terça-feira, 2 de junho de 2009

Conto: "O padre, o caboclo e o estudante"

Esse foi recolhido por Luís da Câmara Cascudo, acredito que o maior folclorista brasileiro, nascido em Natal/RN em 30 de dezembro de 1898. É ótimo para contar, tive excelentes experiências com ele, especialmente em hospitais...
"Um estudante e um padre viajavam pelo sertão, tendo como bagageiro um caboclo. Deram-lhe numa casa um pequeno queijo de cabra. Não sabendo como dividi-lo, mesmo porque chegaria um pequenino pedaço para cada um, o padre resolveu que todos dormissem e o queijo seria daquele que tivesse, durante a noite, o sonho mais bonito, pensando engabelar todos com os seus recursos oratórios.

Todos aceitaram e foram dormir.

À noite, o caboclo acordou, foi ao queijo e comeu-o.

Pela manhã, os três sentaram à mesa para tomar café e cada qual teve de contar o seu sonho. O padre disse ter sonhado com a escada de Jacó e descreveu-a brilhantemente. Por ela, ele subia triunfalmente para o céu. O estudante, então, narrou que sonhara que já estava dentro do céu, à espera do padre que subia. O caboclo sorriu e falou:

- Eu sonhei que via seu padre subindo a escada e seu doutor lá dentro do céu, rodeado de amigos. Eu ficava na terra e gritava:

- Seu doutor, seu padre, o queijo! Vosmincês esqueceram o queijo.

Então, vosmincês respondiam de longe, do céu:

- Come o queijo, caboclo! Come o queijo, caboclo! Nós estamos no céu, não queremos queijo.

O sonho foi tão forte que eu pensei que era verdade, levantei-me, enquanto vosmincês dormiam, e comi o queijo..."

***

Imagem: http://flanelapaulistana.com/

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Conto: "Os dois semblantes"

Esse conto, conforme apontou um grande contador de estórias, o Rogério Bellini, é ótimo para ilustrar os malefícios de vícios, como drogas e álcool.

"Certa vez, um grande artista foi escolhido para pintar um quadro a óleo, destinado a uma igreja de Roma. A tela teria por tema a vida de Jesus.

O artista, que há muito vinha esperando aquela oportunidade, imensamente feliz e cheio de entusiasmo, atirou-se ao trabalho ardorosamente.

Assim, durante meses a fio, e sem descanso, dedicou-se o pintor à execução do quadro. Quando, porém, faltava pouco para terminar, foi forçado a parar.

É que faltavam dois modelos importantíssimos, justamente aqueles que deveriam representar o Menino Jesus e Judas Iscariotes.

Pôs-se então à procura dos modelos.

Começou a busca em sua própria cidade. Percorreu todas as ruas, procurou em todos os bairros. Andou muito, viajou muito.

Examinou linha por linha centenas de rostos de meninos e de homens, sem que nenhum deles apresentasse as características que exigia para os personagens de seu quadro.

Foi então que retornando à sua terra natal, percorrendo novamente um velho bairro da cidade, viu um menino de doze anos, cujo semblante, de rara beleza e extraordinária meiguice, era justamente o que procurava.

O pintor exultou de alegria. Enfim, poderia continuar seu trabalho.

De imediato falou aos pais do menino e pôs mãos à obra.

Durante dias e dias, o garoto pousou pacientemente até que seus lindos traços fisionômicos passaram para a tela do pintor. Quando o menino se foi, o artista comentou:

- A beleza e a candura de sua alma estão refletidas em seu rosto.

O pintor começou a fazer novas buscas, agora na esperança de encontrar quem lhe servisse de modelo para a imagem de Judas.

Novas caminhadas... novas indagações...novos semblantes em desfile...

Mas ninguém satisfazia as exigências do artista.
A bela obra paralisada aguardava o seu último personagem, para ser exposta aos olhares do público.

E tudo indicava que tão cedo não seria terminada.

De fato os dias foram se escoando, os meses sucedendo-se um ao outro, os anos também se passaram e o quadro continuava no mesmo.

O pintor já desanimava, quando um dia, ao passar por um bar pouco recomendável, viu ao aparecer à porta um pobre homem esfarrapado e magro, sentado ao balcão. Estava embriagado.

