanni Straparola e a de Giambattista Basile. E isso é quase uma regra: dificilmente se consegue identificar o verdadeiro autor de cada estória...
A publicação dos contos, antes transmitidos de forma oral, foi um dos grandes responsáveis pelo declínio dessa arte. Todos podiam lê-los, de modo que o interesse em contá-los e em ouvi-los foi pouco a pouco diminuindo. Hoje, por exemplo, é difícil termos o hábito de contar estorinhas para nossas crianças. O máximo que fazemos - quando o fazemos - é ler para elas. Parece que ninguém mais tem tempo para isso, infelizmente.
O primeiro livro realmente direcionado a elas foi uma coletânea de cantigas infantis, publicado por Mary Cooper em 1744, cujo sugestivo título era Para Todos os Pequenos Senhores e Senhoritas; para ser cantado para eles por suas babás até que possam cantar sozinhos.
A segunda coletânea foi Melodia de Mamãe Gansa, atribuída ao livreiro John Newbery, em 1760, considerado o primeiro a descobrir e explorar o mercado de livros para crianças. Os contos deste trabalho nada mais eram do que estórias de livros para adultos encurtadas, adaptadas, ilustradas e postas num livro menor e menos pesado para que as crianças pudessem manuseá-lo sem dificuldade.
Os próximos cem anos não produziram nada de muito significativo exceto a coletânea dos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm: Contos de Fadas para Crianças e Adultos, publicada em alemão entre 1812 e 1815 e traduzida para o inglês em 1823. Os contos desse livro, muitos de escritores anteriores como Perrault, tinham o propósito de ensinar valores morais e acabaram por se tornar os mais populares em todo o mundo.
Em 1835 foi a vez do dinamarquês Hans Christian Andersen maravilhar o mundo com o seu Contos para Crianças. Entre os contos que figuravam nessa obra estavam:
O Pequeno Claus e o Grande Claus, A Princesa e a Ervilha (Uma Verdadeira Princesa) e As Flores da Pequena Ida.
Mais tarde, Andersen publicou vários outros contos como: As Roupas Novas do Imperador, O Patinho Feio , A Rainha da Neve, O Rouxinol, Sapatinhos Vermelhos, A Pequena Vendedora de Fósforos, O Soldadinho de Chumbo e A Pequena Sereia.
Andersen é considerado o precursor da literatura infantil mundial. Tanto que a data do seu nascimento, 2 de abril, tornou-se o Dia Internacional do Livro Infanto-Juvenil e a medalha Hans Christian Andersen é concedida aos melhores da categoria pelo Conselho Internacional de Livros para Jovens - a IBBY. A primeira brasileira a ganhar essa medalha foi Lygia Bojunga Nunes, em 1982, premiada pelo conjunto de sua obra.
Andrew Lang publicou, em 1889, The Blue Fairy Book, mais uma coletânea de contos de fadas, só que devidamente "purificados". Portanto, quem for ler qualquer um dos contos de fadas dos vários livros de Lang vai perceber que houve ali uma discreta censura vitoriana. Mas os contos, em suas versões menos inocentes, podem ser conferidos nos trabalhos dos Grimm, por exemplo.
Lang publicou ainda The Yellow Fairy Book, The Red Fairy Book, The Green Fairy Book, The Violet Fairy Book e The Crimson Fairy Book.
E no Brasil?
No Brasil, o maior autor infantil é, sem dúvida alguma, Monteiro Lobato, mas antes dele, já tivéramos bons trabalhos na nossa língua como a comédia infantil O Gorro de Papai, escrita em 1880 pelo conde Afonso Celso de Assis Figueiredo Júnior, filho do visconde de Ouro Preto, que foi inclusive um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.
Monteiro Lobato é considerado o pai da literatura infantil brasileira moderna, com a publicação na Revista do Brasil, em 1920, dos primeiros fragmentos da estória de Lúcia ou a Menina do Narizinho Arrebitado. O primeiro volume sobra as aventuras de Narizinho (como a conhecemos hoje) foi publicado, na íntegra, nesse mesmo ano pela Editora Monteiro Lobato.
Entre 1918 e 1944, Lobato publicou 30 livros, a grande maioria dedicada às crianças e jovens.
Os brilhantes personagens de Monteiro Lobato, como a boneca Emília, o visconde de Sabugosa, a tia Nastácia, a dona Benta, o Pedrinho, Pedro Malasartes, a Cuca, o Saci-Pererê, foram levados para a televisão em fins da década de 70/início de 80, no seriado Sítio do Picapau Amarelo, apresentado pela TV Globo.
Depois de Lobato, vieram muitos outros cujos trabalhos que podem ser conferidos em séries como a Vaga-Lume, da Editora Moderna, autores maravilhosos como Tatiana Belinky, Ruth Rocha, Ana Maria Machado e tantos outros...
Pena que os pais não têm mais tempo nem disposição para contar estorinhas e os livrinhos permanecem empoeirados, jogados num canto qualquer, esperando para um dia, mais uma vez, trazerem sorrisos sonhadores em rostinhos infantis...

