domingo, 7 de junho de 2009

Um pouco sobre os contos de fadas

Não há, na realidade, algo que identifique a literatura infantil como tal, a não ser justamente a faixa etária à qual é direcionada. Aliás, nem isso serviria de referência, pois não são só as crianças que lêem esse gênero.
Segundo Roger Sale, da Enciclopédia Grolier, a literatura infantil surgiu com o advento da classe média, da burguesia mais atuante, do século XVII. Antes disso, as crianças eram vistas como adultos em miniatura - vide as roupas que costumavam usar - com atribuições semelhantes aos dos adultos. Portanto, sua educação, costumes, entretenimentos e papel na sociedade não diferiam muito da dos pais.
Não havia esse conceito que temos hoje de que são seres delicados, que precisam de uma educação especial, baseada em conceitos pedagógicos, etc, etc. Naquela época, crianças eram apenas isso: adultos em menor escala. E como tal, seus divertimentos eram os mesmos de todos. Música, canto, esportes, estórias. O que os adultos faziam, as crianças também podiam fazer.
Os contos que hoje chamamos de fadas, na realidade, não foram imaginados para crianças. Eram contados para adultos, tanto em elegantes salões quanto nas rodas suburbanas. E as estórias nada tinham de inocente; elementos como bárbaros assassinatos, adultério, incesto, pactos com demônios não seriam particularmente indicados para ouvidos infantis, pelo menos não do modo como hoje encaramos essas doces criaturinhas...
As Fábulas, publicadas entre 1668-94, de Jean de la Fontaine, por exemplo, eram mais anedotas, com as quais ele costumava deliciar os freqüentadores dos mais célebres salões parisienses, como o do ministro do Tesouro de Luís XIV, Nicolas Fouquet, onde as falhas de caráter, vícios e maldades humanas eram transportadas para personagens do reino animal, do que precisamente contos direcionados ao público infantil.
Aliás, muitas das fábulas de La Fontaine foram inspiradas no trabalho de Esopo, um escravo nascido na Frígia em 620 AC, célebre pelos contos bem-humorados, sobre valores como honestidade, trabalho e lealdade, de narrativa simples e que sempre deixavam uma moral – a “moral da estória”. Entre os contos mais famosos dele estão "A Raposa e as Uvas", "A Lebre e a Tartaruga" e "A Cigarra e a Formiga".
A tradição dos contos narrados por babás ou carinhosas avozinhas, no entanto, só surgiu em 1697, com a publicação dos Contos dos Tempos Passados, do francês Charles Perrault, cujo subtítulo Contos da Mamãe Gansa se tornou mais conhecido entre nós. Este era uma coletânea de oito contos que ganhou mais três numa edição posterior. Os contos que faziam parte desse que é considerado o primeiro livro de contos de fadas foram: A Bela Adormecida no Bosque, Chapeuzinho Vermelho, O Barba-Azul, O Gato de Botas, As Fadas, A Gata Borralheira (Cinderela), Rique, o Topetudo, O Pequeno Polegar. Os contos que foram incluídos depois foram: Pele de Asno, Os Desejos Ridículos e Grisélidis.
Muitas das estórias de Perrault, no entanto, já eram conhecidas mas sob outras versões. Algumas já haviam até figurado em outras coletâneas como a dos italianos Giovanni Straparola e a de Giambattista Basile. E isso é quase uma regra: dificilmente se consegue identificar o verdadeiro autor de cada estória...
A publicação dos contos, antes transmitidos de forma oral, foi um dos grandes responsáveis pelo declínio dessa arte. Todos podiam lê-los, de modo que o interesse em contá-los e em ouvi-los foi pouco a pouco diminuindo. Hoje, por exemplo, é difícil termos o hábito de contar estorinhas para nossas crianças. O máximo que fazemos - quando o fazemos - é ler para elas. Parece que ninguém mais tem tempo para isso, infelizmente.
O primeiro livro realmente direcionado a elas foi uma coletânea de cantigas infantis, publicado por Mary Cooper em 1744, cujo sugestivo título era Para Todos os Pequenos Senhores e Senhoritas; para ser cantado para eles por suas babás até que possam cantar sozinhos.
