sexta-feira, 29 de maio de 2009

Conto: "Os músicos de Bremen"

Adaptado dos irmãos Grimm

Um homem tinha um burro que, por longos anos, o tinha ajudado carregando pesados sacos de milho para o moinho. O burro, porém, já estava ficando velho e não podia mais trabalhar. Por isso, o dono pensava em vendê-lo.

O pobre animal, sabendo disso, ficou muito preocupado e decidiu fugir para Bremen."Certamente, poderei ser músico na cidade", pensava ele.

Depois de andar um pouco, encontrou um cão deitado na estrada, arfando de cansaço.

- Por que estás assim tão fatigado? perguntou o burro.

- Amigo, já estou ficando velho e, a cada dia, vou ficando mais fraco. Não posso mais caçar; por isso meu dono queria me entregar à carrocinha. Então, fugi, mas não sei como ganhar a vida.

- Pois bem, lhe disse o burro. Minha história é bem semelhante à sua. Vou tentar a vida como músico em Bremen. Venha comigo. Eu tocarei flauta e você poderá tocar tambor.

O cão aceitou o convite e seguiu com o burro. Não tinham andado muito quando encontraram um gato, muito triste, sentado no meio do caminho.

- Que tristeza é essa, companheiro? lhe perguntaram os dois.

- Como posso estar alegre, se minha vida está em perigo? respondeu o gato. Estou ficando velho e prefiro estar sentado junto ao fogo, em vez de caçar ratos. Por esse motivo, minha dona quer me afogar.

- Ora, venha conosco a Bremen, propuseram os outros. Seremos músicos e ganharemos muito dinheiro.

O gato, depois de pensar um pouco, concordou e acompanhou-os. Foram andando até que encontraram um galo, cantando tristemente, trepado numa cerca.

- Que foi que lhe aconteceu, amigo? perguntaram os três.

- Imaginem, respondeu o galo, que amanhã a dona da casa vai ter visitas para o jantar. Então, sem dó nem piedade, ordenou ao cozinheiro que me matasse para fazer uma canja.

Os outros, então, lhe propuseram:

- Nós vamos a Bremen, onde nos tornaremos músicos. Você tem boa voz. Que tal se nos reuníssemos para formar um conjunto?

O galo gostou da idéia e, juntando-se aos outros, seguiram caminho.

A cidade de Bremen ficava muito distante e eles tiveram que parar numa floresta para passar a noite. O burro e o cão deitaram-se em baixo de uma árvore grande. O gato e o galo alojaram-se nos galhos da árvore.

O galo, que se tinha colocado bem no alto, olhando ao redor, avistou uma luzinha ao longe, sinal de que deveria haver alguma casa por ali. Disse isso aos companheiros e todos acharam melhor andar até lá, pois o abrigo ali não estava muito confortável.

Começaram a andar e, cada vez mais, a luz se aproximava. Afinal, chegaram à casa. O burro, como era o maior, foi até a janela e espiou por uma fresta. À volta de uma mesa, viu quatro ladrões que comiam e bebiam fartamente. Transmitiu aos amigos o que tinha visto e ficaram todos imaginando um plano para afastar os homens dali. Por fim, resolveram aproximar-se da janela. O burro colocou-se de maneira a alcançar a borda da janela com uma das patas. O cão subiu nas costas do burro. O gato trepou nas costas do cão e o galo voou até ficar em cima do gato.

Depois, a um sinal combinado, começaram a fazer sua música juntos: o burro zurrava, o cão latia, o gato miava e o galo cacarejava. A seguir, quebrando os vidros da janela, entraram pela casa adentro, fazendo uma barulhada medonha.

Os ladrões, pensando que era um fantasma, saíram correndo para a floresta. Os quatro animais, então, sentaram-se à mesa, serviram-se de tudo, comendo e bebendo como se tivessem estado de jejum por um mês. Depois, procuraram um lugar quentinho e confortável para dormir. O burro deitou-se num monte de palha, no quintal; o cão, junto da porta; o gato, junto ao fogão, e o galo encarapitou-se numa viga do telhado. Como estavam muito cansados, logo adormeceram.

Um pouco além da meia-noite, os ladrões, vendo que a luz da casa estava apagada, resolveram voltar. O chefe do bando disse aos demais:

- Não devemos ter medo!