E é aí que entramos nós, os contadores de estórias! Percebe a importância do que fazemos? Resgatamos sonhos, moldamos espíritos e ofertamos esperança. E isso não é pouco, principalmente num século tão pesado, cheio de tristezas e decepções, onde há pouco espaço para a ilusão. Mas, como disse o poeta, sonhar é preciso!
***
Fontes:
1. Dicionário Crítico da Literatura Infantil e Juvenil Brasileira - Nelly Novaes Coelho - Ed USP
2. Enciclopédia Grolier
3. De Tudo um Pouco - homepage de Cristiane Madanêlo, mestra em literatura brasileira e especialista em literatura infantil e juvenil.

Imagens:
Internet, créditos desconhecidos

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Conto: "O macaco juiz"

Dois gatos, um branco e um malhado, depois de muita manha e trabalho, conseguiram roubar um belo queijo do reino de uma despensa e, uma vez postos a salvo, trataram de dividir a presa entre si.

A partilha deu lugar a um sério desentendimento entre ambos pois cada um queria o maior pedaço para si. O gato branco, não querendo ser roubado, propôs logo que o queijo - e a pendenga - fosse levado à presença de um macaco conhecido por toda a bicharada como justo e sábio.

Partiram ambos e, chegando à presença do juiz, o gato branco disse:

- Amigo Macaco, reconhecendo sua justiça e finura, propus ao meu amigo malhado que você fosse o juiz na questão da partilha deste queijo.

O gato malhado ajuntou:

- Aceitei logo e já digo, de antemão, que qualquer que seja a sua decisão, sábio amigo, eu irei aceitá-la, tal é a confiança que deposito em sua sabedoria.

- Bem, - disse o macaco, com ar sério - aceito a nobre missão, que me parece de fácil solução.

Dizendo isto, sentou-se diante de uma pequena banca, onde havia uma balança, e, tomando uma faca, partiu o queijo ao meio. Colocou cada parte do queijo em um do pratos da balança e viu que a da direita pesava mais do que a esquerda.

Pegando a parte mais pesada, deu-lhe uma dentada, tirando um bom naco para ver se assim equilibrava os pedaços. Porém, tal não aconteceu: o da esquerda agora é que ficou mais pesado. O macaco juiz não teve dúvida. Pegou o pedaço da esquerda e também aplicou-lhe uma boa dentada. Colocando os pedaços na balança, viu que ainda não estavam iguais e ele não teve remédio a não ser continuar mordendo um e outro até que ficassem com o mesmo peso.

Ao ver que os pedaços estavam diminuindo com uma rapidez espantosa, o gato malhado exclamou:

- Com mil raios e trovões! Se o senhor juiz continuar tentando equilibrar as partes, não vai sobrar mais nada!

- Basta! - exclamou por sua vez o gato branco. - Pode me dar a menor parte, que ficarei satisfeito.

- Ah, isso não! - respondeu o macaco. - Antes de tudo a justiça! Procuro dar a cada um quinhão igual...

E continou tranquilamente tirando um naco de cada um dos pedaços até que, restando apenas dois pedacinhos, mostrou-os aos gatos, dizendo-lhes:

- Isso agora também não vale equiparar! Vou comê-los também, como paga do trabalho que tive no julgamento dessa questão!

Bestinha esse juiz, não? :)

***

Adaptado da versão de Viriato Padilha - Histórias do Arco da Velha

terça-feira, 2 de junho de 2009

Conto: "O padre, o caboclo e o estudante"

Esse foi recolhido por Luís da Câmara Cascudo, acredito que o maior folclorista brasileiro, nascido em Natal/RN em 30 de dezembro de 1898. É ótimo para contar, tive excelentes experiências com ele, especialmente em hospitais...
"Um estudante e um padre viajavam pelo sertão, tendo como bagageiro um caboclo. Deram-lhe numa casa um pequeno queijo de cabra. Não sabendo como dividi-lo, mesmo porque chegaria um pequenino pedaço para cada um, o padre resolveu que todos dormissem e o queijo seria daquele que tivesse, durante a noite, o sonho mais bonito, pensando engabelar todos com os seus recursos oratórios.

