quarta-feira, 13 de maio de 2009

Conto: Uma lenda chinesa

Autor desconhecido

Há muito tempo, uma menina chinesa chamada Lili se casou e foi viver com o marido e a sogra. Depois de alguns dias, passou a não se entender com a sogra. As personalidades delas eram muito diferentes uma da outra e Lili foi se irritando com os hábitos dela, que frequentemente a criticava.

Meses se passaram e Lili e sua sogra cada vez mais discutiam e brigavam. De acordo com antiga tradição chinesa, a nora tinha que se curvar à sogra e obedecê-la em tudo. Lili, já não suportando mais conviver com essa situação, decidiu visitar um amigo de seu pai, um velho sábio.

Depois de ouvi-la, ele pegou um pacote de ervas e lhe disse:

-Vou lhe dar várias ervas que irão lentamente envenenar sua sogra.A cada dois dias ponha um pouco destas na comida dela. Agora, para ter certeza de que ninguém suspeitará de você quando ela morrer, você deve ter muito cuidado e agir de forma muito amigável.

Lili ficou muito contente, agradeceu o sábio e voltou apressada para casa para começar o projeto de matar sua sogra. Semanas se passaram e a cada dois dias Lili servia a comida "especialmente tratada" à sua sogra.

Ela sempre lembrava do que o velho sábio tinha recomendado sobre evitar suspeitas e assim controlou o seu temperamento, obedeceu à sogra e a tratou como se fosse sua própria mãe.

Depois de seis meses, a casa inteira estava com outro astral. Lili tinha controlado o seu temperamento e quase nunca se aborrecia.

Nesses seis meses, não tinha tido nenhuma discussão com a sogra, que agora parecia muito mais amável e mais fácil de se lidar. As atitudes da sogra também mudaram e elas passaram a se tratar como mãe e filha.

Um dia, Lili foi novamente procurar o Sr. Huang para pedir-lhe ajuda e disse:

-Querido Sr. Huang, por favor, me ajude a evitar que o veneno mate minha sogra! Ela se transformou numa mulher agradável e eu a amo como se fosse minha mãe e não quero que ela morra por causa do veneno que eu lhe dei.

O Sr. Huang sorriu e acenando a cabeça, disse:

-Lili, não precisa se preocupar. As ervas que eu lhe dei não eram venenosas e sim vitaminas especialmente preparadas para melhorar a saúde dela. O veneno estava na sua mente e na sua atitude, mas foi jogado fora e substituido pelo amor que você passou a dar a ela.

domingo, 10 de maio de 2009

Conto: "O anjo Mãe"

Esse é um conto muito lindo, que li há algum tempo e já contei para umas mulheres que acompanhavam suas crianças na emergência do Hospital Municipal Dr. Manoel Afonso, aqui em Caruaru. Elas gostaram muito e algumas até se emocionaram.
Aqui publico, como uma pequena homenagem a esses anjos chamados mães, em especial a Solange, minha mãe, desencarnada há 12 anos (na foto, com meu irmão Markus), a minha mãe 2, Sonia, e minha dindinha Vera, anjos bons que o Senhor colocou no meu caminho, vestidas de tias.



Uma criança pronta para nascer perguntou a Deus:
- Soube que estarei em breve sendo enviada à Terra. Como eu vou viver lá, sendo assim pequeno e indefeso?
E Deus lhe disse:
- Entre muitos anjos, eu escolhi um especial para você. Ele estará lhe esperando e tomará conta de você.
E a criança perguntou:
- Aqui no céu eu não faço nada, a não ser cantar e sorrir, o que é suficiente para que eu seja feliz. Serei feliz lá?
Deus respondeu:
- Seu anjo cantará e sorrirá para você... A cada dia, a cada instante, você sentirá o amor dele e será feliz.
- Como poderei entender quando falarem comigo se eu não conheço a língua que as pessoas falam?
E Deus afirmou:
- Com muita paciência e carinho, seu anjo lhe ensinará a falar.
- E o que farei quando quiser Te falar?
- Seu anjo juntará suas mãos e lhe ensinará a rezar.
E a criança ainda perguntou a Deus:
- Eu ouvi dizer que na Terra há homens maus. Quem me protegerá?
- Seu anjo lhe defenderá mesmo que signifique arriscar sua própria vida.
- Mas eu serei sempre triste porque eu não Te verei mais, disse a criança.
- Seu anjo sempre lhe falará sobre Mim e lhe ensinará a maneira de vir a Mim. Eu estarei sempre dentro de você.
Nesse momento havia muita paz no céu, mas as vozes da Terra já podiam ser ouvidas pela criança. Ela, apressada, suplicou a Deus:
- Está chegando a hora de eu ir. Agora diga, por favor, o nome do meu anjo.
E Deus respondeu:
- Você chamará seu anjo de MÃE!