E mandou que um entrasse primeiro para examinar a casa. Chegando lá, o homem foi à cozinha para acender um vela. Tomando os olhos do gato, que brilhavam no escuro, por brasas, tentou neles acender um fósforo. O gato, entretanto, não gostou da brincadeira e avançou para ele, cuspindo e arranhando-o. Ele tomou um grande susto e correu para a porta dos fundos, mas o cão, que lá estava deitado, mordeu-lhe a perna. O ladrão saiu correndo para o quintal, mas, ao passar pelo burro, levou um coice. O galo, que acordara com o barulho, cantou bem alto:

- Có, có, ró, có!!!!

Correndo como louco, o ladrão foi se reunir aos outros, a quem contou:

- Lá dentro há uma horrível bruxa de olhos de fogo que me arranhou com suas unhas afiadas e me cuspiu no rosto. Perto da porta, há um homem mau que me passou um canivete na perna. No quintal, há um monstro escuro, que me bateu com um pedaço de pau. Além disso tudo, no telhado está sentado um juiz, que gritou bem alto: "- Traga aqui o patife!!!"... Acho que não devemos voltar lá... é muito perigoso!!

Depois disso, nunca mais os ladrões voltaram à casa, e os quatro músicos de Bremen sentiam-se muito bem lá, onde faziam suas músicas e viviam despreocupados.

De vez em quando alguém das redondezas os chamavam e lá iam eles, felizes e contentes, tocar a sua música.


***

Bremen é uma cidade do Norte da Alemanha, com cerca de 1 milhão de habitantes, onde existe o mais antigo porto da Alemanha. Um dos seus atrativos é a estátua dos quatro músicos, da fábula registrada pelos irmãos Jacob e Wilheim Grimm, no século XVIII.
Ilustração: peregrinacultural.files.wordpress.com

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Conto: "O mais valioso dos colares"

Usar, por alguns dias, a pulseira da mãe, era o sonho de consumo do pequeno Pedro, de seis anos de idade. Eles eram pobres, e a pulseira não tinha muito valor, mas tanto o garoto insistiu que a mãe lhe entregou, recomendando que tomasse cuidado.
Pedro colocou o cordão no pulso e se sentiu o menino mais feliz do bairro.
Jogava futebol com os amigos, de pulseira. Ia comprar pão, com a pulseira, e na escola, ele exibia sua preciosidade sempre que podia.
As semanas se passaram e, como sempre acontece com as crianças, um dia aconteceu com Pedro. Uma distração, e ele se deu conta de que havia esquecido a pulseira em algum lugar. Procurou por todos os cantos e... nada.
Ele estava sozinho em casa. A mãe estava no trabalho. Mas, e quando ela chegasse, como lhe contaria a tragédia?
Mil preocupações surgiram naquela cabeça infantil. E a mais cruel era a de ter perdido o que ele considerava ser o único tesouro de sua mãe.
Depois de muitas cogitações, tomou uma difícil decisão: iria embora de casa.
Jogou algumas roupas dentro da velha sacola, e saiu porta afora.
Não foi muito longe e ouviu uma voz bem conhecida... Era o Sr. Severino, um velhinho bom que morava na vizinhança.
- Ei, aonde você vai com essa trouxa nas costas, Pedro? - Vou embora, respondeu, cabisbaixo, o menino. - Mas a sua mãe não está em casa. É melhor você esperar que ela chegue, senão ela ficará aflita quando não o encontrar.
O garoto costumava ouvir os mais velhos, então voltou, é claro, na companhia do velho Severino. Quando a mãe chegou, já estava escuro. Mal entrou e já sentiu algo no ar, pois as mães sempre sentem quando tem alguma coisa errada com seus filhos.
- O que houve, Sr. Severino?, perguntou logo.
Ele se aproximou e contou baixinho o que havia acontecido. Ela entrou no quarto onde o pequeno Pedro estava escondido e o abraçou com ternura.
- Meu filho, você ia embora sem avisar a mamãe? Por que ia fazer isso, meu anjo?
- Mãe, lembra daquela pulseira que você me emprestou e me pediu para ter cuidado?
- Sim, disse ela.
- Eu não sei como aconteceu, mas a perdi, mãe. Quando notei, eu procurei, procurei, mas não achei. Então fiquei com medo e com vergonha, e por isso eu ia embora de casa, prá não ver você triste.
- Ora, filho, eu ia ficar muito triste se você tivesse ido. Nunca mais pense nisso!
- E a pulseira? Perguntou o menino, mais aliviado.
- Ah, meu anjo, aquela pulseira tinha pouco valor. Um dia, quem sabe, nós compramos outra.
- Mãe, eu quero lhe dar um belo colar. Você sabe quanto custa um?
- Não faço idéia, mas já tenho o colar mais valioso do mundo. E sabe qual é?
- Não, mãe, eu nunca vi você de colar.
- Pois bem, disse a mãe, puxando os bracinhos do filho e os envolvendo no pescoço.
- Filho, o seu abraço é o colar mais valioso do mundo, para mim. E eu desejo tê-lo para sempre. Promete que nunca mais vai pensar em ir embora?
Pedro sorriu, aliviado, e encheu o rosto da mãezinha de beijos.