Todos aceitaram e foram dormir.

À noite, o caboclo acordou, foi ao queijo e comeu-o.

Pela manhã, os três sentaram à mesa para tomar café e cada qual teve de contar o seu sonho. O padre disse ter sonhado com a escada de Jacó e descreveu-a brilhantemente. Por ela, ele subia triunfalmente para o céu. O estudante, então, narrou que sonhara que já estava dentro do céu, à espera do padre que subia. O caboclo sorriu e falou:

- Eu sonhei que via seu padre subindo a escada e seu doutor lá dentro do céu, rodeado de amigos. Eu ficava na terra e gritava:

- Seu doutor, seu padre, o queijo! Vosmincês esqueceram o queijo.

Então, vosmincês respondiam de longe, do céu:

- Come o queijo, caboclo! Come o queijo, caboclo! Nós estamos no céu, não queremos queijo.

O sonho foi tão forte que eu pensei que era verdade, levantei-me, enquanto vosmincês dormiam, e comi o queijo..."

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Imagem: http://flanelapaulistana.com/

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Conto: "Os dois semblantes"

Esse conto, conforme apontou um grande contador de estórias, o Rogério Bellini, é ótimo para ilustrar os malefícios de vícios, como drogas e álcool.

"Certa vez, um grande artista foi escolhido para pintar um quadro a óleo, destinado a uma igreja de Roma. A tela teria por tema a vida de Jesus.

O artista, que há muito vinha esperando aquela oportunidade, imensamente feliz e cheio de entusiasmo, atirou-se ao trabalho ardorosamente.

Assim, durante meses a fio, e sem descanso, dedicou-se o pintor à execução do quadro. Quando, porém, faltava pouco para terminar, foi forçado a parar.

É que faltavam dois modelos importantíssimos, justamente aqueles que deveriam representar o Menino Jesus e Judas Iscariotes.

Pôs-se então à procura dos modelos.

Começou a busca em sua própria cidade. Percorreu todas as ruas, procurou em todos os bairros. Andou muito, viajou muito.

Examinou linha por linha centenas de rostos de meninos e de homens, sem que nenhum deles apresentasse as características que exigia para os personagens de seu quadro.

Foi então que retornando à sua terra natal, percorrendo novamente um velho bairro da cidade, viu um menino de doze anos, cujo semblante, de rara beleza e extraordinária meiguice, era justamente o que procurava.

O pintor exultou de alegria. Enfim, poderia continuar seu trabalho.

De imediato falou aos pais do menino e pôs mãos à obra.

Durante dias e dias, o garoto pousou pacientemente até que seus lindos traços fisionômicos passaram para a tela do pintor. Quando o menino se foi, o artista comentou:

- A beleza e a candura de sua alma estão refletidas em seu rosto.

O pintor começou a fazer novas buscas, agora na esperança de encontrar quem lhe servisse de modelo para a imagem de Judas.

Novas caminhadas... novas indagações...novos semblantes em desfile...

Mas ninguém satisfazia as exigências do artista.
A bela obra paralisada aguardava o seu último personagem, para ser exposta aos olhares do público.

E tudo indicava que tão cedo não seria terminada.

De fato os dias foram se escoando, os meses sucedendo-se um ao outro, os anos também se passaram e o quadro continuava no mesmo.

O pintor já desanimava, quando um dia, ao passar por um bar pouco recomendável, viu ao aparecer à porta um pobre homem esfarrapado e magro, sentado ao balcão. Estava embriagado.

O pintor aproximou-se e, condoído, estremeceu de horror e emoção.

Aquela fisionomia ainda moça, marcada impiedosamente pelo vício, ajustava-se com precisão à sua tela inacabada!

Encontrara, afinal, o seu Judas Iscariotes.

- Venha comigo, que eu cuidarei de você.

Pôs-se então o artista, dia e noite, a completar a tela.

E, coisa estranha, à medida em que o trabalho avançava, o modelo pouco a pouco demonstrava desalentadora tristeza.

O pintor percebia a transformação, mas nada comentava.

Um dia, porém, notando que lágrimas silenciosas deslizavam daqueles olhos encovados, interrompeu o trabalho e indagou interessado:

- Meu filho, por que se aflige tanto? Em que lhe posso ajudar?

Desatando a chorar, o modelo cobriu o rosto com as mãos.