A segunda coletânea foi Melodia de Mamãe Gansa, atribuída ao livreiro John Newbery, em 1760, considerado o primeiro a descobrir e explorar o mercado de livros para crianças. Os contos deste trabalho nada mais eram do que estórias de livros para adultos encurtadas, adaptadas, ilustradas e postas num livro menor e menos pesado para que as crianças pudessem manuseá-lo sem dificuldade.
Os próximos cem anos não produziram nada de muito significativo exceto a coletânea dos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm: Contos de Fadas para Crianças e Adultos, publicada em alemão entre 1812 e 1815 e traduzida para o inglês em 1823. Os contos desse livro, muitos de escritores anteriores como Perrault, tinham o propósito de ensinar valores morais e acabaram por se tornar os mais populares em todo o mundo.
Em 1835 foi a vez do dinamarquês Hans Christian Andersen maravilhar o mundo com o seu Contos para Crianças. Entre os contos que figuravam nessa obra estavam:
O Pequeno Claus e o Grande Claus, A Princesa e a Ervilha (Uma Verdadeira Princesa) e As Flores da Pequena Ida.
Mais tarde, Andersen publicou vários outros contos como: As Roupas Novas do Imperador, O Patinho Feio , A Rainha da Neve, O Rouxinol, Sapatinhos Vermelhos, A Pequena Vendedora de Fósforos, O Soldadinho de Chumbo e A Pequena Sereia.
Andersen é considerado o precursor da literatura infantil mundial. Tanto que a data do seu nascimento, 2 de abril, tornou-se o Dia Internacional do Livro Infanto-Juvenil e a medalha Hans Christian Andersen é concedida aos melhores da categoria pelo Conselho Internacional de Livros para Jovens - a IBBY. A primeira brasileira a ganhar essa medalha foi Lygia Bojunga Nunes, em 1982, premiada pelo conjunto de sua obra.
Andrew Lang publicou, em 1889, The Blue Fairy Book, mais uma coletânea de contos de fadas, só que devidamente "purificados". Portanto, quem for ler qualquer um dos contos de fadas dos vários livros de Lang vai perceber que houve ali uma discreta censura vitoriana. Mas os contos, em suas versões menos inocentes, podem ser conferidos nos trabalhos dos Grimm, por exemplo.
Lang publicou ainda The Yellow Fairy Book, The Red Fairy Book, The Green Fairy Book, The Violet Fairy Book e The Crimson Fairy Book.
E no Brasil?
No Brasil, o maior autor infantil é, sem dúvida alguma, Monteiro Lobato, mas antes dele, já tivéramos bons trabalhos na nossa língua como a comédia infantil O Gorro de Papai, escrita em 1880 pelo conde Afonso Celso de Assis Figueiredo Júnior, filho do visconde de Ouro Preto, que foi inclusive um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.
Monteiro Lobato é considerado o pai da literatura infantil brasileira moderna, com a publicação na Revista do Brasil, em 1920, dos primeiros fragmentos da estória de Lúcia ou a Menina do Narizinho Arrebitado. O primeiro volume sobra as aventuras de Narizinho (como a conhecemos hoje) foi publicado, na íntegra, nesse mesmo ano pela Editora Monteiro Lobato.
Entre 1918 e 1944, Lobato publicou 30 livros, a grande maioria dedicada às crianças e jovens.
Os brilhantes personagens de Monteiro Lobato, como a boneca Emília, o visconde de Sabugosa, a tia Nastácia, a dona Benta, o Pedrinho, Pedro Malasartes, a Cuca, o Saci-Pererê, foram levados para a televisão em fins da década de 70/início de 80, no seriado Sítio do Picapau Amarelo, apresentado pela TV Globo.
Depois de Lobato, vieram muitos outros cujos trabalhos que podem ser conferidos em séries como a Vaga-Lume, da Editora Moderna, autores maravilhosos como Tatiana Belinky, Ruth Rocha, Ana Maria Machado e tantos outros...
Pena que os pais não têm mais tempo nem disposição para contar estorinhas e os livrinhos permanecem empoeirados, jogados num canto qualquer, esperando para um dia, mais uma vez, trazerem sorrisos sonhadores em rostinhos infantis...