O pintor aproximou-se e, condoído, estremeceu de horror e emoção.

Aquela fisionomia ainda moça, marcada impiedosamente pelo vício, ajustava-se com precisão à sua tela inacabada!

Encontrara, afinal, o seu Judas Iscariotes.

- Venha comigo, que eu cuidarei de você.

Pôs-se então o artista, dia e noite, a completar a tela.

E, coisa estranha, à medida em que o trabalho avançava, o modelo pouco a pouco demonstrava desalentadora tristeza.

O pintor percebia a transformação, mas nada comentava.

Um dia, porém, notando que lágrimas silenciosas deslizavam daqueles olhos encovados, interrompeu o trabalho e indagou interessado:

- Meu filho, por que se aflige tanto? Em que lhe posso ajudar?

Desatando a chorar, o modelo cobriu o rosto com as mãos.

Depois, passados instantes, olhou para o pintor e, timidamente, falou:

- Não se lembra de mim? Há muitos anos, pousei para o seu menino Jesus".

***

Extraído do site Meimei Obreiros do Bem

domingo, 31 de maio de 2009

Conto: "A noiva de São Pedro"

Li essa estória num lindo livro da extinta Livraria Quaresma, do Rio de Janeiro: "Histórias do Arco da Velha", de Viriato Padilha. É uma estória boa para contar, com algumas alterações, dependendo de quem vai ouvi-la. Aqui vai na íntegra.

A noiva de São Pedro
Jesus Cristo e seus dois amados discípulos, Pedro e João, passeavam uma vez pelo mundo, como Nosso Senhor costumava fazer para ver de perto o estado dos homens e das coisas.

Enquanto caminhavam, discorriam sobre vários assuntos.

— É preciso que te cases, Pedro, — disse de repente o Salvador.

— Casar-me, eu! na minha idade, mestre?

— Sim, é preciso que te cases.

— Mas a quem quereis então que despose, mestre?

— À primeira rapariga que encontrarmos no caminho.

— Seja, pois assim o quereis.

Pouco tempo depois, encontraram os três uma rapariga feia e suja, uma criada do campo, de tamancos e com as pernas cheias de lama do curral.

— Então, Pedro, — disse Jesus Cristo vendo-a, — eis ali a que será tua mulher!

— Não, meu Senhor peço perdão, mas com essa não me caso eu, — respondeu Pedro fazendo uma careta.

— Porque não a queres, então?

— Por quê?; Vede quanto é feia e suja, e nem ao menos moça.

— Tu também não és moço, nem tão belo rapaz, como talvez penses. Mas, enfim, como não queres essa, há de ser agora a primeira mulher que encontrarmos nesta estrada.

— Prefiro isso, porque espero que será impossível encontrar pior.

E continuaram o caminho.

Não tardaram a encontrar uma velha apoiada sobre um cacete, a cabeça trêmula, os pés atravessados e mais suja ainda do que a primeira.

Nosso Senhor riu-se, vendo-a, e, voltando-se para São Pedro, disse:

— Agora, eis aqui a tua mulher.

— Nunca, — respondeu Pedro, voltando a cabeça e fazendo uma horrível careta.

— Antes a primeira; mas não quero nem uma nem outra...

— Acho-te bem difícil, meu amigo, mas não importa. A primeira que encontrarmos agora é preciso que aceites, qualquer que seja.

— Perfeitamente, e seja o que for, não será jamais coisa pior.

E, continuando o seu caminho, encontraram outra velha, curvada sobre um bastão nodoso, e arrastando com dificuldade os pés; além disso, era corcunda e zarolha, não tinha na boca senão dois dentes compridos e negros, que estremeciam a cada passo que ela dava.

Dir-se-ia uma verdadera feiticeira. O seu corpo era coberto de sujos molambos, e, tão mal cheirosos, que causavam náuseas ao mais forte estômago.

— Agora não podes mais recusar, Pedro; eis a tua mulher. — disse Jesus.

O pobre Pedro soltou um grande suspiro, voltou a cabeça de desgosto, e não pronunciou uma palavra.

— Não há que hesitar, — continuou o Salvador, é preciso que a desposes, já que desdenhaste as outras, que eram talvez um pouco melhores.