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Como virei contadora de estórias - Parte II

Continuando...
Depois de me apaixonar pelo Recife e suas histórias, descobrir os sebos e seus tesouros - e, com eles, livros belíssimos como a coleção do Malba Tahan, encontrei a coleção Tesouro da Juventude, na casa de um grande amigo, Klaus Mock, em S.Paulo. Aliás, agradeço muito a ele pelo incentivo que me deu para desenvolver meu projeto do site de contos de fadas.

O Tesouro da Juventude tem 18 volumes e é uma preciosidade para orientar, educar e divertir a garotada. Editada no final da década de 50, se não me engano, a coleção traz contos, lendas e fábulas muito interessantes, muitas não tão conhecidas como as de Perrault, Andersen ou dos Grimm.

Muitas das estórias que divulguei no meu site - Contos de Fadas - foram adaptadas das que eu li nessa coleção.

Continuei com o trabalho no site, recolhendo, pesquisando, traduzindo e adaptando contos de todo o mundo, estudando sobre a arte dos contadores de estórias. Vi "As mil e uma noites", filme produzido pelo canal Hallmark em 1999, e me encantei com a Sheherazade. Quem não sabe que foi por sua arte de entreter o sultão Shariar que ela salvou sua própria vida?

Ok, vou contar aqui essa história, com apoio do site História das Mulheres através da Arte:
SHEHERAZADE - Lenda árabe

Sheherazade, a heroína de "As mil e uma noites", foi uma das maiores contadoras de estórias do mundo. Embora uma personagem legendária - vale lembrar que todas a lendas são baseadas em fatos -, Sheherazade, uma mulher de inteligência excepcional, sabedoria e bravura, salvou não só sua própria vida, mas a de milhares de donzelas do seu país, um reinado na antiga Arábia, contando uma série de contos enfeitiçadores, que acabaram por educar e transformar um rei.

Shariar, legendário rei da Samarkand, descobriu que estava sendo enganado por sua mulher e, como punição, mandou matá-la e a mais uma sucessão de 3 mil virgens - uma por noite. Tudo por não confiar mais nas mulheres.

Contra a vontade do seu pai, vizir (espécie de primeiro-ministro) de Shariar, Sheherazade se ofereceu para passar uma noite com o rei. Uma vez nos aposentos reais, ela perguntou se poderia se despedir de sua amada irmã Dunyazade. O rei concordou. Ora, Sheherazade e a irmã tinham combinado um estratagema. Dunyazade iria lhe pedir para contar uma estória para ajudar a passar a longa noite. A estória era tão interessante que o rei não conseguiu despregar os olhos e nem os ouvidos de Sheherazade, e acabou passando a noite acordado, escutando assombrado a narrativa da bela e esperta mulher.
Ao ver que a aurora já estava chegando, Sheherazade interrompeu sua estória, dizendo que não teria mais tempo, o carrasco já a esperava para sua execução. O rei pediu que ela contasse só mais um pouquinho, no entanto Sheherazade foi irredutível. Infelizmente, o tempo acabou. O que era uma pena, pois a próxima estória era ainda mais interessante... Então, o rei decidiu manter Sheherazade viva enquanto ele antecipava, com avidez, o momento de ouvir a nova estória.