Depois, passados instantes, olhou para o pintor e, timidamente, falou:

- Não se lembra de mim? Há muitos anos, pousei para o seu menino Jesus".

***

Extraído do site Meimei Obreiros do Bem

domingo, 31 de maio de 2009

Conto: "A noiva de São Pedro"

Li essa estória num lindo livro da extinta Livraria Quaresma, do Rio de Janeiro: "Histórias do Arco da Velha", de Viriato Padilha. É uma estória boa para contar, com algumas alterações, dependendo de quem vai ouvi-la. Aqui vai na íntegra.

A noiva de São Pedro
Jesus Cristo e seus dois amados discípulos, Pedro e João, passeavam uma vez pelo mundo, como Nosso Senhor costumava fazer para ver de perto o estado dos homens e das coisas.

Enquanto caminhavam, discorriam sobre vários assuntos.

— É preciso que te cases, Pedro, — disse de repente o Salvador.

— Casar-me, eu! na minha idade, mestre?

— Sim, é preciso que te cases.

— Mas a quem quereis então que despose, mestre?

— À primeira rapariga que encontrarmos no caminho.

— Seja, pois assim o quereis.

Pouco tempo depois, encontraram os três uma rapariga feia e suja, uma criada do campo, de tamancos e com as pernas cheias de lama do curral.

— Então, Pedro, — disse Jesus Cristo vendo-a, — eis ali a que será tua mulher!

— Não, meu Senhor peço perdão, mas com essa não me caso eu, — respondeu Pedro fazendo uma careta.

— Porque não a queres, então?

— Por quê?; Vede quanto é feia e suja, e nem ao menos moça.

— Tu também não és moço, nem tão belo rapaz, como talvez penses. Mas, enfim, como não queres essa, há de ser agora a primeira mulher que encontrarmos nesta estrada.

— Prefiro isso, porque espero que será impossível encontrar pior.

E continuaram o caminho.

Não tardaram a encontrar uma velha apoiada sobre um cacete, a cabeça trêmula, os pés atravessados e mais suja ainda do que a primeira.

Nosso Senhor riu-se, vendo-a, e, voltando-se para São Pedro, disse:

— Agora, eis aqui a tua mulher.

— Nunca, — respondeu Pedro, voltando a cabeça e fazendo uma horrível careta.

— Antes a primeira; mas não quero nem uma nem outra...

— Acho-te bem difícil, meu amigo, mas não importa. A primeira que encontrarmos agora é preciso que aceites, qualquer que seja.

— Perfeitamente, e seja o que for, não será jamais coisa pior.

E, continuando o seu caminho, encontraram outra velha, curvada sobre um bastão nodoso, e arrastando com dificuldade os pés; além disso, era corcunda e zarolha, não tinha na boca senão dois dentes compridos e negros, que estremeciam a cada passo que ela dava.

Dir-se-ia uma verdadera feiticeira. O seu corpo era coberto de sujos molambos, e, tão mal cheirosos, que causavam náuseas ao mais forte estômago.

— Agora não podes mais recusar, Pedro; eis a tua mulher. — disse Jesus.

O pobre Pedro soltou um grande suspiro, voltou a cabeça de desgosto, e não pronunciou uma palavra.

— Não há que hesitar, — continuou o Salvador, é preciso que a desposes, já que desdenhaste as outras, que eram talvez um pouco melhores.

— Casarei na primeira aldeia que encontrarmos.

E continuaram o caminho acompanhados da velha, que apesar da sua idade e do seu miserável estado, estava satisfeita de encontrar enfim com quem casar. Mas Pedro não queria caminhar ao lado dela, nem mesmo olhá-la, e Nosso Senhor gracejava, dizendo que fosse mais galante com a sua noiva, que lhe desse o braço. Ele marchava alguns passos atrás, com a cabeça baixa e muito triste.

Um milagre de Jesus
Chegaram assim a uma forja. Havia ali um ferreiro muito afamado no país e de quem não se falava senão com respeito, chamando-o sempre grande ferreiro; o primeiro de todos os ferreiros.

— Entremos um pouco nesta forja, — disse Nosso Senhor aos seus companheiros de viagem.

Entraram todos quatros, e Jesus disse ao mestre ferreiro:

— Dê-me licença, ferreiro, de fazer uma boa têmpera sobre a sua bigorna, pois também sou ferreiro.

O ferreiro olhou com desdém para aquele que lhe falara, ergueu os ombros e não respondeu; mas o seu ajudante disse:

— Não é assim, meu bravo, que se fala a meu mestre; pois deveis saber que é o primeiro ferreiro do mundo, e não há igual nem mesmo que dele se aproxime.

