quinta-feira, 14 de maio de 2009

Texto: "Contar histórias, uma arte maior" - Celso Sisto

"Contar histórias emancipa tanto quem conta, quanto quem ouve".

Verdade lindamente expressa pelo contador de histórias, ator, escritor, ilustrador e mestre em Literatura Brasileira Celso Sisto, em seu estudo da arte de contação de histórias (e estórias), que publico abaixo, como material de apoio para quem está iniciando nessa arte, incluindo a excelente bibliografia que o Celso indica.

***

"Contar história pode ser uma sinfonia. Desde que nesta sinfonia, orquestrada com palavras, entrem todos os instrumentos: do sopro da respiração, ao metal da voz; do dedilhar do corpo, ao ribombar do olhar.
Contar histórias pode ser uma opereta. Desde que nesse gênero cênico do conto, as partes embaladas pelo ritmo da fala se alternem com o que se narra com alma.
Contar histórias pode ser uma dança coreográfica. Desde que nesta seqüência de palavras com corpos e corpos com palavras, se esteja inteiramente comprometido com a melhor maneira – e nunca a única – de se expressar o coração da palavra. E que a fala, os movimentos, passos e gestos estejam associados à emoção, e claro, à plasticidade.
Contar histórias na verdade é a união de muitas artes: da literatura, da expressão corporal, da poesia, da musica, do teatro... Não há como ignorar esse quê de performático do contar histórias. Ainda que o foco maior seja apenas a voz e o texto, projetados no espaço, para atingir uma plateia. A utilização apenas desses dois elementos, voz e texto, por si só já bastaria para caracterizar o cênico e o dramático.
Mas a palavra merece mais do que um espetáculo. A palavra na boca de quem conta é o próprio espetáculo, se com isso extrapolar-se a noção de cartilha. Se para isso o narrar, o comunicar, o dialogar, o atingir outrem, o suspender o tempo, o emocionar, estiverem conjugados de modo a transformarem um texto em objeto duplamente estético. Estético na escrita, estético na passagem para a oralidade. Impacto estético antes, durante e depois!
As palavras contadas, então, adquirem um aspecto melódico, rítmico, visual; trazem no jeito que foram ditas, uma concretude que faz o outro ver o que se narra. As palavras contadas surgem prenhes de intenção, força, emoção. As palavras contadas querem dizer muito mais do que dizem em sua camada fônica.
Então, o que é necessário para que contar histórias seja arte ao alcance de quem deseja fazê-la? Extrapolar as amarras do didático, do exemplar e do mero informativo. Saltar da obrigação de ensinamento para a noção de fruição, de prazer estético, de embelezamento da conversa trocada através de uma história, do exercício de linguagem que procura a forma adequada para dizer-se de si mesmo.
Mas duvido que uma história bem contada não produza ecos no ouvinte! Ecos que se prolongam para além do momento do narrado.
Essas marcas, visíveis e invisíveis, nem sempre se pode perceber no calor da hora. Quem ouve uma história quer sempre ser atingido, de alguma forma, quer ser atingido. Quem conta, quer igualmente experimentar o poder da palavra (não sejamos hipócritas!), o poder do encantamento, e o poder do vice-versa: marcar e ser marcado! Estamos falando de uma arte que se faz, num momento específico, irrepetível, e de uma arte do que fica, para o depois do acabado! Contar, então, é também a arte da reverberação!
E quem é que dá esse status de arte, tão cutânea, ao contar história? A dignidade de quem conta, ao lidar com a palavra, sua ou do outro. A ética de quem conta, ao usar esse instrumento de sedução, tão aberto aos mecanismos de manipulação. Não é o carimbo da biblioteca, nem a exposição na prateleira dos livros de arte da livraria, nem o lugar fixo entre as dissertações e as teses universitárias (e nós, não temos, nem ao menos, uma crítica especializada no assunto!) que garantem o lugar de arte para o contar histórias. É o fazer, “in vivo” (que é mais que “in loco”), que é este fazer que permite quase tocar o texto com as mãos, quase roçar nos olhos do ouvinte com a história, quase apresentar as infinitas possibilidades de leitura de um texto. A arte do contar histórias opera antes com a noção de sugestão, de esboço. Nenhum contar é definitivo e pronto e acabado. Toda história contada oralmente é antes de tudo, uma obra em processo, que
precisa do outro para ser completada.
Mas não basta boa intenção para fazer arte. A arte de contar exige um fazer anterior, um preparo, um domínio prévio, um conhecimento, estudo, ensaio, profundidade. E é, evidentemente, exercício de longo prazo. A arte de contar histórias é também a arte de não fazer concessões: contar bons textos, contar tendo preparado, contar para ir além do que se conta. No mínimo, técnica e emoção. Técnica e repertório. Na ordem que se preferir!
Mas agora, deixemos de lado essa noção de hierarquia (aliás, quem pode dizer o que é maior e o que é menor em arte?). Maior deve ser aquilo que você faz por inteiro. Menor pode ser aquilo que se faz de qualquer jeito, sem compromisso, sem entrega. Maior tem sido a maneira como o contar histórias tem aberto caminho nesses novos tempos de vida tumultuadamente urbana, overdose de mídia eletrônica e pressa das linguagens vídeo-clipes. Maior será sempre essa soma pessoal e social que o contar proporciona, cada vez que uma biblioteca se abre para a hora do conto e a literatura viva como projeto e não como evento, que um professor conta histórias na sua sala de aula, sem preocupações didáticas, que os teatros ou outros espaços permitem ocupações menos espetaculares, que uma família se reúne para simplesmente trocar histórias. Prefiro pensar que o contar é arte para ver, ouvir, sentir; arte para um fazer coletivo; arte para ser. De uma coisa estou certo, contar histórias emancipa tanto quem conta, quanto quem ouve. O sujeito ouvinte, e o sujeito leitor. E isso já não basta?!"