E assim Sheherazade foi enrolando o rei, contando uma estória que nunca se acabava, pois o enredo de uma conduzia ao da outra. Ao final de mil e uma noites de contos de aventuras, o rei não só tinha sido se divertido com as estórias, mas, principalmente, foi transformado num homem melhor, sabiamente educado em moral e bondade, por Sheherazade, que se tornou sua rainha.

***

Depois de ver esse filme, fiquei com a ideia na cabeça. Já gostava muito da cultura árabe, da música, da vestimenta das suas dançarinas. Simpatizava também com os ciganos, povo de quem tenho a alma e algumas gotas de sangue, ainda que longínquo. Juntei uma coisa na outra e acabei virando a Cigana Contadora de Estórias!

A minha estreia foi em Caruaru, em 2001. Minha amiga Yone Amorim, uma daquelas pessoas que gostam de movimentar a cidade, de trabalhar com o povo, aliando cultura, arte e atenção social, perguntou um dia:

- Gabi, você topa contar estórias numa creche? Estou pensando em colocar aí um projeto de incentivo à leitura...

Ela trabalhava na Secretaria de Ação Social e eu na de Imprensa, na Prefeitura de Caruaru.

Topei sim, meio com medo de fazer feio, de me sair mal, das crianças não gostarem. Mil medos, mas já sentindo aquele friozinho na barriga.

A visita à creche foi marcada. Passei o dia me preparando, num nervoso que fazia dó. Não tinha ainda meu traje de cigana, só um de Branca de Neve. Fui com esse mesmo. A estorinha escolhida, lógico, foi a da própria.

Cheguei na creche - aliás, Centro Municipal de Educação Infantil Justina de Freitas - muito tímida, ainda mais com o olhar curioso dos professores. Na época, não se falava de contador de estórias em Caruaru. As bibliotecárias das escolas é que costumavam ler livros para os alunos, mas ler não é contar.
Fiquei aguardando na sala da diretoria, enquanto a meninada era acomodada na biblioteca da creche. Ainda nervosa, fui repassando a estória que tinha me programado para contar. A diretora veio me buscar, toda amável, creio que feliz por ter algo bacana para apresentar para a sua criançada, todas de famílias carentes.

Entrei na biblioteca, as crianças já me esperando, alguns professores sentados. Os olhares me escaneavam de alto a baixo. Tentei sentir-me segura, dona da situação. Acho que a fantasia me ajudou um pouco, me senti encantada. O feitiço da personagem atraía os olhares curiosos das crianças. Eram cerca de vinte.
Sentei no chão e elas se sentaram à minha frente, formando um semicírculo. Comecei com o tradicional "Era uma vez..." e contei a estória da bela princesinha, detestada pela madrasta malvada, que foge para o bosque, é "adotada" pelos sete anões, etc etc.
As crianças adoraram e pediram mais. Ixi, e agora? Eu não tinha a mínima ideia de como era uma sessão de estórias e só tinha ensaiado uma. Remexi a memória e puxei a dos 3 Porquinhos. A parte em que o lobo puxa ar dos pulmões e sopra com toda a força, fiz como ele, puxei ar dos meus pulmões e soprei com toda a minha força.

A meninada ouvia a estória mesmerizada, seguindo todos os meus movimentos e até imitando o que eu fazia nesse trecho da estória. Foi um sucesso! Aí eu já estava relaxada, certa da minha arte, preparada para contar mais. Pena que o tempo foi curto e os professores tiveram que levar os meninos de volta para a sala.

Mas foi um dia tão feliz, esse meu primeiro como contadora de estórias de VERDADE!
Eu agradeço muito a Yone (as fotos foram tiradas por ela), pela iniciativa de me levar para a creche pois foi nesse dia, depois desse abraço gostoso da criançada, que nasci mesmo para essa arte encantada dos contos.
Depois desse dia, vieram muitos outros. O projeto "Incentivo à leitura através da arte, da poesia e das estórias" foi aprovado pelo prefeito da época - Tony Gel - e visitamos, entre 2001 e 2008, muitas outras creches, escolas e até hospitais e policlínicas.
Mas essa é uma estória para contar outro dia.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Conto: "Ainda o amor"