E é aí que entramos nós, os contadores de estórias! Percebe a importância do que fazemos? Resgatamos sonhos, moldamos espíritos e ofertamos esperança. E isso não é pouco, principalmente num século tão pesado, cheio de tristezas e decepções, onde há pouco espaço para a ilusão. Mas, como disse o poeta, sonhar é preciso!
***
Fontes:
1. Dicionário Crítico da Literatura Infantil e Juvenil Brasileira - Nelly Novaes Coelho - Ed USP
2. Enciclopédia Grolier
3. De Tudo um Pouco - homepage de Cristiane Madanêlo, mestra em literatura brasileira e especialista em literatura infantil e juvenil.

Imagens:
Internet, créditos desconhecidos

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Conto: "O macaco juiz"

Dois gatos, um branco e um malhado, depois de muita manha e trabalho, conseguiram roubar um belo queijo do reino de uma despensa e, uma vez postos a salvo, trataram de dividir a presa entre si.

A partilha deu lugar a um sério desentendimento entre ambos pois cada um queria o maior pedaço para si. O gato branco, não querendo ser roubado, propôs logo que o queijo - e a pendenga - fosse levado à presença de um macaco conhecido por toda a bicharada como justo e sábio.

Partiram ambos e, chegando à presença do juiz, o gato branco disse:

- Amigo Macaco, reconhecendo sua justiça e finura, propus ao meu amigo malhado que você fosse o juiz na questão da partilha deste queijo.

O gato malhado ajuntou:

- Aceitei logo e já digo, de antemão, que qualquer que seja a sua decisão, sábio amigo, eu irei aceitá-la, tal é a confiança que deposito em sua sabedoria.

- Bem, - disse o macaco, com ar sério - aceito a nobre missão, que me parece de fácil solução.

Dizendo isto, sentou-se diante de uma pequena banca, onde havia uma balança, e, tomando uma faca, partiu o queijo ao meio. Colocou cada parte do queijo em um do pratos da balança e viu que a da direita pesava mais do que a esquerda.

Pegando a parte mais pesada, deu-lhe uma dentada, tirando um bom naco para ver se assim equilibrava os pedaços. Porém, tal não aconteceu: o da esquerda agora é que ficou mais pesado. O macaco juiz não teve dúvida. Pegou o pedaço da esquerda e também aplicou-lhe uma boa dentada. Colocando os pedaços na balança, viu que ainda não estavam iguais e ele não teve remédio a não ser continuar mordendo um e outro até que ficassem com o mesmo peso.

Ao ver que os pedaços estavam diminuindo com uma rapidez espantosa, o gato malhado exclamou:

- Com mil raios e trovões! Se o senhor juiz continuar tentando equilibrar as partes, não vai sobrar mais nada!

- Basta! - exclamou por sua vez o gato branco. - Pode me dar a menor parte, que ficarei satisfeito.

- Ah, isso não! - respondeu o macaco. - Antes de tudo a justiça! Procuro dar a cada um quinhão igual...

E continou tranquilamente tirando um naco de cada um dos pedaços até que, restando apenas dois pedacinhos, mostrou-os aos gatos, dizendo-lhes:

- Isso agora também não vale equiparar! Vou comê-los também, como paga do trabalho que tive no julgamento dessa questão!

Bestinha esse juiz, não? :)

***

Adaptado da versão de Viriato Padilha - Histórias do Arco da Velha

terça-feira, 2 de junho de 2009

Conto: "O padre, o caboclo e o estudante"

Esse foi recolhido por Luís da Câmara Cascudo, acredito que o maior folclorista brasileiro, nascido em Natal/RN em 30 de dezembro de 1898. É ótimo para contar, tive excelentes experiências com ele, especialmente em hospitais...
"Um estudante e um padre viajavam pelo sertão, tendo como bagageiro um caboclo. Deram-lhe numa casa um pequeno queijo de cabra. Não sabendo como dividi-lo, mesmo porque chegaria um pequenino pedaço para cada um, o padre resolveu que todos dormissem e o queijo seria daquele que tivesse, durante a noite, o sonho mais bonito, pensando engabelar todos com os seus recursos oratórios.

Todos aceitaram e foram dormir.

À noite, o caboclo acordou, foi ao queijo e comeu-o.

Pela manhã, os três sentaram à mesa para tomar café e cada qual teve de contar o seu sonho. O padre disse ter sonhado com a escada de Jacó e descreveu-a brilhantemente. Por ela, ele subia triunfalmente para o céu. O estudante, então, narrou que sonhara que já estava dentro do céu, à espera do padre que subia. O caboclo sorriu e falou:

- Eu sonhei que via seu padre subindo a escada e seu doutor lá dentro do céu, rodeado de amigos. Eu ficava na terra e gritava:

- Seu doutor, seu padre, o queijo! Vosmincês esqueceram o queijo.