***

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABAD, Ernesto Rodríguez & BERENGUER, Maryta. Sin colorín colorado: manual práctico para aprender a contar y a jugar con los cuentos. Bahía Blanca (Argentina), Editorial Master, 2005.
BAJARD, Elie. Ler e dizer: compreensão e comunicação do texto escrito. São Paulo, Cortez, 1994.
BAKER, Augusta & GREENE, Ellin. Storytelling: art & technique. New York, R. R. Bowker Company, 1977.
BARBA, Eugenio. Além das ilhas flutuantes. Campinas, Hucitec, 1991.

BOVO, Ana Maria. Narrar, ofício trémulo: conversaciones con Jorge Dubatti. Buenos Aires, Editorial Atuel, 2002.
BROOK, Peter. A porta aberta: reflexões sobre a interpretação e o teatro. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1999.
BRYANT, Sara Cone. El arte de contar cuentos. Barcelona, Biblària, 1995.
BURNIER, Luís Otávio. A arte de ator: da técnica à representação. Campinas,SP; Editora da UNICAMP, 2001.
BUSATTO, Cléo. Contar e encantar: pequenos segredos da narrativa. Rio de Janeiro, Vozes, 2003.
_____________. A arte de contar histórias no século XXI: tradição e ciberespaço. Petrópolis, Vozes, 2006.
CASTRONOVO, Adela & MARTIGNONI, Alicia. Caminos hacia el libro: narración y lectura de cuentos. Buenos Aires, Ediciones Colihue, 1994.
CHAVES, Otília. A arte de contar histórias. Rio de Janeiro, Confederação Evangélica do Brasil, 1952.
COELHO, Betty. Contar histórias, uma arte sem idade. São Paulo, Ática, 1986.
Cuenteros y cuentacuentos de lo espontáneo a lo profesional. vol 2. Compendio del 5º al 9º Encuentro Internacional de Narración Oral. Buenos Aires, Fundación El Libro/Asociación de Literatura Infantil-Juvenil Argentina/Istituto SUMMA Fundacion Salottiana, s.d.
DEPARTAMENTO DE LITERATURA Y NARRACIONES INFANTILES. Teoría y técnica del arte de narrar IV. Habana, Biblioteca Nacional José Martí, Consejo Nacional de Cultura, 1968.
ESTHÉS, Clarissa Pinkola. O dom da história. Rio de Janeiro, Rocco, 1998.
FERNANDES, Federico Augusto Garcia (org.) Oralidade e literatura: manifestações e abordagens no Brasil. Londrina, Eduel, 2003.
FERRACINI, Renato. A arte de não interpretar como poesia corpórea do ator. Campinas-SP, Editora da UNICAMP, 2003.
GIRARDELLO, Gilka (org.). Baús e chaves da narração de histórias. Florianópolis, SESC-SC, 2004.
HORIZONTES ANTROPOLÓGICOS: CULTURA ORAL E NARRATIVAS. Porto Alegre, ano 5, n. 12, dezembro de 1999.
MACHADO, Regina. Acordais: fundamentos teóricos-poéticos da arte de contar
MARQUEZ, Martha Mendes (coord.). Da arte de contar histórias – caderno de informação e arte Palavra Imagem, nº 4. Belo Horizonte, Secretaria de Estado da Educação, 1996.
MATO, Daniel. Como contar cuentos. Caracas, Monte Avila Latinoamericana, 1991.