Já há algumas semanas, fazemos aqui em casa, às quartas-feiras, o Evangelho no Lar. Reunimos a família, geralmente mais um ou dois amigos, e lemos o Evangelho segundo o Espiritismo, debatendo depois o que a Espiritualidade escolheu para o nosso aprendizado e o de nossos irmãos desencarnados, que também vieram para participar de nossa pequena reunião.
Na noite de hoje, foi o capítulo 14, que fala da avareza.
Avareza e egoísmo andam juntos, pois o avaro nada mais é do uma pessoa que não quer apartar de si nem o mínimo que, por acaso, possua. O oposto da avareza é a caridade. "Fora da caridade, não há salvação", diz Cristo, em sua Lei do Amor. E falando de amor, aproveitei para contar uma estória muito bonita, que recebi do site Momento Espírita.


Ainda o amor

Nos dias que vivemos, muito se ouve falar a respeito do amor. Suspiram os jovens por sua chegada, idealizando cores suaves e delicados tons. Alguns o confundem com as paixões violentas e degradantes e, por isso mesmo, afirmam que o amor acaba.
Entretanto, o amor já foi definido pelos Espíritos do Bem como o mais sublime dos sentimentos. Reveste-se de tranquilidade e confere paz a quem o vivencia.
Não é produto de momentos, mas construção laboriosa e paciente de dias que se multiplicam na escalada do tempo.
Narra o famoso escritor inglês Charles Dickens que dois recém-casados viviam modestamente. Dividiam as dificuldades e sustentavam-se na afeição pura e profunda que devotavam um ao outro.
Não possuíam senão o indispensável, mas cada um era portador de uma herança particular.
O jovem recebera como legado de família um relógio de bolso, que guardava com zelo. Na verdade não podia utilizá-lo por não ter uma corrente apropriada.
A esposa recebera da própria natureza uma herança maravilhosa: uma linda cabeleira. Cabelos longos, sedosos, fartos, que encantavam.
Mantinha-os sempre soltos, embora seu desejo fosse adquirir um grande e lindo pente que vira em uma vitrina, em certa oportunidade, para os prender no alto da cabeça, deixando que as mechas, caprichosas, bailassem até os ombros.
Transcorria o tempo e ambos acalentavam o seu desejo, sem ousar expor ao outro, desde que o dinheiro que entrava era todo direcionado para as necessidades básicas.
Em certa noite de Natal, estando ambos face a face, cada um estendeu ao outro, quase que ao mesmo tempo, um delicado embrulho.
Ela insistiu e ele abriu o seu primeiro. Um estranho sorriso bailou nos lábios do jovem. A esposa acabara de lhe dar a corrente para o relógio.
Segurando a preciosidade entre os dedos, foi a vez dele pedir a ela que abrisse o pacote que ele lhe dera.
Trêmula e emocionada, a esposa logo deteve em suas mãos o enorme pente para prender os seus cabelos, enquanto lágrimas significativas lhe rolavam pelas faces.
Olharam-se ambos e, profundamente emocionados descobriram que ele vendera o relógio para comprar o pente e ela vendera os cabelos para comprar a corrente do relógio.
Ante a surpresa, deram-se conta do quanto se amavam.
* * *
O amor não é somente um meio, é o fim essencial da vida.
Toda expressão de afeto propicia a renovação do entusiasmo, da qualidade de vida, de metas felizes em relação ao futuro.
* * *
O amor tem a capacidade de estimular o organismo e de lhe oferecer reações imunológicas, que proporcionam resistência para as células, que assim combatem as enfermidades invasoras.
O amor levanta as energias alquebradas e é essencial para a preservação da vida.
Eis porque ninguém consegue viver sem amor, em maior ou menor expressão.



Redação do Momento Espírita com base em conto de Charles Dickens, e no cap. 13 do livro Momentos enriquecedores, pelo Espírito Joanna de Ângelis, psicografia de Divaldo Pereira Franco, ed. Leal.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Poema de Carlos Pena Filho


Rua da Aurora, Recife/PE (foto: Sirman A. Celâyir)

Exaltação ao Recife

No ponto onde o mar se extingue
E as areias se levantam
Cavaram seus alicerces

Na surda sombra da terra
E levantaram seus muros
Do frio sono das pedras.
Depois armaram seus flancos:
Trinta bandeiras azuis plantadas no litoral.