***
Redação do Momento Espírita
Pintura de Mary Cassat

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Conto: "Toalha de mesa"

Um novo pastor, recentemente formado, e sua esposa, que foram encarregados de reabrir uma igreja no bairro de Brooklyn, NY, chegaram no início de outubro, entusiasmados com a oportunidade.

Quando viram a igreja, observaram que havia muitos estragos e um grande trabalho a ser feito.

Sem se deixar abater, estabeleceram como meta deixar tudo pronto para o primeiro serviço: o culto de Natal.
Trabalharam sem descanso, consertando o telhado... refazendo o piso... pintando... e, muito antes do Natal, em 18 de dezembro, tudo estava pronto!

Mas, no dia seguinte, 19 de dezembro, desabou uma terrível tempestade, que se alongou por dois dias. No dia 21, o pastor foi até a igreja. Seu coração doeu... viu que o telhado tinha quebrado e que uma grande área do revestimento de gesso decorado, da parede do santuário, logo atrás do púlpito, havia caído. O pastor, enquanto limpava o chão, pensava em como resolver a situação.

No caminho de casa, pensando adiar o culto de Natal, observava as vitrines, enfeitadas para a época, quando notou um bazar beneficente e parou por instantes.

Uma linda toalha de mesa, de crochê, na cor marfim, com um crucifixo delicadamente bordado no centro chamou-lhe a atenção. Era do tamanho exato para cobrir o estrago atrás do púlpito. Comprou-a e voltou para a igreja.

Começou a nevar. Apressou seus passos e, quando chegava à porta da igreja, uma velha senhora vinha correndo em direção contrária tentando pegar o ônibus, o que não conseguiu.

O pastor convidou-a a entrar para esperar pelo próximo, abrigando-se do frio. Ela sentou-se num banco e nem prestava atenção no pastor que já providenciava a instalação da toalha de mesa na parede. Ao terminar, afastou-se e pôde admirar o quanto a toalha era linda e servia perfeitamente para esconder o estrago.

Então, o pastor notou a velha encaminhando-se para ele. Seu rosto estava lívido e perguntou:
- Pastor, onde o senhor encontrou esta toalha de mesa?

O pastor contou a história. A mulher pediu-lhe que examinasse o canto direito inferior para encontrar as iniciais EBG bordadas. O pastor fez o que a mulher pediu e, intrigado, confirmou.
A mulher disse:
- Estas são as minhas iniciais.
E contou que fez esta toalha de mesa há 35 anos, na Áustria. Contou que, antes da guerra, ela e seu marido eram "bem-de-vida". Quando os nazistas invadiram seu país combinaram fugir; ela iria antes e seu marido a seguiria uma semana depois. Ela foi capturada, trancada numa prisão e nunca mais viu seu marido e sua casa.

O pastor ofereceu a toalha, mas, ela recusou, dizendo que estava num lugar muito apropriado. Insistindo, ofereceu-se para levá-la até sua casa; era o mínimo que poderia fazer. Ela morava em Staten Island e tinha passado o dia em Brooklin para um serviço de faxina.

No dia de Natal a igreja estava quase cheia. Foi um lindo trabalho.
Ao final, o pastor e sua esposa cumprimentavam os fiéis que iam saindo, quando notaram um velho homem, que o pastor reconheceu pela vizinhança, sentado, atônito. O pastor aproximou-se e, antes que dissesse palavra, o velho perguntou:

- Onde o senhor conseguiu a toalha de mesa da parede? Ela é idêntica a uma que minha mulher fez, muitos anos atrás, quando vivíamos na Áustria, antes da guerra. Como poderiam existir duas toalhas tão parecidas?