MATO, Daniel. Narradores en accion: problemas epistemologicos, consideraciones teoricas y observaciones de campo en Venezuela. Caracas, Biblioteca de la Academia Nacional de la Historia, 1992.
MATO, Daniel. El arte de narrar y la noción de la literatura oral. Caracas, Universidad Central de Venezuela, consejo de Desarrollo Científico y Humanístico, 1992.
MATOS, Gislayne Avelar. A palavra do contador de histórias. São Paulo, Martins Fontes, 2005.
MATOS, Gislayne Avelar , SORSY, Inno. O ofício do contador de histórias. São Paulo, Martins Fontes, 2005.
MELLO, Nancy. A arte de contar histórias. Trad. de Amanda Orlando e Aulyde Soares Rodrigues. Rio de Janeiro, Rocco, 2006.
Mnemósyne: Revista del Festival Internacional del Cuento. Los Silos , Número 2, Diciembre 1999.
Mnemósyne: Revista del Festival Internacional del Cuento. Los Silos, Número 3, Diciembre 2000.
MOREIRA, Inês Cardoso Martins (org). Poesia popular: aulas radiofônicas: Rádio MEC: 1963-1964/Thiers Martins Moreira. Rio de Janeiro, Edições Casa de Rui Barbosa, 2004.
PADOVANI, Ana. Contar cuentos: desde la práctica hacia la teoría. Buenos Aires, Editorial Paidós, 1999.
PATRINI, Maria de Lourdes. A renovação do conto: emergência de uma prática oral. São Paulo, Cortez, 2005.
PRIETO, Heloisa. Quer ouvir uma história? São Paulo, Angra, 1999.
RIBEIRO, Jonas. Ouvidos dourados: a arte de ouvir as histórias... para depois contá-las. São Paulo, Ave-Maria, 2001.
RYNGAERT, Jean-Pierre. Introdução à análise do teatro. São Paulo, Martins Fontes, 1996.
SISTO, Celso. Textos e pretextos sobre a arte de contar histórias. Chapecó, Argos, 2001.
__________. Textos e pretextos sobre a arte de contar histórias (2ª ed. revista e ampliada). Curitiba, Positivo, 2005. 144p.
STANISLAVSKY, Constantin. A preparação do ator. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1979.
______________. A construção da personagem. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1983.
______________. A criação de um papel. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1984.
TAHAN, Malba. A arte de ler e de contar histórias. Rio de Janeiro, Conquista, 1957.
VERGARA, Gloria. Palabra em movimiento: princípios teóricos para la narrativa oral. México, Editorial Práxis, 2004.
WARNER, Marina. Da fera à loira: sobre contos de fadas e seus narradores. São Paulo, Cia. das Letras, 1999.
ZUMTHOR, Paul. Performance, recepção e leitura. São Paulo, Educ, 2000.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Matéria: Parabéns – Você mãe é a grande responsável pela formação de apaixonados pela leitura no Brasil

Matéria publicada no site do Instituto Pró-Livro, ONG dedicada ao fomento da leitura e à difusão do livro no Brasil:

"Nem tudo na vida precisa necessariamente ser verbalizado para ser ensinado. Ensina-se pelo exemplo, agindo, sentindo, mostrando amor ao que faz. Com a chegada do dia das mães, o Instituto Pró-Livro, responsável pela segunda edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil achou por bem homenagear aquela que verdadeiramente vive fazendo a diferença na vida das pessoas.
Segundo os resultados da pesquisa, um em cada três leitores tem lembranças da mãe lendo algum livro e 51% dos leitores tem na mãe sua grande incentivadora no processo de ler por prazer. O papel dos pais mostra-se mais relevante ainda quando são feitas comparações entre leitores e não-leitores. Entre as crianças de 5 a 10 anos, 73% delas citam as mães como quem mais as estimularam a ler. A importância feminina é ainda maior no Norte (59%) e no Nordeste (56%) do país, muito acima dos professores. O melhor é que para estas mulheres guerreiras está claro que ler não é só aprender a decodificar os códigos e símbolos da escrita. A leitura torna a viagem acessível, libera sentimentos, paixões, amplia a visão e mostra que os sonhos auxiliam na formação da realidade.
Segundo comentário do célebre escritor Moacyr Scliar “a própria palavra símbolo é muito significativa. Vem do grego symbolon, em que syn quer dizer juntos, e bolon é arremessar. Unidos por símbolos nós, humanos, nos arremessamos juntos nesta aventura que é a vida. Juntos, não separados; este caráter de união que o símbolo proporciona é uma coisa importante.” Moacyr Scliar ainda comenta em seu artigo, que faz parte do livro Retratos da Leitura no Brasil, o quanto sua mãe teve participação em sua formação como leitor e depois na decisão de ser escritor. “Minha mãe era imigrante; foi à escola, terminou o curso normal (era professora primária, como se dizia na época) e uma grande leitora – tão fã de José de Alencar que deu ao filho o nome de um dos personagens criados pelo grande escritor. Ela fazia questão de que os filhos lessem, e uma vez por ano levava-me à Livraria do Globo, no centro de Porto Alegre, onde havia uma espécie de feira do livro. Eu ficava absolutamente deslumbrado naquela enorme livraria, e a vontade que tinha era de comprar todos os livros alí existentes. Mas eu sabia que livro custa dinheiro, sabia que na nossa casa a grana era escassa, de modo que lhe perguntava quanto eu estava autorizado a gastar. E a resposta dela era uma só: na nossa casa não pode faltar livros, compra quantos quiseres.”
Assim como fez a mãe de Scliar, muitas outras mulheres têm iniciado seus filhos e sua família no mundo da leitura, mostrado seus encantos apesar de tantos outros estímulos que os jovens têm hoje com o advento da internet, dos jogos de videogame e muito mais. O IPL parabeniza a todas as mães e mulheres pela luta permanente para formar leitores e brasileiros melhores e parodia o que foi dito por Monteiro Lobato: “Um país se faz com homens e livros”. Com suas ações e exemplo hoje as mulheres certamente estão colaborando para uma sociedade brilhante.

Mais informações sobre a pesquisa, acesse o site: www.prolivro.org.br"

Conto: Uma lenda chinesa

Autor desconhecido

Há muito tempo, uma menina chinesa chamada Lili se casou e foi viver com o marido e a sogra. Depois de alguns dias, passou a não se entender com a sogra. As personalidades delas eram muito diferentes uma da outra e Lili foi se irritando com os hábitos dela, que frequentemente a criticava.

Meses se passaram e Lili e sua sogra cada vez mais discutiam e brigavam. De acordo com antiga tradição chinesa, a nora tinha que se curvar à sogra e obedecê-la em tudo. Lili, já não suportando mais conviver com essa situação, decidiu visitar um amigo de seu pai, um velho sábio.

Depois de ouvi-la, ele pegou um pacote de ervas e lhe disse:

-Vou lhe dar várias ervas que irão lentamente envenenar sua sogra.A cada dois dias ponha um pouco destas na comida dela. Agora, para ter certeza de que ninguém suspeitará de você quando ela morrer, você deve ter muito cuidado e agir de forma muito amigável.

Lili ficou muito contente, agradeceu o sábio e voltou apressada para casa para começar o projeto de matar sua sogra. Semanas se passaram e a cada dois dias Lili servia a comida "especialmente tratada" à sua sogra.