— Casarei na primeira aldeia que encontrarmos.

E continuaram o caminho acompanhados da velha, que apesar da sua idade e do seu miserável estado, estava satisfeita de encontrar enfim com quem casar. Mas Pedro não queria caminhar ao lado dela, nem mesmo olhá-la, e Nosso Senhor gracejava, dizendo que fosse mais galante com a sua noiva, que lhe desse o braço. Ele marchava alguns passos atrás, com a cabeça baixa e muito triste.

Um milagre de Jesus
Chegaram assim a uma forja. Havia ali um ferreiro muito afamado no país e de quem não se falava senão com respeito, chamando-o sempre grande ferreiro; o primeiro de todos os ferreiros.

— Entremos um pouco nesta forja, — disse Nosso Senhor aos seus companheiros de viagem.

Entraram todos quatros, e Jesus disse ao mestre ferreiro:

— Dê-me licença, ferreiro, de fazer uma boa têmpera sobre a sua bigorna, pois também sou ferreiro.

O ferreiro olhou com desdém para aquele que lhe falara, ergueu os ombros e não respondeu; mas o seu ajudante disse:

— Não é assim, meu bravo, que se fala a meu mestre; pois deveis saber que é o primeiro ferreiro do mundo, e não há igual nem mesmo que dele se aproxime.

— Como é então que preciso falar a seu mestre?

— Desta maneira (e com o chapéu na mão): "Salve, grande ferreiro, mestre, o primeiro dos ferreiros; terá a bondade de me permitir que faça uma têmpera sobre sua bigorna?

O Senhor repetiu as palavras do ajudante.

— Com prazer, agora que me falas como me convém.

A mãe do ferreiro, velha e caduca, aquecia-se ao pé do fogo; Jesus Cristo suplicou-lhe que se afastasse um pouco, e, tomando a noiva de São Pedro, atirou-a ao fogo.

— Deus! que fazes, malvado? — exclamou a mãe do ferreiro.

— Deixa-me fazer, vovó, e não se incomode; é para o seu bem, como vai ver.

— Ainda bem, — disse São Pedro, — eis-me livre desta feiticeira.

Pouco depois, Nosso Senhor, retirou a velha do fogo, com as tenazes e pondo-a sobre a bigorna, como uma massa de ferro vermelho que se tira da fornalha, disse:

— Vamos, cada um que tome um malho e bata forte.

E tomaram cada um o seu malho e bateram a velha sobre a bigorna, como se fosse de ferro; São Pedro, principalmente, malhava de rijo, com verdadeiro prazer.

Depois, Jesus tornou a pô-la no fogo, retirou-a e bateram-na de novo. E assim três vezes. À força de passar no fogo e de ser batida, a noiva de São Pedro perdeu a corcunda, tornou-se uma mulher jovem, bela e tão perfeita, que os assistentes ficaram boquiabertos.

— Então, ferreiro, mestre ferreiro, o primeiro dos ferreiros, és capaz de fazer outro tanto?, — perguntou o Salvador.

Ele nada respondeu e mal disfarçava o seu pasmo.

— Então? embora se faça chamar mestre ferreiro, o primeiro dos ferreiros achou o seu mestre, parece-me.

— É possível, mas experimentarei todavia, porque me custa crer que haja ferreiro no mundo capaz de fazer um trabalho de ofício, que eu não possa fazer também.

O ferreiro e sua velha mãe
Os três viajantes partiram então e a linda mulher acompanhou-os.

São Pedro estava agora muito feliz de ter noiva tão jovem, tão bela, e já não se fazia rogar para se aproximar dela.

Apenas deixaram a forja, o mestre ferreiro disse:

— Farei também o que aquele homem fez e não se dirá que achei enfim mestre.

E tomando sua velha mãe, atirou-a ao fogo.Mas ai! quando a retirou da fornalha, para batê-la na bigorna, a cada golpe que batiam, ele e o seu companheiro, o sangue jorrava de todos os lados, com pedaços de ossos esmagados.

Batiam cada vez mais, sem verem chegar a mulher bela e jovem que esperavam.

Eis o ferreiro desolado de ter assassinado a sua boa mãe.