— Como é então que preciso falar a seu mestre?

— Desta maneira (e com o chapéu na mão): "Salve, grande ferreiro, mestre, o primeiro dos ferreiros; terá a bondade de me permitir que faça uma têmpera sobre sua bigorna?

O Senhor repetiu as palavras do ajudante.

— Com prazer, agora que me falas como me convém.

A mãe do ferreiro, velha e caduca, aquecia-se ao pé do fogo; Jesus Cristo suplicou-lhe que se afastasse um pouco, e, tomando a noiva de São Pedro, atirou-a ao fogo.

— Deus! que fazes, malvado? — exclamou a mãe do ferreiro.

— Deixa-me fazer, vovó, e não se incomode; é para o seu bem, como vai ver.

— Ainda bem, — disse São Pedro, — eis-me livre desta feiticeira.

Pouco depois, Nosso Senhor, retirou a velha do fogo, com as tenazes e pondo-a sobre a bigorna, como uma massa de ferro vermelho que se tira da fornalha, disse:

— Vamos, cada um que tome um malho e bata forte.

E tomaram cada um o seu malho e bateram a velha sobre a bigorna, como se fosse de ferro; São Pedro, principalmente, malhava de rijo, com verdadeiro prazer.

Depois, Jesus tornou a pô-la no fogo, retirou-a e bateram-na de novo. E assim três vezes. À força de passar no fogo e de ser batida, a noiva de São Pedro perdeu a corcunda, tornou-se uma mulher jovem, bela e tão perfeita, que os assistentes ficaram boquiabertos.

— Então, ferreiro, mestre ferreiro, o primeiro dos ferreiros, és capaz de fazer outro tanto?, — perguntou o Salvador.

Ele nada respondeu e mal disfarçava o seu pasmo.

— Então? embora se faça chamar mestre ferreiro, o primeiro dos ferreiros achou o seu mestre, parece-me.

— É possível, mas experimentarei todavia, porque me custa crer que haja ferreiro no mundo capaz de fazer um trabalho de ofício, que eu não possa fazer também.

O ferreiro e sua velha mãe
Os três viajantes partiram então e a linda mulher acompanhou-os.

São Pedro estava agora muito feliz de ter noiva tão jovem, tão bela, e já não se fazia rogar para se aproximar dela.

Apenas deixaram a forja, o mestre ferreiro disse:

— Farei também o que aquele homem fez e não se dirá que achei enfim mestre.

E tomando sua velha mãe, atirou-a ao fogo.Mas ai! quando a retirou da fornalha, para batê-la na bigorna, a cada golpe que batiam, ele e o seu companheiro, o sangue jorrava de todos os lados, com pedaços de ossos esmagados.

Batiam cada vez mais, sem verem chegar a mulher bela e jovem que esperavam.

Eis o ferreiro desolado de ter assassinado a sua boa mãe.

Correu atrás dos três estrangeiros. Viu de longe que subiam uma encosta escarpada, e gritou-lhes:

— Eh! eh! não me ouvem? — Senhores estrangeiros!

Eles bem ouviam, mas de propósito faziam ouvidos de mercador e continuavam a caminhar.

Então o ferreiro mudou de linguagem e gritou-lhes:

— Mestre, caro mestre, em nome de Deus.

— Que há, bom homem? — perguntou Nosso Senhor. E parou.

— Ai aconteceu-me uma grande desgraça!...

— Que lhe aconteceu então mestre ferreiro, o primeiro dos ferreiros?

— Minha mãe, minha pobre mãe morreu!

— Como assim?

— Ai! quis fazer como o senhor fez para remoçá-la e matei-a!

— Como! Pois o amigo me tinha dito que era um mestre ferreiro, que não tinha igual no mundo?

— Ah sim, mas agora vejo que não valho nada ao pé do senhor, e peço-lhe perdão.

— Oh! certamente. O mestre amava sua mãe? E tem saudades dela?

— Oh! sim; tenho saudades do fundo do meu coração; restitua-ma.

— Pois bem, volte e encontrará sua mãe viva e de saúde. Mas para outra vez, seja mais modesto e não diga que não há mestre na terra.

O ferreiro voltou à forja e encontrou sua mãe, que se aquecia sentada em um banco ao pé do fogão. Foi uma boa lição, para ele não ser tão orgulhoso.

— E São Pedro casou-se? — perguntarão os nossos leitorezinhos.

A história não o diz.

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