Imediatamente, o pastor entendeu o que tinha acontecido e disse:
- Venha... eu vou levá-lo a um lugar que o senhor vai gostar muito.

No caminho, o velho contou a mesma história da mulher. Ele, antes de poder fugir, há 35 anos, também havia sido preso e nunca mais viu sua mulher ou sua casa.
Ao chegar à mesma casa onde deixara a mulher, três dias antes, ajudou o velho a subir os três lances de escadas e bateu na porta.

Creio que não há necessidade de se contar o resto da história. Quem disse que Deus não trabalha de maneira misteriosa?
***
Extraído do site http://www.novaera.org/

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Conto: "Reconstruindo o mundo"

O pai estava tentando ler o jornal, mas o filho pequeno não parava de perturbá-lo. Já cansado com aquilo, arrancou uma folha – que mostrava o mapa do mundo – cortou-a em vários pedaços, e entregou-a ao filho.
- Pronto, aí tem algo para você fazer. Eu acabo de lhe dar um mapa do mundo, e quero ver se você consegue montá-lo exatamente como é.
Voltou a ler seu jornal, sabendo que aquilo ia manter o menino ocupado pelo resto do dia. Quinze minutos depois, porém, o garoto voltou com o mapa.
- Sua mãe andou lhe ensinando geografia? – perguntou o pai, aturdido.
- Nem sei o que é isso – respondeu o menino. – Acontece que, do outro lado da folha, estava o retrato de um homem. E, uma vez que eu consegui reconstruir o homem, eu também reconstruí o mundo.


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Extraído de "Histórias para pais, filhos e netos" - Paulo Coelho
Foto de Magomed Magomedagaev

domingo, 24 de maio de 2009

Apostila: "Conte uma estória" - Aaron Shepard



Conte uma estória!

um guia para a contação de estórias
por Aaron Shepard


Traduzido e revisado por Gabriela Kopinits, a Cigana Contadora de Estórias


Reproduzido do livreto publicado primeiro por Simple Productions, Arcata, California, 1990


Copyright © 1990, 1996 by Aaron Shepard. Pode ser livremente copiado e partilhado para qualquer fim não comercial , desde que nenhum texto seja alterado ou omitido.


Você pode contar uma estória! E quanto mais você contar, melhor você será! Então, não seja tímido, arrisque-se, dê o mergulho, mostre no que você é bom, engrene a marcha, arme o palco, enfrente a tempestade, eleve suas visões – mas, o que quer que você faça – CONTE UMA ESTÓRIA!

Conteúdo


1. Encontrando sua estória
2. Preparando sua estória
3. Contando sua estória
4. Dicas finais

Encontrando sua estória


Seu primeiro passo é encontrar uma estória. Não uma estória qualquer. Encontre uma estória que você ame! Você a contará frequentemente, e você quer apreciá-la toda vez que o fizer.
Uma estória para contar poderia ser:
· Um conto folclórico, ou seja, uma estória da tradição oral. Poderia ser um conto de fadas, um feito heróico, um conto de humor, uma facécia, um conto de sabedoria, uma fábula, uma estória de amor, de fantasma, um mito ou uma lenda.
· Um conto literário, de um único escritor, originalmente destinado a leitura.
· Uma história da vida real, da História ou de uma experiência pessoal.
Para muitos iniciantes, contos folclóricos são os mais fáceis, porque eles são feitos para contar. Eles são simples, diretos e vívidos, com o auxílio automático da memória. Então, de agora em diante, vamos focar nos contos folclóricos.

Você pode reunir contos folclóricos de livros, gravações de contação de estórias e até por ouvir dizer. Encontre livros e gravações tanto nas sessões para adultos e crianças na sua biblioteca ou livraria.
Comece com contos curtos – uma a três páginas de texto, ou uns poucos minutos de gravação. Procure estórias com ação clara, personagens fortes e estrutura simples. Claro, escolha uma estória que também seja adequada aos seus ouvintes, se você sabe quem serão eles. Recontações modernas são as mais fáceis para se trabalhar, porque elas já foram refinadas e adaptadas para ouvintes em nossa cultura. Mas você também pode alterar uma estória para se adequar a você mesmo ou à sua audiência.
Contadores de estórias profissionais devem ser cuidadosos quanto à proteção dos direitos editoriais das estórias que querem contar, mas isso é menos importante para um amador. Se você se baseou em apenas uma versão da estória, é cortês pelo menos mencionar sua fonte. Fique alerta, contudo, pois muitos contadores de estórias – incluindo muitos nativos americanos – sentem que você roubou as estórias deles se você as conta sem permissão.

