domingo, 23 de junho de 2013

O milagre de São João

Nesta véspera de São João, compartilho com você uma estorinha do meu próximo livro. Espero que goste :)
O milagre de São João
Gabriela Kopinits - A Cigana Contadora de Estórias

Numa casa de taipa - aquelas feitas de madeira e barro - num lugar encantado chamado Alto do Moura, em Caruaru, morava um velho artesão de nome Elias.
Elias Tonheiro, como era mais conhecido por ser filho de seu “Antonho”, na fala simples do povo do lugar, tirava da arte no barro o seu minguado sustento. Como não tinha família – os pais já tinham morrido, não tinha parente que conhecesse, nem esposa ou filhos – aquele pouco dava para mantê-lo de pé, forte o suficiente para continuar sua vida de homem simples e humilde. Magro, de mãos calejadas pelo trabalho na roça – começado cedo, quando ainda era meninote – seu Elias era querido pelos moradores do bairro, famoso pelos seus ateliês de artesãos, de mestres como Vitalino, Galdino, entre tantos outros.
Mas a arte maior de “seu” Elias não era nem os bonequinhos que fazia. Entre tantos grandes mestres do Alto do Moura, a arte dele era contar estórias. Quando o velho se sentava na cadeira de balanço, na calçada cimentada de seu casebre, logo vinha um, dois, três, um mundo de menino, tudo morador dali, doido para ouvir as estórias dele.
Quando ele dava aquele sorriso manso, um leve pigarro para limpar a garganta e soltava o mágico “No tempo em que os bichos falavam...” ou o tradicional “Era uma vez...”, os meninos já sabiam que vinha estória - e das boas, daquelas de esquentar o coração e levar para casa, para nunca mais esquecer.
E seu Elias era bom nisso.
Teve uma vez em que ele contou a estória da “velha Firinfinfelha”, que andava de implicância com um macaco matreiro, que só queria saber de lhe roubar as bananas, a criançada riu de se acabar na parte em que o macaco danado arrumou uma pele de leão para dar um susto na velha e a bichinha quase bateu as caçuletas.
A estória era mais ou menos assim...
“Nos tempos de antanho, muito antes de vocês nascerem, os bichos ainda falavam e eram até amigos dos seres humanos. Pois nesse tempo havia uma velha – chamada Firinfinfelha – que não dava um prego pra seu ninguém de tão ruim que era.
Firinfinfelha tinha um sítio onde plantava banana, dessas que a gente compra na feira, bem docinhas. E havia um macaco chamado Simão, que era a gota de tão danado. Simão botou vistas no sítio de dona velha e se lambeu os beiços quando viu as bananas dela, madurinhas, pendendo dos cachos. Dava até pena esperar a colheita. Estavam tão madurinhas que deviam até escorrer mel de tão doce que pareciam ser. Tinha até aquelas abelhinhas pequenas, pretinhas, rondando as frutas.
Pois o danado do macaco resolveu que iria “aliviar” a Firinfinfelha de levar tanto peso para a feira e, pulando, matreiro, aventurou-se no bananal de dona velha a encher a pança, cuidando para não ser apanhado com a boca na botija – a tal da velha era braba como o quê e ainda tinha, diziam, um tal de trabuco para espantar gatuno – gatuno e macaco.
Deu sorte o danado, que a Firinfinfelha nem percebeu o estrago. Mas a sorte, às vezes, deixa o sujeito ousado. Ousado e descuidado. E o macaco Simão voltou uma vez, outra vez e mais uma vez, até que a Firinfinfelha notou que seu bananal estava ficando meio pelado. Cismada, achou que estava sendo roubada e decidiu ver quem era o ladrão. Escondeu-se por trás do pé de jabuticaba e ficou espiando, trabuco na mão, pronto para dar um tiro de sal grosso no rabo do malandro.
Não demorou muito, lá veio ele, todo lampeiro.
Dona velha quase caiu para trás quando viu que o ladrão não era outro senão o macaco Simão. “Arre, que já te pego, macaco ladrão!” bufou Firinfinfelha, em pensamento, para não alertar o macaco. Aprumou o trabuco, mirou no rabo de Simão e apertou o gatilho. Mas que azar! O trabuco fez “traaaque”, mas não soltou o tiro. O barulho alertou o ladrão e Simão pulou que pulou para fugir da fúria da Firinfinfelha, que soltou o trabuco e correu a pegar a vassoura, doida para acertar o quengo do macaco.