Ela sempre lembrava do que o velho sábio tinha recomendado sobre evitar suspeitas e assim controlou o seu temperamento, obedeceu à sogra e a tratou como se fosse sua própria mãe.

Depois de seis meses, a casa inteira estava com outro astral. Lili tinha controlado o seu temperamento e quase nunca se aborrecia.

Nesses seis meses, não tinha tido nenhuma discussão com a sogra, que agora parecia muito mais amável e mais fácil de se lidar. As atitudes da sogra também mudaram e elas passaram a se tratar como mãe e filha.

Um dia, Lili foi novamente procurar o Sr. Huang para pedir-lhe ajuda e disse:

-Querido Sr. Huang, por favor, me ajude a evitar que o veneno mate minha sogra! Ela se transformou numa mulher agradável e eu a amo como se fosse minha mãe e não quero que ela morra por causa do veneno que eu lhe dei.

O Sr. Huang sorriu e acenando a cabeça, disse:

-Lili, não precisa se preocupar. As ervas que eu lhe dei não eram venenosas e sim vitaminas especialmente preparadas para melhorar a saúde dela. O veneno estava na sua mente e na sua atitude, mas foi jogado fora e substituido pelo amor que você passou a dar a ela.

domingo, 10 de maio de 2009

Conto: "O anjo Mãe"

Esse é um conto muito lindo, que li há algum tempo e já contei para umas mulheres que acompanhavam suas crianças na emergência do Hospital Municipal Dr. Manoel Afonso, aqui em Caruaru. Elas gostaram muito e algumas até se emocionaram.
Aqui publico, como uma pequena homenagem a esses anjos chamados mães, em especial a Solange, minha mãe, desencarnada há 12 anos (na foto, com meu irmão Markus), a minha mãe 2, Sonia, e minha dindinha Vera, anjos bons que o Senhor colocou no meu caminho, vestidas de tias.



Uma criança pronta para nascer perguntou a Deus:
- Soube que estarei em breve sendo enviada à Terra. Como eu vou viver lá, sendo assim pequeno e indefeso?
E Deus lhe disse:
- Entre muitos anjos, eu escolhi um especial para você. Ele estará lhe esperando e tomará conta de você.
E a criança perguntou:
- Aqui no céu eu não faço nada, a não ser cantar e sorrir, o que é suficiente para que eu seja feliz. Serei feliz lá?
Deus respondeu:
- Seu anjo cantará e sorrirá para você... A cada dia, a cada instante, você sentirá o amor dele e será feliz.
- Como poderei entender quando falarem comigo se eu não conheço a língua que as pessoas falam?
E Deus afirmou:
- Com muita paciência e carinho, seu anjo lhe ensinará a falar.
- E o que farei quando quiser Te falar?
- Seu anjo juntará suas mãos e lhe ensinará a rezar.
E a criança ainda perguntou a Deus:
- Eu ouvi dizer que na Terra há homens maus. Quem me protegerá?
- Seu anjo lhe defenderá mesmo que signifique arriscar sua própria vida.
- Mas eu serei sempre triste porque eu não Te verei mais, disse a criança.
- Seu anjo sempre lhe falará sobre Mim e lhe ensinará a maneira de vir a Mim. Eu estarei sempre dentro de você.
Nesse momento havia muita paz no céu, mas as vozes da Terra já podiam ser ouvidas pela criança. Ela, apressada, suplicou a Deus:
- Está chegando a hora de eu ir. Agora diga, por favor, o nome do meu anjo.
E Deus respondeu:
- Você chamará seu anjo de MÃE!

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Como virei contadora de estórias - Parte II

Continuando...
Depois de me apaixonar pelo Recife e suas histórias, descobrir os sebos e seus tesouros - e, com eles, livros belíssimos como a coleção do Malba Tahan, encontrei a coleção Tesouro da Juventude, na casa de um grande amigo, Klaus Mock, em S.Paulo. Aliás, agradeço muito a ele pelo incentivo que me deu para desenvolver meu projeto do site de contos de fadas.

O Tesouro da Juventude tem 18 volumes e é uma preciosidade para orientar, educar e divertir a garotada. Editada no final da década de 50, se não me engano, a coleção traz contos, lendas e fábulas muito interessantes, muitas não tão conhecidas como as de Perrault, Andersen ou dos Grimm.