Então, vosmincês respondiam de longe, do céu:

- Come o queijo, caboclo! Come o queijo, caboclo! Nós estamos no céu, não queremos queijo.

O sonho foi tão forte que eu pensei que era verdade, levantei-me, enquanto vosmincês dormiam, e comi o queijo..."

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Imagem: http://flanelapaulistana.com/

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Conto: "Os dois semblantes"

Esse conto, conforme apontou um grande contador de estórias, o Rogério Bellini, é ótimo para ilustrar os malefícios de vícios, como drogas e álcool.

"Certa vez, um grande artista foi escolhido para pintar um quadro a óleo, destinado a uma igreja de Roma. A tela teria por tema a vida de Jesus.

O artista, que há muito vinha esperando aquela oportunidade, imensamente feliz e cheio de entusiasmo, atirou-se ao trabalho ardorosamente.

Assim, durante meses a fio, e sem descanso, dedicou-se o pintor à execução do quadro. Quando, porém, faltava pouco para terminar, foi forçado a parar.

É que faltavam dois modelos importantíssimos, justamente aqueles que deveriam representar o Menino Jesus e Judas Iscariotes.

Pôs-se então à procura dos modelos.

Começou a busca em sua própria cidade. Percorreu todas as ruas, procurou em todos os bairros. Andou muito, viajou muito.

Examinou linha por linha centenas de rostos de meninos e de homens, sem que nenhum deles apresentasse as características que exigia para os personagens de seu quadro.

Foi então que retornando à sua terra natal, percorrendo novamente um velho bairro da cidade, viu um menino de doze anos, cujo semblante, de rara beleza e extraordinária meiguice, era justamente o que procurava.

O pintor exultou de alegria. Enfim, poderia continuar seu trabalho.

De imediato falou aos pais do menino e pôs mãos à obra.

Durante dias e dias, o garoto pousou pacientemente até que seus lindos traços fisionômicos passaram para a tela do pintor. Quando o menino se foi, o artista comentou:

- A beleza e a candura de sua alma estão refletidas em seu rosto.

O pintor começou a fazer novas buscas, agora na esperança de encontrar quem lhe servisse de modelo para a imagem de Judas.

Novas caminhadas... novas indagações...novos semblantes em desfile...

Mas ninguém satisfazia as exigências do artista.
A bela obra paralisada aguardava o seu último personagem, para ser exposta aos olhares do público.

E tudo indicava que tão cedo não seria terminada.

De fato os dias foram se escoando, os meses sucedendo-se um ao outro, os anos também se passaram e o quadro continuava no mesmo.

O pintor já desanimava, quando um dia, ao passar por um bar pouco recomendável, viu ao aparecer à porta um pobre homem esfarrapado e magro, sentado ao balcão. Estava embriagado.

O pintor aproximou-se e, condoído, estremeceu de horror e emoção.

Aquela fisionomia ainda moça, marcada impiedosamente pelo vício, ajustava-se com precisão à sua tela inacabada!

Encontrara, afinal, o seu Judas Iscariotes.

- Venha comigo, que eu cuidarei de você.

Pôs-se então o artista, dia e noite, a completar a tela.

E, coisa estranha, à medida em que o trabalho avançava, o modelo pouco a pouco demonstrava desalentadora tristeza.

O pintor percebia a transformação, mas nada comentava.

Um dia, porém, notando que lágrimas silenciosas deslizavam daqueles olhos encovados, interrompeu o trabalho e indagou interessado:

- Meu filho, por que se aflige tanto? Em que lhe posso ajudar?

Desatando a chorar, o modelo cobriu o rosto com as mãos.

Depois, passados instantes, olhou para o pintor e, timidamente, falou:

- Não se lembra de mim? Há muitos anos, pousei para o seu menino Jesus".

***

Extraído do site Meimei Obreiros do Bem

domingo, 31 de maio de 2009

Conto: "A noiva de São Pedro"

Li essa estória num lindo livro da extinta Livraria Quaresma, do Rio de Janeiro: "Histórias do Arco da Velha", de Viriato Padilha. É uma estória boa para contar, com algumas alterações, dependendo de quem vai ouvi-la. Aqui vai na íntegra.

A noiva de São Pedro
Jesus Cristo e seus dois amados discípulos, Pedro e João, passeavam uma vez pelo mundo, como Nosso Senhor costumava fazer para ver de perto o estado dos homens e das coisas.

Enquanto caminhavam, discorriam sobre vários assuntos.