Preparando sua estória

Contadores aprendem suas estórias de muitas maneiras diferentes. Alguns lêem ou escutem uma estória de novo e de novo. Alguns meditam sobre ela. Alguns digitam ou copiam manualmente a estória. Alguns desenham gráficos. Alguns começam contando a estória imediatamente.
Qualquer que seja o modo como você faz, você deve absorver a estória até que ela se torne sua segunda natureza. Encontre o melhor caminho para você.
Algumas partes da estória podem ser memorizadas, palavra por palavra – lindos começos e finais, diálogos importantes, expressões coloridas, rimas e frases que se repetem. Mas não tente memorizer toda uma estória desse modo. Recitação estrita cria uma distância dos seus ouvintes que é difícil de transport.
Ao invés, visualize a estória. Veja as cenas na sua mente, tão claramente quanto você puder. Mais tarde, essas imagens vão ajudar você a recriar sua estória quando você a contar – ainda que você não as evoque conscientemente.
É melhor praticar sua estória com um espelho. Pode ser um espelho de verdade, or uma gravação de áudio ou em vídeo, ou um amigo. Qualquer coisa que ajude você a ver como você está se saindo.
Primeiro pratique para pegar a linha da estória. Sua versão não vai transmitir tudo da estória que você encontrou, mas deve transmitir o suficiente para ter sentido. Então, uma vez que a estória esteja firme em sua mente, foque em como você a conta.
Use repetição. Em contos folclóricos, os acontecimentos frequentemente se repetem três vezes – um número mágico. Preste atenção especial às rimas e frases repetidas. Repetição ajuda seus ouvintes a se fixarem na estória pois fornece marcos familiares.
Junto com a repetição, use variação. Varie o tom, a cadência e o volume de sua voz, sua velocidade, seus ritmos, sua articulação (suave ou aguda). Use pausas. Lembre, variar prende a atenção.
Use gestos, mas apenas aqueles que ajudem a estória. Use-os para reproduzir a ação, ou somente para ênfase. Faça-os grandes! Gestos mantém os olhos em você.
Em sua estória, preste atenção especial em começos e finais. Você pode querer praticar uma introdução junto com a estória. Essa introdução pode dizer algo sobre a estória ou sobre você. Mas não entregue o enredo!
Finais devem ser claros, de modo que seus ouvintes saibam que sua estória terminou sem que você precise dizer a eles. Você pode fazer isso desacelerando e adicionando ênfase. Por exemplo, muitos finais de estória usam um “devagar três” – “felizes para sempre”, “e foi assim que terminou”, “e nunca mais ele foi visto”.
Preste atenção especial em como você descreve seus personagens. Bons personagens dão vida à estória – então, ponha vida neles, com rostos, vozes, gestos, postura corporal. Tente fazer cada um diferente o bastante para que eles possam ser facilmente identificados.
Quando descrever dois personagens conversando, tente um truque chamado “foco cruzado”: faça cada um encarar um ângulo de 45 graus diferente.
Você contará estórias no seus melhor se você preparar não somente a sia estória, mas você mesmo. Sua voz e corpo são seus instrumentos, e ajuda usá-los bem.
Para projetar e sustentar sua voz, você deve respirar profunda e corretamente. Para checar isso, coloque sua mão no seu estômago. Enquanto você inspira e seus pulmões se expandem, você deve sentir o seu estômago pressionando para fora. Muitas pessoas fazem o oposto, segurando seus estômagos e respirando apenas com a parte de cima do peito. Também se certifique de manter suas costas retas, para que seus pulmões possam se expander completamente.
Não force muito sua voz ou a use de forma artificial (exceto talvez quando falar como um personagem). Para evitar fadiga, relaxe sua garganta e músculos mandibulares, e o resto do seu corpo também. Um grande e alto suspiro ajudará nisso. Também tente o “bocejo do leão” – abra sua boca bem aberto e estique sua língua o máximo que conseguir.
Pronuncie cada som de cada palavra distintamente. Exercícios de língua são bons para deixá-la mais solta.