Muitas das estórias que divulguei no meu site - Contos de Fadas - foram adaptadas das que eu li nessa coleção.

Continuei com o trabalho no site, recolhendo, pesquisando, traduzindo e adaptando contos de todo o mundo, estudando sobre a arte dos contadores de estórias. Vi "As mil e uma noites", filme produzido pelo canal Hallmark em 1999, e me encantei com a Sheherazade. Quem não sabe que foi por sua arte de entreter o sultão Shariar que ela salvou sua própria vida?

Ok, vou contar aqui essa história, com apoio do site História das Mulheres através da Arte:
SHEHERAZADE - Lenda árabe

Sheherazade, a heroína de "As mil e uma noites", foi uma das maiores contadoras de estórias do mundo. Embora uma personagem legendária - vale lembrar que todas a lendas são baseadas em fatos -, Sheherazade, uma mulher de inteligência excepcional, sabedoria e bravura, salvou não só sua própria vida, mas a de milhares de donzelas do seu país, um reinado na antiga Arábia, contando uma série de contos enfeitiçadores, que acabaram por educar e transformar um rei.

Shariar, legendário rei da Samarkand, descobriu que estava sendo enganado por sua mulher e, como punição, mandou matá-la e a mais uma sucessão de 3 mil virgens - uma por noite. Tudo por não confiar mais nas mulheres.

Contra a vontade do seu pai, vizir (espécie de primeiro-ministro) de Shariar, Sheherazade se ofereceu para passar uma noite com o rei. Uma vez nos aposentos reais, ela perguntou se poderia se despedir de sua amada irmã Dunyazade. O rei concordou. Ora, Sheherazade e a irmã tinham combinado um estratagema. Dunyazade iria lhe pedir para contar uma estória para ajudar a passar a longa noite. A estória era tão interessante que o rei não conseguiu despregar os olhos e nem os ouvidos de Sheherazade, e acabou passando a noite acordado, escutando assombrado a narrativa da bela e esperta mulher.
Ao ver que a aurora já estava chegando, Sheherazade interrompeu sua estória, dizendo que não teria mais tempo, o carrasco já a esperava para sua execução. O rei pediu que ela contasse só mais um pouquinho, no entanto Sheherazade foi irredutível. Infelizmente, o tempo acabou. O que era uma pena, pois a próxima estória era ainda mais interessante... Então, o rei decidiu manter Sheherazade viva enquanto ele antecipava, com avidez, o momento de ouvir a nova estória.

E assim Sheherazade foi enrolando o rei, contando uma estória que nunca se acabava, pois o enredo de uma conduzia ao da outra. Ao final de mil e uma noites de contos de aventuras, o rei não só tinha sido se divertido com as estórias, mas, principalmente, foi transformado num homem melhor, sabiamente educado em moral e bondade, por Sheherazade, que se tornou sua rainha.

***

Depois de ver esse filme, fiquei com a ideia na cabeça. Já gostava muito da cultura árabe, da música, da vestimenta das suas dançarinas. Simpatizava também com os ciganos, povo de quem tenho a alma e algumas gotas de sangue, ainda que longínquo. Juntei uma coisa na outra e acabei virando a Cigana Contadora de Estórias!

A minha estreia foi em Caruaru, em 2001. Minha amiga Yone Amorim, uma daquelas pessoas que gostam de movimentar a cidade, de trabalhar com o povo, aliando cultura, arte e atenção social, perguntou um dia:

- Gabi, você topa contar estórias numa creche? Estou pensando em colocar aí um projeto de incentivo à leitura...

Ela trabalhava na Secretaria de Ação Social e eu na de Imprensa, na Prefeitura de Caruaru.

Topei sim, meio com medo de fazer feio, de me sair mal, das crianças não gostarem. Mil medos, mas já sentindo aquele friozinho na barriga.

A visita à creche foi marcada. Passei o dia me preparando, num nervoso que fazia dó. Não tinha ainda meu traje de cigana, só um de Branca de Neve. Fui com esse mesmo. A estorinha escolhida, lógico, foi a da própria.