Correu atrás dos três estrangeiros. Viu de longe que subiam uma encosta escarpada, e gritou-lhes:

— Eh! eh! não me ouvem? — Senhores estrangeiros!

Eles bem ouviam, mas de propósito faziam ouvidos de mercador e continuavam a caminhar.

Então o ferreiro mudou de linguagem e gritou-lhes:

— Mestre, caro mestre, em nome de Deus.

— Que há, bom homem? — perguntou Nosso Senhor. E parou.

— Ai aconteceu-me uma grande desgraça!...

— Que lhe aconteceu então mestre ferreiro, o primeiro dos ferreiros?

— Minha mãe, minha pobre mãe morreu!

— Como assim?

— Ai! quis fazer como o senhor fez para remoçá-la e matei-a!

— Como! Pois o amigo me tinha dito que era um mestre ferreiro, que não tinha igual no mundo?

— Ah sim, mas agora vejo que não valho nada ao pé do senhor, e peço-lhe perdão.

— Oh! certamente. O mestre amava sua mãe? E tem saudades dela?

— Oh! sim; tenho saudades do fundo do meu coração; restitua-ma.

— Pois bem, volte e encontrará sua mãe viva e de saúde. Mas para outra vez, seja mais modesto e não diga que não há mestre na terra.

O ferreiro voltou à forja e encontrou sua mãe, que se aquecia sentada em um banco ao pé do fogão. Foi uma boa lição, para ele não ser tão orgulhoso.

— E São Pedro casou-se? — perguntarão os nossos leitorezinhos.

A história não o diz.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Conto: "Os músicos de Bremen"

Adaptado dos irmãos Grimm

Um homem tinha um burro que, por longos anos, o tinha ajudado carregando pesados sacos de milho para o moinho. O burro, porém, já estava ficando velho e não podia mais trabalhar. Por isso, o dono pensava em vendê-lo.

O pobre animal, sabendo disso, ficou muito preocupado e decidiu fugir para Bremen."Certamente, poderei ser músico na cidade", pensava ele.

Depois de andar um pouco, encontrou um cão deitado na estrada, arfando de cansaço.

- Por que estás assim tão fatigado? perguntou o burro.

- Amigo, já estou ficando velho e, a cada dia, vou ficando mais fraco. Não posso mais caçar; por isso meu dono queria me entregar à carrocinha. Então, fugi, mas não sei como ganhar a vida.

- Pois bem, lhe disse o burro. Minha história é bem semelhante à sua. Vou tentar a vida como músico em Bremen. Venha comigo. Eu tocarei flauta e você poderá tocar tambor.

O cão aceitou o convite e seguiu com o burro. Não tinham andado muito quando encontraram um gato, muito triste, sentado no meio do caminho.

- Que tristeza é essa, companheiro? lhe perguntaram os dois.

- Como posso estar alegre, se minha vida está em perigo? respondeu o gato. Estou ficando velho e prefiro estar sentado junto ao fogo, em vez de caçar ratos. Por esse motivo, minha dona quer me afogar.

- Ora, venha conosco a Bremen, propuseram os outros. Seremos músicos e ganharemos muito dinheiro.

O gato, depois de pensar um pouco, concordou e acompanhou-os. Foram andando até que encontraram um galo, cantando tristemente, trepado numa cerca.

- Que foi que lhe aconteceu, amigo? perguntaram os três.

- Imaginem, respondeu o galo, que amanhã a dona da casa vai ter visitas para o jantar. Então, sem dó nem piedade, ordenou ao cozinheiro que me matasse para fazer uma canja.

Os outros, então, lhe propuseram:

- Nós vamos a Bremen, onde nos tornaremos músicos. Você tem boa voz. Que tal se nos reuníssemos para formar um conjunto?

O galo gostou da idéia e, juntando-se aos outros, seguiram caminho.

A cidade de Bremen ficava muito distante e eles tiveram que parar numa floresta para passar a noite. O burro e o cão deitaram-se em baixo de uma árvore grande. O gato e o galo alojaram-se nos galhos da árvore.