— É preciso que te cases, Pedro, — disse de repente o Salvador.

— Casar-me, eu! na minha idade, mestre?

— Sim, é preciso que te cases.

— Mas a quem quereis então que despose, mestre?

— À primeira rapariga que encontrarmos no caminho.

— Seja, pois assim o quereis.

Pouco tempo depois, encontraram os três uma rapariga feia e suja, uma criada do campo, de tamancos e com as pernas cheias de lama do curral.

— Então, Pedro, — disse Jesus Cristo vendo-a, — eis ali a que será tua mulher!

— Não, meu Senhor peço perdão, mas com essa não me caso eu, — respondeu Pedro fazendo uma careta.

— Porque não a queres, então?

— Por quê?; Vede quanto é feia e suja, e nem ao menos moça.

— Tu também não és moço, nem tão belo rapaz, como talvez penses. Mas, enfim, como não queres essa, há de ser agora a primeira mulher que encontrarmos nesta estrada.

— Prefiro isso, porque espero que será impossível encontrar pior.

E continuaram o caminho.

Não tardaram a encontrar uma velha apoiada sobre um cacete, a cabeça trêmula, os pés atravessados e mais suja ainda do que a primeira.

Nosso Senhor riu-se, vendo-a, e, voltando-se para São Pedro, disse:

— Agora, eis aqui a tua mulher.

— Nunca, — respondeu Pedro, voltando a cabeça e fazendo uma horrível careta.

— Antes a primeira; mas não quero nem uma nem outra...

— Acho-te bem difícil, meu amigo, mas não importa. A primeira que encontrarmos agora é preciso que aceites, qualquer que seja.

— Perfeitamente, e seja o que for, não será jamais coisa pior.

E, continuando o seu caminho, encontraram outra velha, curvada sobre um bastão nodoso, e arrastando com dificuldade os pés; além disso, era corcunda e zarolha, não tinha na boca senão dois dentes compridos e negros, que estremeciam a cada passo que ela dava.

Dir-se-ia uma verdadera feiticeira. O seu corpo era coberto de sujos molambos, e, tão mal cheirosos, que causavam náuseas ao mais forte estômago.

— Agora não podes mais recusar, Pedro; eis a tua mulher. — disse Jesus.

O pobre Pedro soltou um grande suspiro, voltou a cabeça de desgosto, e não pronunciou uma palavra.

— Não há que hesitar, — continuou o Salvador, é preciso que a desposes, já que desdenhaste as outras, que eram talvez um pouco melhores.

— Casarei na primeira aldeia que encontrarmos.

E continuaram o caminho acompanhados da velha, que apesar da sua idade e do seu miserável estado, estava satisfeita de encontrar enfim com quem casar. Mas Pedro não queria caminhar ao lado dela, nem mesmo olhá-la, e Nosso Senhor gracejava, dizendo que fosse mais galante com a sua noiva, que lhe desse o braço. Ele marchava alguns passos atrás, com a cabeça baixa e muito triste.

Um milagre de Jesus
Chegaram assim a uma forja. Havia ali um ferreiro muito afamado no país e de quem não se falava senão com respeito, chamando-o sempre grande ferreiro; o primeiro de todos os ferreiros.

— Entremos um pouco nesta forja, — disse Nosso Senhor aos seus companheiros de viagem.

Entraram todos quatros, e Jesus disse ao mestre ferreiro:

— Dê-me licença, ferreiro, de fazer uma boa têmpera sobre a sua bigorna, pois também sou ferreiro.

O ferreiro olhou com desdém para aquele que lhe falara, ergueu os ombros e não respondeu; mas o seu ajudante disse:

— Não é assim, meu bravo, que se fala a meu mestre; pois deveis saber que é o primeiro ferreiro do mundo, e não há igual nem mesmo que dele se aproxime.

— Como é então que preciso falar a seu mestre?

— Desta maneira (e com o chapéu na mão): "Salve, grande ferreiro, mestre, o primeiro dos ferreiros; terá a bondade de me permitir que faça uma têmpera sobre sua bigorna?

O Senhor repetiu as palavras do ajudante.

— Com prazer, agora que me falas como me convém.

A mãe do ferreiro, velha e caduca, aquecia-se ao pé do fogo; Jesus Cristo suplicou-lhe que se afastasse um pouco, e, tomando a noiva de São Pedro, atirou-a ao fogo.

— Deus! que fazes, malvado? — exclamou a mãe do ferreiro.