Cheguei na creche - aliás, Centro Municipal de Educação Infantil Justina de Freitas - muito tímida, ainda mais com o olhar curioso dos professores. Na época, não se falava de contador de estórias em Caruaru. As bibliotecárias das escolas é que costumavam ler livros para os alunos, mas ler não é contar.
Fiquei aguardando na sala da diretoria, enquanto a meninada era acomodada na biblioteca da creche. Ainda nervosa, fui repassando a estória que tinha me programado para contar. A diretora veio me buscar, toda amável, creio que feliz por ter algo bacana para apresentar para a sua criançada, todas de famílias carentes.

Entrei na biblioteca, as crianças já me esperando, alguns professores sentados. Os olhares me escaneavam de alto a baixo. Tentei sentir-me segura, dona da situação. Acho que a fantasia me ajudou um pouco, me senti encantada. O feitiço da personagem atraía os olhares curiosos das crianças. Eram cerca de vinte.
Sentei no chão e elas se sentaram à minha frente, formando um semicírculo. Comecei com o tradicional "Era uma vez..." e contei a estória da bela princesinha, detestada pela madrasta malvada, que foge para o bosque, é "adotada" pelos sete anões, etc etc.
As crianças adoraram e pediram mais. Ixi, e agora? Eu não tinha a mínima ideia de como era uma sessão de estórias e só tinha ensaiado uma. Remexi a memória e puxei a dos 3 Porquinhos. A parte em que o lobo puxa ar dos pulmões e sopra com toda a força, fiz como ele, puxei ar dos meus pulmões e soprei com toda a minha força.

A meninada ouvia a estória mesmerizada, seguindo todos os meus movimentos e até imitando o que eu fazia nesse trecho da estória. Foi um sucesso! Aí eu já estava relaxada, certa da minha arte, preparada para contar mais. Pena que o tempo foi curto e os professores tiveram que levar os meninos de volta para a sala.

Mas foi um dia tão feliz, esse meu primeiro como contadora de estórias de VERDADE!
Eu agradeço muito a Yone (as fotos foram tiradas por ela), pela iniciativa de me levar para a creche pois foi nesse dia, depois desse abraço gostoso da criançada, que nasci mesmo para essa arte encantada dos contos.
Depois desse dia, vieram muitos outros. O projeto "Incentivo à leitura através da arte, da poesia e das estórias" foi aprovado pelo prefeito da época - Tony Gel - e visitamos, entre 2001 e 2008, muitas outras creches, escolas e até hospitais e policlínicas.
Mas essa é uma estória para contar outro dia.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Conto: "Ainda o amor"

Já há algumas semanas, fazemos aqui em casa, às quartas-feiras, o Evangelho no Lar. Reunimos a família, geralmente mais um ou dois amigos, e lemos o Evangelho segundo o Espiritismo, debatendo depois o que a Espiritualidade escolheu para o nosso aprendizado e o de nossos irmãos desencarnados, que também vieram para participar de nossa pequena reunião.
Na noite de hoje, foi o capítulo 14, que fala da avareza.
Avareza e egoísmo andam juntos, pois o avaro nada mais é do uma pessoa que não quer apartar de si nem o mínimo que, por acaso, possua. O oposto da avareza é a caridade. "Fora da caridade, não há salvação", diz Cristo, em sua Lei do Amor. E falando de amor, aproveitei para contar uma estória muito bonita, que recebi do site Momento Espírita.