Hoje, serena flutua, metade roubada ao mar,
Metade à imaginação,
Pois é do sonho dos homens
Que uma cidade se inventa.


(Guia Prático da Cidade do Recife – O Início, 1999:129)

Sobre o poeta:

Poeta pernambucano, nasceu no Recife no dia 17 de maio de 1929 e morreu, de um acidente de carro, no dia 1º de julho de 1960, também no Recife.
Outro poema famoso é o que escreveu em homenagem ao Bar Savoy, antigo reduto da boemia recifense, na Av. Guararapes:

O CHOPE

Na avenida Guararapes,
o Recife vai marchando.
O bairro de Santo Antônio,
tanto se foi transformando
Que, agora, às cinco da tarde
mais se assemelha a um festim,

O refrão tem sido assim:
são trinta copos de chope,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados.

PS: Há uma certa confusão quanto às datas de nascimento e morte do poeta. Diz a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), que ele nasceu em 1928 e faleceu em 10 de junho de 1960. Já uma pesquisa da UFPE diz que foi em 1929 e a morte em 1º de julho de 1960.
Quando achar algum parente dele, prometo perguntar... hehehe...

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Como virei contadora de estórias - Parte I

Cresci adorando ler. Lia tanto, até com pouca luz, que acabei ganhando uma bela miopia, que carrego desde os 12 anos. Mas nem isso me tirou o "vício"... hehehe... 24 anos depois, continuo lendo muito, onde quer que eu esteja.
Mas estou fugindo ao tema. E fuga ao tema é nota zero em Redação. Quem lembra disso?
Comecei a contar estórias bem por acaso mesmo. Lembro-me que tinha comprado uma coleção do Malba Tahan - um verdadeiro tesouro, em capa de couro vermelho - e tinha gostado tanto, especialmente dos contos das Mil e Uma Noites, que fui contar ao meu pai, que estava pintando a grade de casa. Entusiasmada, relatei o episódio em que o bobo do sultão engasga com a espinha de um peixe e é dado como morto, mas ninguém quer levar a culpa pela morte do artista favorito do rei, aí ficam levando o corpo de porta em porta, até que descobrem que... bem, não vou estragar a estória, contando o final...
Para encurtar, meu pai (que é bem impaciente e não gosta de ser interrompido com conversa fiada quando está trabalhando) parou para me escutar, interessado na estória, e riu muito do engraçado final.
Era 1994 para 1995, eu estava terminando meu curso de Jornalismo na Universidade Federal de Pernambuco e meu projeto de conclusão era um guia histórico e turístico do velho Recife. Li dezenas de livros e acabei me apaixonando pela cidade, como disse o poeta Carlos Pena Filho, "metade roubada ao mar; metade, à imaginação".
Depois de tanta leitura, de tantos personagens e histórias - com "h" mesmo, por serem histórias reais -, sempre que eu passeava com meu pai pelos bairros velhos de nossa cidade - Santo Antônio, São José, Boa Vista e Recife Antigo - eu ia contando para ele os causos registrados por escritores como Carneiro Vilela, em sua "A emparedada da Rua Nova", ou Mário Sette, em seu "Arruar", causos que tornaram as andanças pelo Recife mais coloridas, impregnadas de vida, de risos, dramas, amores, crimes, enfim, tornaram mais humanas as velhas ruas de pedra do Recife.
Meu pai ria e dizia que tinha que ter ouvido para aguentar tanto tagarelar, que não sabia a quem eu tinha puxado... hehehe...
Envolvida nessa paixão pelas estórias (e histórias), criei um personagem - Ariel le Fey - e um site - "Era uma vez...", para incentivar a leitura, principalmente entre as crianças. Fiz o site com tanto carinho e cuidado que ganhei até um prêmio, ficando ele entre os melhores de literatura infantil da antiga Revista da Web.
Foi através desse site, onde publiquei centenas de contos de fadas, lendas e mitos, que uma senhora de 85 anos me procurou, dizendo que buscava uma estorinha que explicasse a origem do arco-íris para poder contar para a neta. Pensei, deu tratos à bola, como se dizia antigamente, remexi a cachola e inventei um: "Os sete anjos do arco-íris" (depois coloco aqui). Mandei para ela e ela disse que a netinha adorou a estória. Eu fiquei muito contente. Aquilo me estimulou a abrir de vez a porteira da imaginação e deixar vir o mundão de ideias (sem acento, ficou uma palavra tão peladinha...) que eu tinha debaixo daquela cabeleireira rebelde de jornalista em início de carreira.
Aff... vou dormir... depois continuo a contar essa história...
Ah, sim, também prometo postar aqui a citada poesia do Carlos Pena Filho em homenagem ao meu Recife!