Mas qual o quê! O danado já tinha sumido, pulando que nem perereca em frigideira quente. E a velha, bufando de raiva, jurou que ia pegar o macaco de todo jeito, nem que fosse a última coisa que fizesse na vida.
Da jura passou para a ação.
Foi na venda de seu Astrogildo e comprou uma saca de alcatrão. Dias depois, fez um boneco com a parecença de um moleque, da idade de vocês, e colocou-o no meio do bananal, onde o macaco ainda não tinha lhe rapado as frutas. Na cabeça do boneco de alcatrão, dona velha colocou uma cesta com umas bananas bem madurinhas, isca boa para pegar peixe – ou melhor – macaco ladrão.
Tudo armado, toca a esperar.
Se vocês pensaram que o medo tivesse ensinado alguma lição ao macaco enganaram-se, pois o bicho, sentindo o ronco da fome – e da gulodice – soltou-se na direção da casa de dona velha, já planejando afanar-lhe mais algumas deliciosas bananinhas.
Assim pensado, assim feito.
Pulando que pulando, chegou Simão no sítio da Firinfinfelha. Mas, no meio do bananal, uma coisa esquisita chamou-lhe a atenção: um moleque pretinho carregava uma cesta de bananas, algumas já descascadas, prontas para serem comidas. “Arre, que coisa é essa? Um moleque afoito veio roubar minhas bananas?”, arretou-se o macaco. Cheio de raiva pela ousadia do moleque, ele foi tirar satisfação.
- Me passe essas bananas senão lhe dou um chute! – ameaçou Simão.
O boneco nem lhe deu confiança, então Simão cumpriu o prometido: aplicou-lhe um violento chute na canela, mas, olha só, ficou com o pé grudado no menino de alcatrão!
- Solte meu pé, seu moleque atrevido, senão dou-lhe outro chutão!
Nem adiantou. O macaco, então, deu outro chute no boneco, mas acabou com o pé preso também, grudado no alcatrão.
- Solte meus pés, seu desinfeliz, senão te dou um bofetão! – ameaçou o macaco, os dois pés grudados no boneco.
Aborrecido, pois o menino nem se mexeu para lhe responder, Simão acertou-lhe um bofetão, mas a mão acabou igual aos pés: grudada no boneco.
A essa altura, dona velha, escondida detrás do pé de jaca mole, mal segurava o riso, só assistindo à patacoada do macaco, desesperado para se soltar do boneco. Mas a coisa ainda não tinha acabado, pois, nesse momento, depois de ameaçar novamente o menino, se não lhe soltasse os pés e a mão, o macaco deu-lhe outro bofetão e acabou todo grudado no boneco. A única parte livre era a cabeça, então o macaco ameaçou:
- Solte meus pés e minhas mãos, seu moleque desavergonhado, senão dou-lhe uma cabeçada!
Vocês já adivinham que o boneco não respondeu. Simão, então, deu-lhe uma cabeçada e acabou todo grudado, dos pés à cabeça – passando pelas mãos – no menino de alcatrão.
Foi então que Firinfinfelha saiu do seu esconderijo com a vassoura em punho, ventas fumegando para se vingar da ousadia do macaco ladrão.
- Então era você que vinha roubando minhas bananas, não é? – e lept, lept, lept, sem nem deixar o macaco se explicar, saraivou uma carga de lapadas no costado de Simão, deixando o bicho meio leso de tanto apanhar. Sentindo-se vingada, a velha desgrudou o macaco do alcatrão, que, assim que se viu livre, ajuntou o resto de força que tinha e se foi de lá.
Magoado, todo quebrado, Simão jurou que aquilo tinha volta.
A raiva é má conselheira. A gente não deve nunca fazer as coisas de cabeça quente para não se arrepender depois, é o meu conselho para vocês, meninos. Pois Simão não queria nem saber. “Firinfinfelha me paga”, era o pensamento dele, dia e noite.
Um dia, rondando pela mata, matutando no que fazer, ouviu uma conversa entre caçadores.
- Rapaz, que leão enorme conseguimos pegar! Vamos ganhar um bom dinheiro com a pele dele! – comentava um dos homens.
E de fato, lá estava, secando ao sol, a tal pele de leão. O bicho era mesmo grande! Daria até medo se a gente não soubesse que estava morto.