Ainda o amor

Nos dias que vivemos, muito se ouve falar a respeito do amor. Suspiram os jovens por sua chegada, idealizando cores suaves e delicados tons. Alguns o confundem com as paixões violentas e degradantes e, por isso mesmo, afirmam que o amor acaba.
Entretanto, o amor já foi definido pelos Espíritos do Bem como o mais sublime dos sentimentos. Reveste-se de tranquilidade e confere paz a quem o vivencia.
Não é produto de momentos, mas construção laboriosa e paciente de dias que se multiplicam na escalada do tempo.
Narra o famoso escritor inglês Charles Dickens que dois recém-casados viviam modestamente. Dividiam as dificuldades e sustentavam-se na afeição pura e profunda que devotavam um ao outro.
Não possuíam senão o indispensável, mas cada um era portador de uma herança particular.
O jovem recebera como legado de família um relógio de bolso, que guardava com zelo. Na verdade não podia utilizá-lo por não ter uma corrente apropriada.
A esposa recebera da própria natureza uma herança maravilhosa: uma linda cabeleira. Cabelos longos, sedosos, fartos, que encantavam.
Mantinha-os sempre soltos, embora seu desejo fosse adquirir um grande e lindo pente que vira em uma vitrina, em certa oportunidade, para os prender no alto da cabeça, deixando que as mechas, caprichosas, bailassem até os ombros.
Transcorria o tempo e ambos acalentavam o seu desejo, sem ousar expor ao outro, desde que o dinheiro que entrava era todo direcionado para as necessidades básicas.
Em certa noite de Natal, estando ambos face a face, cada um estendeu ao outro, quase que ao mesmo tempo, um delicado embrulho.
Ela insistiu e ele abriu o seu primeiro. Um estranho sorriso bailou nos lábios do jovem. A esposa acabara de lhe dar a corrente para o relógio.
Segurando a preciosidade entre os dedos, foi a vez dele pedir a ela que abrisse o pacote que ele lhe dera.
Trêmula e emocionada, a esposa logo deteve em suas mãos o enorme pente para prender os seus cabelos, enquanto lágrimas significativas lhe rolavam pelas faces.
Olharam-se ambos e, profundamente emocionados descobriram que ele vendera o relógio para comprar o pente e ela vendera os cabelos para comprar a corrente do relógio.
Ante a surpresa, deram-se conta do quanto se amavam.
* * *
O amor não é somente um meio, é o fim essencial da vida.
Toda expressão de afeto propicia a renovação do entusiasmo, da qualidade de vida, de metas felizes em relação ao futuro.
* * *
O amor tem a capacidade de estimular o organismo e de lhe oferecer reações imunológicas, que proporcionam resistência para as células, que assim combatem as enfermidades invasoras.
O amor levanta as energias alquebradas e é essencial para a preservação da vida.
Eis porque ninguém consegue viver sem amor, em maior ou menor expressão.



Redação do Momento Espírita com base em conto de Charles Dickens, e no cap. 13 do livro Momentos enriquecedores, pelo Espírito Joanna de Ângelis, psicografia de Divaldo Pereira Franco, ed. Leal.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Poema de Carlos Pena Filho


Rua da Aurora, Recife/PE (foto: Sirman A. Celâyir)

Exaltação ao Recife

No ponto onde o mar se extingue
E as areias se levantam
Cavaram seus alicerces

Na surda sombra da terra
E levantaram seus muros
Do frio sono das pedras.
Depois armaram seus flancos:
Trinta bandeiras azuis plantadas no litoral.

Hoje, serena flutua, metade roubada ao mar,
Metade à imaginação,
Pois é do sonho dos homens
Que uma cidade se inventa.


(Guia Prático da Cidade do Recife – O Início, 1999:129)

Sobre o poeta:

Poeta pernambucano, nasceu no Recife no dia 17 de maio de 1929 e morreu, de um acidente de carro, no dia 1º de julho de 1960, também no Recife.
Outro poema famoso é o que escreveu em homenagem ao Bar Savoy, antigo reduto da boemia recifense, na Av. Guararapes:

O CHOPE

Na avenida Guararapes,
o Recife vai marchando.
O bairro de Santo Antônio,
tanto se foi transformando
Que, agora, às cinco da tarde
mais se assemelha a um festim,

O refrão tem sido assim:
são trinta copos de chope,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados.

PS: Há uma certa confusão quanto às datas de nascimento e morte do poeta. Diz a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), que ele nasceu em 1928 e faleceu em 10 de junho de 1960. Já uma pesquisa da UFPE diz que foi em 1929 e a morte em 1º de julho de 1960.
Quando achar algum parente dele, prometo perguntar... hehehe...

Ouça a estória "O galo rouco e o rato esperto", da Cigana Contadora de Estórias!

Quer saber quando tem estória nova no blog?

Apresentações de contadores de estórias

Palavra Cantada - O rato
Clara Haddad - O coelho e o baobá

Cia Ópera na Mala - A sopa de pedras do Pedro

Cia Ópera na Mala - Pedro Malazartes e o pássaro raro

Eventos & Cursos

A atualizar