O galo, que se tinha colocado bem no alto, olhando ao redor, avistou uma luzinha ao longe, sinal de que deveria haver alguma casa por ali. Disse isso aos companheiros e todos acharam melhor andar até lá, pois o abrigo ali não estava muito confortável.

Começaram a andar e, cada vez mais, a luz se aproximava. Afinal, chegaram à casa. O burro, como era o maior, foi até a janela e espiou por uma fresta. À volta de uma mesa, viu quatro ladrões que comiam e bebiam fartamente. Transmitiu aos amigos o que tinha visto e ficaram todos imaginando um plano para afastar os homens dali. Por fim, resolveram aproximar-se da janela. O burro colocou-se de maneira a alcançar a borda da janela com uma das patas. O cão subiu nas costas do burro. O gato trepou nas costas do cão e o galo voou até ficar em cima do gato.

Depois, a um sinal combinado, começaram a fazer sua música juntos: o burro zurrava, o cão latia, o gato miava e o galo cacarejava. A seguir, quebrando os vidros da janela, entraram pela casa adentro, fazendo uma barulhada medonha.

Os ladrões, pensando que era um fantasma, saíram correndo para a floresta. Os quatro animais, então, sentaram-se à mesa, serviram-se de tudo, comendo e bebendo como se tivessem estado de jejum por um mês. Depois, procuraram um lugar quentinho e confortável para dormir. O burro deitou-se num monte de palha, no quintal; o cão, junto da porta; o gato, junto ao fogão, e o galo encarapitou-se numa viga do telhado. Como estavam muito cansados, logo adormeceram.

Um pouco além da meia-noite, os ladrões, vendo que a luz da casa estava apagada, resolveram voltar. O chefe do bando disse aos demais:

- Não devemos ter medo!

E mandou que um entrasse primeiro para examinar a casa. Chegando lá, o homem foi à cozinha para acender um vela. Tomando os olhos do gato, que brilhavam no escuro, por brasas, tentou neles acender um fósforo. O gato, entretanto, não gostou da brincadeira e avançou para ele, cuspindo e arranhando-o. Ele tomou um grande susto e correu para a porta dos fundos, mas o cão, que lá estava deitado, mordeu-lhe a perna. O ladrão saiu correndo para o quintal, mas, ao passar pelo burro, levou um coice. O galo, que acordara com o barulho, cantou bem alto:

- Có, có, ró, có!!!!

Correndo como louco, o ladrão foi se reunir aos outros, a quem contou:

- Lá dentro há uma horrível bruxa de olhos de fogo que me arranhou com suas unhas afiadas e me cuspiu no rosto. Perto da porta, há um homem mau que me passou um canivete na perna. No quintal, há um monstro escuro, que me bateu com um pedaço de pau. Além disso tudo, no telhado está sentado um juiz, que gritou bem alto: "- Traga aqui o patife!!!"... Acho que não devemos voltar lá... é muito perigoso!!

Depois disso, nunca mais os ladrões voltaram à casa, e os quatro músicos de Bremen sentiam-se muito bem lá, onde faziam suas músicas e viviam despreocupados.

De vez em quando alguém das redondezas os chamavam e lá iam eles, felizes e contentes, tocar a sua música.


***

Bremen é uma cidade do Norte da Alemanha, com cerca de 1 milhão de habitantes, onde existe o mais antigo porto da Alemanha. Um dos seus atrativos é a estátua dos quatro músicos, da fábula registrada pelos irmãos Jacob e Wilheim Grimm, no século XVIII.
Ilustração: peregrinacultural.files.wordpress.com

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Conto: "O mais valioso dos colares"