Eita! Foi aí que nasceu a ideia.
Do galho onde estava, Simão pulou e afanou a pele, sumindo na mata, já imaginando o susto que ia dar na Firinfinfelha.
            Com a pele do bicho enrolada debaixo do braço, o macaco foi direto ao sítio da velha. Chegando ao bananal, ele se escondeu atrás do pé de cajá e se cobriu com a pele, preparando-se para quando a Firinfinfelha aparecesse no quintal. Não demorou muito e lá veio ela jogar milho para as galinhas. Simão, vestido de leão, saltou na frente dela, dando um urro bem alto. A pobre da velha ficou paralisada com o susto, branca que nem lençol. Desarmada, sem trabuco, vassoura ou vara de marmelo que lhe valesse, dona velha sentiu as pernas bambearem e acabou caindo no fundo do poço.
- Acudam a velha, que a velhinha caiu no poço! – gritou a pobre, lá de dentro.
Apesar de danado, o macaco Simão não era malvado e ficou com pena da Firinfinfelha. A ideia era só dar um susto nela, não matar a pobrezinha.
- Aguenta, velhinha, que já te tiro daí! – e procurou um galho comprido bastante para puxar a Firinfinfelha, mas não encontrou. A pobre gritava, assustada.
- Socorro, socorro! Me tirem daqui!
O macaco, então, pendurou-se num galho baixo e jogou seu rabo – que era bem comprido - lá dentro.
- Agarra o rabo, velhinha, que já te tiro daí!
E a Firinfinfelha agarrou-se com gosto no rabo do macaco, que fez um esforço danado para puxá-la lá de dentro.
- Eita, que velha mais pesada! – chiou Simão.
- Puxa, macaco! Força, macaco! – berrava a velhinha.
Simão deu um puxavanco com tanta força que conseguiu tirar a Firinfinfelha de dentro do poço. Coitada da bichinha, estava tremendo que nem vara verde, olho arregalado e pretinho feito jabuticaba!
E o que parecia impossível aconteceu. Firinfinfelha abraçou o macaco e agradeceu por ele ter lhe salvo a vida. Eles se tornaram grandes amigos e, desde aquele dia, o macaco Simão nunca mais precisou roubar banana porque a velha Firinfinfelha lhe dava as mais bonitas e madurinhas que havia no seu bananal.
Eu sei de tudo isso porque eu mesmo passei por ali e vi tudo acontecer, do mesminho jeito que estou contando a vocês. E, para provar, eu trouxe essas mariolas, feitas com as bananas do quintal da velha Firinfinfelha. Quem vai querer?”
Seu Elias terminou a estória oferecendo o gostoso doce feito com banana e goiaba, típico da região. A meninada se serviu com gosto, agradeceu pela estória e debandou, porque a tarde já se findava. Todos foram embora, menos um menininho, de delicados cabelos cacheados, que segurava um carneirinho. Seu Elias conhecia toda a gente do lugar, mas não reconheceu aquele menino, apesar dele lhe parecer meio familiar.
- Gostou da estória, meu filho? – perguntou ao menino.
- Ah, sim, muito! Eu adoro ouvir suas estórias, mas só posso vir aqui uma vez por ano.
Seu Elias estranhou.
- Oxe, e por quê? Seus pais são de fora, é?
O menino sorriu. O velho artesão lhe ofereceu uma mariola, mas ele apenas agradeceu. Não tinha fome, estava só esperando a hora de ir embora.
- O senhor sabe muitas estórias? – perguntou o pequeno.
- Sei, sim, e quando esqueço, invento. – respondeu seu Elias.
- Seus filhos devem ser crianças muito felizes.
O velho deu um sorriso triste e disse que os filhos que tinha eram aqueles meninos do bairro, que vinham sempre lhe escutar as estórias. Conhecia cada um derna do bucho da mãe e os considerava como seus próprios filhos.
- Eu nunca me casei. – disse ele, coçando a cabeça, embaraçado.
O menino percebeu-lhe a melancolia.
- Se o senhor pudesse pedir uma coisa extraordinária, o maior desejo do seu coração, o que o senhor pediria? – indagou o pequeno.
- Eu gostaria muito de ter um filhinho, mas estou muito velho para isso. – respondeu seu Elias, olhos baixos, lembrando a única tristeza que carregava no seu coração.
O menino se enterneceu e o abraçou. Seu Elias alisou os macios e encaracolados cabelos castanhos com o carinho de um pai.