— Deixa-me fazer, vovó, e não se incomode; é para o seu bem, como vai ver.

— Ainda bem, — disse São Pedro, — eis-me livre desta feiticeira.

Pouco depois, Nosso Senhor, retirou a velha do fogo, com as tenazes e pondo-a sobre a bigorna, como uma massa de ferro vermelho que se tira da fornalha, disse:

— Vamos, cada um que tome um malho e bata forte.

E tomaram cada um o seu malho e bateram a velha sobre a bigorna, como se fosse de ferro; São Pedro, principalmente, malhava de rijo, com verdadeiro prazer.

Depois, Jesus tornou a pô-la no fogo, retirou-a e bateram-na de novo. E assim três vezes. À força de passar no fogo e de ser batida, a noiva de São Pedro perdeu a corcunda, tornou-se uma mulher jovem, bela e tão perfeita, que os assistentes ficaram boquiabertos.

— Então, ferreiro, mestre ferreiro, o primeiro dos ferreiros, és capaz de fazer outro tanto?, — perguntou o Salvador.

Ele nada respondeu e mal disfarçava o seu pasmo.

— Então? embora se faça chamar mestre ferreiro, o primeiro dos ferreiros achou o seu mestre, parece-me.

— É possível, mas experimentarei todavia, porque me custa crer que haja ferreiro no mundo capaz de fazer um trabalho de ofício, que eu não possa fazer também.

O ferreiro e sua velha mãe
Os três viajantes partiram então e a linda mulher acompanhou-os.

São Pedro estava agora muito feliz de ter noiva tão jovem, tão bela, e já não se fazia rogar para se aproximar dela.

Apenas deixaram a forja, o mestre ferreiro disse:

— Farei também o que aquele homem fez e não se dirá que achei enfim mestre.

E tomando sua velha mãe, atirou-a ao fogo.Mas ai! quando a retirou da fornalha, para batê-la na bigorna, a cada golpe que batiam, ele e o seu companheiro, o sangue jorrava de todos os lados, com pedaços de ossos esmagados.

Batiam cada vez mais, sem verem chegar a mulher bela e jovem que esperavam.

Eis o ferreiro desolado de ter assassinado a sua boa mãe.

Correu atrás dos três estrangeiros. Viu de longe que subiam uma encosta escarpada, e gritou-lhes:

— Eh! eh! não me ouvem? — Senhores estrangeiros!

Eles bem ouviam, mas de propósito faziam ouvidos de mercador e continuavam a caminhar.

Então o ferreiro mudou de linguagem e gritou-lhes:

— Mestre, caro mestre, em nome de Deus.

— Que há, bom homem? — perguntou Nosso Senhor. E parou.

— Ai aconteceu-me uma grande desgraça!...

— Que lhe aconteceu então mestre ferreiro, o primeiro dos ferreiros?

— Minha mãe, minha pobre mãe morreu!

— Como assim?

— Ai! quis fazer como o senhor fez para remoçá-la e matei-a!

— Como! Pois o amigo me tinha dito que era um mestre ferreiro, que não tinha igual no mundo?

— Ah sim, mas agora vejo que não valho nada ao pé do senhor, e peço-lhe perdão.

— Oh! certamente. O mestre amava sua mãe? E tem saudades dela?

— Oh! sim; tenho saudades do fundo do meu coração; restitua-ma.

— Pois bem, volte e encontrará sua mãe viva e de saúde. Mas para outra vez, seja mais modesto e não diga que não há mestre na terra.

O ferreiro voltou à forja e encontrou sua mãe, que se aquecia sentada em um banco ao pé do fogão. Foi uma boa lição, para ele não ser tão orgulhoso.

— E São Pedro casou-se? — perguntarão os nossos leitorezinhos.

A história não o diz.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Conto: "Os músicos de Bremen"

Adaptado dos irmãos Grimm

Um homem tinha um burro que, por longos anos, o tinha ajudado carregando pesados sacos de milho para o moinho. O burro, porém, já estava ficando velho e não podia mais trabalhar. Por isso, o dono pensava em vendê-lo.

O pobre animal, sabendo disso, ficou muito preocupado e decidiu fugir para Bremen."Certamente, poderei ser músico na cidade", pensava ele.

Depois de andar um pouco, encontrou um cão deitado na estrada, arfando de cansaço.

- Por que estás assim tão fatigado? perguntou o burro.