Usar, por alguns dias, a pulseira da mãe, era o sonho de consumo do pequeno Pedro, de seis anos de idade. Eles eram pobres, e a pulseira não tinha muito valor, mas tanto o garoto insistiu que a mãe lhe entregou, recomendando que tomasse cuidado.
Pedro colocou o cordão no pulso e se sentiu o menino mais feliz do bairro.
Jogava futebol com os amigos, de pulseira. Ia comprar pão, com a pulseira, e na escola, ele exibia sua preciosidade sempre que podia.
As semanas se passaram e, como sempre acontece com as crianças, um dia aconteceu com Pedro. Uma distração, e ele se deu conta de que havia esquecido a pulseira em algum lugar. Procurou por todos os cantos e... nada.
Ele estava sozinho em casa. A mãe estava no trabalho. Mas, e quando ela chegasse, como lhe contaria a tragédia?
Mil preocupações surgiram naquela cabeça infantil. E a mais cruel era a de ter perdido o que ele considerava ser o único tesouro de sua mãe.
Depois de muitas cogitações, tomou uma difícil decisão: iria embora de casa.
Jogou algumas roupas dentro da velha sacola, e saiu porta afora.
Não foi muito longe e ouviu uma voz bem conhecida... Era o Sr. Severino, um velhinho bom que morava na vizinhança.
- Ei, aonde você vai com essa trouxa nas costas, Pedro? - Vou embora, respondeu, cabisbaixo, o menino. - Mas a sua mãe não está em casa. É melhor você esperar que ela chegue, senão ela ficará aflita quando não o encontrar.
O garoto costumava ouvir os mais velhos, então voltou, é claro, na companhia do velho Severino. Quando a mãe chegou, já estava escuro. Mal entrou e já sentiu algo no ar, pois as mães sempre sentem quando tem alguma coisa errada com seus filhos.
- O que houve, Sr. Severino?, perguntou logo.
Ele se aproximou e contou baixinho o que havia acontecido. Ela entrou no quarto onde o pequeno Pedro estava escondido e o abraçou com ternura.
- Meu filho, você ia embora sem avisar a mamãe? Por que ia fazer isso, meu anjo?
- Mãe, lembra daquela pulseira que você me emprestou e me pediu para ter cuidado?
- Sim, disse ela.
- Eu não sei como aconteceu, mas a perdi, mãe. Quando notei, eu procurei, procurei, mas não achei. Então fiquei com medo e com vergonha, e por isso eu ia embora de casa, prá não ver você triste.
- Ora, filho, eu ia ficar muito triste se você tivesse ido. Nunca mais pense nisso!
- E a pulseira? Perguntou o menino, mais aliviado.
- Ah, meu anjo, aquela pulseira tinha pouco valor. Um dia, quem sabe, nós compramos outra.
- Mãe, eu quero lhe dar um belo colar. Você sabe quanto custa um?
- Não faço idéia, mas já tenho o colar mais valioso do mundo. E sabe qual é?
- Não, mãe, eu nunca vi você de colar.
- Pois bem, disse a mãe, puxando os bracinhos do filho e os envolvendo no pescoço.
- Filho, o seu abraço é o colar mais valioso do mundo, para mim. E eu desejo tê-lo para sempre. Promete que nunca mais vai pensar em ir embora?
Pedro sorriu, aliviado, e encheu o rosto da mãezinha de beijos.

***
Redação do Momento Espírita
Pintura de Mary Cassat

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Conto: "Toalha de mesa"

Um novo pastor, recentemente formado, e sua esposa, que foram encarregados de reabrir uma igreja no bairro de Brooklyn, NY, chegaram no início de outubro, entusiasmados com a oportunidade.

Quando viram a igreja, observaram que havia muitos estragos e um grande trabalho a ser feito.

Sem se deixar abater, estabeleceram como meta deixar tudo pronto para o primeiro serviço: o culto de Natal.
Trabalharam sem descanso, consertando o telhado... refazendo o piso... pintando... e, muito antes do Natal, em 18 de dezembro, tudo estava pronto!

Mas, no dia seguinte, 19 de dezembro, desabou uma terrível tempestade, que se alongou por dois dias. No dia 21, o pastor foi até a igreja. Seu coração doeu... viu que o telhado tinha quebrado e que uma grande área do revestimento de gesso decorado, da parede do santuário, logo atrás do púlpito, havia caído. O pastor, enquanto limpava o chão, pensava em como resolver a situação.

No caminho de casa, pensando adiar o culto de Natal, observava as vitrines, enfeitadas para a época, quando notou um bazar beneficente e parou por instantes.

Uma linda toalha de mesa, de crochê, na cor marfim, com um crucifixo delicadamente bordado no centro chamou-lhe a atenção. Era do tamanho exato para cobrir o estrago atrás do púlpito. Comprou-a e voltou para a igreja.