- O senhor tem fé? – a pergunta pegou o velho artesão de surpresa. Sim, era o que ele mais tinha no mundo.
- Meu menino, - respondeu ele, a voz séria - o que me sustenta, todo santo dia, é a fé. Apesar de todas as dificuldades, de todas as provações, é a fé, a crença num dia melhor, num mundo melhor, que me mantém vivo.
- Se o senhor crê de verdade, então, sabe que não há nada que nosso Pai do Céu não possa fazer, não é?
Seu Elias balançou a cabeça concordando. Ia responder quando percebeu que já era tarde, o sol já tinha se posto e a noite já se anunciava.
- Menino, cadê seus pais? Eles não vêm lhe buscar? – perguntou, preocupado.
O pequeno sorriu e disse:
- Eu sei o caminho. Obrigado pela estória. Gostei muito. Se Papai do Céu deixar, ano que vem, estarei aqui de novo.
Despediu-se de seu Elias e saiu caminhando, só, na companhia das estrelas e do seu carneirinho. A fraca luz amarela do poste, alumiando a cena, iluminou algo que chamou a atenção do velho artesão. A cabecinha do menino brilhava, como que circundada por um halo celestial.
Seu Elias balançou a cabeça. “Minhas vistas estão cada vez mais fracas!”, pensou ele, ao entrar em sua humilde casa.
Cansado pela lida do dia, ainda emocionado pela palestra com o doce menino, seu Elias adormeceu quase que de imediato. E teve o sonho mais incrível de todos. Sonhou que um lindo menino de cabelos cacheados, puxando um carneirinho, aparecia em sua oficina e pegava um de seus bonequinhos de barro.
Sorrindo, o menino chegou junto do velho adormecido e lhe sussurrou ao ouvido:
- Eu não disse que nosso Pai pode tudo?
E botou sua gorducha mãozinha na cabeça do boneco, que foi crescendo, crescendo e ganhou vida, transformando-se num menino de verdade.
O barulho dos fogos saudando a noite de São João acordou seu Elias. Impressionado com o sonho, ele levantou-se da cama, acendeu o lampião e foi espiar a oficina. Na prateleira, faltava um boneco, o que tinha feito naquela manhã. Ensimesmado com aquele mistério, seu Elias quase tropeçou em algo que estava em cima da esteira onde modelava seus bonequinhos, mania que pegou do amigo Vitalino. Segurando o lampião para iluminar o chão, seu Elias arregalou os olhos: deitado em sua velha esteira de palha, dormia, tranquilo e sereno, um lindo menino, cabelos cacheados como um anjo.
Sem entender de onde tinha surgido aquele menino, seu Elias levantou os olhos e o lampião brilhou em cheio nas gravuras dos três santos juninos que tinha pendurado na parede. Segurando a emoção, compreendeu o milagre. Lembrou-se de onde tinha visto aquele menino, que tinha lhe perguntado, com muita seriedade, se tinha fé. Sorrindo-lhe, da gravura do meio, lá estava o pequeno, o São João do Carneirinho.
- Sim, meu doce menino, meu São João do Carneirinho, eu tenho fé! – sussurrou o velho artesão.
E ajoelhando-se no chão de terra batida, seu Elias orou com todo o fervor de seu coração, agradecendo a Deus – Papai do Céu, como o menino tinha chamado – pelo milagre que ele tinha trazido para a sua vida.
De onde teria vindo aquele menino? Seria mesmo um bonequinho de barro que virou gente? Ou era um menino de rua, perdido, sem pai nem mãe? Isso pouco importava para seu Elias. Aquele era o milagre mais lindo que já tinha lhe acontecido.

Em homenagem ao meu avô, o verdadeiro Elias Tonheiro, e a meu pai, o seu “Astro”Gildo. Com enorme carinho e gratidão, de Gabriela Kopinits dos Santos,
A Cigana Contadora de Estórias.


Caruaru, 29 de abril de 2013

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Ouça a estória "O galo rouco e o rato esperto", da Cigana Contadora de Estórias!

Quer saber quando tem estória nova no blog?

Apresentações de contadores de estórias

Palavra Cantada - O rato
Clara Haddad - O coelho e o baobá

Cia Ópera na Mala - A sopa de pedras do Pedro

Cia Ópera na Mala - Pedro Malazartes e o pássaro raro

Eventos & Cursos

A atualizar