- Amigo, já estou ficando velho e, a cada dia, vou ficando mais fraco. Não posso mais caçar; por isso meu dono queria me entregar à carrocinha. Então, fugi, mas não sei como ganhar a vida.

- Pois bem, lhe disse o burro. Minha história é bem semelhante à sua. Vou tentar a vida como músico em Bremen. Venha comigo. Eu tocarei flauta e você poderá tocar tambor.

O cão aceitou o convite e seguiu com o burro. Não tinham andado muito quando encontraram um gato, muito triste, sentado no meio do caminho.

- Que tristeza é essa, companheiro? lhe perguntaram os dois.

- Como posso estar alegre, se minha vida está em perigo? respondeu o gato. Estou ficando velho e prefiro estar sentado junto ao fogo, em vez de caçar ratos. Por esse motivo, minha dona quer me afogar.

- Ora, venha conosco a Bremen, propuseram os outros. Seremos músicos e ganharemos muito dinheiro.

O gato, depois de pensar um pouco, concordou e acompanhou-os. Foram andando até que encontraram um galo, cantando tristemente, trepado numa cerca.

- Que foi que lhe aconteceu, amigo? perguntaram os três.

- Imaginem, respondeu o galo, que amanhã a dona da casa vai ter visitas para o jantar. Então, sem dó nem piedade, ordenou ao cozinheiro que me matasse para fazer uma canja.

Os outros, então, lhe propuseram:

- Nós vamos a Bremen, onde nos tornaremos músicos. Você tem boa voz. Que tal se nos reuníssemos para formar um conjunto?

O galo gostou da idéia e, juntando-se aos outros, seguiram caminho.

A cidade de Bremen ficava muito distante e eles tiveram que parar numa floresta para passar a noite. O burro e o cão deitaram-se em baixo de uma árvore grande. O gato e o galo alojaram-se nos galhos da árvore.

O galo, que se tinha colocado bem no alto, olhando ao redor, avistou uma luzinha ao longe, sinal de que deveria haver alguma casa por ali. Disse isso aos companheiros e todos acharam melhor andar até lá, pois o abrigo ali não estava muito confortável.

Começaram a andar e, cada vez mais, a luz se aproximava. Afinal, chegaram à casa. O burro, como era o maior, foi até a janela e espiou por uma fresta. À volta de uma mesa, viu quatro ladrões que comiam e bebiam fartamente. Transmitiu aos amigos o que tinha visto e ficaram todos imaginando um plano para afastar os homens dali. Por fim, resolveram aproximar-se da janela. O burro colocou-se de maneira a alcançar a borda da janela com uma das patas. O cão subiu nas costas do burro. O gato trepou nas costas do cão e o galo voou até ficar em cima do gato.

Depois, a um sinal combinado, começaram a fazer sua música juntos: o burro zurrava, o cão latia, o gato miava e o galo cacarejava. A seguir, quebrando os vidros da janela, entraram pela casa adentro, fazendo uma barulhada medonha.

Os ladrões, pensando que era um fantasma, saíram correndo para a floresta. Os quatro animais, então, sentaram-se à mesa, serviram-se de tudo, comendo e bebendo como se tivessem estado de jejum por um mês. Depois, procuraram um lugar quentinho e confortável para dormir. O burro deitou-se num monte de palha, no quintal; o cão, junto da porta; o gato, junto ao fogão, e o galo encarapitou-se numa viga do telhado. Como estavam muito cansados, logo adormeceram.

Um pouco além da meia-noite, os ladrões, vendo que a luz da casa estava apagada, resolveram voltar. O chefe do bando disse aos demais:

- Não devemos ter medo!

E mandou que um entrasse primeiro para examinar a casa. Chegando lá, o homem foi à cozinha para acender um vela. Tomando os olhos do gato, que brilhavam no escuro, por brasas, tentou neles acender um fósforo. O gato, entretanto, não gostou da brincadeira e avançou para ele, cuspindo e arranhando-o. Ele tomou um grande susto e correu para a porta dos fundos, mas o cão, que lá estava deitado, mordeu-lhe a perna. O ladrão saiu correndo para o quintal, mas, ao passar pelo burro, levou um coice. O galo, que acordara com o barulho, cantou bem alto:

- Có, có, ró, có!!!!