Contando sua estória

Não pense que você tem que ser perfeito na primeira vez que você contar uma estória. É pouco provável. Mas, se você ama sua estória e a preparou razoavelmente bem, certamente você vai dar prazer aos seus ouvintes e a você mesmo. E, a cada vez que você contra a estória, você e a estória vão ficar melhores.
Se possível, conte sua estória primeiro para amigos em um grupo pequeno. À medida que você ganha auto-confiança, apresente-se para grupos maiores, menos intimistas. Mais cedo do que você pensa, você não vai se importar em se apresentar numa sala cheia de estranhos.
Contadores de estórias têm seus próprios estilos, diferindo imensamente. Se uma sugestão aqui não se encaixa em sua ideia de como você quer contar estórias, ignore-a. Não tenha medo de tentar algo diferente, se lhe parece certo.
Um bom espaço para contação é confortável, intimista e livre de distrações. Cheque o espaço com antecedência para que você identifique problemas e providencie necessidades especiais – um banquinho, um copo de água. Você pode também querer um tempo a sós antes de se apresentar para se preparar, ou para aquecer sua voz e seu corpo.
Dê aos seus ouvintes sua força total. Dirija sua voz à última fileira. Faça suas palavras soarem. Evite lixo verbal como “hummm” ou “você sabe”. Sente-se ou fique de pé, mas encare sua audiência de frente e com a espinha ereta. Nada de ficar torcendo as mãos, colocando-as nos bolsos ou ficar mudando de apoio, de um pé para o outro.
Contar estórias é mágico em parte porque é pessoal – então, faça um contato pessoal com seus ouvintes. Fale com eles – não para eles – e não tenha medo de conversar com eles.
Olhe-os nos olhos. Se houver muitos deles, ou se você não conseguir vê-los todos, olhe mais para os da frente. Se alguns não estão prestando atenção, foque naqueles que estão.
Enquanto você conta sua estória, leve o tempo que precisar, e dê tempo aos seus ouvintes – tempo para “ver” a estória, tempo para rir, tempo para refletir, tempo para se segurarem na beirada de suas cadeiras para o que vem a seguir. É fácil ir depressa demais, difícil ir devagar demais. Se você estiver perdendo a atenção deles, você pode precisar de ir um pouco mais devagar! Depois da estória, certifique-se de dar tempo para a audiência apreciar você.
Contar estórias é interação. À medida que seus ouvintes respondem à sua estória, deixe a sua estória responder aos seus ouvintes. Faça sua voz e gestos “maiores” ou “menores”. Estique ou encurta partes da estória. Preste atenção ao que funciona e ao que não, de modo que, na próxima vez, você possa mudar, adicionar ou subtrair algo.
Acima de tudo, confie em você, em sua audiência e em sua estória. Lembre-se, qualquer um que se aproxime para ouvir um contador de estórias já está do seu lado. Apenas ser um contador de estórias é mágico – mesmo antes de que você diga uma palavra.

Dicas finais


Aqui vão alguns modos de ir além com a contação de estórias.
Veja e ouça tantos bons contadores quanto você possa. Você vai apreender técnicas de apresentação, estórias e a magia geral da contação. Festivais de contadores de estórias são eventos maravilhosos que acontecem por toda a América do Norte e Reino Unido.
Leia coleções de contos folclóricos. Você não apenas vai encontrar estórias para contar, mas vai desenvolver o senso do que faz um conto. Isso vai ajudar se você quiser alterar ou criar um conto.
Tome aulas. Muitas faculdades, universidades e outras organizações patrocinam cursos. É um método bastante seguro de começar a contar estórias, com apoio e comentários úteis.
Junte-se a um grupo local de contadores de estórias. Muitas comunidades têm grupos que se encontram para experimentar estórias ou organizar apresentações.
Acima de tudo, conte, conte, conte, tão frequentemente quanto você puder. É o melhor caminho para se aprender a contar estórias!