domingo, 3 de maio de 2009

Como cresci gostando de estórias

Como disse antes, os pais são os primeiros contadores de estórias. São eles que promovem o primeiro contato dos filhos com o mundo da leitura, desde as brincadeiras inventadas com os brinquedos para divertir seus bebês, passando por cantigas de roda e de ninar, até a hora da estorinha antes de dormir. Comigo foi assim. Lembro-me que tinha uns 4 anos, ainda filha única e morava num prédio na Gustavo Riedel, em Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. Meu pai se sentava ao meu lado na minha cama e pegava uns livros coloridos com estórias sobre as cores, os números, os bichos, e ia me contando com aquela voz bonita, melodiosa, própria para agradar aos ouvidos tenros de uma criança.

Minha mãe também era uma leitora ávida. Tínhamos dúzias de coleções em casa, muitas delas - como a Enciclopédia Disney - compradas para mim. Tinha a Coleção Madrigal, da editora Scala, com lindos livrinhos da literatura mundial, como Tartarin de Tarrascon, A Menina das Nuvens, O Pequeno Lorde e O Rouxinol e Outros Contos (de Andersen), todos arrumadinhos numa caixa de papelão duro em forma de casinha.

Outro tesouro que meus pais me deram foi um livrão enorme, pesado para uma garotinha carregar: O Grande Livro das Fábulas. Lindamente ilustrado, esse me fez sonhar muito com as estórias de Aladim, Abu Sir e Abu Kir, Rapunzel, O Pequeno Polegar, Pequerrucha (ou Polegarzinha), e O Gato de Botas. Se não bastasse todo esse encantamento, vinha um móbile dos personagens das estórias. Era lindo!

Depois deles, devorei a Enciclopédia Disney. Era muito legal, falava de assuntos tidos como chatos e maçantes, mas de uma forma divertida, com os personagens Disney, em linguagem de gibi. Fácil de ler e de entender temas geralmente fora da área de interesse de crianças, como ópera... hehehe...

Tínhamos 7 volumes. Li todos, querendo mais. E foi muito tempo depois, quase 15 anos depois que, num sebo de São Paulo, descobri que a coleção tinha mais dois volumes... Comprei-os de imediato!

Depois, vieram livros e mais livros. Devorei uma Seleção do Readers´Digest; A Biblioteca das Moças; a série de livros da Jean Plaidy, sobre os bastidores, esquemas e crimes da nobreza britânica entre os séculos XVI e XVIII; "Sissi", livro sobre a imperatriz Elisabeth da Áustria; os livros de P.L.Travers sobre Mary Poppins, a babá mágica; os romances de Barbara Cartland; gibis da Turma da Mônica...

Ixi... tantos livros, tantas estórias, que meu mundo ficou grande demais para caber só em mim e aí... Bem, aí tive que virar uma contadora de estórias! Mas essa fica para outro dia...

Ouça a estória "O galo rouco e o rato esperto", da Cigana Contadora de Estórias!

Quer saber quando tem estória nova no blog?

Apresentações de contadores de estórias

Palavra Cantada - O rato
Clara Haddad - O coelho e o baobá

Cia Ópera na Mala - A sopa de pedras do Pedro

Cia Ópera na Mala - Pedro Malazartes e o pássaro raro

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