Correndo como louco, o ladrão foi se reunir aos outros, a quem contou:

- Lá dentro há uma horrível bruxa de olhos de fogo que me arranhou com suas unhas afiadas e me cuspiu no rosto. Perto da porta, há um homem mau que me passou um canivete na perna. No quintal, há um monstro escuro, que me bateu com um pedaço de pau. Além disso tudo, no telhado está sentado um juiz, que gritou bem alto: "- Traga aqui o patife!!!"... Acho que não devemos voltar lá... é muito perigoso!!

Depois disso, nunca mais os ladrões voltaram à casa, e os quatro músicos de Bremen sentiam-se muito bem lá, onde faziam suas músicas e viviam despreocupados.

De vez em quando alguém das redondezas os chamavam e lá iam eles, felizes e contentes, tocar a sua música.


***

Bremen é uma cidade do Norte da Alemanha, com cerca de 1 milhão de habitantes, onde existe o mais antigo porto da Alemanha. Um dos seus atrativos é a estátua dos quatro músicos, da fábula registrada pelos irmãos Jacob e Wilheim Grimm, no século XVIII.
Ilustração: peregrinacultural.files.wordpress.com

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Conto: "O mais valioso dos colares"

Usar, por alguns dias, a pulseira da mãe, era o sonho de consumo do pequeno Pedro, de seis anos de idade. Eles eram pobres, e a pulseira não tinha muito valor, mas tanto o garoto insistiu que a mãe lhe entregou, recomendando que tomasse cuidado.
Pedro colocou o cordão no pulso e se sentiu o menino mais feliz do bairro.
Jogava futebol com os amigos, de pulseira. Ia comprar pão, com a pulseira, e na escola, ele exibia sua preciosidade sempre que podia.
As semanas se passaram e, como sempre acontece com as crianças, um dia aconteceu com Pedro. Uma distração, e ele se deu conta de que havia esquecido a pulseira em algum lugar. Procurou por todos os cantos e... nada.
Ele estava sozinho em casa. A mãe estava no trabalho. Mas, e quando ela chegasse, como lhe contaria a tragédia?
Mil preocupações surgiram naquela cabeça infantil. E a mais cruel era a de ter perdido o que ele considerava ser o único tesouro de sua mãe.
Depois de muitas cogitações, tomou uma difícil decisão: iria embora de casa.
Jogou algumas roupas dentro da velha sacola, e saiu porta afora.
Não foi muito longe e ouviu uma voz bem conhecida... Era o Sr. Severino, um velhinho bom que morava na vizinhança.
- Ei, aonde você vai com essa trouxa nas costas, Pedro? - Vou embora, respondeu, cabisbaixo, o menino. - Mas a sua mãe não está em casa. É melhor você esperar que ela chegue, senão ela ficará aflita quando não o encontrar.
O garoto costumava ouvir os mais velhos, então voltou, é claro, na companhia do velho Severino. Quando a mãe chegou, já estava escuro. Mal entrou e já sentiu algo no ar, pois as mães sempre sentem quando tem alguma coisa errada com seus filhos.
- O que houve, Sr. Severino?, perguntou logo.
Ele se aproximou e contou baixinho o que havia acontecido. Ela entrou no quarto onde o pequeno Pedro estava escondido e o abraçou com ternura.
- Meu filho, você ia embora sem avisar a mamãe? Por que ia fazer isso, meu anjo?
- Mãe, lembra daquela pulseira que você me emprestou e me pediu para ter cuidado?
- Sim, disse ela.
- Eu não sei como aconteceu, mas a perdi, mãe. Quando notei, eu procurei, procurei, mas não achei. Então fiquei com medo e com vergonha, e por isso eu ia embora de casa, prá não ver você triste.
- Ora, filho, eu ia ficar muito triste se você tivesse ido. Nunca mais pense nisso!
- E a pulseira? Perguntou o menino, mais aliviado.
- Ah, meu anjo, aquela pulseira tinha pouco valor. Um dia, quem sabe, nós compramos outra.
- Mãe, eu quero lhe dar um belo colar. Você sabe quanto custa um?
- Não faço idéia, mas já tenho o colar mais valioso do mundo. E sabe qual é?
- Não, mãe, eu nunca vi você de colar.
- Pois bem, disse a mãe, puxando os bracinhos do filho e os envolvendo no pescoço.
- Filho, o seu abraço é o colar mais valioso do mundo, para mim. E eu desejo tê-lo para sempre. Promete que nunca mais vai pensar em ir embora?
Pedro sorriu, aliviado, e encheu o rosto da mãezinha de beijos.

***
Redação do Momento Espírita
Pintura de Mary Cassat

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