***

O norte-americano Aaron Shepard é contador de estórias e premiado autor de livros infantis.

sábado, 23 de maio de 2009

Conto: "O burro juiz"

Monteiro Lobato

Disputava a gralha com o sabiá, afirmando que a sua voz valia a dele.
Como as outras aves rissem daquela pretensão, a bulhenta matraca de penas, furiosa, disse:
— Nada de brincadeiras. Isto é uma questão muito séria, que deve ser decidida por um juiz. Canta o sabiá, canto eu, e a sentença do julgador decidirá quem é o melhor artista. Topam?
— Topamos! piaram as aves.
Mas quem servirá de juiz? Estavam a debater este ponto, quando zurrou um burro.
— Nem de encomenda! exclamou a gralha. Está lá um juiz de primeiríssima para julgamento de música, pois nenhum animal possui maiores orelhas. Convidê-mo-lo.
Aceitou o burro o juizado e veio postar-se no centro da roda.
— Vamos lá, comecem! ordenou ele.
O sabiá deu um pulinho, abriu o bico e cantou. Cantou como só cantam sabiás, garganteando os trinos mais melodiosos e límpidos. Uma pura maravilha, que deixou mergulhado em êxtase o auditório em peso.
— Agora eu! disse a gralha, dando um passo à frente.
E abrindo a bicanca matraqueou uma grita de romper os ouvidos aos próprios surdos. Terminada a justa, o meritíssimo juiz deu a sentença:
— Dou ganho de causa à excelentíssima senhora dona Gralha, porque canta muito mais forte que mestre sabiá!

Moral da História:
Quem burro nasce, togado ou não, burro morre.

***
Extraído do site Contos do Covil

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Biografia: Monteiro Lobato - Patrono da Literatura Infantil Brasileira

Por Jussara de Barros*

O dia 18 de abril foi instituído como o Dia Nacional da Literatura Infantil, em homenagem a Monteiro Lobato.
“Um país se faz com homens e com livros”. Essa frase criada por ele demonstra a valorização que o mesmo dava à leitura e sua forte influência no mundo literário. Monteiro Lobato foi um dos maiores autores da literatura infanto-juvenil brasileira. Nascido em Taubaté, interior de São Paulo, em 18 de abril de 1882, iniciou sua carreira escrevendo contos para jornais estudantis. Em 1904 venceu o concurso literário do Centro Acadêmico XI de Agosto, época em que cursava a faculdade de Direito.
Como viveu um período de sua vida em fazendas, seus maiores sucessos fizeram referências à vida num sítio, assim criou o Jeca Tatu, um caipira muito preguiçoso.
Depois criou a história “A Menina do Nariz Arrebitado”, que fez grande sucesso. Dando sequência a esses sucessos, montou a maior obra da literatura infanto-juvenil: "O Sítio do Picapau Amarelo", que foi transformado em obra televisiva nos anos oitenta, sendo regravado no final dos anos noventa.
Dentre seus principais personagens estão D. Benta, a avó; Emília, a boneca falante; Tia Nastácia, cozinheira e seus famosos bolinhos de chuva, Pedrinho e Narizinho, netos de D. Benta; Visconde de Sabugosa, o boneco feito de sabugo de milho, Tio Barnabé, o caseiro do sítio que contava vários “causos” às crianças; Rabicó, o porquinho cor-de-rosa; dentre vários outros que foram surgindo através das diferentes histórias. Quem não se lembra do Anjinho da asa quebrada que caiu do céu e viveu grandes aventuras no sítio?
Dentre suas obras, Monteiro Lobato resgatou a imagem do homem da roça, apresentando personagens do folclore brasileiro, como o Saci Pererê, negrinho de uma perna só; a Cuca, uma jacaré muito malvada; e outros. Também enriqueceu suas obras com obras literárias da mitologia grega, bem como personagens do cinema (Walt Disney) e das histórias em quadrinhos.
Na verdade, através de sua inteligência, mostrou para as crianças como é possível aprender através da brincadeira. Com o lançamento do livro “Emília no País da Gramática”, em 1934, mostrou assuntos como adjetivos, substantivos, sílabas, pronomes, verbos e vários outros. Além desse, criou ainda "Aritmética da Emília", em 1935, com as mesmas intenções, porém com as brincadeiras se passando num pomar.
Monteiro Lobato morreu em 4 de julho de 1948, aos 66 anos de idade. No ano de 2002, foi criada uma Lei (10.402/02) que registrou o seu nascimento como Data Oficial da Literatura Infanto-juvenil.
*Pedagoga

Ouça a estória "O galo rouco e o rato esperto", da Cigana Contadora de Estórias!

Quer saber quando tem estória nova no blog?

Apresentações de contadores de estórias

Palavra Cantada - O rato
Clara Haddad - O coelho e o baobá

Cia Ópera na Mala - A sopa de pedras do Pedro

Cia Ópera na Mala - Pedro Malazartes e o pássaro raro

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