Começou a nevar. Apressou seus passos e, quando chegava à porta da igreja, uma velha senhora vinha correndo em direção contrária tentando pegar o ônibus, o que não conseguiu.

O pastor convidou-a a entrar para esperar pelo próximo, abrigando-se do frio. Ela sentou-se num banco e nem prestava atenção no pastor que já providenciava a instalação da toalha de mesa na parede. Ao terminar, afastou-se e pôde admirar o quanto a toalha era linda e servia perfeitamente para esconder o estrago.

Então, o pastor notou a velha encaminhando-se para ele. Seu rosto estava lívido e perguntou:
- Pastor, onde o senhor encontrou esta toalha de mesa?

O pastor contou a história. A mulher pediu-lhe que examinasse o canto direito inferior para encontrar as iniciais EBG bordadas. O pastor fez o que a mulher pediu e, intrigado, confirmou.
A mulher disse:
- Estas são as minhas iniciais.
E contou que fez esta toalha de mesa há 35 anos, na Áustria. Contou que, antes da guerra, ela e seu marido eram "bem-de-vida". Quando os nazistas invadiram seu país combinaram fugir; ela iria antes e seu marido a seguiria uma semana depois. Ela foi capturada, trancada numa prisão e nunca mais viu seu marido e sua casa.

O pastor ofereceu a toalha, mas, ela recusou, dizendo que estava num lugar muito apropriado. Insistindo, ofereceu-se para levá-la até sua casa; era o mínimo que poderia fazer. Ela morava em Staten Island e tinha passado o dia em Brooklin para um serviço de faxina.

No dia de Natal a igreja estava quase cheia. Foi um lindo trabalho.
Ao final, o pastor e sua esposa cumprimentavam os fiéis que iam saindo, quando notaram um velho homem, que o pastor reconheceu pela vizinhança, sentado, atônito. O pastor aproximou-se e, antes que dissesse palavra, o velho perguntou:

- Onde o senhor conseguiu a toalha de mesa da parede? Ela é idêntica a uma que minha mulher fez, muitos anos atrás, quando vivíamos na Áustria, antes da guerra. Como poderiam existir duas toalhas tão parecidas?

Imediatamente, o pastor entendeu o que tinha acontecido e disse:
- Venha... eu vou levá-lo a um lugar que o senhor vai gostar muito.

No caminho, o velho contou a mesma história da mulher. Ele, antes de poder fugir, há 35 anos, também havia sido preso e nunca mais viu sua mulher ou sua casa.
Ao chegar à mesma casa onde deixara a mulher, três dias antes, ajudou o velho a subir os três lances de escadas e bateu na porta.

Creio que não há necessidade de se contar o resto da história. Quem disse que Deus não trabalha de maneira misteriosa?
***
Extraído do site http://www.novaera.org/

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Conto: "Reconstruindo o mundo"

O pai estava tentando ler o jornal, mas o filho pequeno não parava de perturbá-lo. Já cansado com aquilo, arrancou uma folha – que mostrava o mapa do mundo – cortou-a em vários pedaços, e entregou-a ao filho.
- Pronto, aí tem algo para você fazer. Eu acabo de lhe dar um mapa do mundo, e quero ver se você consegue montá-lo exatamente como é.
Voltou a ler seu jornal, sabendo que aquilo ia manter o menino ocupado pelo resto do dia. Quinze minutos depois, porém, o garoto voltou com o mapa.
- Sua mãe andou lhe ensinando geografia? – perguntou o pai, aturdido.
- Nem sei o que é isso – respondeu o menino. – Acontece que, do outro lado da folha, estava o retrato de um homem. E, uma vez que eu consegui reconstruir o homem, eu também reconstruí o mundo.


***
Extraído de "Histórias para pais, filhos e netos" - Paulo Coelho
Foto de Magomed Magomedagaev

Ouça a estória "O galo rouco e o rato esperto", da Cigana Contadora de Estórias!

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Apresentações de contadores de estórias

Palavra Cantada - O rato
Clara Haddad - O coelho e o baobá

Cia Ópera na Mala - A sopa de pedras do Pedro

Cia Ópera na Mala - Pedro Malazartes e o pássaro raro

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